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 Murilo Mendes e Joo Cabral : o sim contra o sim

 Ensaio publicado em Ipotesi - revista de estudos literrios , Universidade

 Federal de Juiz de Fora , v. 6 , n. 1 , jan / jun 2002 , pp. 105 -112 .

 No encerrar grande novidade uma leitura que busque verificar as ligaes

 entre a poesia de Murilo Mendes e a de Joo Cabral de Melo Neto .

 Este ltimo afirmou mais de uma vez as diferenas com relao a seu amigo :

 " Creio que nenhum poeta brasileiro foi mais diferente de mim : desde sua viso

 da vida ( e , por parte dele , de uma sobrevida ) , at a viso da poesia , como

 funo e como organizao. " ( 1 ) Mas o prprio Cabral fez questo igualmente de ,

 inmeras vezes , afirmar sua dvida para com Murilo Mendes :

 ( ) nenhum poeta brasileiro me ensinou como ele a importncia do visual sobre o

 conceitual , do plstico sobre o musical ( a poesia dele , que tanto parecia

 gostar de msica ,  muito mais de pintor ou cineasta do que de msico ) .
 Sua

 poesia me ensinou que a palavra concreta , porque sensorial ,  sempre mais

 potica do que a palavra abstrata , e que , assim , a funo do poeta  dar a ver

 ( a cheirar , a tocar , a provar , de certa forma a ouvir : enfim , a sentir ) o que

 ele quer dizer , isto  , dar a pensar. ( 2 )

 Sem dvida , a lio de Murilo mostra-se determinante na fase cabralina de

 aproximao com o surrealismo - que vai dos seus Primeiros Poemas aos textos

 iniciais de O engenheiro .
 A " palavra concreta " faz os poemas se vertebrarem ,

 valorizada por uma economia que inclui sinteticamente valores plsticos ,

 histricos e culturais perfeitamente reconhecveis , porm reunidos de modo

 imprevisvel , o que revela menos uma gratuidade que um procedimento intencional

 que busca adequar formas e contedos s necessidades expressionais do texto .

 Tal manipulao dos objetos - ou ainda , das palavras que os nomeiam - revela

 tambm uma semelhana formal com a pintura surrealista mais apegada 

 representao " realista " dos objetos , sendo bons exemplos as telas de Magritte ,

 De Chirico e Max Ernst , nas quais a ilogicidade e o extra-real surgem por meio

 do jogo complexo de associaes .
 Se podemos , ainda , buscar certa familiaridade

 da primeira potica cabralina com Picasso ou Duchamp , introdutores , cada um a

 seu modo , do objeto tcnico-industrializado no contexto da obra de arte , tambm

  certo que a incorporao do prosaico no universo potico sugere , sobretudo ,

 certa continuidade da esttica modernista de Murilo Mendes , mas tambm de

 Drummond e Mrio de Andrade .
 Neste sentido , o surrealismo cabralino deve ser

 percebido , conforme Joo Alexandre Barbosa , pelo seu " construtivismo abstrato " ,

 e no apenas pelo aspecto " onrico temtico " .
 ( 3 )

 O privilgio da imagem sobre o tema mostra , de fato , signos em relao , ou

 seja , necessariamente ordenados de modo rigidamente formal na estrutura do

 poema , como objetos no espao : seja em associao com outros signos de natureza

 vria e de igual complexidade ou simplesmente dispostos em pares , nos quais so

 avaliados numa imagem de alta sntese , so sempre as articulaes que do a ver

 o aspecto , digamos , fantstico do real .
 Basta , por exemplo , um adjetivo para

 que as mquinas , signos da racionalidade , se tornem fantticas - " avies

 misteriosos " , " mquinas monstruosas " , " vitrolas errantes " - ou uma seqncia de

 substantivos - " um anjo , um telefone , o silncio " .

 No contato com a obra dos pintores surrealistas e com a poesia de Murilo

 Mendes , Cabral aprendeu que era possvel ir alm das imagens puramente

 temticas .
 Embora pudesse acatar o dado aleatrio , o efeito de " alucinao " no

 era incompatvel com o tratamento rigoroso do material e a organizao do

 espao .
 Assim , construdos a partir de composies e no por uma seleo

 meramente figurativa , a imagem deixava de ser traduo de contedos .

