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 Literatura fantstica no Brasil

 ( esboo histrico )

 Nilto Maciel

 NDICE

 Consideraes Gerais

 Primrdios

 Os Sucessores

 Murilo Rubio

 Jos J. Veiga

 Pricles Prade

 Os Novos

 Concluso

 Bibliografia

 CONSIDERAES GERAIS

 Para Tzvetan Todorov , " a expresso ` literatura fantstica ' refere-se a

 uma variedade da literatura ou , como se diz comumente , a um gnero

 literrio " .

 Segundo ele , " o fantstico teve ( grifo nosso ) uma vida relativamente

 breve .
 Ele apareceu de uma maneira sistemtica por volta do fim do

 sculo XVIII , com Cazotte ; um sculo mais tarde , encontram-se nas

 novelas de Maupassant os ltimos exemplos esteticamente satisfatrios

 do gnero. " E pergunta : " ...
 por que a literatura fantstica no existe

 mais ?
 "

 Todorov estudou , basicamente , a literatura europia , com nfase na

 francesa .
 Poe apenas estaria " muito prximo dos autores do

 fantstico " .
 Suas novelas se prenderiam quase todas ao estranho

 ( sobrenatural explicado ) e algumas , ao maravilhoso ( sobrenatural

 aceito ) .
 As Mil e uma Noites se situariam numa das sub-divises do

 maravilhoso - o hiperblico .
 Bierce e Carr so pouco citados .

 Teramos , ento , o gnero fantstico e alguns sub-gneros dele : o

 fantstico-estranho , o fantstico-maravilhoso , o estranho puro e o

 maravilhoso puro .
 Todorov no os denomina sub-gneros , embora afirme :

 " O estranho no  um gnero bem delimitado , ao contrrio do

 fantstico. " E d como exemplos dele os romances de Dostoivski .
 O

 maravilhoso seria , ainda , subdividido em hiperb6lico , extico ,

 instrumental e cientfico ( a science fiction ) .

 Alm disso , o fantstico teria dois importantes gneros vizinhos : a

 poesia e a alegoria .

 Os autores estudados por Todorov so " criativos " , para usarmos uma

 expresso de Freud .
 Ou escritores singulares .
 No se enquadravam nos

 limites do Romantismo nem do Realismo , salvo uns poucos : Balzac ,

 Mrime , Hugo , Flaubert e Maupassant .
 H , ainda , aqueles que os

 manuais de literatura incluem quase que arbitrariamente nesta ou

 naquela escola .
 Gautier  tido como romntico e parnasiano .
 No

 entanto , foi um rebelde , ao lanar o movimento esttico da " arte pela

 arte " .
 Mrime  tido como simplesmente realista .
 Nerval  posto ao

 lado dos grandes romnticos , embora tenha sido um precursor do

 simbolismo e do surrealismo .
 Nodier , tambm chamado de romntico , e '

 precursor do prprio Nerval e do surrealismo .

 Alguns nem sequer so lembrados , como Jacques Cazotte , o autor de Le

 Diable Amoureux .
 E veja-se que ele  muito anterior a Balzac .
 Quando

 morreu ( 1792 ) , o fundador do Realismo nem havia nascido .

 De anlise em anlise , Todorov chegou a outra concluso : a de que a

 literatura fantstica nada mais  do que a m conscincia do sculo

 XIX positivista .
 E como interpretar ou explicar Kafka ?
 Assim : " as

 narrativas de Kafka dependem ao mesmo tempo do maravilhoso e do

 estranho , so a coincidncia de dois gneros aparentemente

 incompatveis. "

 Com o aparecimento de Tirano Banderas , de Valle-Inclan , seguindo-se O

 Senhor Presidente , de Astrias , e depois as obras de Garca Mrquez ,

 Juan Rulfo , Scorza , Cortzar , Fuentes e outros , os crticos

 necessitavam cunhar essa nova tendncia da literatura .
 Para uns o nome

 deveria ser " realismo fantstico " ; para outros , " realismo mgico " .

 E no Brasil ?

 Durante o scu1o XIX poucos foram os escritores brasileiros que

 enveredaram pelo fantstico .
 lvares de Azevedo , em Noite na Taverna ,

 e Machado de Assis , em alguns contos , so os mais conhecidos .
 Apesar

 disso , historiadores como Slvio Romero e Jos Verssimo no se

 detiveram na anlise dessas pginas enquanto literatura fantstica .
 O

 primeiro , na monumental Histria da Literatura Brasileira , embora se

 refira , aqui e ali , a Poe , Gautier , Perrault e outros cultores do

 gnero , mesmo nesses momentos fala apenas de " imaginao ardente " e

 " fantasia " .
 Edgar Allan Poe  um " desequilibrado " .

