 UM ENCONTRO COM CLUDIO WILLER

 Floriano Martins

 floriano@secrel.com.br

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 So palavras tuas : " A criao literria  , sempre , uma releitura , e

 no se cria no vazio " .
 Apenas para situar este nosso incio de

 conversa , gostaria de um inventrio de tuas identificaes ,

 principalmente em termos de textos .

 Em um poema de fins de anos 70 , do Jardins da provocao , fiz um

 bloco que aqui transcrevo :

 Os poetas que eu li / se quiserem saber /

 fernandopessoapierrereverdysaintjohnperserobertdesnosvinicius

 ginsbergcorsoferlinghettibretonpauleluardmallarmartaud

 rilkerousselpongepoundcarlosdrummondoswaldmriomichaux

 lautramontnerudanovalisblakebenjaminpretkleisthoelderlin

 nietzschesenghorczaireoctaviopazpivamachado

 alberticernudajarryeliotstephangeorgerimbaudcummings

 cabraltzaracrevelmuriloapollinairesoupaulttraklbennbaudelaire

 / porradas na mente com muita fora / aguilhes no crebro / o lixo

 da memria pega fogo / imagens poticas libertam-se em quartos de

 hotel /  como a histria de Raymond Roussel / que viajou pelo

 ndico sem sair do camarote do navio / e achou elegante furar um

 pneu na Prsia

 Tenho poemas que permanecero engavetados , por serem epigonais com

 relao a Saint-John Perse .
 Idem , quanto a Jorge de Lima , ou o

 Lorca do Poeta em Nova York , que me " fez a cabea " , mostrou

 possibilidades da escrita .
 Na poca de Anotaes para um

 apocalipse , meu primeiro livro ( 1964 ) , escrevia estimulado , entre

 outras coisas , por um coquetel do Robert Desnos de Libert ou

 lamour ( que ainda pretendo traduzir ) , Michaux e Bataille .
 Alm de

 modernistas , surrealistas , beats , rebeldes & malditos , nos anos 70

 passei a ler mais T. S. Eliot , dar mais ateno  revoluo

 literria do Wasteland e  extraordinria fluncia do Quatro

 Quartetos .
 Acrescentaria ao bloco acima , atualizando-o , Herberto

 Helder ( tem poemas que , franca mente , gostaria do ter escrito ) ,

 Cesariny , outros portugueses , vrios contemporneos meus ,

 Bonnefoy , Malcolm de Chazal - e outros , poesia de qualidade ,

 felizmente , no falta .

 Literatura em prosa , tambm .
 Acho impossvel algum brasileiro

 sensvel no se haver abalado com a descoberta do Guimares Rosa e

 de Clarice .
 Henry Miller tem tima prosa potica .
 Paul Bowles .

 Cortzar .
 Malcolm Lowry .
 Borges .
 Lezama Lima .
 Sarduy .
 E tantos

 outros Textos tericos tambm inspiram poesia , Wilhelm Reich ,

 Norman Brown ( que fez um livro de filosofia em prosa potica ,

 Love's Body ) , Bataille , Foucault , Walter Benjamin , Octavio Paz

 ( principalmente ) .
 Ao longo desta entrevista retomarei alguns

 desses e outros autores .
 Em meu livro em prosa , Volta , em boa

 parte , repasso isso .

 Comeas a publicar em meados dos anos 60 , em um grande ambiente

 cultural : surrealismo , as reunies na casa de Vicente Ferreira da

 Silva , a coleo " Novssimos " do Massao Ohno , Teatro Oficina etc .

 Havia toda uma gerao que se reunia , discutia e produzia .

 Contudo , mesmo que tenhas participado de um grupo surrealista ,

 dizes que " no poderamos e nunca conseguiramos formar o tipo de

 movimento do surrealismo " .
 H naturalmente razes especficas para

 isto .
 Quais ?
 Acaso estariam vinculadas a uma outra afirmao tua ,

 a de que o surrealismo  " um empreendimento impossvel , 

 evidente , e fracassado , mas grandioso , e de uma extraordinria

 riqueza " ?
 Dentro do possvel , o que destacarias ento na produo

 artstica daquela poca ?

 Foi mesmo um grande ambiente cultural , onde circulava boa parte do

 que mencionei acima .
 ramos atualizados .
 amos comprando a obra

 completa do Artaud na Livraria Francesa  medida que os volumes

 saam na Frana .
 Recebemos Kaddish e Reality Sandwiches de

 Ginsberg em primeira mo , recm-lanados l .
 Podamos formar

 grupos de estudo , ler poemas uns para os outros , organizar eventos

 e programaes , a par da mais desenfreada bomia e provocaes , e

 at mais do que bomia e provocaes .
 Tenho um artigo , e pretendo

 escrever outros , mostrando como tudo isso era atualizao cultural

 de So Paulo , cenrio desses episdios , na direo do

 cosmopolitismo , da superao do provincianismo .
 O que se passava

 aqui no inicio dos anos 60 era sincrnico com a inquietao

 mundial encarnada na gerao Beat , juventude " existencialista "

 francesa , angry young men britnicos , a busca de alternativas ao

 panorama sufocante da Guerra Fria , ao impasse entre estalinismo e

 macarthismo , acabando por desaguar na contracultura do final da

 dcada .
 Por maiores que fossem suas diferenas , os poetas

 paulistas da gerao " novssimos " , na qual teve participao

 decisiva o editor Massao Ohno , caracterizaram-se pela retomada do

 " eu " , da primeira pessoa , diferenciando-se dos formalismos e

 construtivismos , poesia concreta inclusive , e do

 nacional-populismo .

 A esse ambiente aportou , em 1963 , Srgio Lima , vindo de Paris e

 dois anos de participao efetiva no movimento surrealista

 francs .
 Como j ramos uma frao radical naquele contexto ,

 procurou-nos para a formao de um grupo surrealista .
 Contatou

 primeiro a Roberto Piva , que havia acabado de lanar Parania .

 Reunimo-nos regularmente , toda semana , em 1963-64 , em bares , no

 estilo do grupo francs .
 Praticamos jogos surrealistas , comentamos

 leituras , discutimos muito .
 Fizemos algumas manifestaes ,

 distribumos um necrolgio de autores de prestgio , mas no

 chegamos a realizar nenhuma publicao coletiva .
 As obras do

 perodo so Amore , de Srgio , meu Anotaes para um Apocalipse , e

 Piazzas , o segundo livro de Piva .

 Aos poucos , a idia de um grupo surrealista foi sendo abandonada ,

 embora continussemos nos vendo e freqentando .
 Srgio Lima voltou

 a promover reunies em 65 , que resultaram na exposio surrealista

 de 1967 e na pub1icao coletiva A Phala .
 Mas j com outras

 pessoas , assim como encabeou novas reunies , na dcada de 90 , da

 qual saiu o opsculo de um movimento surrealista internacional ,

 dessa vez com a tua participao , e um evento sobre o centenrio

 de Breton , em 96 .

 O grupo de 1963/64 no teve continuidade por causa de sua

 heterogeneidade .
 O fato de sermos neo-romnticos e antiburgueses ,

 idiossincrticos ( e vice-versa ) com re1ao  ortodoxia do

 Partido ,  poesia concreta e ao academicismo , no implicava a

 mesma identidade com o surrealismo em todos .
 Por exemplo , De

 Franceschi nesta altura tem obra potica substanciosa , mas na qual

 no h mnimo rastro de identificao com surrealismo .
 Rodrigo de

 Haro , que era do nosso grupo mas nem chegou a participar daquelas

 reunies ,  uma encarnao atualizada de um decadentista de fim de

 sculo , da inquietao anrquica que contribuiu para originar ,

 entre outras coisas , o prprio surrealismo ( Huysmans , que

 especificou e valorizou o que seria decadentismo , foi um dos

 autores prediletos de Breton ) .
 Piva representa um encontro de

 surrealismo , Beat , nosso modernismo , e muitas outras coisas .

 Em 1968 , em Paris , s vsperas da conflagrao de maio , Paulo

 Paranagu me levou a uma reunio do grupo surrealista , j sem

 Breton , morto em 66 .
 Fomos depois  casa de Vincent Bounure ,

 integrante ativo do grupo , com quem tive uma prolongada discusso

 por causa de gerao Beat , cujo valor literrio no admitia .

