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 Georges Emmanuel Clancier

 Surrealismo : Revolta e Conquista

 O surgimento dos poemas destrutivos e visionrios de Rimbaud e

 Lautramont coincide com guerra de 1870 e a insurreio da Comuna , do

 mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revoluo

 de Outubro de 1917 ensangentam e iluminam o tempo que trar a revolta

 dos poetas adolescentes guiados pelos apelos , blasfmias e cleras ,

 alm dos entusiasmos bradados outrora no deserto , atravs das

 lluminations e dos Chants de Maldoror .

 A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo , a hipocrisia , a

 ferocidade travestida nos ouropis solenes e devoes carolas aos

 princpios e  Tradio , essa sociedade que se diz conduzida pela

 razo e pela Moral , julgando reconhecer-se numa " Arte " igualmente

 racional , realiza-se , em verdade , na loucura e no crime guerreiros - a

 bem dizer , dissimulados , tambm eles , pela mscara da civilizao .

 Chegou para os jovens poetas que ouviram a lio dos grandes

 " malditos " o momento de desmascarar , dessa vez em definitivo , uma

 sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente ,

 e assassinar a humanidade .
 E como , antes de tudo , so postas a razo e

 a tradio , convm liquid-las .

 O Surrealismo se volta para o que at aqui continua irredutvel aos

 imperativos sociais e ao empobrecimento da lgica .
 Planta armadilhas ,

 sem rumor nem aviso .

 Violncia - Para isso , o melhor recurso no  ridicuraliz-las ?
 

 violncia e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapem uma

 violncia e um absurdo deliberados e poticos .

 Amadurecidos por um sobressalto vital , eles escarram o seu desgosto na

 cara do mundo " que os fez " ; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo

 finge ignorar : o absurdo ope-se  razo , a desordem  " ordem " que

 sequer consegue camuflar um caos ignbil .
 Nos satisfeitos , nos

 pomposos , o humor aplica , ento , frias e rudes bofetadas .
 Nessa

 revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelncia .

 Ela advm do esprito de escndalo de que Jarry j havia tirado

 partido ,  uma concentrao no escndalo , lana propostas capazes de

 arruinar de sbito a segurana do esprito .

 Planta armadilhas , sem rumor nem aviso , puxa de sopeto as cadeiras , e

 os que esto " sentados " tombaram ruidosamente .
 " Humor negro " , como bem

 disse Breton .
 Negro , certamente , pelo desespero profundo dos que

 promovem - to profundo que no deixa  superfcie nenhum dos seus

 traos habituais - e negro em razo da obscuridade em que tende a

 mergulhar bruscamente a razo das pessoas a quem costumam desafiar com

 um estranho sorriso .
 Um desespero , em suma , que se transforma em arma ,

 aquela arma , aquela arma do isolado que ope uma incoerncia escolhida

  coerncia social opressora .

 Um exemplo de semelhante humor  dado por alguns jovens dadastas e

 surrealistas em sentido literal .
 Entre eles , o mais perfeito , sem

 dvida , foi Jacques Vach ( 1 ) .
 Andr Breton , ento mallarmano , o

 encontrou em Nantes , em 1916 , e a entrevista provocou uma metamorfose

 que deveria marcar Breton para sempre e , por intermdio dele , o futuro

 surrealismo .
 Esta passagem de uma carta de Vach exprime de maneira

 surpreendente o estado de esprito desses adolescentes lanados no

 contra-senso da guerra : " Eu me aborreo muito atrs do meu monculo de

 vidro , me visto de cqui e combato os alemes - A mquina de

 embrutecer ...
 marcha com grande fragor e eu no estou longe , no curral

 de tanques - um animal bem ubquo , mas sem alegria " .

 " Sem alegria " - eis a a chave dessa revolta glacial .
 O mundo que

 matou a alegria no merece o desprezo , os sarcasmos desses poetas que

 poderiam subscrever , desesperados e desenvoltos , o que disse Jacques

 Vach : " Me causaria o maior tdio morrer to jovem .
 Ah puis Merdre " ?
 A

 definio mais exata desse humor ns a devemos ainda a Jacques Vach ,

 quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiao Ubuesca da

 letra inicial : " Umor , sentimento de inutilidade teatral e sem alegria

 de tudo , quando se adquire conscincia " .

 Causaria espanto que Jacques Vach , aps o armistcio , se tenha

 suicidado ?
 Mas a alegria  difcil de matar para sempre no corao

 vivo da juventude , e a um Jacques Vach , que se despede da sociedade

 monstruosamente grotesca e trgica , sucedem outros jovens que resolvem

 tornar comum a sua rebelio e no sair da cena sem antes atribuir 

 sua poca a finalidade absoluta de no-aceitao. Tzara , fundador do

 dadasmo , dir a propsito deste movimento : " A guerra ( 1914-1918 ) no

 foi nossa ; ns a sofremos atravs da falsidade dos sentimentos e da

 mediocridade das excusas .