 Como ainda hoje em muitos estudiosos da Literatura , o vocbulo

 " fantstico " no passa de derivado ou sinnimo de " fantasia " e

 " imaginao " , que , por sua vez , esto associados aos adjetivos

 " misterioso " , " sobrenatural " e " grotesco " .

 Massaud Moiss se detm neste ltimo vocbulo : " Confundido no raro

 com o fantstico , o burlesco , o gtico , o cmico de baixa extrao , o

 grotesco ergue-se , no entanto , como categoria esttica autnoma ...
 " E

 relaciona o grotesco aos autores romnticos , citando Schlegel ,

 Hoffmann , J.Paul , Poe , Cousin e Victor Hugo .

 Em Conto Brasileiro Contemporneo , Antonio Hohlfeldt dedica um

 captulo ao que chama de " conto alegrico " , cujos principais expoentes

 no Brasil seriam Murilo Rubio , Pricles Prade , Moacyr Scliar , Roberto

 Drummond e Victor Giudice .
 E fundamenta por que prefere o termo

 " alegrico " ao " fantstico " .
 E assim inicia o captulo : " A incidncia

 de uma literatura no racionalista , no realista , ao menos em suas

 aparncias , que vem ocorrendo no Ocidente contemporneo com maior

 nfase a partir de Franz Kafka , e no Brasil tem como referencial

 imediato a publicao de O Ex-Mgico , de Murilo Rubio ( 1947 ) , tem

 permitido uma srie de polmicas e contradies sobre as designaes a

 lhe dar .
 Literatura do absurdo , como se pretendia em referncia ao

 escrito de O Castelo , literatura fantstica , como a chamou Louis Vax ,

 suas possveis analogias com mitologias primitivas , especialmente aps

 o chamado boom da literatura hispano-americana dos anos 60 ampliaram

 os estudos pioneiros de um Propp e outros formalistas russos e todos

 os que seguiram em suas guas , at a cunhagem do termo composto de

 " realismo-mgico " , que acabou ganhando status entre a crtica

 literria .
 No Brasil , um dos que mais entendeu o assunto certamente

 ter. sido o crtico Jos Hildegrando Dacanal .
 No entanto , qualquer

 que seja o posicionamento que se venha a adotar , jamais se alcana

 esclarecer a gama de variaes que tais textos apresentam e , pelo

 contrrio , termina-se por perder aquele momento que os unificaria. "

 E prossegue : " H uma diferena bsica a opor-se entre aquela

 literatura europia praticada em torno do elemento fantstico e a que

 hoje em dia se realiza entre ns : enquanto naquela o elemento irreal

 ou no-real apenas serve como ratificao do real como nico dado

 existente , na literatura latino-americana , a includa a brasileira , a

 oposio fica totalmente afastada , de tal sorte que ambos os elementos

 convivem sem maiores problemas. "

 Em outro estudo do conto brasileiro atual , Temstocles Linhares

 reconhece serem poucos os cultores do conto fantstico no Brasil .
 E se

 detm na anlise da distino " que existe entre o ` fantstico ' no

 conto e o conto propriamente ` fantstico '. " Tal distino se observa

 tambm na novela e no romance , isto  , na literatura fantstica como

 gnero .
 E h , ainda , que se distinguir os que se dedicaram ou se

 dedicam a este gnero , como Murilo Rubio , daqueles que apenas vez por

 outra escreveram ou escrevem contos ou novelas fantsticas .

 PRIMRDIOS

 O primeiro momento notvel da literatura fantstica no Brasil se deu

 em 1855 , com a publicao de Noite na Taverna , de lvares de Azevedo .

