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 Colunistas > 2005-06-09 13:59 [ INLINE ]

 Dfice e surrealismo

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 Paulo Kuteev-Moreira

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 " A nica coisa que o mundo nunca ter em demasia ,  o Exagero " .
 Esta famosa

 citao de Salvador Dali permite enquadrar uma das caractersticas da corrente

 prtica discursiva sobre o fenmeno " social & sade " em Portugal .
 Est cheia de

 exageros !

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 No s se utilizam adjectivos em demasia como se verbalizam , em excesso ,

 interpretaes vagas , difusas , irracionais e sem o fundamento da evidncia .

 O excesso , sendo uma caracterstica humana ,  tambm um fenmeno que os

 surrealistas relacionaram com sonhos , alucinaes , aspiraes e frustraes de

 cada indivduo .
 O surrealismo , uma corrente artstica moderna , procura a

 representao do irracional e do subconsciente e  definido , por muitos

 analistas , como um movimento de revoluo social .
 Os propsitos de " mudar a

 vida " , transformar o mundo insurgindo-se contra uma " ordem " estabelecida ou

 contra ` lbis ' que tero aprisionado o ser humano , propondo , com firmeza , a

 insubordinao s normas estabelecidas e promovendo a superioridade do sonho .

 Estes foram sempre ideais subjacentes  aco comunicativa surrealista .

 Ora , ainda de acordo com uma das suas biografias , foi numa tarde quente de

 agosto , enquanto almoava no seu local de trabalho , que o grande gnio catalo

 teve a sua mais impressionante alucinao paranica .
 Ao deslizar um lpis junto

 a um queijo Camembert , que havia ficado mais mole que o habitual por causa do

 calor , o artista teve a ideia de derreter relgios !
 A partir desse dia , e ao

 longo dos seus trabalhos futuros , os relgios derretidos tornaram-se num

 smbolo frequente nas suas obras e numa ` imagem de marca ' do Surrealismo de

 Dal onde , supostamente , representam a malograda inteno humana de assinalar e

 controlar o Tempo .
 Trata-se de um exemplo clssico do resultado criativo e

 esttico da livre associao promovida pelo surrealismo .

 No lado oposto , porm , os positivistas , em geral , preferem interpretar o mundo

 atravs da lgica e estruturas formais e racionais .
 Para estes , as coisas do

 mundo so sempre passveis de interpretaes redutoras e objectivas .
 Porm , nas

 suas intenes de interveno social , os positivistas chocam com vrias foras

 contrrias presentes nas sociedades humanas contemporneas .
 De entre estas

 foras , a oposio da aco poltica  uma das mais poderosas .
 Irracionais ,

 sonhadores , lunticos , poetas , trovadores e quixotescos , no fundo os agentes

 polticos seriam , deste ponto de vista , praticantes puros dos princpios

 surrealistas .
 Sendo assim , a partir da observao dos queijos Camembert , uma

 poltica surrealista para a sade incluir na sua representao os relgios

 derretidos de Dali que assinalam o aprisionamento do poltico no Tempo .
 Ou do

 seu timing poltico .
 Avizinhando-se um " Vero Quente " , o efeito sob o queijo

 poder sempre ser uma fonte de inspirao .
 Espantados ?
  de pequenos espantos

 que nascem grandes ideias !

 E de muitos pequenos espantos vai necessitar o prof. Correia de Campos para

 enfrentar as espantosas causas do dfice do Servio Nacional de Sade .
 As

 frentes quixotescas esto abertas : reforar as farmcias sociais ?
 Descer os

 preos dos medicamentos ?
 Denunciar as Parcerias Pblico-Privadas ( PPPs ) como um

 mau negcio para o estado , e cancelar os concursos em curso ?
 Encerramento e

 fuso de hospitais ?
 Alterar a lgica ruinosa ( !
 ) de financiamento atravs dos

 GDHs ?
 Abolir as prticas de incentivo  " produtividade " dos clnicos baseadas

 em taxas de ocupao de camas ?
 Promulgar o " Acto de Enfermagem " ?
 Pagar horas

 extra apenas aos indivduos em regime de exclusividade ?
 Liberalizar as

 convenes e contratualizar estes servios em regime concorrencial com os

 hospitais pblicos ?
 E que tal , depois destas medidas surrealistas , repensar o

 modelo de financiamento ?
 Contratualizar os cuidados intermdios

 no-hospitalares e domicilirios em pacotes financeiros integrados geridos por

 seguradoras de sade ?
 E contratualizar PPPs apenas para construo e manuteno

 mantendo a gesto pblica dos servios ?

 No combate entre positivistas e surrealistas ganhar sempre quem for capaz de

 produzir o pequeno espanto .
 E ento no  que um estudo recente publicado em

 Espanha indicava que nas regies em que no h prtica de medicina privada os

 servios pblicos tm mais qualidade e eficincia que nas regies em que ambas

 as dinmicas competem partilhando o mesmos recursos humanos ?

 Ideias de lunticos ?
 Ou apenas indivduos que deixaram o seu queijo derreter ao

 sol ?
 Regressemos a Dali ...

 ____

 Paulo Kuteev-Moreira  doutor em Gesto de Sade pela University of Manchester

 e assina esta coluna quinzenalmente  quin - - ta-feira .

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