 Era dessa ordem , 30 anos atrs , o estado de esprito da juventude , no

 momento em que Dada nascia na Sua .
 Dada brotou de uma exigncia

 moral , de uma vontade implacvel de chegar a uma moral absoluta ...

 Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia

 adeso completa do indivduo s necessidades profundas de sua

 natureza , sem consideraes para com a histria , a lgica ou a moral

 circundantes. ( ...
 )

 A frase de Descartes - " No me interessa saber que houve homens antes

 de mim " - ns a pusemos como epgrafe de uma das nossas publicaes " .

 Essa poltica de tbua rasa fez adeptos na Sua , na Alemanha e na

 Frana , onde , ao redor de Tzara , se reuniram Arp , Aragon , Soupault ,

 Eluard , Breton , Pret , Picabia , Duchamp .
 Com uma paixo tumultuosa e

 um cinismo estudado , privilgios de seus 20 anos , esses jovens poetas

  fora libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de

 aprender , segundo palavras de Valry , que as civilizaes so mortais ,

 e retomam  sua maneira uma contraguerra , uma guerra santa  ordem

 estabelecida .
 Trata-se de provocar e desmoralizar .

 O escndalo pelo amor do escndalo  a senha .
 Tzara , evocando a

 lembrana de uma manifestao dada na Salle Gaveau , descreve o pblico

 de p , os braos para cima , vociferante - e acrescenta : " O espetculo

 acontecia na sala , ns reunidos no palco olhvamos o pblico

 enfurecido " .
 Belo efeito de humor , essa inverso de papis .
 De Dada , 

 claro , nada podia sair , por definio , salvo o " rudo e a fria " , salvo

 tambm aquela " violncia sacrlega " .
 Conforme observa Tritan Tzara ,

 " uma espcie de novo herosmo intelectual , um tipo de civismo

 literrio " .
 Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao

 seu redor , apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira

 suscetvel de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela

 inaceitvel existncia proposta pelos poderes estabelecidos , os quais

 se empenhavam em denunciar a maldio intrnseca e , ao mesmo tempo , a

 prxima runa .

 Mas Dada , ou o escrnio absoluto , no podia ele mesmo escapar ao seu

 prprio cido ; sistema voltado para a condenao  morte de todos os

 sistemas , restava-lhe , por seu turno , destruir-se .
 Foi o que

 aconteceu .
  destruio dadasta sucedeu a conquista surrealista .
 Mais

 exatamente , a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais

 erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa , secundava , doravante , a

 vontade de instituir , acima dessa desordem purificadora , a primazia de

 um homem enfim liberto de todas as servides , seja de origem

 econmica , intelectual , moral ou religiosa .
 Evidentemente os limites

 de uma breve anlise me levam a separar com nitidez o que de fato se

 opera na complexidade agitada da vida ; no interior do prprio Dada ,

 bem antes do fim oficial desse movimento , o Surrealismo j se buscava .

 Por exemplo ,  na revista Dada intitulada por ironia Littrature que

 aparece em 1919 o primeiro texto especificamente " surrealista " : Les

 Champs Magntiques , escrito a quatro mos por Andr Breton e Philippe

 Soupault .

 Da mesma forma que o encontro de Jacques Vach permitiu a Breton a

 descoberta do humor / ameaa de morte , o encontro do freudianismo e sua

 nfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos

 Comunicantes a buscar no domnio do irracional promessas de vida .
 J

 que a vida ativa e dirigida da inteligncia havia chegado a uma

 barbrie mecnica que se ornamenta hipocritamente com o nome de

 civilizao , o nico recurso residia na " vida passiva da

 inteligncia " , no sonho e nas manifestaes do inconsciente .
 Uma

 dessas manifestaes foi captada fortuitamente por Breton - se  que

 existe o fortuito , porque o acaso , para os surrealistas ,  o veculo

 do maravilhoso - ao ter a conscincia , uma noite , de uma imagem

 auditiva que lhe surgira no pensamento de uma forma assaz inslita e

 acompanhada de uma imagem visual : um homem cortado em dois pela

 janela .

 Breton no cessar de provocar nele , de novo , o aparecimento de vozes

 e vises assemelhadas .
 Ele se empenhar com Philippe Soupaut em

 observar em Les Champs Magntiques essas criaes automticas do

 esprito .
 Nascer assim um dos meios de expresso essenciais do

 surrealismo : a escrita automtica .
 Em homenagem a Apollinaire foi

 tomada por emprstimo de sua obra a palavra " surrealismo " , mas em

 verdade , observa Breton , o termo nervaliano de " supernaturalismo " , ou

 ainda o de Saint-Pol-Roux , " ideorealismo " , correspondessem melhor 

 definio dada no Premier Manifeste .
 Eis aqui a definio :

 " Surrealismo , substantivo masculino : Automatismo psquico puro , pelo

 qual a pessoa se prope examinar , seja verbalmente , seja por escrito ,

 seja de qualquer outra forma , o funcionamento real do pensamento .