 Dividido em sete captulos , o livro bem poderia ser um romance .
 E

 ento j teramos em lvares de Azevedo um precursor das inovaes na

 questo do ponto-de-vista .
 No entanto , a obra  tida como um conjunto

 de contos .
 Mas no importa aqui discutir isso .
 Carlos Alberto Iannone

 afirma : " O livro  constitudo por uma srie de histrias fantsticas

 e trgicas , impregnadas de vcios e crimes. "

 Talvez o melhor adjetivo para as histrias do grande poeta romntico

 seja " trgicas " .
 Ora , uma histria no  fantstica apenas por no ser

 reproduo fiel da realidade .
 Como ensina Todorov , " no  possvel

 definir o fantstico como oposto . reproduo fiel da realidade , ao

 naturalismo. "

  poca de Slvio Romero no se falava em literatura fantstica .
 Pelo

 menos no Brasil .
 lvares de Azevedo " foi um me1anclico , um imaginoso ,

 um lrico , que enfraqueceu as energias da vontade e os impulsos fortes

 da vida no estudo , e enfermou o esprito com a leitura desordenada dos

 romnticos  Heine , Byron , Shelley , Sand e Musset " , segundo aquele

 historiador .
 " Um talento lrico " , enfatizou .
 E concluiu : em Noite na

 Taverna " h algumas belezas entre muitas extravagncias e afetaes. "

 Jos Verssimo tambm dedica apenas duas ou trs linhas  prosa de

 fico de lvares de Azevedo .
 E quase repete as palavras de Slvio

 Romero , no tivesse preferido um adjetivo a um substantivo : " Daquele

 seu teor de vida romntica , a expresso literria  a Noite na

 Taverna , composio singular , extravagante ( grifo nosso ) , mas acaso na

 mais vigorosa , colorida e nervosa prosa que aqui se escreveu nesse

 tempo. "

 Desde 1862 vinha Machado de Assis publicando contos em jornais e

 revistas .
 No entanto , Contos Fluminenses , seu primeiro livro no

 gnero , s sairia em 1870 .

 Como j dissemos , os primeiros historiadores e estudiosos da

 Literatura Brasileira no mencionaram a expresso " literatura

 fantstica " , embora na Europa j se publicassem contos e novelas

 fantsticas , inclusive sob ttulos que traziam o vocbu1o

 " fantstico " .

 Jos Verssimo , que estudou nossa literatura exatamente at Machado ,

 andou perto de descobrir o fantstico .
 Seno vejamos este trecho de

 sua Histria : " Ainda em algum tipo , episdio , ou cena de pura

 fantasia , nunca a fico de Machado de Assis afronta o nosso senso da

 ntima realidade .
 Assim , por exemplo , nesse conto magnfico O

 alienista ou nessoutra jia Conto alexandrino , como na admirvel

 inveno de Braz Cubas , e todas as vezes que a sua rica imaginao se

 deu largas para fora da realidade vulgar , sob os artifcios e os

 mesmos desmandos da fantasia , sentimos a verdade essencial e profunda

 das coisas , poderamos chamar-lhe um realista superior , se em

 literatura o realismo no tivesse sentido definido. "

 Slvio Romero , que  anterior a Verssimo , tambm no lograra ver com

 nitidez o fantstico na obra machadiana .
 Copie-mos um trecho de sua

 an1ise : " H uma nota nas Memrias de Braz Cubas e noutros dos mais

 recentes livros de Machado de Assis , que deve ser assinalada para

 completa apreciao de sua personalidade : a colorao de horrvel que

 imprime em alguns de seus quadros. " E prossegue : " Falta neste ponto a

 Machado um no sabemos qu que  uma espcie de impavidez na loucura ,

 qualidade possuda pelo grande Ed. Poe e de que  um medonho exemplo o

 seu Gato Preto , ou um certo tomo grandioso e pico que estruge

 nalgumas pginas da Casa dos Mortos de Dostoivski , capazes de

 emparelhar com algumas cenas de Dante. "

 Mais para c , entretanto , os crticos tm sido mais argutos no

 observar o fantstico entre ns .
 Temstocles Linhares , por exemplo :

 " Lembro-me do nosso Machado de Assis , que tantas vezes fez uso da

 temtica do maravilhoso , ou seja , da imortalidade , da eternidade , da

 " segunda vida " , por meio de incurses milagrosas , de personagens

 ressuscitadas , de dilogos entre Deus a o Diabo , de Santos que descem

 do altar e vm conversar entre si ...
 "

