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 Floriano Martins

 < florianomartins@rapix.com.br >

 Surrealismo

 Crdito da foto : Andr Nunes ( Brasil , 2004 )

 Surrealismo & Brasil

 Floriano Martins

 Em agosto de 2001 , escreveu o jornalista Srgio Augusto que dois dos mais

 notrios apstolos do surrealismo no Brasil , Ismael Nery e Murilo Mendes , no

 s acreditavam em Deus como iam  missa aos domingos onde vez por outra

 comungavam ao lado de um e outro comunista , pois no h limites para o absurdo

 neste pas irremediavelmente surreal .
 Lembrava ainda Srgio Augusto que , de

 qualquer modo , nosso maior pensador catlico , Alceu Amoroso Lima , nem esperou a

 tinta do primeiro manifesto de Breton secar direito para excomung-lo. [ 1 ]

 Temos aqui uma ambientao da complexidade que seria a presena do Surrealismo

 em terras brasileiras .
 No so raros os momentos em que Surrealismo e

 catolicismo protagonizaram alguma polmica em nossa cultura .
 Quando em 1934

 Flvio de Carvalho teve tanto uma exposio quanto a montagem de uma pea

 interditadas pela polcia , declarou , como recorda Rui Moreira Leite , que

 catlicos tradicionalistas teriam sido os responsveis pela interveno da

 Delegacia de Costumes , tanto no Teatro da Experincia quanto na exposio  rua

 Baro de Itapetininga. [ 2 ] E o crtico Carlos Lima chega a afirmar que em Ismael

 Nery , Jorge de Lima e Murilo Mendes vemos a influncia surrealista se dissolver

 em um catolicismo radical , que pretendia restaurar a poesia em Cristo ,

 concluindo enfaticamente que todos trs so grandes artistas , mas no tm nada

 a ver com o surrealismo !.
 [ 3 ]

 No resta dvida quanto ao fato de que vivemos em um pas catlico , mesmo

 considerando as oscilaes desse catolicismo nos dias de hoje .
 Contudo , isto

 no quer dizer que no tenha se verificado , entre ns , a presena do

 Surrealismo .
 Significa apenas que seus obstculos foram de natureza distinta

 daqueles encontrados em outros pases , o que resulta em uma aclimatao

 igualmente distinta .
 Basta pensar no quanto o Surrealismo era repudiado por

 Alceu Amoroso Lima e na conseqente maneira como esse repdio interferiu na

 formao de nossa cultura .
 Acrescente-se a isto que o Modernismo no Brasil era

 pautado por duas aes estratgicas peculiares , o seqestro da realidade

 cultural em Mrio de Andrade e a antropofagia de Oswald de Andrade .
 Ambos

 ficaram a dever em honestidade intelectual no sentido de fazer referncias s

 fontes onde foram tecer suas bandeiras essenciais .
 A escrava que no era

 Isaura , de Mrio de Andrade , traa um percurso de identificaes com as

 preocupaes essenciais do Surrealismo e , no entanto , como bem recorda Carlos

 Lima , no h ali nenhuma palavra sobre Breton que , no mesmo ano em Paris ,

 publicava o primeiro manifesto do surrealismo e fazia de Rimbaud o ponto de

 partida de uma nova potica que juntava poesia e utopia .
 E logo complementa

 Carlos Lima que ele , Mrio , tinha chegado s mesmas descobertas , quilo que ele

 chamou de polifonia potica .

 Breton e Mrio de Andrade tinham pensamentos opostos acerca da analogia , por

 exemplo .
 O que em um era pleno exerccio de liberdade , no outro no passava de

 mera substituio da " coisa vista pela imagem evocada " , constituindo-se assim ,

 a analogia , segundo Mrio , em " um dos maiores perigos da poesia modernista " .

 Ele , Mrio , manifestou-se acerca da beleza apenas compreendendo a distino

 existente entre o " belo artstico " e a " beleza da natureza " , jamais percebendo

 a condio convulsiva que lhe indicara Breton .
 Havia , no geral , um certo

 acanhamento em nossa ruptura , em nossa transgresso .

 Evidente que no se encontra a o impedimento nico para um dilogo mais franco

 entre surrealismo e a elite cultural no Brasil .
 Vencida uma primeira etapa , os

 anos iniciais do Modernismo , vemos aos poucos se desvanecerem aqueles

 princpios cosmopolitas e internacionalistas que de alguma maneira norteavam a

 aventura modernista .
 A rigor o ponto central desse desvanecimento seria a

 implantao de uma ideologia nacionalista .
 Como recorda Wilson Martins , a

 conscincia nacionalista foi a atmosfera em que se envolviam todos os

 espritos , a partir de 1916 :  para o nacionalismo que enveredar o Modernismo

 logo depois da Semana de Arte Moderna , passado o seu instante cosmopolita. [ 4 ]

 Do nacionalismo exacerbado , por exemplo , do grupo Anta , ao regionalismo , que

 era um retorno  literatura realista , no houve propriamente um salto , mas

 antes uma profunda identificao .
 O que poderia ser visto como uma trajetria

 esttica , fica melhor entendido quando atentamos para as palavras de Valentin

 Facioli , ao situar que a interseco da poltica nacionalista do Estado , com a

 fora difusa , mas presente em quase todos os nveis da vida cultural letrada ,

 do positivismo , mais o peso extraordinrio da Igreja Catlica conservadora e

 mais a simpatia do Partido Comunista , operou uma mudana significativa de rumos

 na arte moderna no Brasil a partir de 1930. [ 5 ] Considerando todos estes

 aspectos , cabe ainda acrescentar que os vnculos estticos estabelecidos pelo

 Modernismo no Brasil foram muito mais fortes em relao ao Futurismo e ao

 Cubismo , do que propriamente em relao ao Surrealismo .
 Este foi penetrando em

 nossa cultura de forma indireta , tendo como pontos de costura tanto as

 afirmaes de Flvio de Carvalho , Jorge de Lima , Anbal Machado , como as

 simpatias de Pagu e Murilo Mendes e posteriormente a participao mais

 entranhvel de Maria Martins .
 Talvez se nos concentrssemos mais nesses nomes

 encontraramos um melhor ponto de defesa no exatamente de uma influncia do

 Surrealismo em nossa cultura , mas antes e este  um aspecto mais substantivo ,

 me parece de um dilogo entre partes , pois , como salienta Valentin Facioli , o

 surrealismo nos enriqueceu e ns o enriquecemos .
 De outra maneira estaramos

 aqui apenas tratando de um predomnio , o que no interessa nem ao Surrealismo

 nem  cultura em seu aspecto geral .