 Em sua leitura de Pedra do Sono , Benedito Nunes nota uma pouca intimidade do

 poeta com o espetculo onrico .
 Seria possvel detectar tal atitude de

 distanciamento na ironia que freqentemente pontua os poemas : " aqui e ali , uma

 observao irnica , a modo de pausa meditativa , em versos parentticos , como os

 que so freqentes em Drummond , ou uma interrogao de dvida , comprometem a

 integridade do espetculo onrico " .
 ( 4 )

 Em " O poeta " , por exemplo , o distanciamento  obtido pela correo de um

 equvoco , que trata a realidade mais absurda como algo prosaico :

 O telefone com asas e o poeta

 pensando que fosse o avio

 que levaria de sua noite furiosa

 aquelas mquinas em fuga. ( p. 52 )

 Tais reflexes no corpo dos poemas interrompem o fluxo de imagens que tentam

 ( ou no ?
 ) semelhar o descontrole da linguagem comandada pelo inconsciente .
 A

 presena do humour - o outro lado da atmosfera sombria e angustiada da maioria

 dos poemas - cria um campo de fora que se pode definir como um distanciamento ,

 compreendido como postura existencial e esttica na concepo dos poemas .
 O

 sujeito potico cabralino de fato manipula o real sem deixar ver um maior

 envolvimento afetivo , como se a desconstruo das coisas e a contruo dos

 textos exigissem antes um investimento intelectual .
 O resultado de tal processo

  uma inequvoca viso crtica e irnica dos temas de que trata e tambm dos

 prprios mtodos formais utilizados pela lrica convencional .
 Se no cabe falar

 de uma influncia direta , decerto podemos reconhecer a um trao em comum , mais

 uma vez , com a poesia de Drummond e de Murlo Mendes .

 O distanciamento , pressuposto de toda atitude que implique o humour , aparece em

 Pedra do Sono no s como modo de articulao entre o sujeito potico e sua

 matria , definindo-se tambm como valor distintivo da relao entre o texto e

 seu fruidor .
 Alm de lanar para segundo plano o envolvimento afetivo ,

 subjetivo do leitor com o texto , e substituir tal interao por uma distncia

 crtica , intelectual , os poemas parecem levar ao limite mximo a nossa

 capacidade de suportar um tal relacionamento .
 Tome-se com liberdade os

 conceitos de Bergson e poderemos entender o humour do surealismo cabralino como

 resultante de um hermetismo que pe  prova a elasticidade de nosso raciocnio ,

 de nossa capacidade de compreenso ; ou ainda : exercitando sua capacidade de

 construo do inslito , os poemas cristalizam-se num ponto que no podemos

 ultrapassar , restando-nos aceitar a rigidez de nossa lgica , sua melanclica

 inutilidade diante de objetos complexos .
  a que os poemas parecem rir de ns .

 Se o distanciamento , cujo efeito mais sensvel  o humour e cujo potencial de

 instrumentalizao se confirma pelo aspecto acentuadamente construtivo dos

 poemas , aproxima a poesia inicial de Joo Cabral de Melo Neto de um certo

 surrealismo ,  ele tambm que possibilita a superao desse mesmo surrealismo .

 H que se notar , no entanto , que o aspecto construtivo , racional do surrealismo

 cabralino no era estranho ao prprio surrealismo fundador , sobretudo nas artes

 plsticas , bem como era um dos traos marcantes da poesia de Murilo Mendes .
 O

 humour cabralino parece mesmo acanhado diante da desabusada ironia e do deboche

 muriliano .
 Quando o poeta de O visionrio se prope " boxear com a eternidade "

 ( " A palavra lisol " ) , a qualidade ou o carter de tudo o que imaginamos eterno ,

 de idias como imortalidade e vida aps a morte , caem de suas alturas

 simblicas , ganham um corpo , convertem-se em matria finita , tornam-se uma

 pattica miniatura .
 Mas , por outro lado , o termo " eternidade " parece resistir a

 este encolhimento , e o poeta , chaplinianamente , surge-nos como um boxeado em

 luta com algo muito superior a ele , algo que ele talvez venha a nocautear , mas

 pela via do humour , do acaso , do riso , no no terreno da transcendncia e das

 formas sublimes .