 Provavelmente , me entenderia melhor com a ponte entre contribuio

 surrealista e contracultura que intelectuais como Alain Jouffloy

 estavam promovendo .

 Piva , eu , e outros , com perodos de expanso e contrao ,

 distanciamento e aproximao , fomos um movimento literrio

 informal .
 Tanto  que nos prefaciamos , posfaciamos , entrevistamos ,

 fizemos poemas coletivos .
 Talvez fssemos e sejamos anrquicos

 demais para caber em um movimento estruturado , surrealista ou

 qualquer que seja .
 Por nossa diversidade , comportamento , contexto

 geracional , at por nossas caras , como vejo em fotografias da

 poca , ramos parecidos com a Beat .

 Teria , em 1963/64 , uma abordagem menos geracional , menos paulista ,

 mais diacrnica e nacional , produzido mais resultados ?
 Rosrio

 Fusco , piv de questionamentos sobre surrealismo no Brasil ( em

 1942 , Antonio Cndido , etc. ) , ainda estava a , errando Por

 Cataguazes .
 Campos de Carvalho , que , antes de morrer declarou sua

 afinidade com surrealismo , e a quem considero um prosador

 magnifico , podamos t-lo procurado .
 Manoel de Barros , outro que e

 autores mais excntricos ainda , como Jos Alcides Pinto ; no

 sabamos da existncia deles , mas , tambm , nem procuramos saber .

 No me provoca qualquer constrangimento estar catalogado como

 integrante do trio surrealista brasileiro dos anos 60 , junto com

 Srgio Lima e Piva .
 Nem de estar em boa companhia , minha

 identidade com o surrealismo  evidente no que escrevo , em poemas ,

 ensaios como meu prefcio para Lautramont , e minha narrativa

 Volta .
 Surrealismo ser um empreendimento impossvel , em sua

 tentativa de unir smbolo e realidade , arte e vida , poltica e

 esttica , s o toma mais instigante e atraente .
 Nunca hesitei , na

 opo entre pragmatismo e utopia .
 Sobre a idia de busca

 impossvel , lembro o ensaio de Bataille sobre Baudelaire , em A

 Literatura e o Mal , onde ele mostra que Baudelaire  grande por

 buscar o impossvel , e que a " impossvel unicidade " est ligada 

 prpria essncia da poesia .
 Restries da intelligentzia

 brasileira ao surrealismo , sua pouca circulao , sua influncia

 menor que em outros pases , s me fazem recrudescer nessa

 identificao .

 Por carta , j me referi a alguns prefixos do surrealismo ,

 " parasurrealismo !
 E " tardosurrealismo " , que acabam rotulando e

 desqualificando autores .
 Parasurrealismo , utilizado por Stefan

 Baciu ( curioso , andou por So Paulo na poca , frequentava Dora e

 Vicente Ferreira da Silva , que ns tambm etc. , e nunca falou

 conosco , nem deu sinais de interesse por surrealismo ) , se

 aplicaria a movimentos e manifestaes dos anos 30 , como aqueles

 ao redor de Georges Daumal , ou Pierre Mabille e Michel Leiris ,

 autores importantes que apresentaram divergncias , e tambm

 notrias afinidades .
 Mas no a um panorama em movimento , rico ,

 diversificado , de gradaes , zonas cinzentas , em processo de

 transformao , como os anos 60 .
  um modo de omisso , de no

 examinar com clareza as relaes entre surrealismo , Beat , a

 emergente contracultura , desconhecendo a especificidade e

 individualidade de movimentos e autores .

 Quanto a tardosurrealismo , em primeiro lugar lamento que a morte

 de Jos Paulo Paes ( que utilizou o termo na resenha do seu

 Escritura Conquistada e outros lugares , alm de questionar a

 pertinncia do surrealismo no Brasil j na dcada anterior , no

 ensaio publicado em Gregos e Baianos ) impossibilitasse uma

 discusso que teria sido produtiva e estimulante , pelo nvel do

 interlocutor .
 Em meu prefcio para os Manifestos do Surrealismo ,

 refiro-me s proclamaes de morte do surrealismo , feitas desde os

 anos 30 .
 Cito as ironias de Breton em Entrtiens , seu livro de

 entrevistas .
 No plano da histria , dez , vinte anos , um quarto de

 sculo , so quase nada , ou pouca coisa .
 Ao promovermos reunies

 surrealistas em 1963 , e at antes disso , ao escrever textos com

 afinidade ou identidade com surrealismo (  importante frisar :

 reunies , grupo , so algo complementar , o que importa  a

 produo , a poesia de cada um ) estvamos sintonizados com

 manifestaes contemporneas .
 So do mesmo perodo , em termos

 histricos , o movimento portugus ( Cesariny etc. ) por volta de

 1950 , a participao de Octavio Paz no surrealismo ( tambm na

 mesma poca ) , vrios movimentos hispano-americanos , principalmente

 o Techo de la ballena venezuelano ( 1963 ) , e o grupo americano com

 Franklin Rosemont de o surrealista-beat Philip Lamantia ( idem ,

 1963 ) .
 Participamos de um processo de renovao e ampliao de

 fronteiras do surrealismo. ramos atualizados , e no tardgrafos .

 Anoto observaes tuas acerca de tua prpria poesia : " Minha poesia

 valoriza as imagens .
 Imagens visuais .
 Mas a prosdia , ritmo ,

 musicalidade , tm que estar presentes. " E h esta nfase na

 leitura em voz alta , onde inclusive dizes ter ficado " mais

 sensvel  prosdia ao traduzir Ginsberg " .
  interessante lembrar

 aqui o que disse Enrique Molina sobre o fato da poesia exigir um

 recolhimento para seu entendimento .
 Ele acredita que ela s

 conseguia se transmitir se em silncio .
 No entanto , sempre leu

 seus poemas em pblico .
 Como abordarias uma dimenso filosfica em

 tua poesia ?
 consideras que haja mesmo algum comprometimento dessa

 dimenso em sua transmisso em voz alta ?

 H paralelos e analogias possveis entre poesia , ou literatura de

 qualidade potica , e msica .
 Imaginemos uma audio da 10

 Sinfonia de Maller no Teatro Municipal lotado .
 Aquela do adgio ,

 que se tornou fundo musical de Morte em Veneza de Visconti .
 As

 1.500 pessoas no Municipal , ou 3.000 se fosse no Royal Festival

 Hall , mais o regente , a orquestra , todos estariam em recolhimento ,

 completa concentrao .
 Exteriorizao sonora e audio pblica no

 comprometem dimenso filosfica de obra nenhuma .

 Mudando de repertrio , um dos discos-fetiche de 1980 foi In a

 silent way de Miles Davis .
 Menciono-o em um poema .
 Observe a

 inteligncia do titulo : msica para ser ouvida , para execuo

 pblica , ao mesmo tempo , in a silent way .
 A criao literria tem

 vrias dimenses .
 Algumas , presentes na pgina , no texto impresso ,

 outras na exteriorizao oral .
 A literatura , ou isso que hoje

 entendemos por literatura , primeiro foi oral , depois escrita .
 Som

  sentido , embora o sentido no se esgote no som .

 O livro Estranhas experincias inclui uma seleo do que j foi

 publicado e mais textos novos .
 O que acentua ou renova em tua

 potica ?
 Outro aspecto : segue sendo uma mescla de versos , prosa

 potica e textos crticos ( depoimentos , manifestos ) .
 Em uma

 entrevista  filsofa espanhola Mara Zambrano , ela refere-se a

 essa fuso de prosa e verso em livros como Vita nuova ( Dante ) e os

 Cnticos ( San Juan de la Cruz ) como um " exemplo de unidade de

 pensamento " .

 Gostei dessa idia , de " unidade do pensamento " , evidente em

 escritores-ensastas , sem dvida em Breton , em Octavio Paz , e

 tambm em Ginsberg , que publicou grande quantidade de ensaios ,

 depoimentos e transcries de palestras .
 Nos clssicos , que

 expressavam um sistema mais fechado , a unidade  evidente .

 Torna-se problemtica no Romantismo ; dai talvez a enorme produo

 de Goethe em todos os campos , da investigao cientifica  poesia .

 E mais problemtica ainda na modernidade , de Baudelaire , o

 poeta-critico , para c .
 Da , no ciclo iniciado pelas vanguardas ,

 tanta poesia acompanhada por uma potica , manifestos , filosofia ,

 poltica etc .