 De qualquer forma ,  preciso ter em conta a observao de Beln Castro Morales ,

 no sentido de que , se o surrealismo contribuiu para o encontro do artista

 americano com os estratos profundos dele prprio , este viu muitas vezes que no

 necessitava filiar-se a um movimento forneo quando podia desenvolver com

 amplitude e complexidade uma leitura pessoal de seu entorno. [ 6 ]  bastante

 razovel o que nos diz a ensasta espanhola , sobretudo se pensarmos em casos

 como os do chileno Humberto Daz-Casanueva ( 1907-1992 ) , do venezuelano Vicente

 Gerbasi ( 1913-1992 ) ou do colombiano Jorge Gaitn Duran ( 1924-1962 ) , que

 souberam reconhecer acentuada influncia do Surrealismo em sua potica sem no

 entanto vincularem-se formalmente ao mesmo .
 Naturalmente esta  uma posio

 destoante de uma recusa preconceituosa ao Surrealismo ou , o que  ainda pior , o

 comportamento discricionrio amparado em chamar para si uma ventura que no lhe

  de todo prpria .

 Caso distinto de Mrio de Andrade foi o de Oswald .
 Este propiciou inmeras

 polmicas , quase que por compulso .
 A busca das " fontes puras do primitivismo " ,

 ele entendia como possibilidade nica de despir a arte de " convencionalismos e

 sofisticaes " .
 Tento entender a idia de convencional , mas penso a que tipo de

 sofisticao nos teria levado o Futurismo to cultuado por ele .
 Claro que agia

 provocativamente ao dizer dos poetas que o sucederam : " so todos superiores a

 mim " .
 E a prpria escritura pardica que perseguia na poesia implicava ao menos

 em uma busca de sofisticao estilstica .
 Curioso  observar que , nos anos 50 ,

 despertavam a ateno de Oswald novos poetas como Thiago de Mello e Geir Campos

 o mesmo Oswald que considerava Ledo Ivo " um caso tpico do soldado do Exrcito

 do Par " .

 Talvez caiba dizer que a grande obra do Futurismo so os manifestos .
 Marcel

 Duchamp foi quem mencionou que o Futurismo era " um impressionismo do mundo

 mecnico " , ou seja , aquela coisa da retina funcionar como " uma inesgotvel

 fonte de prazer " que , no dizer de Max Ernst , caracterizava o Impressionismo ,

 vale para o Futurismo , desde que pensemos que os futuristas tinham olhos apenas

 para um mundo mecnico ( " Escutar os motores e reproduzir seus discursos " ) .

 Agora , tambm Mrio de Andrade foi um notvel autor de manifestos .
 Indagaramos

 ento : tanto em um caso como no outro , quanto se adotou pra valer , em matria

 de fazer coincidir com a ao o discurso dos manifestos ?

 A propsito de provocaes , menciono aqui uma afirmao de Claudio Willer de

 que hoje , deve-se deslocar o foco da militncia por vezes episdica para uma

 configurao de obras pautadas pela riqueza imagtica e pelo exerccio da

 liberdade de imaginao , cuja recepo  prejudicada pelo filtro de uma espcie

 de cartesianismo potico brasileiro. [ 7 ] Dei propositalmente um salto no tempo ,

 apenas para compreendermos que , se considerados os obstculos referidos ao

 incio , a militncia no foi to episdica .
 Havia um paralelismo de aes

 sobretudo no que diz respeito s artes plsticas e  ambientao da psicanlise

 e sua relao com a criao artstica envolvendo crianas e loucos , que no

 estampava uma cumplicidade explcita com o Surrealismo , mas que era claramente

 uma decorrncia do mesmo .
 Exemplo disto  possvel encontrar na publicao de

 um livro como A expresso artstica dos alienados , em 1929 , de Osrio Csar , ou

 ainda no vnculo , distinto entre si , que tiveram com essa nova atividade

 artistas como Tarsila do Amaral e Lasar Segall .

 H inmeros aspectos a serem verificados quando se est a desenhar um mapa das

 atividades afins ao surrealismo na cultura brasileira .
 Valentin Facioli

 salienta que o surrealismo foi percebido logo em 1924 por um grupo que se

 reuniu no Rio de Janeiro em torno da revista Esttica , que publicou apenas trs

 nmeros e desapareceu em 1925 .
 Os dois jovens editores , Prudente de Moraes ,

 neto , e Srgio Buarque [ de Hollanda ] , defenderam o surrealismo e polemizaram

 contra seus detratores , que j apareceram quase instantaneamente , entre eles o

 crtico catlico Tristo de Athayde. [ 8 ] Tambm Srgio Lima faz meno 

 apario polmica da revista Esttica em 1924 e a publicao na mesma do

 manifesto pelos direitos do sonho , de Srgio Buarque de Hollanda .
 Trata-se de

 uma afirmao quando menos curiosa , pois revendo os trs nmeros de Esttica

 no  possvel localizar o citado manifesto .
 Graa Aranha faz meno ao fato de

 que no h cultura coletiva no Brasil , e evoca o empenho dos editores da

 revista em modernizar , nacionalizar , universalizar o esprito brasileiro .
 Neste

 mesmo nmero inaugural , Srgio Buarque aborda a falta de tradies nas jovens

 culturas americanas , logo concluindo que resta ao homem americano , e ao

 brasileiro em particular , a imaginao esttica criada no inconsciente mtico ,

 onde ainda no foi de todo eliminado o terror csmico. [ 9 ] No me parece que em

 nenhum dos casos se possa falar de uma defesa explcita do Surrealismo ,

 sobretudo considerando que Prudente de Moraes , neto , no terceiro e ltimo

 nmero que publicou a revista , refere-se  escritura automtica como uma moda

 passageira .

 Este tipo de acrscimo a uma situao que no coincide com a realidade dos

 fatos  to danoso  construo de uma historiografia quanto seu revs , a

 no-meno a aspectos reais , de que pode ser exemplo a leitura quase sempre

 parcial que  feita da potica de Jorge de Lima , sem considerar corretamente

 sua identificao com o Surrealismo , manifesta no somente em sua poesia mas

 tambm na srie de collages que resultou na publicao de A pintura em pnico ,

 em 1943 .
 No Brasil preferiu-se o termo foto-montagem ao invs de collages , e

 Mrio de Andrade apressou-se em dizer , em 1939 , que esta tcnica no deve ser

 apenas uma variedade de poesia sobre-realista , que , por princpio mesmo , no se

 sujeita a nenhum controle esttico .
 O prprio Murilo Mendes , companheiro de

 Jorge de Lima nesta e em outras identificaes , ao prologar este livro afirma

 que o movimento surrealista organizou e sistematizou certas tendncias esparsas

 no ar desde o comeo do mundo , [ 10 ] mas em momento algum afirma um vnculo

 direto entre Jorge de Lima e Surrealismo .
 Isto nos leva diretamente ao

 surrealismo  moda brasileira , maneira encontrada por Murilo Mendes para

 definir sua identificao com o movimento .
 No entendimento de Valentin Facioli ,

 nas condies brasileiras da poca , a liberdade de escolha possvel e plausvel

 limitava-se , pois ,  escolha de tcnicas artsticas e seus efeitos , como opo

 particularizante e parcial de estilo artstico , o que era melhor que nada e

 interferia no modo de produo de sentido , mas bem pouco diante das

 possibilidades abertas pelo surrealismo como interveno nas condies sociais

 de produo , circulao e recepo da obra artstica erudita. [ 11 ] Ora , este

 melhor que nada aos poucos vai se deixando acentuar como trao essencial do

 perfil scio-cultural brasileiro , cujos danos verificamos ainda hoje na quase

 absoluta falta de compromisso diante de toda ou qualquer situao .
 Haveria

 ento uma curiosa sintonia entre surrealismo  moda brasileira e o jeitinho

 brasileiro .