 O distanciamento e a vertente construtiva da esttica surrealista so dados

 fundamentais para compreendermos , em primeiro lugar , que Cabral , ao se " curar "

 ( a expresso  dele ) do surrealismo , no sai de um extremo a outro .
 Em segundo

 lugar , serve para entendermos o prprio distanciamento de Murilo com relao 

 esttica surrealista e sua posterior aproximao do racionalismo cabralino num

 livro decisivo como Tempo espanhol .

 Jos Guilherme Merquior bem observou que " o ubquo onirismo da poesia muriliana

 desgua o tempo todo em atitudes resolutamente intramundanas , em plano

 contato-protesto com a realidade mesma negada pela fora do visionrio " ( 5 ) .

 Est claro aqui , portanto , o fio que mantm tenso e dialtico o surrealismo de

 Murilo Mendes , que ser reforado a cada livro sem que a pesquisa de certas

 sutilezas impalpveis , a ruptura onrica e a transfigurao desapaream ,

 convertidas ento  circunstncia de fio que manter dialeticamente hirto o

 inequvoco realismo do poeta .

 Mas o que teria permanecido da experincia surrealista na poesia de Cabral ?

 Mais uma vez o aspecto construtivo  fundamental , realado agora por um dado

 particular : a tendncia surrealista para a construo surpreendente , que Cabral

 diz ter aprendido com Murilo Mendes , sem nomear exatamente o " surrealismo " de

 Murilo .
 A potica cabralina , assim como a muriliana , no busca o " automatismo " ,

 rejeita a idia de que a " experincia " seja algo desimportante e procura o

 efeito da contigidade imprevisvel na construo de algumas de suas imagens

 mais poderosas , como o " co sem plumas " e a " faca s lmina " , ou mesmo em

 comparaes inusitadas como aquela que aproxima o fazer potico do ato de catar

 feijo .

 O que Cabral , decerto , incorporar definitivamente em sua escrita ser essa

 vontade de desautomatizar nossa percepo .
 Mas tal operao no vai se limitar

 apenas ao arranjo potico , entregue ao leitor como algo pronto : o prprio modo

 de combinao dos materiais se converter em poesia , como se o texto criasse um

 efeito de colagem em processo , ou , noutras palavras , como se o processo de

 colagem se expusesse aos olhos do leitor .
 O poema , desse modo , exibe sua

 estruturao , pe em movimento os valores da discursividade , ativa a percepo

 plstica e conceitual das formas e funda uma linguagem capaz de criar

 similitudes onde a lgica convencional s reconheceria diferenas .
 Mas , ao

 romper com a lgica e a estabilidade da razo classificatria e normativa , a

 poesia de Cabral no instala o caos : a desconstruo da representao vulgar ,

 alienada , funda , simultaneamente , uma lgica e uma razo outras , que , de modo

 algum , prescindem da " simples experincia " , pois , ao contrrio , devem nascer da

 experincia subordinada ao projeto .
  a que Cabral se afasta do surrealismo ,

 pois no bastar para sua poesia a construo aleatria .
 O exerccio do poeta ,

 ao contrrio , ser exatamente o de trazer ao prprio texto , como modo mesmo de

 estrutur-lo , a verificao da pertinncia simblica - esttica , plstica ,

 moral , tica - das comparaes .

 Para alm da questo do surrealismo , Joo Cabral e Murilo Mendes apresentam

 entre si outros elementos conformes e dessemelhanas .
 O prprio Murilo mapeou

 alguns pontos dessa relao no seu " Murilograma a Joo Cabral de Melo Neto " , de

 Convergncia :

 1

 Comigo e contigo o brasil .

 Comigo e contigo a espanha .

 Entre mim e ti a caatinga .

 Entre mim e ti a montanha .