 Como fao poesia , ensaio , e publiquei uma narrativa ,

 impressionam-me obras nas quais h um trnsito entre as trs

 modalidades : Breton de Nadja e LAmour Fou ; Octavio Paz , que fez um

 livro no qual funde e integra gneros , El Mono Gramatical .

 Comecei escrevendo poemas em prosa , na fronteira do automatismo

 psquico .
 Na dcada de 70 , introduzi temas : poema sobre Dashiell

 Hammett , sobre Garca Lorca , sobre a noite anterior etc .
 Em

 Jardins da Provocao h um poema em prosa , sobre a luz filtrada

 pela persiana do quarto durante um encontro amoroso , cena que

 ficou na minha cabea por um bom tempo , at eu escrev-la do modo

 como queria .
 Mas esses textos mais temticos , intencionais ,

 coexistem com outros assemelhados  escrita automtica , inclusive

 o extenso poema sobre a espcie humana escrito a seis mos ( com

 Piva e Juan Hernndez ) , de modo direto , como nos jogos

 surrealistas .
 Em Estranhas Experincias , tambm h poemas mais ou

 menos explicitamente temticos , mais ou menos elaborados , colagens

 de textos , compondo , espero , uma unidade .
 Continuo escrevendo

 espontaneamente .
 O poema sobre runas romanas , que voc publicou

 na revista Blanco Mvil , foi anotado l mesmo , na hora , diante do

 Senado Romano .

 Duas observaes tuas em torno do poema em prosa : o fato de que ,

 como gnero autnomo , s surge a partir de Rimbaud , e o

 entendimento de que se trata de um gnero verdadeiramente

 subversivo " por , sendo uma coisa , ser outra " .
 Alm do comentrio a

 estas observaes , gostaria de discutir aqui um outro aspecto , o

 de um preconceito velado a seu respeito , pois no se trata de um

 gnero de exceo em nossa literatura , tendo sido largamente

 cultuado por inmeros autores , pensemos em Jorge de Lima , Jos

 Alcides Pinto , Roberto Piva , Frederico Gomes , entre muitos outros .

 O que faz com que no seja abertamente discutido como gnero entre

 ns ?

 Poesia em prosa  exceo , gnero minoritrio na literatura

 brasileira .
 E no mundo todo , exceto na poesia francesa do sculo

 XX , onde adquire maior peso com Char , Michaux , Ponge , Breton ,

 Artaud .
 Herana de Baudelaire e Rimbaud , consolidada pelo modo

 como o surrealismo rompeu a fronteira entre gneros e modalidades .

 Em nossa literatura , basta comparar a quantidade do que se produz

 e publica de poesia em versos e em prosa , para eliminar dvidas .

 Para mim , poesia em prosa  no-discursiva , no pode ser prosaica .

 Por dispensar versificao , mtrica e rima , a dimenso potica do

 poema em prosa  conferida pela imagem .
 Da entender que foi

 iniciada , como gnero autnomo , por Rimbaud , com Uma temporada no

 inferno e , em especial , as Iluminuras ou Iluminaes , exerccio da

 liberdade traduzido em imagens poticas .
 Essa opinio 

 controvertida ( provocou controvrsia ) , mas Baudelaire , ao

 intitular de Pequenos poemas em prosa crnicas e narrativas

 curtas , escolheu esse ttulo com uma inteno crtica .
 Depois de

 haver ampliado o campo do potico em As Flores do Mal , ao escrever

 sobre o horror , morte e decomposio , acrescentou , nos textos em

 prosa , o cotidiano em seus detalhes e misrias , em contraposio

 ao sublime , ento associados  poesia .
 Quis , tambm nisso ,

 dessacralizar , fazendo prosa e chamando-a de poesia ( e at

 inventando uma genealogia , as narrativas curtas de Aloysius

 Bertrand ) .
 A mesma inteno pode ser atribuda a Lautramont , ao

 chamar de Poesias a reflexes e adulteraes de outros autores .

 Em uma de suas colunas semanais , Wilson Martins traou uma sntese

 dos penltimos momentos da literatura brasileira , conformada pelo

 " regionalismo pitoresco dos modernistas " , a " nostalgia retrica da

 Gerao de 45 " e a " esquizofrenia concretista que , para salvar a

 poesia , achou necessrio destru-la " .
 Drummond reportou-se vrias

 vezes a uma vulgarizao da linguagem , segundo ele uma decorrncia

 da massificao dos meios de comunicao .
 Contudo , ainda so os

 poetas , recorrendo a Elias Canetti , os guardies da metamorfose .
 A

 concluso  simples ?
 : no temos mais poesia no Brasil ?

 Wilson Martins , ao fazer essas observaes , fala da poesia

 brasileira atual como se estivssemos em 1958 .
 Ou fala de 1958

 como se fosse hoje .
 Na presente altura , no d mais para ver

 poesia concreta como " destruio da poesia " atravs da reduo ao

 cone , ao visual , a que for .
 Nem que seja para critic-lo ,

 situ-lo na devida perspectiva ,  preciso reconhecer que o

 Concretismo , na teorizao , divulgao e criao , abrange muito

 mais do que a fase eufrica de Noigandres , manifestos dos anos 50 ,

 deslumbramento com o futuro traduzido em bites , texto substitudo

 por figurinhas etc .

 Est cheio de bons poetas no Brasil , hoje .
 H , isso sim , crise das

 mediaes , da crtica e ensino de literatura , que se

 burocratizaram .
 E uma dificuldade , por no ser mais possvel a

 mesma delimitao de territrios , tendncias fechadas : poesia

 concreta , Violo de Rua , gerao de 45 , marginais .
 A diversidade e

 complexidade do panorama atual criou um problema para a critica ,

 incapaz de mape-lo , seja na descrio de tendncias , seja no

 exame de valores individuais .

 Em entrevista que fiz ao Donizete Galvo , ele observa lucidamente

 acerca de uma certa obsesso pela vanguarda que tem pautado nossos

 poetas : " Todos se valem da mxima do Make it new , sem se lembrar

 que ele se referia ao novo reinventado a partir da tradio .
 Todos

 repetem o mesmo mantra do ostinato rigore , como se todos os outros

 poetas fossem desleixados que deixam a escrita correr solta .
 Essa

 obrigao da inovao a qualquer custo , de se intitular poeta

 grfico ou multimdia ,  mesmo um beco sem sada. " Evidente que

 este  um recurso extremo de quem  tudo menos poeta .
 Contudo , 

 comum confundir-se no Brasil o recurso com o mtodo .

 No escrevo a frio , sou mais movido pela inspirao que pela

 reflexo , mas me acho rigoroso .
 Publiquei relativamente pouca

 poesia , por no confiar cegamente em tudo o que ultrapassa minha

 caixa craniana .
 Em termos menos pessoais , at na mais barroca das

 escritas , pautada pela esttica do excesso , ou no mais frentico

 automatismo psquico , se houver qualidade literria , ento haver

 rigor .
 Sempre , cada palavra obedece ao requisito da preciso e

 exatido do famoso ensaio de Pound .

 A edio comentada de Howl , Uivo , de Ginsberg , com as verses

 anteriores desse poema ,  , sob esse aspecto , uma lio de poesia .

 Informalismo associado ao descuido ,  facilidade , como insiste a

 critica acadmica e conservadora , coisa nenhuma !
 Por exemplo ,

 detalhes como a substituio , logo na frase inicial , de I saw the

 best minds of my generation , de mystical , msticos , inicialmente ,

 por hysterical , histricos , na verso final , mostrando como se faz

 para que uma imagem ganhe fora .
 No se limitava a dar por

 terminado e publicar o que anotava .
 Seu elogio da espontaneidade ,

 do first tought , best tought , nunca o impediu de reelaborar o

 texto .

 O make it new poundiano  inseparvel do valor , no sentido de que

 banalidade e redundncia so incompatveis com literatura de

 qualidade .
 Mas tem que ser entendido dialeticamente .
 Autores

 contemporneos , como Ivan Junqueira ou Alexei Bueno , tm publicado

 poesia com rimas , versificao , modos tradicionais e clssicos .

 Mas o que tiverem feito de bom , merecedor de interesse , ser

 original e novo ( e vice-versa ) .