 Em obra mais prxima de hoje - Enciclopdia de Literatura Brasileira ,

 dirigida por Afrnio Coutinho e J. Galante de Sousa - , o verbete

 " conto " traz o seguinte : " A referncia aos dois mestres do conto

 fantstico ( Machado cita Mrime e Poe na abertura de Vrias

 Histrias ) no  casual , fortuita reminiscncia de leitura , mas

 revela , antes , uma evidente preferncia por essa espcie de

 literatura , como  fci1 verificar-se pela repetio de pginas como

 " A igreja do diabo " , " Entre santos " , " A chinela turca " e , acima de

 tudo , por ser uma verdadeira obra-prima , a admirvel narrativa que e

 " Sem olhos " .
 Mais ilustrativo ainda  o fato de uma de suas mais

 antigas produes , ainda hesitante a sem maiores mritos literrios ,

 " O pas das quimeras " , aparecido no Futuro , em 1862 , trazer mesmo o

 subttulo de " conto fantstico ". "

 Oliveira Paiva no teve livro publicado em vida .
 Dona Guidinha do Poo

 veio a lume 60 anos depois de sua morte .
 A Afilhada saiu em folhetins

 e os contos tambm estamparam-se em jornais quase todos em 1887 ,

 reunindo-se em livro somente em 1976 .
 Um delas - O Ar do Vento ,

 Ave-Maria !
 - "  uma narrativa fantstica , ao mesmo tempo regionalista

 e folclrica , em que figura uma burra sem cabea , ou burra de padre " ,

 esclarece Snzio de Azevedo na apresentao do livro .

 F.S. Nascimento , em Trs Momentos da Fico Menor , dedica algumas

 pginas a Oliveira Paiva , esclarecendo que o conto j referido foi

 " contemplado com substancioso estudo de Rolando Morel Pinto ,

 filiando-o ao conceito de realismo fantstico e detendo-se nos

 requintes formais utilizados para estabelecer a atmosfera de apreenso

 e pavor , que efetivamente se plenifica. "

 Ainda no sculo XIX vamos encontrar outros cultores do fantstico .

 Pelo menos trs deles devem ser aqui mencionados : Ingls de Sousa ,

 Maurcio Graco Cardoso e Emlia Freitas .

 O romancista Ingls de Sousa deixou tambm um volume de histrias

 curtas , que intitulou Contos Amaznicos ( 1893 ) .
 Um desses contos foi

 republicado em 1970 , na Antologia de Contos Brasileiros de Bichos .

 Trata-se de " O gado do Valha-me-Deus " .
 A ele se refere Temstocles

 Linhares , assim : " Aquele gado procurado interminavelmente e do qual s

 se percebia o rasto , a sua imensa batida , com as pegadas no cho e que

 assume propores fantsticas junto  Serra do Valha-me-Deus , que

 ningum tinha subido e impossibilitava qualquer procura , apesar de

 todo o rebanho ter deixado ali as suas pegadas num caminho estreito

 que volteava na montanha e parecia sem fim. "

 Maurcio Graco Cardoso  menos conhecido e citado nos compndios da

 histria da Literatura Brasileira .
 Nascido em 1874 , publicou o livro

 Contos Fantsticos em 1891 .

 Entre 1855 e 1908 viveu Emlia Freitas , autora do primeiro romance

 fantstico da Literatura Brasileira .
 Publicado em 1899 , A Rainha do

 Ignoto s foi redescoberto recentemente , pelo pesquisador e crtico

 Otaclio Colares , que escreveu o prefcio da 2 edio , datada de

 1980 .

 Emlia nasceu em Aracati , Cear .
 Adolescente , mudou-se para Fortaleza ,

 onde estudou francs , ingls e geografia .
 Anos depois foi morar em

 Manaus , onda exerceu a profisso de professora .
 Antes de publicar seus

 livros - dois romances e um volume de poesias - , colaborou em jornais .

 Na opinio de Otaclio Colares , A Rainha do Ignoto apresenta-se " com

 os apelos ao impondervel , por facilidade de alguns acoimado de

 esprita , quando mais no foi , nas intenes de sua autora , que uma

 fuga propositada ao passado , ao que se convencionou denominar -

 romance gtico , embora partindo do regional mais autntico. "

 Otaclio Colares escreveu tambm o ensaio " A Rainha do Ignoto , romance

 cearense , pioneiro do fantstico no Brasil " , onde demonstra que o

 livro de Emlia Freitas deve ser classificado como de legtima

 literatura fantstica e ainda que se trata do primeiro romance , no

 Brasil , programado " para entrar no campo da inverossimilhana , pois

 com igual caracterstica , antes dele e na sua contemporaneidade , outro

 no houvera. "

 No entanto , o nome de Emlia Freitas no aparece em Slvio Romero nem

 em Jos Verssimo .
 Talvez no tenham ouvido falarem dela , embora ambos

 se refiram a livros editados j no sculo XX .