 Criemos aqui um caso Jorge de Lima , apenas para esclarecer melhor a questo .

 Sempre se tratou de evocar , nele , a aproximao ao cristianismo como razo para

 negar-lhe identificao com o Surrealismo .
 Diz Srgio Lima , ao tratar deste

 tema , que a controversa converso religiosa desses dois poetas Murilo e Jorge

 de Lima , a partir de 1934 , no exclui tudo o que escreveram e produziram nos

 anos anteriores , [ 12 ] observao que carece de aprofundamento , ainda mais se

 considerada a reflexo levada a termo por Claudio Willer , a seguir :

 Em Murilo Mendes , o rtulo de poeta catlico reduz o alcance de uma lrica

 plural , na qual se encontra o que houve de inovador em seu tempo , com uma linha

 evolutiva , da poesia em Cristo de Tempo e eternidade , escrita como se fosse

 para substituir a orao , at o ganho em sntese e vigor de As metamorfoses , de

 1941 .
 Jorge de Lima , inequivocamente um poeta de etapas na criao , apresenta

 reflexes sobre a poesia no Livro de sonetos afins a idias surrealistas : No

 procureis qualquer nexo naquilo / que os poetas pronunciam acordados , / pois

 eles vivem no mbito intranqilo / em que se agitam seres ignorados .
 No

 empreendimento mximo da poesia hermtica e csmica , Inveno de Orfeu , reitera

 a idia do poeta sonmbulo , que desce a um mundo originrio , arquetpico e

 pr-verbal : Pra unidade deste poema , / ele vai durante a febre .
 Seus transes ,

 despertando no meio da noite para escrever , foram fatos biogrficos ( quem me

 falou dessas ocorrncias foi Lcio Cardoso , fonte autorizada pela amizade de

 ambos ) .
 Demonstram fidelidade  inspirao , realizando a frase de Octavio Paz :

 O poeta no se serve das palavras .
  o seu servidor .
 Tendo abraado o

 catolicismo , foi mais fundo , at a religiosidade primordial , pag ,

 indissocivel do seu apelo ao telrico. [ 13 ]

 Diante da leitura de Willer no  possvel concordar com Srgio Lima , bastando

 pensar que so posteriores a 1934 , tanto Inveno de Orfeu quanto sobretudo A

 pintura em pnico , o volume das fotomontagens. [ 14 ]  de se lamentar que este

 livro tenha cado em completo esquecimento .
 Em 1987 surge uma edio das

 collages de Jorge de Lima encontradas no acervo de Mrio de Andrade , em

 primorosa organizao de Ana Maria Paulino .
 Em estudo que lhe dedica , ao final

 do volume , Paulino destaca , em Jorge de Lima , a procura de novos meios para

 transmitir sua sensibilidade e penetrar as regies misteriosas do inconsciente ,

 refletindo nas associaes livres de sua linguagem aparentemente ilgica , um

 mundo sombroso representado por enigmas , smbolos e pressgios. [ 15 ] Tambm

 nesta edio se reproduz o prlogo de Murilo Mendes  publicao original de A

 pintura em pnico , onde , ao evocar o princpio defendido por Rimbaud de

 desarticulao dos elementos , destaca que essa desarticulao resulta , em

 ltimo caso , em articulao , sugerindo que seria instrutivo pesquisar o modo

 pelo qual este livro de Jorge de Lima se insere na sua obra , ou seja ,

 estabelecer a relao do mesmo com seus poemas , romances , ensaios e tentativas

 de quadros .
 Desta maneira evitaramos tantas observaes preconceituosas e

 infundadas em relao  potica de Jorge de Lima e , por conseqncia , a m

 interpretao , por vezes intencional , da presena do Surrealismo no Brasil .

 Aqui nos referimos apenas a dois casos que ilustram a complexidade do tema .

 Diversas outras instncias devero ser cotejadas , em oportunidade mais ampla ,

 evocando demasias tanto de ordem afirmativa quanto negativa .

 Evidente que a ausncia de filiao formal no autoriza a crtica a negar

 identificao com o Surrealismo seja em Murilo Mendes ou em Jorge de Lima , o

 mesmo valendo para inmeros outros poetas e artistas brasileiros que poderiam

 ser evocados no momento de uma reavaliao da presena do Surrealismo no

 Brasil .
 H toda uma histria subterrnea a ser desentranhada e ainda estamos

 por faz-lo .
 Ao referir-se a perodo imediatamente associado ao modernismo ,

 Claudio Willer recorda o modo como uma legtima vanguarda , intelectual e

 poltica , articulou-se , atravs de [ Benjamin ] Pret , com o surrealismo ,

 incluindo Patrcia Galvo , a Pagu , Flvio de Carvalho e Mrio Pedrosa .
 Pagu e

 Flvio chegaram a ser hspedes de Pret e sua esposa brasileira , Elsie Houston ,

 em Paris , em 1934-35. [ 16 ] Menos econmico do que Willer na meno a nomes ,

 Srgio Lima considera pertinente referir-se a Fernando Mendes de Almeida ,

 Ascnio Lopes , Rosrio Fusco , Lvio Xavier , Osrio Csar , Jamil Almansur

 Haddad , Raguna Cabral , Wagner Castro , Eros Volsia , e destaca ainda a presena

 de Raul Bopp e Tarsila do Amaral e a Revista de Antropofagia , afirmando que a

 turma da segunda dentio antropofgica acolheu Pret e representou a nica

 vertente que se ops aos nacionalismos despregados pelas movimentaes

 vanguardistas do momento no modernismo brasileiro. [ 17 ]

 Nos anos 60 , dentro do que Srgio Lima considera um segundo perodo de

 identificao do Surrealismo na cultura brasileira , temos a formao de um

 grupo ( 1965 ) e a realizao de uma exposio internacional ( 1967 ) .
 Ao remeter a

 este momento , escreve o poeta Contador Borges que tanto a poesia de [ Roberto ]

 Piva quanto a de [ Claudio ] Willer so poticas do apocalipse , testemunhas desse

 momento universal da poesia revolta vivido pela modernidade , logo lembrando ser

 possvel citar outros poetas brasileiros que tambm criaram suas obras sob este

 impacto , como Srgio Lima , que faz do poema uma topografia pantesta do corpo

 erotizado , e Rodrigo de Haro , de fatura mais lrica e contida , em que os versos

 parecem escandidos por uma navalha oculta , que repentinamente surge nas mos do

 poeta. [ 18 ] A exemplo do que houve no primeiro perodo , tambm aqui a crtica 

 exgua e por vezes intencionalmente leviana .
 Como observei em O Comeo da

 Busca , crticos como Jos Paulo Paes e Gilberto Mendona Teles foram falhos em

 uma brevssima abordagem deste no-captulo de nossa historiografia literria .

