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 FLORIANO MARTINS - Entrevista

 Floriano Martins

 ( http : // www.secrel.com.br / jpoesia / fmartins.html )

 Poeta , ensasta , tradutor e editor , que tem se dedicado ao estudo da literatura

 hispano-americana , sobretudo no que diz respeito  poesia .
  autor de livros

 como Escritura conquistada ( Letra & Msica , Fortaleza ) e Escrituras

 surrealistas ( Memorial da Amrica Latina , So Paulo ) , ambos publicados em 1998 .

 Tambm nesta mesma data publicou , pela carioca Ediouro , suas tradues de

 Poemas de amor , de Federico Garca Lorca , e Delito por bailar o ch-ch-ch , de

 Guillermo Cabrera Infante .
 Sua poesia encontra-se reunida no volume Alma em

 Chamas ( Letra & Msica , Fortaleza , 1998 ) .

 Com larga trajetria de colaborao  imprensa , no Brasil e no exterior , tem

 escrito artigos sobre msica , artes plsticas e literatura .
 Dirige , juntamente

 com Claudio Willer , a revista virtual Agulha

 ( http : // www.revista.agulha.nom.br / ) .
  ainda autor de uma biografia do

 compositor erudito Alberto Nepomuceno ( Edies FDR , 2000 ) , assim como tradutor

 do espanhol Jorge Rodrguez Padrn ( Dois poetas cubanos , 1999 ) , do

 porto-riquenho Jos Luis Vega ( Trs entradas para Porto Rico , 2000 ) e do

 costarriquenho Alfonso Pea ( A nona gerao , 2000 ) .

 Nesta entrevista , Floriano Martins fala de sua literatura , dos projetos e

 trabalhos desenvolvidos .

 LAM - Vamos para a pergunta inicial de praxe : como a literatura chegou at

 Floriano Martins ?

 FM Como estabelecer a procedncia do abismo ?
 No chego a mim mesmo seno por um

 sentido vertiginoso de percepo do outro , de entrega a essa busca essencial do

 outro em tudo o que somos .
 No  a literatura que chega , mas a prpria idia de

 descoberta de si mesmo .
 A literatura no  nada .

 LAM - Como foi chegar em Cinzas do Sol , em 91 , e da at o Extravio das Noites ?

 FM Cinzas do Sol est pautado por um acidente , ou pelo acaso objetivo .
 O

 personagem central do livro corresponde  minha av materna .
 Encontrava-se

 prostrada  cama , muito doente , claramente  espera da morte .
 Diante dela ,

 pensando na intensa vitalidade com que conduziu seus dias , por muito pouco

 resisti  vontade de mat-la .
 Sa dali e no voltei mais a v-la .
 Ao chegar em

 casa , abri aleatoriamente as pginas de Le coupable , do Georges Bataille , e

 salta diante de mim a frase : A vida  um efeito de instabilidade , de

 desequilbrio , logo seguida de um no menos revelador Mas  a fixidez das

 formas o que a torna possvel .
 A partir de ento , eu deixo de ser apenas um

 observador e passo a descobrir-me tambm como personagem de minha escrita .

 LAM - Voc tem livros publicados no Brasil e no exterior , inclusive como

 correspondente de diversas revistas internacionais e gozando de um prestgio

 internacional bastante substancial .
 E no Brasil ?
 Como se d a receptividade da

 sua obra aqui ?

 FM  curioso observar que o poeta quase inexiste .
 Os livros de circulao menos

 precria so justamente os relacionados ao ensaio e  traduo , o que acaba

 propiciando uma difuso parcial de meu trabalho .
 No estou bem certo , no

 entanto , se isto se d apenas por esta razo .
 De alguma maneira fomos criando

 um obstculo para a diversidade esttica no Brasil , desenvolvendo um mecanismo

 medonho de afunilamento de nossas possibilidades .
 Talvez at inconscientemente

 esta tenha sido a maneira de favorecer os aparentados do poder .
 Isto acaba

 propiciando uns tantos malabarismos de adequao ao feitio vigente .

 LAM - Como voc v a poesia hoje no Brasil ?
 O que voc destaca ?
 Faz um balano

 pra gente .

 FM Um diagnstico como este costuma ser leviano .
 O que mais gostaria de

 salientar aqui  que perdemos a noo de diversidade .
 Que incorremos em um

 artifcio discricionrio que faz com que a magia perca seu carter

 insubstituvel .
 Como a poesia tornou-se um recurso menor de uma manipulao de

 poder , nossos poetas foram quase todos identificados com essa precariedade

 existencial .
 Se no h poesia temos que entender que isto se d pela ausncia

 do elemento humano .

 LAM - E a poesia na Amrica Latina ?

 FM Mais um exerccio de leviandade .
 Quando falamos em Amrica Latina nem de

 longe pensamos na Martinica ou no Canad .
 Quantos idiomas so falados na

 Amrica Latina ?
 Quantas culturas envolvidas a partir da ?
 Ser que os

 brasileiros fazem idia de que integram a Amrica Latina ?
 Sabero ao certo sua

 responsabilidade a envolvida ?
 Tua pergunta nos leva a uma aventura imensa .

 LAM - Alm da poesia , voc  ensasta , tradutor , editor e transita pela msica

 e pelas artes plsticas .
 Como se d essa multiplicidade de atividades ?

 FM  tudo coisa do poeta , fruto de sua paixo intensa pela vida .
 Evidente que

 h uma autocrtica acerca de tudo isto , ou seja , no me vers a fazer filmes ou

 escrever romances , por exemplo .
 Algo me diz que eu seria uma completa nulidade

 em tais reas .
 Mas na adolescncia j me acreditei msico e ainda hoje penso em

 escrever para teatro .
 Essa espcie de gula por vezes  complicada .
 Ressinto-me

 dela pela falta de tempo para concretizar uma srie de projetos que vo se

 amontoando .