 Comigo e contigo Velzquez ,

 Graciliano , o moriles .

 Entre mim e ti o barroco ,

 A cruz , Antonio Gaud .

 Comigo e contigo o Andalu ,

 Flamenco , cija , los toros .

 _________________________________

 Entre mim e ti o smbolo ,

 Entre mim e ti o " pattern " ,

 A estrovenga , a sondareza ,

 O oxmoron , o anacoluto ,

 O mitologema , o eucolgio ,

 O compasso , o elctron-volt ?

 _________________________________

 Comigo e contigo o antifascio ,

 Comigo e contigo a gestalt .

 Comigo e contigo a antibomba ,

 A flor azulbranca da paz .

 Nascida de frtil convvio

 & ritmo alternado recproco .

 Esta primeira parte do poema constri-se pelo revezamento da aproximao

 ( " comigo e contigo " ) e do afastamento ( " entre mim e ti " ) .
 Os dois poetas

 avizinham-se , inicialmente , pelo bero comum ( " o brasil " ) e pela ptria eleita

 por ambos ( " a espanha " ) .
 Mas logo a geografia natal cria singularidades que os

 afastam ( " a caatinga " e " a montanha " ) .
 Todo o primeiro segmento do poema ( cinco

 estrofes iniciais ) desenvolver-se- nesse jogo de semelhanas e diferenas que

 instala como que duas Espanhas : a de Murilo , sem dvida ,  a do " barroco " , da

 " cruz " , de " Antonio Gaud " ; a segunda no pertence s a Cabral , mas a ambos , 

 a de " Velzquez " , do " moriles " , do " Andalu " , do " Flamenco " , dos " toros " .
 A

 seqncia seguinte ( de trs estrofes ) apresenta outros signos , relativos ao que

 poderamos chamar de uma pesquisa potica .
 O " smbolo " est para Murilo assim

 como o " pattern " est para Cabral .
 Merquior fala da estrofe muriliana como

 sendo regida pela " lei cortante de um grafismo spero , um desprezo quase

 mantegnesco pelo suave e cantabile " ( 6 ) .
 Decerto , a fixao de Joo Cabral pelo

 quadrado , pelo quatro , pelo par , pela quadra , evita a aspereza grfica dos

 versos de Murilo Mendes .
 No entanto , o uso da quadra como mdulo composicional

 guarda a angulosidade do verso cabralino , de ritmo irregular , duro , pungente .

 Se " mitologema " , " eucolgio " , " estrovenga " e " sondareza " apontam para o mito , o

 mistrio , o fora do comum , a profundidade , e sugerem um campo muriliano , o

 " compasso " , ao contrrio , surge ligado  potica cabralina .
 Voltando  Espanha ,

 a de Murilo  barroca , catlica , surge numa poesia que no est alheia ao que 

 impenetrvel  razo , exercitando-se , deste modo , como investigao do obscuro ,

 do enigma , do impondervel .
 Murilo , no entanto , reparte com Cabral signos como

 " o flamenco " , " o Andalu " e " Velzquez " , pintor que , em Tempo espanhol , 

 definido como aquele que " suprime a fluidez , a suavidade , / qualquer elemento

 opaco ou impreciso " .
  esta aparente contradio que nos aproxima mais e melhor

 da potica muriliana , da sua Espanha , da sua tenso entre surrealismo e

 realismo .

 Sobre Tempo espanhol , Cabral comenta , em carta de 1972 , com Murilo Mendes :

 Quanto  Espanha do livro : devo dizer que a sua deixa a minha humilhada .
 V. tem

 sobre este servidor ( como dizem os espanhis ) duas vantagens para falar da

 Espanha : uma  o tom de veemncia explosiva que  o prprio dos espanhis

 ( enquanto que a minha  uma veemncia incisiva , pouco espanhola , ou quando no ,

 menos espanhola do que a sua ) ; a segunda vantagem  o seu catolicismo .
 No digo

 que todo catlico possa ter a viso total da Espanha que V. tem .
 H catlicos -

 a grande maioria - que tero uma viso parcial , forosamente porque s vero a

 Espanha negra , se desinteressando pela outra .
 No meu caso ocorre o contrrio :