 Mendona Teles , em entrevista que lhe fiz em 1994 , declarou no haver-se

 reportado  revista A Phala , por exemplo , no livro Vanguarda europia e

 modernismo brasileiro , por desconhecimento .
 Ao publicar A escriturao da

 escrita ( 1996 ) observa o Surrealismo pela mesma tica de Jos Paulo Paes ,

 validando to-somente o carter programtico , reduzindo-o  categoria dos

 ismos , sem perceber a fundamental importncia dos desdobramentos em diversas

 culturas , assim como seu inegvel vetor revolucionrio , inclusive de natureza

 extra-literria , como salienta o prprio Srgio Lima. [ 19 ] Limitam-se a tratar o

 Surrealismo como a escola que nunca foi , situando a apario tardia do mesmo

 entre ns .

  possvel comentar ainda que em 1938 Flvio de Carvalho , na apresentao do II

 Salo de Maio , em So Paulo , como bem recorda Srgio Lima , ir precisar que se

 trata de um movimento e no de mais uma exposio [ 20 ] , ou mesmo a adeso

 pblica ao Surrealismo da parte de Anbal Machado .
 No entanto , o Surrealismo s

 entra na pauta oficial de nossa historiografia como uma ambientao tardia ,

 considerando a criao de um primeiro grupo nos anos 60 , justamente a partir de

 Srgio Lima .
 J em 1930 Breton nos levava a recordar que o surrealismo busca

 simplesmente a recuperao total de nossa fora psquica por um sistema de

 descida vertiginosa em ns mesmos , na iluminao sistemtica dos lugares

 ocultos , no escurecimento progressivo dos demais lugares e no passeio perptuo

 pela plena zona proibida. [ 21 ] No se requer propriamente uma ao coletiva ,

 decerto .
 Nem se pode vincular a idia de movimento  de um colegiado onde todos

 seguem a rigor uma orientao central .
 Os erros decorrentes de uma ortodoxia

 surrealista so bastante claros neste sentido .
 Mas enfim , oficialmente o

 Surrealismo chega ao Brasil com o estabelecimento , em 1965 , de um grupo

 surrealista em So Paulo , capitaneado por Srgio Lima , que j aderira ao grupo

 parisiense em 1961 , quando de sua residncia na Frana .
 Adeses similares j

 havamos tido com Flvio de Carvalho e Maria Martins , por exemplo , sem que em

 nenhum dos casos houvesse uma disposio por fundar uma sucursal surrealista no

 Brasil .
 Ao faz-lo , Srgio Lima evoca para si todos os paradoxos decorrentes de

 uma aproximao entre duas realidades quase antagnicas , ou seja , estava aqui a

 tentar reproduzir aquele cenrio do encontro fortuito de uma mquina de costura

 com um guarda-chuva sobre uma mesa de cirurgia .
 Talvez o que lhe tenha faltado

 foi a indagao , no sentido de atualidade da insurgncia , de qual sentido

 deveria apontar a poesia ento .
 Em mbito nacional , da presso catlica

 havamos passado  presso militar , embora j em 1924 , Graa Aranha tenha dito

 que no Brasil s h uma classe organizada , a classe militar , logo afirmando ,

 como j ressaltei , a inexistncia de uma cultura coletiva , avaliando que as

 populaes jazem afundadas na ignorncia selvagem , de que o animismo fetichista

  a expresso viva , a feio pitoresca que o diletantismo literrio explora e

 no quer ver substituda pela civilizao. [ 22 ] O rito de passagem no foi seno

 um passar o basto , por assim dizer .
 Ao que parece o que faltava nos exemplos

 dados at aqui havia em correspondente excesso em Srgio Lima , ou seja , ao

 tentar recuperar distores , ao dar corpo a uma indignao intrinsecamente

 vlida , acabou por envolver-se demasiado com uma ortodoxia que j enfrentava

 discusses internas no prprio ncleo parisiense .
 Srgio repetia a cartilha de

 Breton em uma circunstncia onde melhor caberia sua atualizao .
 H um

 depoimento de Claudio Willer , em entrevista que lhe fez Roberto Piva , que

 propicia algum esclarecimento .
 Diz Willer que , na verdade , ns ramos um grupo

 surrealista desde quando nos conhecemos .
 O Piva j conhecia bem , o Piva

 colecionava o surrealismo , a revista La Brche , por exemplo .
 Poesia surrealista

 foi uma coisa seminal e formadora para todos ns .
 Agora , em 63 , o Srgio Lima

 veio de Paris , havia feito estgio de um ou dois anos na Cinemateca Francesa e

 participou pessoalmente , diretamente , do movimento surrealista .
 Conheceu Andr

 Breton , subscreveu manifestos surrealistas , correspondeu-se com Breton e teve

 contato com ele at sua morte em 66 .
 Ento , houve um perodo em que ns nos

 reunamos em grupo , regularmente , uma ou duas vezes por semana , em um bar , no

 estilo surrealista .
 Isso , essa fase sistemtica de grupo , durou at 64 .
 O grupo

 explodiu , e eu acho que ns no poderamos e nunca conseguiramos formar o tipo

 de movimento do surrealismo .

 A referncia a grupo aqui  no sentido informal , cumpre esclarecer .
 Trata-se de

 um ncleo que serviria de base para a formao do primeiro grupo surrealista

 afirmado como tal , embora apenas o Srgio Lima viesse a participar dele , como

 seu fundador e principal articulador .
 Retornemos ao depoimento de Willer ,

 bastante significativo : Acho o surrealismo fundamental em dois nveis : como

 criao , e isso  o que realmente importa , a criao potica ; e como movimento

 de idias , como prosseguimento da rebelio romntica e tentativa de unir a

 rebelio romntica  transformao da sociedade .
 A juno do mudar a vida com o

 transformar a sociedade , de Rimbaud e Marx .
  um movimento de idias que teve

 mudanas ao longo do sculo , e que  fundamental .
 De tudo o que aconteceu

 naquele perodo vanguardista do comeo do sculo , evidentemente foi o movimento

 mais significativo , mais importante , e , disparadamente , o mais consistente. [ 23 ]

 Ao contrrio do que se possa pensar , Claudio Willer e Roberto Piva jamais

 integraram o grupo surrealista oficialmente dado como existente entre 1965-69 ,

 o qual , no dizer de Srgio Lima , se responsabiliza por toda uma srie de

 atividades coletivas , indo de panfletagem , edio de plaquetas , livros ,

 testemunhos pblicos , exposies e um manifesto , publicado em editorial na

 Phala # 1 ( redigido em conjunto por mim e Aldo Pellegrini ). [ 24 ] A raiz do

 impedimento da adeso formal de ambos , Piva e Willer , ambientava certa reserva

 da parte do prprio Breton em aceitar desdobramentos do Surrealismo , de que

 poderiam ser exemplos tanto o abstracionismo como a exploso da Beat Generation

 e da contra-cultura .
 No Brasil , coincidindo com uma reafirmao formalista , sua

 radicalizao extrema , o surgimento do Concretismo , este teria sido um momento

 ideal para uma recusa quele referido esprito do melhor que nada j aqui

 referido .
 Nada mais coerente com o sentido de recusa total que adotaram , por

 exemplo , os canadenses , na afirmao de um Surrealismo que em circunstncia

 alguma pode ser entendido como segmento de uma ortodoxia .
 Em entrevista que fiz

 ao crtico de arte canadense Andr Lamarre , por exemplo , ele menciona que o

 Refus Global e a corrente de pensamento que o prolonga tentam , por uma parte ,

 ligar-se a uma concepo original do surrealismo e , por outra parte , faz-la

 progredir , isto  , lev-la at seus limites .
 Entre as noes fundamentais do

 surrealismo , Borduas assinala a importncia moral do ato no preconcebido .