 Defende o poeta ingls A. Alvarez que a poesia  " um tipo de sonho

 involuntrio " .
 Segundo ele , o Surrealismo , diretamente interessado

 nos mecanismos do crebro que produziam as imagens onricas ,

 estreitou as fronteiras entre consciente e inconsciente ,

 modificando " a maneira pela qual o mundo  percebido " .
 Diz ainda

 Alvarez que a Freud no interessava muito o Surrealismo , mas que

 este , por sua vez , teria infludo de maneira decisiva a torn-lo

 " o que Auden chamava de todo um clima de opinio " .
 Qual a tua

 observao acerca das relaes entre a aventura onrica desatada

 pelos surrealistas afirma Alvarez que " a falcia do surrealismo 

 considerar que todos os sonhos so interessantes " e a expedio

 cientfica rumo ao inconsciente levada a termo pela psicanlise ?

 Escrevi sobre essa questo , Freud vs. surrealismo , no prefcio

 para a edio brasileira dos Manifestos do Surrealismo

 ( Brasiliense , 1985 ) , argumentando que Breton , e no Freud , tinha

 razo , a propsito da troca de cartas entre ambos , se no me

 engano em 1936 .
 Foi quando Breton convidou Freud para uma das

 exposies internacionais do surrealismo , cujo tema era o sonho e

 o inconsciente .
 Resumindo ( e simplificando ) , Freud no quis

 participar , e afirmou que imagens dos sonhos eram contedos

 manifestos que o interessavam como cientista , por permitir-lhe

 chegar a um contedo latente , e no como fenmeno artstico .
 Eram

 material a ser interpretado , dentro do procedimento analtico .
 Ele

 mostrou , penso , um vis cientificista e mecanicista .
 Tendncias

 mais recentes da psicanlise , como a de Lacan ( que comeou como

 participante do surrealismo ) , atribuem major autonomia a smbolos

 e imagens do inconsciente .
 Hoje , h maior interesse , uma postura

 menos excludente , com relao a psicticos e outros habitantes

 excntricos de mundos paralelos , inclusive com o reconhecimento da

 contribuio artstica de alguns ( alis , um interesse e

 reconhecimento inaugurados por Breton ) .

 Uma contribuio inovadora do surrealismo foi trazer idias da

 psicanlise , como a de inconsciente , para a criao artstica .
 Ao

 incorporar o pensamento freudiano , deu-lhe uma dimenso

 transgressiva , mais critica , pelo modo como valorizou sonho ,

 loucura , delrio , estados e condies habitualmente vistos e

 tratados como anomalia .

 Sonhos , e a atividade do inconsciente em geral , so um reflexo da

 vida .
 Poetas tero sonhos poticos .
 Contadores e administradores

 sonharo muito com planilhas e tabelas .
 Motoristas de taxi se

 sonharo ao volante .

 J que falamos em Auden , o poeta ingls estabelecia uma distino

 entre o artista e o apstolo , ou seja , entre o indivduo que cria

 e aquele que expressa uma mensagem , sugerindo que h alguns casos

 em que certos escritores so , a um s tempo , artistas e apstolos ,

 e que isto " torna difcil uma avaliao justa de sua obra " .
 Como

 exemplo , refere-se a William Blake e D. H. Lawrence .
 Alguns

 surrealistas , pensemos em Breton e Artaud , acaso no poderiam ser

 observados por essa mesma tica de Auden ?
 At que ponto a leitura

 de sua obra no teria sido comprometida pelo peso da mensagem que

 a mesma expressa ?

 Breton , Artaud etc. , foram demiurgos , da linhagem dos poetas como

 porta-vozes de uma verdade , [ ] a exemplo de Blake .
 Neles , no 

 possvel separar obra e mensagem .
 Artaud , por exemplo , 

 literariamente mais poderoso e expressivo ao invectivar

 psiquiatras e a burguesia , ao defender uma mudana radical da

 sociedade e do homem , em Cartas de Rodez , Van Gogh ou Para acabar

 com o julgamento de Deus , manifestaes veementes de idias .

 Ao conversar sobre certas tentativas frustradas de classificao

 de sua obra , disse Picasso , em conversa com Jerome Secker , no

 tratar-se de um surrealista , acrescentando : " Nunca estive fora da

 realidade .
 Sempre estive na essncia da realidade. " Esta conversa

 se deu em 1945 , quando Picasso j havia h muito se afastado do

 Surrealismo .
 J em 1963 , quando William Fifield entrevistou Jean

 Cocteau , conversaram sobre a presena do outro na criao ,

 declarando-se Cocteau " habitado por uma fora ou ser do qual

 conheo muito pouco " .
 Naquela ocasio , recorda o jornalista que

 Picasso lhe havia dito que esse outro seria " o verdadeiro agente

 de sua prpria criao " .
 Por sua vez , Cocteau indagava-se , ao

 pensar na presena do inconsciente na criao artstica , se acaso

 a genialidade no seria " uma forma da memria ainda no

 descoberta " .
 Embora sabendo o quanto Picasso cultivava

 caprichosamente seu pomar de boutades , at que ponto so

 contraditrias entre si a presena do que ele chamou de " essncia

 da realidade " e a ao do outro sobre a criao artstica ?

 Em 1945 , Picasso , membro do PC , desenhava pombinhas da paz , e

 " essncia da realidade " , para ele , era seguir os ditames do

 Camarada Stalin .
 Quanto ao " outro " , milhes de artistas j se

 pronunciaram sobre essa experincia da alteridade na criao .

 Alguns como Derrida , naquele ensaio sobre Jabs publicado em A

 Escritura e a Diferena , ou Octavio Paz , enfaticamente , em toda a

 sua obra de modo mais consistente , apoiados em obra menos

 circunstancial que a de Cocteau .

 Ainda sobre o tema da realidade , para o poeta Yves Bonnefoy ,

 embora tenha dito que " poetas como Breton nos levaram a um ponto

 em que a realidade potica est ao alcance da mo , misturada 

 vida " , por outro lado afirma que " quando chegaram a esse ponto , os

 escritores surrealistas , de certo modo , retrocederam " ,

 exemplificando que " Breton trocou as imagens de um desejo

 universal e compartilhvel por fantasmas privados que quis tornar

 absolutos " .
 Logo a seguir , nesta sua recente conversa telefnica

 com Carlos Graieb , o poeta francs define : " A poesia tem a funo

 de nos reunir aos nossos semelhantes e ao mundo .
 Por isso , ao

 longo de toda a vida , tenho destrudo textos que sejam quimeras

 pessoais , textos que tenham um cdigo por demasiado ntimo .
 A

 poesia  comunicao universal ou ento no . "

 Desde quando escrever poemas sobre Charles Fourier , sobre a mulher

 amada , falar de acaso objetivo , valorizar a loucura , delrio e

 sonho , mostrar que o maravilhoso pode ser real , querer unir

 revoluo social e revolta individual , romantismo e socialismo ,

 so " fantasmas privados " ?
 Bonnefoy tem uma poesia sublime , mas

 fechada , personalssima , que paira na estratosfera .
 Aceitas as

 categorias universal e particular , Breton  muito mais universal ,

 Bonnefoy , mais particular !

 O surrealismo , pela quantidade de artistas que passaram por ele ,

 Bonnefoy inclusive , teve um peso enorme na Frana .
 Acabou virando

 mainstream , veio central .
 Por isso , franceses tm mania de marcar

 posio , para se diferenciar , mostrando que esto trilhando um

 caminho diferente , prprio .
 Aqui no Brasil , onde o surrealismo no

 exerceu essa influncia , muita gente copia o mesmo questionamento ,

 de modo inteiramente fora de contexto .

 [ INLINE ]

 Conversemos um pouco sobre ilegibilidade , sobre o indecifrvel , ou

 seja , sobre a escrita cifrada , tomando aqui um exemplo sugerido

 por Blaise Cendrars : as profecias de Nostradamus .
 Segundo ele ,

 Nostradamus encontra-se entre os grandes poetas franceses , e

 acrescenta : " todas as suas transformaes improvisadas a partir de

 uma linguagem convencional superam , de longe , as maluquices do

 Dadasmo , a escrita automtica dos surrealistas e a decalcomania

 dos Calligrammes de Apollinaire " .
 Sendo a escrita , como situa o

 prprio Cendrars , um " panorama do esprito " , uma representao do

 ser , no se deve ali buscar sua interpretao ?
 At que ponto o

 entendimento , a compreenso , deve determinar a apreciao ( o

 gosto ) de uma obra de arte , sobretudo no caso da poesia ?