 s sou capaz de me interessar pela Espanha realista , a Espanha materialista , a

 Espanha das coisas .
 E quando uma manifestao , digamos assim , desse lado

 " espiritual que V. capta to bem me interessa , repare que sempre o trato

 amesquinhando .
 Exemplo : as corridas de touro , coisa inadmissvel a um

 Espanha-branca como eu : eu as diminuo s dimenses de uma lio de esttica ; o

 cante flamenco idem , Etc .
 Etc .
 Quero dizer : sua posio intelectual  muito

 mais ampla e abarca as Espanhas branca e negra. ( 7 )

 O poeta pernambucano aponta para a diferena composta por aqueles sinais

 anotados pelo prprio Murilo : o " mitologema " , o " eucolgio " , a " estrovenga " e a

 " sondareza " , capazes de mapear uma Espanha negra .
 Mas , sem dvida , mesmo ao

 acatar o mistrio , o " espiritual " , Murilo no deixa de compor seus versos

 suprimindo " a fluidez , a suavidade , / qualquer elemento opaco ou impreciso " , ao

 modo de Velzquez , ao modo de Cabral .

 A Espanha instala-se como um territrio fsico e simblico onde os dois poetas

 reafirmam certas familiaridades e diminuem as distncias entre si , embora

 Cabral fale sobretudo das diferenas , a apontar a Espanha do amigo como

 resultante de uma " posio intelectual ( ) muito mais ampla " , cabendo a Murilo

 reconhecer as semelhanas , como mostra em seu poema .
 Sem dvida , tais atitudes

 nascem de posies intelectuais diversas .
 A Cabral interessa sempre entender as

 coisas e trat-las em poesia a partir de contrastes violentos .
 Aposta na

 singularizao e na especificidade que reduz tudo ao mnimo essencial , ao

 menos , obedecendo a uma espcie de essencialismo sem transcendncia ,

 essencialismo materialista , que d a ver , em ltima instncia , aquilo que

 diferencia as coisas , a residindo o princpio de desconstruo e construo da

 similitude no processo de metaforizao. Murilo , por sua vez ,  o " conciliador

 de contrrios " , como se repete exaustivamente desde que Mrio de Andrade assim

 o definiu .
 Sua procura pela aliana entre as coisas capacita-o como exmio

 construtor de imagens , metaforizador poderoso , mstico com ou sem religio .

 De qualquer modo , a Espanha  o stio privilegiado para se encontrarem , visto

 que ali exercitam suas personalidades diversas na busca das mesmas lies e dos

 mesmos mestres .
 Em Programa para o concreto , Alexandre Pinheiro Torres lembra

 que a epgrafe de O rio - " quiero que compagamos io e t una prosa " - foi

 tomada por Cabral a Gonzalo de Berceo , que aparecer , mais tarde , citado por

 Murilo em Tempo Espanhol , a integrar um paradigma de iniciadores de uma

 linguagem concreta , construda :

 Da linguagem concreta iniciadores ,

 Mestres antigos , secos espanhis ,

 Poetas da criao elementar

 Informantes da dura gesta do homem ;

 Annimos de Castela e da Galcia ,

 Cantor didtico de Rodrigo El Cid ,

 Arcipreste de Hita , Gonalo de Berceo ,

 Poetas do Romancero e dos provrbios ,

 Vossa lio me nutre e me constri .

 Tanto Cabral quanto Murilo estariam , segundo Pinheiro Torres , a remontar 

 lio do sculo XII espanhol , a buscar o concreto , o essencial , o substantivo ,

 o realismo e toda a sorte de antdotos contra o vago e o abstrato .
 Assim , seria

 a mesma a Espanha do interesse dos dois poetas .