 Refus Global formula uma crtica da razo e da inteno que bloqueiam o

 desenvolvimento humano. [ 25 ] Refus Global  justamente o nome que leva a

 principal formao grupal surrealista no Canad , tendo  frente Paul-mile

 Borduas .

  bom reforar aqui que essa recusa  qual aludo sempre foi reafirmada pelo

 prprio Srgio Lima , considerando sua defesa de que o surrealismo  a exigncia

 maior do esprito humano , erguida frente ao desencanto do mundo , da realidade

 dada , e contrape seu querer s acomodaes e convenes , que contrape ,

 portanto , o homem do desejo desejante ao sistema racionalista e restritivo do

 progresso e da modernidade , instaurando um retorno , uma abertura sobre o

 moderno e que passa pelo passado : em um processo aberto de busca permanente , na

 prpria imanncia de mais realidade e sua revoluo , no de sua reforma. [ 26 ]

 Em agosto de 1967 se publica ento o nmero inaugural da revista A Phala ,

 apresentada tanto como revista do movimento surrealista quanto catlogo da 1 ^ a

 exposio surrealista tendo por temas a mo mgica e o andrgino primordial .
 O

 editorial , embora tenha sido escrito , segundo Srgio Lima , por ele e o

 argentino Aldo Pellegrini , no traz assinatura alguma .
 Lemos ali que o

 surrealismo  o movimento organizador do pensamento revolucionrio que tende a

 uma reivindicao absolutamente moderna do sagrado .
 Os trs pargrafos

 seguintes so esclarecedores das relaes entre Brasil e Amrica Hispnica ,

 merecedores portanto de reproduo na ntegra :

 No mbito americano e , em particular , latino-americano , as manifestaes

 isoladas e a prpria estrutura natural das foras imanentes do meio , onde

 brilha o corao selvagem , o Surrealismo se apresenta como uma conscincia

 primeira , daquele que seria o ponto capital para todo um desenvolvimento de

 liberao do esprito , que tende a desencadear as foras mgicas .

 Entre ns , os movimentos mais significativos se orientaram sempre em duas

 vertentes comuns , a plstica e a potica .
 As expresses relacionadas com a

 poesia , desde seu comeo , estiveram vinculadas em geral a manifestaes

 plsticas , no profissionais .

 As vozes propcias que nos chegam de pontos do Mxico , da Argentina , do Chile ,

 do Brasil , do Peru , da Colmbia , do Equador , da Venezuela e do Haiti , o

 encantamento das vozes que ainda nos chegam da tradio damour da faixa

 equatorial do globo , nos propem uma linguagem excepcionalmente nica , e

 pura. [ 27 ]

 Ser bastante recordar as palavras de Ren Char , para quem a poesia se

 incorpora ao tempo e o absorve , para compreendermos o que havia de impossvel

 no Surrealismo defender a existncia de uma linguagem pura , conceito este que

 vinha j sendo discutido em outro mbito .
 A propsito , diria que , ao contrrio

 de Pierre Reverdy , me parece que estava mais correto Adolfo Casais Monteiro , ao

 defender que a imagem no  uma criao pura do esprito , pela simples razo de

 no haver criaes puras do esprito. [ 28 ] No caso de A Phala , revista e

 exposio do mais sinais de relacionamento com Frana e Portugal do que

 propriamente com Amrica Latina .
 A presena de Aldo Pellegrini , o argentino que

 desde o final dos anos 20 tratou de ser um profundo defensor e difusor das

 idias surrealistas , no deixa de ser de imensa importncia .
 A princpio ,

 estava assim oficializada a entrada do Surrealismo no Brasil , e com o apoio

 internacional de nomes como Jos Pierre , Mrio Cesariny de Vasconcelos , Aldo

 Pellegrini e Elisa Breton , esta ltima dando continuidade ao apoio de seu

 marido , que morrera no ano anterior .
 Os contatos com o continente americano

 eram quando muito ocasionais , de modo que o movimento acabou se dispersando .

 Tambm internamente se deram alguns afastamentos , a exemplo de Ral Fiker ,

 Paulo Antonio de Paranagu , Maninha Cavalcanti , Leila Ferraz e Carlos Felipe

 Saldanha .
 Srgio Lima observa que , mesmo considerando algumas novas adeses ,

 elas no foram suficientes para a formao de um novo grupo , visto que faltava

 a cristalizao de um segundo momento [ ] e as conseqentes tomadas de posio

 que implicavam [ ] a retomada da aventura surrealista. [ 29 ]

 Defende Valentin Facioli que muito da inviabilidade do surrealismo nos nossos

 pases e aqui se reporta  Amrica Latina tem a ver com a qualidade da

 democracia burguesa que vivemos , ou sofremos , pois que ele no se ps nunca

 como vanguarda artstica , e sim como prxis vital , a qual foi reprimida ,

 impedida ou deformada ao extremo por aqui. [ 30 ] Em muitos casos , na Amrica

 Latina , o Surrealismo esteve presente justamente em um ambiente que no se

 poderia jamais chamar de democrtico .
 Talvez a distino que se deva traar em

 relao ao caso brasileiro seja a de que entre ns o Surrealismo jamais se

 firmou como uma reao ao poder institudo .
 Este sentido de rebelio contra o

 establishment  possvel detectar no Chile e tambm no Canad .
 Ocorreu na

 Venezuela e no Haiti .
 Mas no ocorreu no Brasil .
 O Surrealismo capitaneado por

 Srgio Lima no definiu barreiras contra o poder estabelecido , no representou

 nenhuma espcie de resistncia ao mesmo .
 Sequer o considerou , pois se ausentava

 no tempo e no espao do que eventualmente pudesse se chamar realidade

 brasileira nos anos 60 .
 Os afastamentos foram quase todos decorrentes de uma

 perda de interesse nessa forma curiosa de autismo .
 Houve um erro fundamental ,

 da parte de Srgio Lima que , a despeito de importncias capitais que tenha em

 relao  compreenso e difuso do Surrealismo no Brasil , no soube perceber o

 que havia de latente na cultura brasileira naquele instante , preferindo seguir

 a trilha de uma ortodoxia que j havia sido superada em manifestaes situadas

 em pases como Venezuela , Canad , Chile , Peru , Estados Unidos .