 No , no e no !
 Cendrars nunca poderia ter feito essa comparao ,

 nesses termos !
 Uma coisa  algum , Nostradamus no caso , se por a

 produzir associaes em um perodo anterior s revolues

 cientficas e ao cartesianismo , no qual o pensamento analgico era

 regularmente praticado , no havia dvida sobre correspondncias

 entre macro e microcosmos , astrologia e prticas divinatrias eram

 aceitos como meios de conhecimento , e a alquimia era hertica , mas

 no anticientifica .
 Outra , produzir textos no discursivos ,

 regidos pelo pensamento analgico , em uma era na qual predominam e

 so oficiais o cientificismo e a razo cartesiana .
 No d para

 descontextualizar desse jeito , desconsiderando a diferena da

 " episteme " .
 Hoje ,  subversivo restaurar o pensamento mgico

 atravs da criao artstica .
 Naquele tempo , os Nostradamus ,

 Paracelso , Agripa von Nettesheim , Van Helmont , Boehme , eram

 personalidades pblicas .
 Podiam cair em desgraa , processados como

 hereges , mas se apresentavam em cortes feudais e imperiais , e

 disputavam cargos nas universidades .
 Quem fizer o mesmo hoje , a

 no ser que se dilua bastante e faa toda sorte de compromissos

 ( a vira best seller de esoterismo e auto-ajuda , ou lder de

 seita ) , pode ir parar em um hospcio .

 Esta conversa nos leva a um outro aspecto , que  o da preciso .
 De

 um lado Breton menosprezava Valry em sua busca determinada " dos

 alexandrinos mais ou menos racinianos de A jovem Parca " .
 Por sua

 vez , declarou Ren Magritte que a preciso  uma qualidade que

 " falta com freqncia em escritos que so apaixonantes , e que o

 seriam ainda mais se fossem mais precisos " .
 Mesmo uma srie de

 fragmentos aparentemente desordenados e inconclusos , como em

 Novalis ou Schlegel , pode radicar em um clculo obstinado da parte

 do poeta .
 Atravs da preciso , portanto , o poema melhor define seu

 contedo ontolgico , mesmo que saibamos que o pensamento oculto em

 seus versos no cessar nunca de revelar-se .
 Em muito casos

 confundida com uma emoo asfixiada , a preciso tem sido

 francamente relegada por muitos poetas contemporneos , inundando

 pginas e pginas de um borro impenetrvel , falsamente

 identificados com a transcendentalidade da linguagem potica .
 At

 que ponto uma dissidncia inicial entre Valry e o Surrealismo

 teria influenciado nessa leitura simplista e equivocada da

 preciso na criao artstica ?
 Por sinal , neste aparente

 antagonismo o Surrealismo e Valry no haveria mais de confluncia

 do que seu decantado revs ?

 Valry e restaurao conservadora na revoluo ps-simbolista .

 Diante do frenesi desencadeado por Jarry , Apollinaire e , logo em

 seguida , Dada e surrealismo , quis a volta  criao contida ,

 regrada , pensada .
 Sob esse aspecto , ele e surrealismo so

 antagnicos .
 Agora , conforme havia observado acima , mesmo na

 escrita delirante , fragmentria , espontnea , do " outro " , cada

 palavra  exata .
 Hlderlin , em pleno surto de esquizofrenia , sem

 saber quem era , assinando-se Scardanelli , achando que estava na

 Grcia antiga ,  perfeito , preciso no todo e nos detalhes .

 Observa Paul luard que " o gosto pelo infortnio faz de Baudelaire

 um poeta fundamentalmente moderno , da mesma categoria que

 Lautramont ou Rimbaud " , enquanto salienta Valry que Rimbaud no

 teria sido o que foi sem a leitura de As flores do mal " na idade

 decisiva " .
 Estas recordaes me vm a propsito da leitura de

 Baudelaire o la vocacin del poeta ( 1963 ) , de Andr Coyn , e aqui

 tambm acrescento a opinio de Ivan Junqueira , em torno do aspecto

 indiscutvel que configura Baudelaire como o pai da modernidade ,

 pontuando que ao proclamar em definitivo a " perda da aura do

 poeta " , teria criado assim o poeta francs " um impasse para as

 possibilidades de toda a poesia lrica contempornea " .
 J ao final

 do sculo XX , sob o rtulo evasivo do que se condicionou chamar

 ps-modernidade , encontramo-nos ainda diante dos mesmos problemas

 envolvendo o eu lrico recorda Junqueira que a poesia de

 Baudelaire caracteriza-se como " a diluio do indivduo na

 multido " , a figura do heri segundo Walter Benjamin , " o

 verdadeiro objeto da modernidade " e a vocao do poeta o sentido

 primeiro de uma " transfigurao intermitente " que teu ensaio

 sugere identificar-se com a ascese .
 O que se pode vislumbrar hoje ,

 portanto , diante do cenrio que se mostra  nossa frente , no

 tocante a essas trs foras essenciais para a poesia em todos os

 tempos ?

 Sem dvida .
 Quem " estabeleceu " , para usar o galicismo , Mallarm ,

 Rimbaud e Lautramont como pilares da modernidade foi Jarry ,

 naquela bibliografia do Dr. Faustroll e em outros lugares .
 Os trs

 devem enormemente a Baudelaire .
 Se voltar a escrever sobre

 Lautramont , ser para mostrar a quantidade de apropriaes e

 citaes de Baudelaire em sua obra , muitas ainda no observadas

 pela crtica , at onde sei .

 Devo citar-me ?
 Sim !
 Transcrevo o final do meu ensaio sobre

 Lautramont , parecido com trechos do que escrevi sobre Ginsberg e

 com tantos outros , valorizando a rebelio romntica : " A dimenso

 universal da singularidade e especialmente bem examinada por

 Bataille em seu ensaio sobre Baudelaire ( em A Literatura e o Mal ) ,

 outro personagem que foi pura exceo .
 Argumenta , rebatendo sua

 condenao por Sartre , que a destrutiva busca da impossvel

 unidade , movida pelo desejo insensato de unir objetivamente o ser

 e a existncia , invadindo o reino do impossvel , da

 insaciabilidade , atravs da fuso do sujeito e do objeto , do homem

 e do mundo , no  apenas algo representado por Baudelaire , mas

 sim , o desejo de todo poeta .
 A poesia  o modo de escapar 

 condio de mero reflexo das coisas ; por isso , quer o impossvel .

 Semelhante busca da impossvel sntese de contradies profundas e

 insolveis do imutvel e do perecvel , do ser e da existncia , do

 objeto e do sujeito tambm  exemplarmente representada por

 Lautramont. [ ] Atravessou o sculo XX uma enorme e importante

 discusso , que no se restringiu  atribuio do valor literrio ,

 sobre o sentido e alcance do eixo formado por Baudelaire , por

 Lautramont e Rimbaud , e pelos surrealistas .
 Recebeu condenaes e

 ataques , pela impossibilidade , infantilidade e carter regressivo ,

 pelo niilismo , por seu irracionalismo , de autores to diversos e

 at divergentes como Sartre , Camus e Lukcs .
 E foi valorizado como

 critica e subverso , entre outros , por Walter Benjamin , Bataille e

 Octavio Paz .
 Assim , os dois plos , revoluo social e rebelio

 individual , o transformar a sociedade e o mudar a vida , ora foram

 vistos como antagnicos , ora como complementares .
 Um deles , o da

 revoluo , empalidece ou desaparece de vista no horizonte .
 No 

 por isso que se deve descartar o outro , deixando  vista apenas

 uma paisagem de marasmo conformista .
 Dizer que  superestrutural e

 que s existe no plano simblico no o diminui , pois a

 superestrutura  produtiva e constitutiva do real : esse , para

 estar presente , tem que ter sentido e existir simbolicamente. "

 H pouco conversvamos sobre uma declarao de Breton , de 1928 :

 " Acuso os pederastas de proporem  tolerncia humana uma carncia

 mental e moral que busca erigir-se em sistema , paralisando todas

 as empresas que respeito " .
 Na ocasio me dizias que havia nele

 esse lado moralista , que o levava a dizer algumas coisas

 desnecessrias .
 Lembro que Artaud comentou que o surrealismo " teve

 uma obsesso de nobreza , uma idia fixa de pureza " .
 Mencionou

 ainda uma constncia na expresso surrealista : a exasperao .
 Nos

 anos 60 estiveste vinculado diretamente ao surrealismo. como se

 dava a convivncia de vocs com essa " idia fixa de pureza " ?

 indago isto pensando tambm em teu convvio com a Beat generation ,

 onde a exasperao no conduzia a moralismos desta mesma ordem .