 Mas a hispanidade do Pernambucano talvez seja mesmo mais parcial e limitada ,

 conforme ele prprio afirma , posto que  recortada mais brutalmente em suas

 potencialidades como pedagogia tico-esttica .
 A viso cabralina , mais

 limitada , talvez seja , por isso mesmo , menos realista que a muriliana , na

 medida em que esta arrisca seguir com a sondareza e outros aparelhos  busca de

 tudo o que seja Espanha , alcanando , assim , resultados , sob certo ponto de

 vista , aspectos mais abrangentes , mais prximos da complexidade abarcada pelo

 signo " Espanha " .
 Mas a parcialidade de Cabral expe , como sempre , um mtodo ,

 uma operao , um modo de construo , residindo a sua grandeza intelectual ,

 artstica e humana .
 Interessa ao poeta menos a Espanha que parece existir como

 realidade ( mas toda realidade no  uma construo parcial ?
 ) que aquela

 passvel de se materializar como idia , como lio .
 Se os instrumentos de

 Murilo so os de mergulho , de perfurao e de elevao espiritual , portanto de

 investigao das profundidades e das misteriosas alturas , os de Cabral ,

 coerentemente com toda a sua potica , operam com violncia do talho ; permanecem

 na camada visvel das coisas , atuam na superfcie ; convertem o poeta numa

 espcie de agrnomo , a recusar os cus e os subterrneos , bastante prximo

 tambm dos pintores modernos que aboliram a dualidade forma / fundo para

 pesquisarem as possibilidades da tela como realidade fsica , plana .
 Sob tal

 perspectiva plstica , a Espanha cabralina parece-nos menos Espanha .
 Surge-nos ,

 efetivamente , mais deformada que a de Murilo , que  muito mais matizada , sutil

 e dialgica .
 A de Cabral tem uma voz nica ,  " a palo seco " .

 Diante da amplitude muriliana , Cabral avalia sua parcialidade como uma certa

 pobreza , como " amesquinhamento " , incapacidade .
 Mas , no h dvidas , os limites

 se convertem , no conjunto de sua potica , em extrraordinrio projeto tico e

 potico , ntegro , absoluto , original .
 Ao ser assumida , confirmada , explicitada ,

 convertida em potica , a impossibilidade de ultrapassar certas fronteiras passa

 a ser " mais contundente " .
 Mas ,  provvel , a carta ao amigo mostra-o , a ampla

 pesquisa espanhola de Murilo talvez deixasse mesmo no companheiro pernambucano

 a humana inveja , a dvida quanto aos rumos que tomara , quanto ao gesto de

 transformar as limitaes em mtodo , e este em " idia fixa " .

 O poema de Murilo e a carta de Cabral talvez apenas confirmem a abrangncia do

 olhar do primeiro - capaz de ver mais semelhanas entre a poesia dele e a do

 amigo - e a linha reta do olhar do segundo , vendo apenas o " menos " , o " pouco "

 de si mesmo , a fim de , generosamente , apontar o alto valor daquele seu mestre

 de primeira hora .
 Mestre qua no hesitaria na inverso dos papis ao afirmar em

 Convergncia : " joocabralizei-me " .

 REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

 1 - Entrevista  revista Manchete , Rio de Janeiro , em 14 ago .
 1976 .
 Cit. em

 Idias fixas de Joo Cabral de Melo Neto , org .
 Flix de Athayde .
 Rio de

 Janeiro : Nova Fronteira / FBN ; SP : Universidade de Mogi das Cruzes , 1998 , p. 137 .

 2 - Idem .

 3 - Joo Alexandre Barbosa , A imitao da forma .
 So Paulo : Duas Cidades , 1975 ,

 p .23 .

 4 - Benedito Nunes , Joo Cabral de Melo Neto , Poetas modernos do Brasil -1 ,

 Petrpolis : Vozes , 1971 , p. 37 .

 5 - Jos Guilherme Merquior , Notas para uma muriloscopia .
 In : Murilo Mendes ,

 Poesia completa e prosa , Rio de Janeiro : Nova Aguilar , 1994 , p. 13 .

 6 - Idem , p. 15 .

 7 - In .
 Civil geometria : bibliografia crtica , analtica e anotada de Joo

 Cabral de Melo Neto , 1942-1982 .
 Org .
 Zila Mamede , So Paulo : Nobel , 1987 , pp .

 128-9 .

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