 Ao retomar as atividades grupais , logo no incio da ltima dcada do sculo

 passado , mesmo considerando dilogos estabelecidos com grupos existentes em

 pases como Argentina , Espanha e Estados Unidos , o fato  que internamente os

 novos integrantes deste segundo grupo surrealista , em grande parte , no

 possuam uma identificao to forte , seja na essncia ou na forma , com o

 Surrealismo , sobretudo uma compreenso do papel que ainda lhe caberia

 representar contemporaneamente , de maneira que a disperso mostrava-se como

 inevitvel , muito embora tenha havido , a ttulo de contribuio factual , a

 realizao de algumas exposies e a publicao de uma revista , Escrituras

 Surrealistas .
 Dentre os mais interessados em no se perder nas teias do tempo ,

 ciente de que s  possvel ser agora , encontra-se o arquiteto Fernando Freitas

 Fuo , cujo empenho em provocar depoimentos dos demais participantes , como se

 estivesse ali a compor uma cartografia emocional daquele ambiente em que nos

 afirmvamos como surrealistas , foi o que mais me despertou ateno .

 Ao largo desta nossa conversa diversas vozes so citadas , o que de alguma

 maneira prope a recolha de uma bibliografia dispersa , sobretudo no que diz

 respeito a material de imprensa , quase sempre em rgos de raro acesso .
 Isto se

 passa sempre em relao queles temas que ou no so de grande interesse ou

 cujo interesse maior  abaf-los , evitando-lhes assim compreenso e natural

 desdobramento .
 Em nosso caso , no me parece que a razo principal seja o

 Surrealismo ou seja , h um componente na cultura brasileira que a leva a

 ausentar-se de si mesma , a sentir vergonha do que  em essncia , e o mais

 curioso  que sua essncia  de uma grandeza imensa .
 J citei aqui a espanhola

 Castro Morales , mas quero uma vez mais a ela me referir , quando diz que o

 interesse dos surrealistas europeus pelas culturas que hoje identificamos como

 da alteridade ou da outridade , se explica por sua reivindicao do no

 normativo : os loucos , o ocultismo , o subconsciente , a sexualidade , os sonhos , o

 maravilhoso , e ento nos d um cheque-mate , afirmando que todos esses elementos

 que foram matria da investigao surrealista conformam o conjunto de uma

 realidade excluda do cannico , e o primitivismo e o gosto pelo selvagem se

 incluem na explorao de uma cultura rejeitada , submergida. [ 31 ]

 A miscigenao cultural que tanto prefiguraria o destino dos povos americanos ,

 referida por nomes como o mexicano Jos Vasconcelos , o peruano Jos Carlos

 Maritegui ou mais recentemente o brasileiro Darcy Ribeiro , no teve entre ns

 a considerao que merecia , de maneira que temos uma compreenso bastante

 estratificada de nossa realidade cultural e sequer a conseguimos pensar em sua

 relao ntima , por exemplo , com a hispano-americana .

 Finalizo recordando passagem de uma recente entrevista com Roberto Piva , onde

 ele afirma que O dionisismo  uma das religies mais profundas que j

 existiram .
 Basta ver que uma das suas manifestaes produziu o teatro .
 Quer

 mais do que isso ?
 Dionsio  o deus do teatro .
 As artes da aparncia

 empalideceram diante de uma arte que proclamava a sabedoria na sua prpria

 embriaguez. [ ] Vivemos num pas profundamente dionisaco , onde os intelectuais

 tm preconceito contra as manifestaes espontneas , criativas .
 Mesmo o fato de

 me enquadrarem na poesia marginal , dos anos 70 , tem a ver com isso .
 Eu no sou

 dos anos 70 e no sou marginal ; sou marginalizado .
 E por no ter pactuado com a

 universidade , com uma certa esquerda , por no participar das rodas literrias ,

 nem dos " chs-da-cinco " , aos poucos fui sendo excludo. [ 32 ]

 Este  o ponto .
 Identificando-se com o futurismo , o existencialismo , o

 surrealismo ou mesmo o nazismo , via integralismo , os brasileiros compreendem a

 si razoavelmente pouco ou no de todo suficiente para afirmar ao menos uma

 simpatia .
  uma ttica camalenica , ao que parece .
 A qualquer momento um regime

 de posio pode causar indisposio , e disto ns entendemos , do trocadilho

 semntico que infesta nossa poesia desde um parnasianismo cannico adotado em

 carter de perpetuidade .
 Somos formalistas por natureza .
 Nada nos interessa em

 essncia .
 Mesmo os nossos surrealistas incorreram em tais disparates .

 _______________________

 [ 1 ] Surrealismo , uma loucura que no deu muito certo no Brasil .
 Caderno 2 ,

 jornal O Estado de S. Paulo .
 18/08/2001 .

 [ 2 ] Flvio de Carvalho , artista plstico e animador cultural .
 Publicao

 virtual no stio da University of Essex .

 [ 3 ] Vanguarda e utopia surrealismo e modernidade no Brasil .
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 Sempre # 9 .
 Rio de Janeiro .
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 [ 4 ] A idia modernista .
 2 ^ a. edio .
 Ed. Topbooks .
 Rio de Janeiro .
 2002 .

 [ 5 ] Modernismo , vanguardas e surrealismo no Brasil .
 Conferncia proferida no

 colquio Surrealismo Nuevo Mundo .
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 Outubro de 1992 .

 [ 6 ] El surrealismo en Amrica Latina : la revelacin de la alteridad. Revista La

 Pgina # 11 y 12 .
 Tenerife .
 1993 .

 [ 7 ] Histria subterrnea .
 Revista Cult # 50 .
 So Paulo .
 Setembro de 2001 .

 [ 8 ] Modernismo , vanguardas e surrealismo no Brasil .
 Ob .
 Cit .

 [ 9 ] Um homem essencial .
 Revista Esttica # 1 .
 rio de Janeiro .
 Setembro de 1924 .

 [ 10 ] Nota liminar , prlogo de A Pintura em pnico .
 Rio de Janeiro .
 1943 .

 [ 11 ] Modernismo , vanguardas e surrealismo no Brasil .
 Ob .
 Cit .

 [ 12 ] Notas acerca do movimento surrealista no Brasil .
 Ob .
 Cit .

 [ 13 ] Histria subterrnea .
 Revista Cult # 50 .
 So Paulo .
 Setembro de 2001 .

 [ 14 ] As edies originais de A pintura em pnico e Inveno de Orfeu datam ,

 respectivamente , de 1943 ( Tipografia Luso-Brasileira ) e 1952 ( Livros de

 Portugal ) , ambos tendo prlogos assinados por Murilo Mendes .

 [ 15 ] O poeta inslito .
 Instituto de Estudos Brasileiros .
 Universidade de So

 Paulo .
 1987 .

 [ 16 ] Histria subterrnea .
 Ob .
 Cit .

 [ 17 ] Notas acerca do movimento surrealista no Brasil .
 Ob .
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 [ 18 ] Surrealismo & poticas do apocalipse .
 Revista Cult # 50 .
 So Paulo .

 Setembro de 2001 .

 [ 19 ] O Comeo da Busca ( O surrealismo na poesia da Amrica Latina ) .
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 Editora .
 So Paulo .
 2001 .