 Lembro-me de uma discusso entre Piva e Srgio Lima , em 1964 , que

 durou uma viagem de So Paulo a Nova Friburgo , onde fomos

 participar de manifestaes artsticas promovidas por um grupo de

 tendncia anarquista de Cataguazes , e acabamos todos , ao terceiro

 dia , na delegacia local ( ainda no havia happening , interveno ,

 performance ) .
 Discusso , justamente , a propsito de restries a

 homossexualismo e idealizao da mulher por Breton , inaceitveis ,

 notoriamente , para Piva .

 Agora , idiossincrasias de Breton  parte , h uma questo que

 merece exame , a do signo ascendente , to importante para ele que

 se tornou ttulo de um de seus livros de poesia , Signe Ascendant .

  tema de um ensaio , publicado na coletnea La Cl des Champs .

 Octavio Paz a comenta e utiliza , de modo inteligente , em

 Conjunes e Disjunes , como fundamento de sua dialtica entre a

 cara e o cu .
 Resumindo , atravs do exemplo de Bash , utilizado por

 Breton e por Paz : uma pimenta ganhar asas e transformar-se em

 liblula  signo ascendente , algo que sobe ; a liblula perder as

 asas e virar pimenta  signo descendente .
 No s nesse ensaio , mas

 no surrealismo todo , h , ento , uma defesa do signo ascendente , da

 sublimao , e uma desconfiana com relao  dessublimao , que

 pode ser limitadora , excludente .
 As polmicas de Breton com

 Bataille e com Artaud , autores bem escatolgicos , no so

 circunstanciais , a meu ver , porm ligadas a questes de fundo , por

 mais que os trs , Breton , Bataille e Artaud , faam parte da mesma

 configurao cultural , da mesma revoluo neo-romntica .
 Da ,

 tambm , em Breton , Pret , luard , a idealizao da mulher , o

 elogio do amor sublime , nico , e a ambigidade quanto 

 libertinagem , deboche e perverso , vistos com simpatia ou

 entusiasmo , mas quando sob forma de humor negro , de algo que nega

 a si mesmo .
 Tanto  , que em seu livro de entrevistas , Entrtiens ,

 Breton faz o elogio de Sade , mas de modo esquisito :

 dialeticamente ,  um " sol negro " : o desregramento seria o pano de

 fundo destacando mais ainda a claridade do amor sublime ( ser que

 estou citando corretamente ?
 o sentido  esse , tenho certeza ) .

 Uma perspectiva dessas acaba deixando  margem , redunda em sua

 importncia , a linhagem hertica , subterrnea , neo-pag ,

 subversiva dentro da cultura ocidental , cujo incio est nos

 gnsticos licenciosos dos primeiros sculos da nossa era , e cujas

 expresses so , entre outros , Sade e , de modo consciente , Bataille

 ( que se via como continuador do gnosticismo licencioso ) .
 Penso que

 na gerao Beat a relao entre amor sublime , de um lado , e

 deboche , sacanagem , farra , libertinagem , de outro , est melhor

 resolvida .
 Trato disso em meu prefcio para essa nova edio de

 Ginsberg .
 Tambm no h essa ordenao de signos .
 Talvez advenha

 da a discusso Beat vs. surrealismo , da qual presenciei um dos

 momentos , conforme relatei acima ( devia ter perguntado a Ginsberg ,

 j que me correspondi com ele , por que , em suas estadas em Paris ,

 foi conversar com Tzara e Michaux , e , aparentemente , no teve

 interesse em conhecer Breton e o grupo surrealista pena , ter

 deixado passar a oportunidade de esclarecer isso ) .

 Dizes que at mesmo algumas vozes do academicismo destacam a

 contribuio potica de Allen Ginsberg , situando-o no como

 inovador , mas como " continuador de uma tradio " .
 Entre eles

 mencionas o Harold Bloom .
 Nas 550 pginas que compem seu O Cnone

 Ocidental , encontramos apenas duas referncias ao poeta

 estadunidense ( " Ginsberg e outros rebeldes profissionais " , e

 " Allen Ginsberg deriva mais de Henry Miller que de Whitman " ) , ao

 passo em que no  includo naquela lista final de principais

 autores , dentro do que Bloom catalogou como " era do caos " .
 Octavio

 Paz , sim , o insere em uma tradio , porm o faz em um texto

 impreciso , onde nos d a entender que a poesia dos anos 60 na

 Amrica Hispnica  uma diluio das duas geraes anteriores , ao

 mesmo tempo em que uma repetio de Charles Olson ou Allen

 Ginsberg , isto sem dar nome a esses poetas supostamente

 diluidores .
 Ento gostaria de maior preciso nesta correlao

 entre vanguarda e tradio no que diz respeito  potica de

 Ginsberg .

 Li um artigo de Harold Bloom , publicado em 1998 na Folha de So

 Paulo , sobre Ginsberg .
 Reconhecia qualidades em Uivo e Kaddish .

 Observava que uma das fontes de Uivo  o poeta barroco ingls

 Christopher Smart .
 Grande descoberta , j que o prprio Ginsberg

 disse isso e publicou Jubilate Agno de Smart como uma de suas

 fontes , na edio comentada de Uivo .
 Uma das restries que Bloom

 fez a Ginsberg foi ser influenciado por Pound algum afirmar uma

 coisa dessas obriga a dar o assunto por encerrado , deixar para l ,

 diante da cega insistncia do academicismo norte-americano em no

 reconhec-lo .
 Acho brilhantes as anlises que Ginsberg faz da

 prosdia em Pound .
 Enfim , nesse artigo Bloom estava chutando ,

 ditando regras de modo superficial .

 A uma distncia de praticamente um sculo e meio da publicao

 original de Cantos de Maldoror , Lautramont sempre cumpriu na

 cultura brasileira a fatia obscura do mito , ou seja , a larga

 referncia aliada ao parco conhecimento .
 Dezessete anos aps a

 primeira edio de tua traduo deste livro ( Vertente .
 So Paulo .

 1970 ) , nos chega agora esta edio de sua Obra Completa , precedida

 de lcido e extenso estudo introdutrio .
 Quem foi mesmo o uruguaio

 Isidore Ducasse ?

 Fiz 50 pginas de prefcio a Lautramont Obra Completa , tentando

 avanar nessa questo , quem foi Isidore Ducasse .
 Voltarei ao

 assunto , escreverei mais sobre Ducasse-Lautramont .
 A bem da

 sntese , transcrevo um trecho de um dos ltimos artigos de Marcos

 Faerman , publicado no jornal O Escritor , sobre Lautramont Obra

 Completa : " Como Arthur Rimbaud , Artaud ou Breton , o Conde  um dos

 signos da aventura literria um inventor , na insuperada

 classificao de Ezra Pound .
 Mais do que outros personagens

 criadores da literatura contempornea , Lautramont ( ou Ducasse ?
 ou

 Maldoror ?
 ) dilui em termos absolutos a sua existncia no plano da

 literatura .
 Seu livro  um jogo de amarelinha de construes e

 estruturas literrias .
 Um brinquedo nas mos de um rapazinho que

 cultiva no universo simblico tudo o que lhe parece mais

 inadequado aos bons costumes ,  ordem ,  moral "

 Entre os clebres prefaciadores de Lautramont encontram-se Remy

 de Gourmont , Lon Bloy , Andr Breton , Roger Caillois , Maurice

 Blanchot e Gaston Bachelard .
 Do susto provocado em Bloy ,

 considerado por Mario Cesariny " o primeiro lobo mau da

 bibliografia ducassiana "  descoberta de um " dinamitador

 arcanglico " consignada por Julien Gracq , nos deparamos quase

 sempre com uma leitura algo prejudicada pelo excesso de assombro

 diante do autor estudado .
 O que este teu alentado prefcio pode

 acrescentar ao entendimento da obra de Lautramont ?