 Primazia do pensamento , na ausncia de qualquer controle exercido pela

 razo ,  margem de qualquer preocupao esttica ou moral ...

 Enciclopdia Filosfica .
 O surrealismo repousa na crena em uma

 realidade superior de certas formas de associaes negligenciadas at

 ento , no poder total do sonho , no jogo desinteressado do pensamento .

 Ele tende a arruinar definitivamente todos os demais mecanismos

 psquicos e a substitu-los na resoluo dos principais problemas da

 vida " .

 Como no deixar-se tocar pela aparncia quase cientfica de semelhante

 definio ?
 O esforo pela expresso rigorosa de um fenmeno dos mais

 obscuros - esforo alcanado apenas em parte - testemunha o drama do

 movimento surrealista , a saber , a reivindicao do sonho , do

 maravilhoso , do fantstico , de fatos sedutores , porm , muitas vezes

 incertos : ora autnticos , ora ilusrios ; em uma palavra , um domnio

 rico , mas confuso , rebelde  investigao numa poca submetida ao

 avano vertiginoso da pesquisa cientfica .
 Por isso , a vontade de

 " conhecimento racional do irracional " enfrentar muitas contradies

 internas , e repercutiro longe as tentativas desesperadas de aproximar

 a revoluo surrealista que quer " mudar a vida " , segundo Rimbaud , da

 revoluo marxista que pretende " transformar o mundo " , segundo Marx .

 O Surrealismo triunfa do subjetivo , se prope a realizar a

 objetivizao do subjetivo , nisso residindo suas grandezas e

 franquezas , disso provindo suas crises , seus dolorosos espasmos

 internos .
 Um Romantismo total querendo criar seu Discours de la

 Mthode - eis a , de um lado , o Surrealismo , e esse lado no mostra

 bem ao que chegou .
 Mas , que importa ?
 Basta-nos que o Surrealismo

 tenha , a seu crdito , a formao dos poetas mais admirveis ou os mais

 originais desse nosso tempo ; que ele tenha desdobrado a poesia acima

 do sonho , a imaginao , o maravilhoso , o amor ; e seguido , com

 encarniamento e s vezes herosmo , os caminhos de Rimbaud e

 Lautramont , os caminhos de ambio infinita que identificamos nesta

 frase de Andr Breton : " ...
 o fim no seria outro , a meu juzo , que o

 conhecimento do destino eterno do homem , do homem em geral , que s a

 revoluo poder conduzir plenamente quele destino " .
 O poeta

 surrealista s vezes defronta o mistrio - sem Deus .

 Alis , Breton escreveu : " A analogia potica difere fundamentalmente da

 analogia mstica na medida em que no pressupe , ao longo da trama do

 mundo visvel , um universo invisvel que tende a se manifestar " .
 O que

 no combina com a observao de M. Marcel Raymond : " O ponto de vista

 hipottico de Deus cobre a criao " , com que sonha este mesmo poeta

 quando declara : " Tudo leva a crer que existe um certo ponto do

 esprito de onde a vida e a morte , o real e o imaginrio , o passado e

 o futuro , o comunicvel e o incomunicvel , o alto e o baixo deixam de

 ser percebidos contraditoriamente .
 Ou ser em vo que se buscar na

 atividade surrealista outro motivo alm da esperana de determinar

 aquele ponto " .

 E Robert Desnos observou : " Eu no creio em Deus , mas tenho o senso do

 infinito .
 No h esprito mais religioso que o meu .
 Eu tropeo sem

 cessar em questes insolveis .
 As questes que eu mais desejo admitir

 so todas elas insolveis " .
  honra para o Surrealismo haver colocado

 - para os vivos - questes insolveis , sem dvida , mas que , pelo

 menos , tendem a dilatar indefinidamente os limites da condio humana .

 Tentando romper tais limites , o Surrealismo se volta para o que at

 aqui continua irredutvel aos imperativos sociais e ao empobrecimento

 da lgica : a vida inconsciente , a infncia , o amor , a prpria loucura ;

 e os poemas mais belos que balizaram essa pesquisa permanecem , para

 ns , fontes de onde no cessa de escorrer o maravilhoso nascido da

 identificao da vida com a poesia. ( 1 ) Nascido em 1896 , falecido em

 1919 ( suicdio , por overdose de pio ) .
 Obras : Lettres de Guerre

 ( 1919 ) , Au San Pareil , com introduo de A. Breton : Referncia :

 Anthologie de l'Humor Noir , de A. Breton ( Sagittaire ) .

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