 [ 20 ] Os anos modernistas de Flvio de Carvalho .
 Revista Xilo # 1 .
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 Setembro de 1999 .

 [ 21 ] Fantasias de um poeta .
 Suplemento em Rotogravura # 146 .
 jornal O Estado de

 S. Paulo .
 Novembro de 1939 .

 [ 22 ] Esttica 1924-1925 .
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 Rio de Janeiro .
 1974 .

 [ 23 ] Meditaes de emergncia .
 Revista Agulha # 32 .
 Fortaleza / So Paulo .
 Maio

 de 2003 .

 [ 24 ] Notas acerca do movimento surrealista no Brasil ( da dcada de 20 aos dias

 de hoje ) .
 In : LWY , Michael .
 A estrela da manh ( Surrealismo e marxismo ) .
 Ed .

 Civilizao Brasileira .
 Rio de Janeiro .
 2002 .

 [ 25 ] Dilogos sobre Surrealismo no Canad .
 Entrevista concedida a Floriano

 Martins .
 Revista Agulha # 36 .
 outubro de 2003 .

 [ 26 ] Prefacio o porta-relmpago. Revista La Pgina # 11 y 12 .
 Tenerife .
 1993 .

 [ 27 ] Editorial .
 Revista A Phala # 1 .
 So Paulo .
 Agosto de 1967 .
 Originalmente

 em espanhol .

 [ 28 ] A palavra essencial .
 Editorial Verbo .
 Lisboa .
 1972 .

 [ 29 ] Notas acerca do movimento surrealista no Brasil ( da dcada de 20 aos dias

 de hoje ) .
 Ob .
 Cit .

 [ 30 ] Modernismo , vanguardas e surrealismo no Brasil .
 Ob .
 Cit .

 [ 31 ] El surrealismo en Amrica Latina : la revelacin de la alteridad .
 Ob .
 Cit .

 [ 32 ] Entrevista com o escritor Roberto Piva .
 Concedida a Fbio Weintraub .

 Revista Cult # 34 .
 So Paulo .
 Maio de 2000 .

 El viejo incendio en una nueva antologa

 Adriano Corrales

 Un nuevo continente ( Antologa del surrealismo en la poesa de nuestra

 Amrica ) , de Floriano Martins .
 Ediciones Andrmeda .
 San Jos , Costa Rica .
 2004 .

 Siempre hemos considerado que el surrealismo fue un movimiento artstico

 eminentemente europeo .
 Incluso muchos creadores latinoamericanos que

 participaron del mismo en sus aos de apogeo , caso de Alejo Carpentier , se

 alejaron conceptualmente por considerar que Nuestra Amrica posea su propio

 suprarealismo y no necesitbamos de metodologas psquicas como " la escritura

 automtica " , dando pie al Realismo Maravilloso , o Mgico , que colocara en

 primer plano a nuestra narrativa , pero que tanto dao le ha infringido al arte

 y literaturas latinoamericanos en su terca permanencia comercial y

 " posmoderna " .

 No obstante , y Floriano Martins en la introduccin de la Antologa en resea ,

 se encarga de recordrnoslo , algunos autores latinoamericanos como Aldo

 Pellegrini , Octavio Paz y Luis Cardoza y Aragn , por mencionar tres de los ms

 importantes , replantearon la importancia del movimiento el cual introduca , en

 el mbito de la poesa moderna , la idea de la creacin potica como un bien

 comn y como expresin autntica de su tiempo , adems de la libertad creadora y

 la ampliacin de lo real como condiciones sine quanun para su consecucin .
 Por

 eso , ms all , o ms ac , de los incendiarios Manifiestos de Breton y sus

 antolgicas polmicas y purgas , el Surrealismo fue el movimiento artstico

 europeo que ms profundamente calara en nuestras literaturas del siglo XX ,

 tanto que hoy todava detectamos , en variadas expresiones , su potente

 influencia en mltiples artistas y poetas americanos .

 Contrario a lo planteado por Carpentier , o dialgicamente complementario , los

 diversos planos en que se desdobla el Surrealismo en nuestras tierras , como un

 rechazo a la alienacin ( Aim Csaire , Martinica , 1913 ) , y como un recurso

 imprescindible para mostrar el lado oscuro de la luna , o la invisibilidad del

 rostro en culturas primigeniamente mgicoreligiosas , es un reforzamiento de lo

 que un grupo de visionarios en el Pars de entreguerras intuye como la cada de

 la racionalidad occidental. Podra decirse entonces , con Enrique Gmez - Correa

 ( Chile , 1915 , 1995 ) , que la poesa americana lleg al surrealismo " como un

 desarrollo orgnico " .
 O al revs , " que no es lo mismo , pero es igual " ( Silvio

 Rodrguez , Cuba , 1946 ) .
 ( He citado a Silvio Rodrguez , el clebre cantautor

 cubano , al cual , segn mi criterio , ya es hora de que se le reconozca como

 poeta , cuya poesa es tambin deudora , en mucho , del Surrealismo ) .

 Por esa razn una Antologa como la que propone el poeta e investigador

 brasileo Floriano Martins es ms que necesaria y oportuna .
 Porque no se trata

 de historizar el Surrealismo en nuestras tierras , sino de evidenciar su perenne

 continuidad en un continente que se busca a s mismo en los otros desde

 siempre. Recoger en un libro a 30 autores , pasando por poetas insignes como

 Enrique Molina ( Argentina , 1910 , 1996 ) , Juan Calzadilla ( Venezuela , 1931 ) o

 Ral Henao ( Colombia , 1944 ) , por mencionar tres de los ms reconocidos por el

 pblico , es una labor pionera que nos coloca frente a la pluralidad de voces en

 el discurrir de su conciencia potica .

 Pero lo extraordinario de la propuesta editorial es que el antlogo se la

 dedique a Max Jimnez , ese enorme poeta y artista costarricense , posiblemente

 el ms representativo del siglo XX , incomprendido por su poca y el ego

 tpicamente tico que desdea lo innovador y contestatario. Y que adems nuestra

 gran Eunice Odio ocupe el lugar que le corresponde en el fluir de las letras

 americanas .
 Y ms an : que el libro haya sido ilustrado magistralmente por el

 artista tambin costarricense Fabio Herrera , el cual nos ofrece , adems del

 mismo Floriano Martins y el suyo propio , los retratos de los poetas con una

 caracterizacin ciertamente iluminadora .

 Debo decir , para finalizar , que Ediciones Andrmeda , se ha puesto una flor en

 el ojal , no solamente porque nos entrega una seleccin rigurosa de poesa

 americana sustentada por un enjundioso estudio de su compilador , sino porque

 tambin nos entrega un objeto / libro hermoso y bien diseado , cumpliendo con su

 cometido de entrelazar las artes visuales con la literatura en su " Taller de la

 Imaginacin " ; algo inusitado y original en nuestro medio editorial y un sueo

 siempre presente del Surrealismo y de toda expresin artstica que comprenda

 que " solo el lenguaje potico alcanza la totalidad del ser " .