 Reexamino essa bibliografia bsica .
 Analiso em detalhe a sua

 coerncia na negao , algo como sua coerncia na incoerncia

 radical .
 Examino-o como homem do seu tempo .
 Insinuo que pode

 ter-se suicidado , ao examinar Poesias II como suicdio simblico ,

 entre outras hipteses sobre a pessoa Isidore Ducasse .
 Agora , a

 bibliografia sobre Lautramont  gigantesca .
 So sites na

 internet , Cahiers Lautramont , mega-ensaios , hiper-monografias .

 At que ponto acrescentei algo ,  difcil dizer .

 Nos anos 70 se publicou em Buenos Aires uma edio das Obras

 Completas de Lautramont , com estudo preliminar , traduo e notas

 de Aldo Pellegrini , o poeta responsvel pela formao do primeiro

 grupo surrealista no continente americano e tambm tradutor de

 Antonin Artaud .
 Sendo Lautramont um francfono , a exemplo do

 tambm uruguaio Jules Laforgue , qual a primeira edio americana

 de sua obra e que impacto provocou ?

 A primeira traduo completa em espanhol dos Cantos de Maldoror ,

 que circulou na Amrica hispnica ,  de 1925 , de Julio Gmez de la

 Serna , irmo do vanguardista Ramn Gmez de la Serna , que escreveu

 aquele prefcio em que transforma Ducasse em personagem

 imaginrio .
 Antes , desde Rubn Daro , ainda no sculo XIX ,

 Lautramont circulava no universo de lngua espanhola , mas no

 original .
 Sua influncia na gerao espanhola de 27 , e , por

 decorrncia , nas vanguardas ibero-americanas , foi colossal .
 Nossos

 modernistas o citavam , mas o haviam lido em francs .
 Em portugus ,

 a primeira traduo completa deve ser a minha , de 1970 .
 A traduo

 do argentino Aldo Pellegrini , dos Cantos de Maldoror e de Poesias ,

  importante ; mas me parece normalizar um pouco o texto , ao

 endireitar algumas ordens inversas , torn-lo menos arcaico ,

 grandiloqente , mais coloquial .
 Fui na direo oposta , e procurei

 acompanhar Lautramont no exagero retrico .

 Disse Aim Cesaire que Lautramont foi o primeiro poeta " a

 compreender que a poesia comea com o excesso " .
  curioso observar

 que , em O cnone ocidental , Harold Bloom no menciona uma s vez

 Lautramont , deixando patente sua nenhuma relevncia do ponto de

 vista cannico .
 Independente do fato de haver ali outras ausncias

 questionveis , diria que a importncia de Lautramont se resumiria

 ao que o prprio Bloom chama de " ansiedade da influncia " ?

 Bloom me parece corresponder ao neo-retr na critica .
 Essa

 histria de cnone  uma tentativa de reintroduzir o bom

 comportamento na literatura , querer que nos prosternemos diante

 dos modelos .
 Angstia da influncia  bobagem , decalque do Totem e

 Tabu de Freud feito para equiparar Vanguardas e movimentos de

 ruptura  horda selvagem freudiana , inveno e instaurao do novo

 reduzidos a parricdio simblico , vanguardistas como neurticos ,

 dipos mal-resolvidos .

 Outro crtico , a espanhola Ftima Gutirrez , observa que o tema da

 " santidade do crime " , tocado logo no primeiro dos Cantos de

 Maldoror , na verdade define a obra como um todo , onde a perverso

  abordada em um espectro amplo .
 Em ensaio justamente sobre a

 perverso , nos lembra Marcel Schwob que " o ponto de partida moral

 do homem  o egosmo " .
 Em que sentido exato radica a transgresso

 da obra de Lautramont ?

 Nesse sentido , mesmo .
 Em meu prefcio , insisto em que se trata de

 obra perversa , mais que pardica .
 A proclamao da " santidade do

 crime "  uma metfora da transgresso em todos os nveis , do todo

 aos detalhes .
 Marcel Schwob , escritor de formao ocultista e

 gnstica , foi amigo e interlocutor de Jarry , por sua vez o

 primeiro lautramontiano consciente , que no s entendeu

 Lautramont , mas percebeu como era possvel escrever daquele

 jeito .

 No plano ainda de uma rebelio potica , Bachelard observou muito

 bem o aspecto blasfematrio da poesia de Lautramont .
 Para situar

 melhor o leitor , poderia falar um pouco da relao deste poeta com

 seus pares , tanto europeus ( Mallarm , Rimbaud ) como

 hispano-americanos ( Rubn Daro , Ramn Lpez Velarde , Julio

 Herrera y Reissig ) ?

 Rimbaud e Lautramont nunca se conheceram .
 Mallarm deve ter lido

 Maldoror j na dcada de 90 , atravs dos simbolistas belgas que o

 redescobriram .
 Mas os trs fazem parte da mesma configurao

 revolucionria , de superao dialtica do Romantismo , do

 Esteticismo e do prprio Simbolismo , negados e ao mesmo tempo

 radicalizados .

 Desde aquela poca , Lautramont impressionou a autores de lngua

 espanhola , a comear por Rubn Daro .
 Observo que no d para

 falar dessas literaturas ibero-americanas em si , isoladamente , sem

 lembrar seu extremo cosmopolitismo , o trnsito e as estadas de

 todos esses autores , at os mais regionalistas , pela Europa ,

 especialmente Espanha e Frana .
 Fechar-se em sua provncia  coisa

 de brasileiro .
 Lautramont nunca precisou chegar aos pases

 hispano-americanos , pois , antes disso , seus autores j haviam

 chegado a ele .

 Situaes temticas como a fascinao pelo fracasso , o elogio da

 prostituio e da homossexualidade , a mulher fatal e a renncia do

 amor , definem , mais do que um decadente gosto pelo escndalo , como

 alguns crticos apontam , uma discrdia fulminante diante dos

 padres morais de seu tempo .
 Abolida toda espcie de refutao da

 moral estabelecida , que valores assumem a transgresso e o

 escndalo , em nossa sociedade finissecular ?

 Em palestras , leituras e encenaes teatrais de Lautramont ,

 reparei na consternao de alguns dos circunstantes , diante de

 algumas coisas que so at corriqueiras , noticirio de jornais , e

 outras flagrantemente impossveis , como a histria da fmea do

 tubaro .
 Trechos de Maldoror ainda podem espantar e at chocar .

 Ainda bem .
 O que impressiona , obviamente , no  o objeto da

 narrativa , mas a exacerbao simblica , o delrio .
 Felizmente ,

 resta muito escndalo a ser provocado , muito a ser transgredido .

 Quem disse que a moral estabelecida e sua refutao foram

 abolidas ?
 Em 1988 , Uivo de Ginsberg podia ser lido no rdio , nos

 Estados Unidos , s da meia noite s 6 da manh .
 Na mesma poca ,

 aqui , a Rdio Cultura recebeu uma advertncia do Dentel ,

 Ministrio das Comunicaes , por causa de umas poucas coisas a

 mais que Piva falou em um programa de entrevistas de Maria Rita

 Kehl .
 A exposio de Maplethorpe , em 95 , acusada de pornogrfica ,

 provocou corte de verbas do National Endowment for Arts .
 Na mesma

 poca , tivemos um episdio semelhante com uma exposio de Nelson

 Leiner na Funarte do Rio , objeto de um processo por suposta

 pedofilia como se figuras em quadros pudessem fazer sexo !
 E o

 episdio , em 97 , da proibio de grupos musicais que estariam

 incentivando o consumo da maconha ?
 Ainda pretendo voltar a essas

 confuses entre smbolos e acontecimentos reais ,  esquizofrenia

 da censura e da represso .
 No nos iludamos : eles esto ai , 

 espreita , aguardando o momento de intervir para retomar o controle

 da situao

 Tristan Tzara refere-se a Lautramont como autor cuja poesia

 " parece haver superado a fase de atividade do esprito para chegar

 a ser verdadeiramente uma ditadura do esprito " .
 Na segunda metade

 do sculo XX , com a entrada em cena da massificao cultural , o

 sentido da grande recusa em que implicava o Surrealismo , cedeu

 lugar a uma burocratizao do bund , registrando-se um declnio

 daquilo que o Mario Cesariny chama de " esprito de seita " .
 Se 

 verdade , como afirmou Aldo Pellegrini , que a poesia " tem uma porta

 hermeticamente fechada para os imbecis " , o que se passa hoje com a

 poesia em um mundo definitivamente tomado por frivolidades ?