 LAM - Vamos para o ensasta : voc tem destinado ensaios ao Surrealismo e aos

 poetas latino-americanos .
 Que avaliao voc faz do Surrealismo na Amrica

 Latina ?

 FM Venho atravs de alguns livros tentando fazer justamente essa avaliao

 sinptica que me pedes .
 O que  radical no Surrealismo no se desfaz .
 Creio que

 Argentina , Chile e Canad tenham sido mais felizes na afirmao de uma leitura

 outra a partir dos postulados do Surrealismo parisiense .
 Contudo , recuperar a

 presena do Surrealismo implica em saber-se parte dele , fazer-se crtico de si

 mesmo .
 E a tua pergunta teria que ser mais especfica .

 LAM - Voc j traduziu Lorca , Guillermo Cabrera Infante , Alfonso Pea , dentre

 outros .
 Fale um pouco do seu trabalho de tradutor .

 FM No tenho a traduo no sentido de recriao que lhe  dado .
 Por vezes

 cheguei a pensar que tal idia no fosse alm de uma sncope do ego .
 Para mim ,

 traduzir  participar do mundo .
 Fazer com que esses autores todos citados por

 ti sejam finalmente lidos por quem no sabe portugus .
 No tenho sobre a

 traduo seno uma viso funcional .
 Se quero me aplicar ao malabarismo esteta ,

 ento vou invocar lnguas inexistentes e no praticar um bailado sobre o j

 escrito que distora suas intenes .
 Se quero , por exemplo , escrever a partir

 de cummings trato de faze-lo sem dizer que estou a traduzi-lo .
 Qualquer forma

 de distoro da realidade  criminosa .
 Recusa-la , sim , opor-se a ela , sempre ,

 mas nunca distorc-la para atender a um capricho .

 LAM - Voc escreveu a biografia do Alberto Nepomuceno .
 O que motivou tal

 trabalho e qual a receptividade que voc encontrou ?

 FM Estava surgindo uma editora no Cear e o editor , Lira Neto , havia desenhado

 algumas colees para essa sua primeira aventura editorial , dentre elas uma

 srie de biografias .
 Ao me convidar para escrever sugeri o Nepomuceno , um dos

 nomes fundamentais nesse enlace entre msica erudita e popular no Brasil .
 O

 Nepomuceno teve a infeliz idia de morrer dois anos antes da Semana de Arte

 Moderna e o jovem Villa-Lobos acabou tornando-se a chave de entrada na

 modernidade na msica brasileira , o que  bastante discutvel .
 O livrinho que

 escrevi , embora sendo o primeiro documento biogrfico existente sobre

 Nepomuceno ,  algo que se pode chamar de primrio , no sentido de que coloca ali

 quase que apenas pontualmente uma srie de assuntos que seguem necessitando uma

 discusso mais ampla .

 LAM - Como editor voc trouxe o Resto do Mundo , Xilo , mantendo at hoje a Banda

 Hispnica do Jornal de Poesia e a co-edio com Claudio Willer na Agulha .
 Fala

 um pouco disso .
 Principalmente sobre a trajetria da Agulha , como se deu e as

 perspectivas da revista .

 FM Mantm-se o princpio de trazer  luz aspectos culturais expressivos e que

 por alguma razo tenham se mostrado como imperceptveis ou que encontrem

 dificuldades outras de entrada em cena .
 Claro que isto inclui tambm leituras

 crticas distintas sobre assuntos j recorrentes .
 Resto do Mundo me faz lembrar

 a grande parceria que tive com o poeta Srgio Campos , notvel poeta j falecido

 e hoje completamente esquecido .
 A Xilo foi uma parceria valiosa com outro

 grande poeta , Adriano Espnola , projeto malogrado por ingerncia da empresa que

 nos contratou .
 A Banda Hispnica  fruto da generosidade do Soares Feitosa , do

 Jornal de Poesia , e justamente agora estamos buscando condies para uma

 ampliao deste projeto .
 Veja bem , o Jornal de Poesia  a maior fonte de

 referncia , em termos de poesia de lngua portuguesa , que existe no chamado

 mundo virtual .
 No se trata da habitual e auto-corrosiva megalomania cearense ,

 com a qual no compactuamos , Soares e eu , mas sim de uma constatao que vem

 inclusive da parte do Instituto Cames , em Portugal .
 Dentro deste universo , com

 o mesmo esprito , queremos ampliar a Banda Hispnica , para que venha a

 desempenhar igual funo .

 LAM - Falando da revista Agulha , como a Internet tem contribudo para a difuso

 do trabalho da revista e para a sua obra ?

 FM A Internet ainda  de uma extrema precariedade no Brasil .
 No a percebemos

 em sua real medida , e o lixo virtual ainda  predominante entre ns .
 Basta

 fazer , por exemplo , uma pesquisa sobre governos eletrnicos que se entender o

 que digo .
 A raiz disso tudo  que no compreendemos ainda a cultura como um

 valor intrnseco .
 Somos o que temos e no o que somos .
 Este  um princpio que

 faz com que toda a cultura brasileira prescinda de inimigos .
 Na Agulha

 ampliamos , Willer & eu , a circulao na rede e hoje temos um mailing que atinge

 quase 100 mil leitores , em grande parte graas s parcerias inmeras que

 mantemos com outras instncias aparentadas .
 Dentre elas , cabe aqui destacar os

 cmplices mais presentes - TriploV ( Portugal ) e Al Msica ( Brasil ) - ,

 respectivamente conduzidos por Maria Estela Guedes e Solange Castro .

 LAM - Que projetos Floriano Martins tem por realizar ?

 FM Seguir vivendo .
 Abraxas

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