 Recuerdos de la Feria del Zcalo Mxico 2004

 Susana Wald

 Esperbamos haca das la llegada de Floriano Martins .
 No tenamos acceso al

 correo electrnico y no sabamos a ciencia cierta en qu da iba a llegar .

 Una semana antes del 15 de octubre habamos paseado por el Zcalo de la Ciudad

 de Mxico y nos encontramos ( no por casualidad , porque las casualidades no

 existen ) , frente al hotel Majestic .
 Record que Floriano haba mencionado este

 hotel en sus cartas , as que entramos ah y al consultar con la recepcin nos

 confirmaron que s , que ah estaban los escritores brasileos que participaban

 en la Feria del Libro del Zcalo , y que s , la semana siguiente ah estara

 tambin un seor Floriano Martins .

 Por eso en la maana del 15 llam al hotel y me confirmaron que Floriano s

 estaba. Pregunt si sera prudente que lo despertara a estas horas y el

 conserje me asegur (  cmo lo saba ?
 ) que el seor Floriano ya no estara

 durmiendo .

 Fue maravilloso poder or su voz .
 Quizs ya habamos hablado antes por telfono

 desde las distancias siderales que separan nuestros respectivos domicilios ,

 pero fue muy novedoso orle y quedamos ambos muy encantados de estar tan cerca ,

 ya en la misma ciudad .
 Se hizo la cita : A la tarde , en la presentacin de su

 libro , Un nuevo continente publicado en Costa Rica .

 Estuvimos puntuales , Ludwig Zeller y yo .
 Desde lejos ya pudimos ver su cabeza

 inconfundible , envuelta , a pesar del calor , en su boina negra que no se quit

 en todas las horas que pasamos juntos .
 Ludwig y Floriano se lanzaron imantados

 el uno al otro , se abrazaron y celebraron muy contentos su encuentro , para la

 distraccin de los que presenciaban el hecho en el improvisado Caf Salvador

 Novo , instalado cerca del centro del Zcalo .
 Floriano y yo tambin nos

 abrazamos entusiastas , exclamando , como la mujer en la pelcula de Fellini :

  Finalmente !

 Porque hasta este momento , nuestro contacto ha sido solamente elctrnico , por

 as decirlo , castamente .
 Cartas han estado yendo y viniendo , publicaciones ,

 entrevistas , todo ha sucedido en el mbito electrnico entre Floriano y

 nosotros , l en la para m mtica ciudad de Fortaleza , en lo que parece el

 punto de Brasil ms avanzado hacia el oriente , como si quisiera volver a

 encontrar su hueco en el sobaco de frica .

 Por fin nos sosegamos y nos sentamos como el resto de los asistentes

 tranquilamente a una mesa del caf .
 Y comenz la charla , la pltica , el goce de

 hallarse en el mismo lugar y en la misma hora .
 Y la espera se prolong

 bastante .

 Antao los " defeos " que es como se denomina a los que viven en la Ciudad de

 Mxico , D. F. ( Distrito Federal ) eran muy impuntuales , como son an los

 habitantes de las tranquilas ciudades del sur del pas .
 Pero eso era cuando

 todava no haba tanta gente en el D. F. , cuando no haba tantos asaltos ,

 cuando no haba tan espesa contaminacin , en esos tiempos que los jvenes no

 conocieron y los viejos se empecinan en recordar .

 Y siendo que ahora los defeos son puntuales , muchos de los presentes se

 empezaron a inquietar cuando las manillas de los relojes anticuados y los

 nmeros de los digitales marcaron el tiempo asignado para el evento al que

 venamos , Floriano desde Brasil y Ludwig y yo desde Oaxaca. ( Nos habamos

 demorado ms o menos lo mismo en llegar , slo que Floriano lo haca en un

 velocsimo avin y nosotros en nuestra pequea maquinita con cuatro ruedas ,

 recorriendo , la vista de l , desde el aire , un continente , y la nuestra , por

 tierra , un trocito del esplndido Mxico. )

 Esperbamos a los presentadores del libro de Floriano , " Evodio Escalante

 ( Mxico ) , Alfonso Pea ( Costa Rica ) y Sal Ibargoyen ( Uruguay-Mxico ) , " segn

 rezaba la invitacin al evento .
 Aprovechamos muy bien el tiempo de la espera ,

 estando an inmersos en la maravilla del encuentro , a diferencia del pblico

 que tambin haba venido al lanzamiento y que se estaba impacientando por la

 demora .
 Del tro esperado finalmente apareci Sal Ibargoyen , rostro para

 nosotros conocido de eventos defeos anteriores .
  Y el libro ?
 No haba llegado .

  Y su editor , Alfonso Pea ?
 Tampoco .
 Pasamos un rato an gozando el encuentro

 de los que llegamos de variadas distancias con Ibargoyen , legtimo defeo

 tambin .

 La presin de los asistentes y los organizadores y la hora que no perdonaba

 produjo entonces un evento muy grato y simptico .
 Subi Floriano al podio negro

 regado de micrfonos , con asientos negros , ante un fondo negro y gris oscuro de

 telas y plsticos , todo conectado con un mar de cables , tambin negros .
 Y

 empez a improvisar .
 Y para apoyarse en la improvisacin invit primero a Sal

 Ibargoyen a que subiera junto a l ( despus de todo , as estaba programado ) y

 luego a Ludwig Zeller quien de este modo aportaba el elemento de sorpresa .

 Los tres poetas sentados , amigos sinceros , improvisadores excelentes ( como

 todos los poetas ) , nos brindaron a los que los mirbamos encantados y

 entretenidos , una sesin de poesa y de charlas y recuerdos realmente

 extraordinaria. Hablaron del surrealismo en Brasil , en el Cono Sur , esa remota

 regin de donde venan Sal y Ludwig , de Venezuela , de los amigos surrealistas

 de tantos pases de Amrica Latina , del espaol y del portugus. La charla

 flua plcida y fcil , los tres estaban en su elemento .
 Luego vino la lectura

 de poemas y se empezaba a notar que el tiempo se haca corto .
 Los organizadores

 ya saban que este evento estaba excediendo su periodo asignado , que el

 siguiente estaba atrasado .
 Y a pesar de que todos  queramos ms !
 , como los

 nios que gozan los dulces con que se los regala , no se pudo .

 El tro repentinamente acab con sus lecturas , bajaron del podio , se mezclaron

 con el pblico que entonces los rode .
 Se intercambiaron , firmaron , dedicaron

 libros y revistas y tarjetas .
 Y poco a poco , como se va asentando la espuma

 encima de un vaso de cerveza recin vertida , el evento se apacigu y

 abandonamos el espacio a los siguientes escritores que deban ocuparlo .

 Pars sin duda vale una misa. Y encontrarnos cara a cara con Floriano Martins y

 con Sal Ibargoyen bien valieron la travesa de diecisis horas en automvil .

 RETORNO  PGINA PRINCIPAL DE FLORIANO MARTINS

 S a DIDTICA em prol do Homem legitima o conhecimento

 A outra face do editor Soares Feitosa , o tributarista