 Na metade do sculo XIX , Baudelaire havia percebido e mostrado

 claramente que existia massificao .
 Termos como " indstria

 cultural " so mais recentes , mas ento j havia lojas enormes

 cheias de gente , jornais que todo mundo lia , livros que se vendiam

 em larga escala , espetculos que atraam multides .
 Mesmo com a

 substituio do megafone pela amplificao eletrnica , do

 telgrafo pela net , o confronto entre poesia e mediocridade

 continua fundamentalmente o mesmo .

 H uma prtica corrente na publicao de antologias da poesia

 brasileira que  o deslocamento do eixo central , que deveria ser a

 prpria poesia , para atender a tendncias de toda ordem , gerando

 uma leitura desfocada , algo criminosa , de nossa produo

 literria .
 Casos assim verificamos nas publicaes mais recentes :

 Pedro Lyra inventando uma Gerao de 60 com enfoque puramente

 acadmico , de catalogao geracional ; Nelson Ascher e Rgis

 Bonvicino reduzindo a poesia brasileira a um desdobramento do

 Concretismo ; e mais recentemente a segunda dose de equvoco da

 Helosa Buarque de Hollanda .
 Alm disto , h aquela leviandade

 tpica de aventureiros como Assis Brasil , mapeando o Brasil pelo

 ngulo da quantidade em oposio  qualidade , em uma leitura

 completamente despida de valorao crtica .
 A publicao de todos

 estes livros ao mesmo prova uma coisa : que h mercado para tanto .

 Ento por que no se realizar um trabalho srio de reflexo sobre

 nossa produo literria ?

 Escrevi um artigo extenso sobre antologias , na revista Cult de

 abril de 99 .
 H dificuldade , neste momento , em especificar

 tendncias e movimentos .
 O valor potico parece estar sendo

 substitudo por outra coisa , que no se sabe bem o que  .
 Quanto

 s antologias , gosto daquela de Massi , acho-a original .
 Lyra fez

 algo ambicioso , um trabalho de flego , objeto das crticas que se

 sabe , por esticar a dcada de 60 , traar limites vagos , dissociar

 " gerao " de movimento literrio .
 Mas sua antologia contm

 informao , apresenta bem seus poetas , coisa que poucos fazem .

 Quanto  de Ascher e Bonvicino , at ' que  bem menos eufrica e

 excedente do que aquelas do Concretismo propriamente dito , dcadas

 atrs .
 Helosa  uma professora de literatura que raciocina como

 sociloga ; d a impresso , a julgar por sua ltima antologia , de

 haver entrado em um grave surto de ps-modemidade .

 O panorama da poesia brasileira  complexo , muita gente escrevendo

 de modos diversos .
 Temos superexposio de alguns autores ,

 obliterao de outros .
 H pouco , toda vez que ligava o televisor ,

 aparecia na tela o Waly Salomo .
 Nada contra , mas outros poetas da

 mesma " gerao " , com caractersticas afins , poderiam receber a

 mesma ateno .
 Agora , por ordem nisso ?
 Santo Deus , no vejo como

 Iniciativas setoriais , resgate da Dora Ferreira da Silva pelo

 prximo Azougue , do Sebastio Nunes pela Medusa , mais o que voc

 anda fazendo , talvez apontem caminhos .

 Falas do absurdo que  a " pouca ateno da crtica e a pouca

 quantidade de estudos sobre poetas como Piva , Affonso Henriques ,

 Rodrigo de Haro , entre outros " .
 A teu ver , quem faz crtica

 literria consistente neste pas , e em razo de que acreditas que

 um poeta como Roberto Piva jamais tenha sido comentado com

 seriedade por essa crtica ?
 Como aplicar este teu raciocnio a

 poetas como Jos Santiago Naud e Srgio Lima , e at mesmo outros

 de geraes anteriores , a exemplo de Dora Ferreira da Silva e Jos

 Alcides Pinto , para ficarmos apenas entre os vivos ?

 Ainda no conheo a poesia do Naud .
 Voc me mandaria livros dele ?

 Ou pediria para ele , ou o editor dele me mandarem ?
 Mas tem mais .

 Voc conhece a poesia do Pedro Garcia ?
 Catarinense do Rio de

 Janeiro , conheci-o atravs do Rodrigo de Haro ( outro da lista dos

 que , etc. ) , e me parece extremamente consistente , com vrios

 livros publicados .
 Talvez por no estar a para badalao

 literria , ningum fala nele .
 J fiz , em outros lugares , listas de

 poetas que tinham que ser mais divulgados , comentados e

 discutidos .
 Age de Carvalho , por exemplo , quando saiu o livro

 dele , escrevi que estava comeando onde Joo Cabral havia parado .

 Ser que residir em Viena ( reside em Viena ) influi na quantidade

 de boquiabertos diante de sua obra ?
 Se for isso , ento , viva o

 provincianismo !

 Crtica literria e pesquisa acadmica so regidas , hoje , pelas

 mesmas normas e cacoetes da burocracia dos rgos pblicos : medo

 de arriscar , preguia , tendncia a rolar com a barriga , a

 eximir-se de responsabilidades , preferir pratos feitos , releases

 mastigados , portfolios preparados por agentes e corporaes do

 setor , repetio ritualistica das mesmas pautas .
 O registro

 sistemtico de novos poetas nunca foi dessas maravilhas ; mas , por

 essa razo , vem piorando .

 Ao contrrio do Mxico , onde a subveno estatal para a publicao

 de revistas literrias  j uma tradio , aqui a figura do

 Estado-editor manifesta-se apenas no tocante  sua prpria

 revista , no caso , a Poesia Sempre .
 Tambm no Mxico e na Colmbia ,

 por exemplo , verifica-se a sistematizao de edies crticas e

 obras completas de seus principais valores literrios , o que 

 distinto desse programas de edies oriundo de um convnio entre

 Biblioteca Nacional e Universidade Mogi das Cruzes .
 Alm disto ,

 temos algumas iniciativas isoladas , as chamadas leis estaduais de

 incentivo  cultura , que no cumprem com seu real papel , uma vez

 que no estabelecem uma ao conjunta entre produo e

 distribuio .
 Como acreditas que o Estado deva se portar no

 tocante a este assunto ?

 Aqui [ ] voc toca em um grave problema de poltica cultural .

 Talvez , o n da questo .
 Acho que , para cada exemplar de Poesia

 Sempre , tinham que destinar uma verba no mnimo equivalente para

 iniciativas como as revistas do Guido de Uberaba ( Dimenso ) , da

 Jurema de Santo Andr ( Cigarra ) , do Srgio da Barra Funda

 ( Azougue ) , do Ricardo & Rodrigo de Curitiba ( Medusa ) , e tantas

 outras .
 E por a , atravs dos peridicos , que poesia e crtica

 respiram .
 No inicio do sculo , em lados opostos do Canal da

 Mancha , Pound e Breton faziam que a literatura se movesse , atravs

 de revistas , veculo do melhor da criao e da critica naquele

 momento .
 Esse  um dos muitos exemplos de como o periodismo

 cultural pode ser decisivo , definidor de movimentos e tendncias .

 Pela dificuldade econmica , hoje , desse tipo de iniciativa , devia

 ser prioridade da administrao cultural pblica .

 Temos alguns mecanismos de subveno para espetculos , teatro e

 cinema , e entendo que poderia haver mais ainda .
 Porm ,

 considerando que palavra  mediao fundamental , constitutiva da

 cultura , deveria haver mecanismos equivalentes , no mnimo , em

 favor da circulao do livro , da literatura , de idias .
 Fala-se

 ( com razo ) da importncia da educao pois bem ; favorecer a

 palavra escrita faria , rapidamente , subir o nvel educacional .

 Francamente , acho que a quantidade e qualidade do investimento

 nesse campo ( livro e literatura ) podem ser definidoras do futuro

 deste pas .
 A inteligncia no pode continuar entregue apenas ao

 miserabilssimo oficial e  burocracia das corporaes privadas ,

 sob risco de agravar mais ainda o quadro que temos denunciado .

 Essa , para mim ,  uma grande questo poltica , da qual a sociedade

 deve ser sensibilizada .

 Cludio Willer ( cjwiller@uol.com.br )

 Floriano Martins ( floriano@secrel.com.br )

 Poemas de Cludio Willer

  Floriano Martins 2000

 Espculo .
 Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de

 Madrid

 El URL de este documento es

 http : // www.ucm.es / info / especulo / numero13 / c_w_ent.html

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