 Com toda a certeza , Emlia Freitas no deixou discpulos .
 Primeiro

 porque seu romance foi publicado no Cear , no encontrou receptividade

 na crtica , mesmo local , e , assim , permaneceu no semi - ineditismo .

 Depois , vivia-se no final do sculo a febre do naturalismo .

 Antes de encerrarmos este captulo  necessrio falarmos duas palavras

 dos simbolistas , embora atentos ao que nos lembra Alfredo Bosi : " Pela

 origem e natureza da sua esttica , o Simbolismo tendia a expressar-se

 melhor na poesia do que nos gneros em prosa , em geral mais analticos

 e mais presos aos padres do verossmil e do coerente. "

 O mesmo Bosi nos traz quatro simbolistas , cujas obras em prosa potica

 apresentam alguns traos do fantstico : Nestor Vtor , Lima Campos ,

 Gonzaga Duque e Rocha Pombo .

 Do primeiro assim nos fala : " Signos ( 1897 ) , de Nestor Vtor , em que o

 atilado crtico do movimento trabalha uma linguagem expressionista

 avant la lettre , cujo exemplo mais srio  a novela " Sapo " , histria

 de um rapaz que se alheia radicalmente da sociedade at ver-se um dia

 transformado em um animal repelente " de malhas amarelas e verde -

 escuras a cobrirem-lhe o corpo " .
 Quem no lembrar , ao menos pela

 alegoria final , a Metamorfose , que Kafka escreveria vinte anos

 depois ?
 "

 Do segundo lembra Confessor Supremo , de 1904 , que define como " contos

 fantsticos ou onricos " .

 De Gonzaga Duque cita Horto de Mgoas , de 1914 - " livro de contos

 nefelibatas " .

 Rocha Pombo  lembrado pelo romance No Hospcio , de 1906 .
 E diz : " Os

 crticos que lhe tm dedicado mais ateno falam de Poe e de Hoffmann

 como influncias provveis no esprito e na fatura da obra .
 

 observao que se deve tomar cum grano salis , pois desses romnticos

 intensamente criadores o nosso Rocha Pombo herdou apenas o gosto do

 quadro narrativo excepcional ( um hospcio onde um jovem sensvel foi

 criminosamente internado pelo pai ) , mas no foi capaz de imitar-lhes a

 arte de sugerir atmosferas pesadelares , pois carecia de recursos

 formais pana tanto. "

 OS SUCESSORES

 A preocupao dos modernistas de 22 com o novo , o moderno , o

 revolucionrio afastou-os do fantstico .
 Ora , o sobrenatural 

 anterior a toda literatura escrita .
 No poderia mais ser motivo

 literrio .
 No entanto , havia uma contradio no iderio modernista ,

 vez que " a busca de inspirao nas fontes mais autnticas da cultura e

 da realidade brasileiras " , o nativismo , o verde-amarelismo , o

 antropofagismo etc teriam que , necessariamente , se imbricar s lendas

 e mitos brasileiros .
 Ou seja , ao maravilhoso , ao fantstico .
  o que

 se v em Cobra Norato e Martim Cerer , por exemplo .
 Apesar disso e

 ainda assim , os modernistas no praticaram o fantstico , vez que nos

 dois casos estamos dentro dos limites da poesia , e o fantstico ,

 segundo Todorov , no pode subsistir a no ser na fico .
 E Macunama ?

 Seria romance com ingredientes fantsticos ?
 Talvez um fantstico novo ,

 revolucionrio , essencialmente brasileiro .

 Em 1934 a paranaense Rachel Prado optou por ser diferente de seus

 contemporneos e publicou Contos Fantsticos .

 Jorge Amado no ficou imune ao fantstico , apesar do costumbrismo to

 presente em sua obra .
 Porm e exatamente nas lendas , no anedotrio que

 o fantstico se instala .
 A literatura oral de qualquer pas ou regio

  plena de elementos fantsticos .
 Lembramos As Mil e Uma Noites .

 H pelo menos uma tese de interesse para estes apontamentos e que tem

 como objeto a obra do romancista baiano : " O fantstico , o maravilhoso

 e o realismo mgico na obra de Jorge Amado " , de autoria de Maria

 Cristina Diniz Leal .

 A pioneira da fico cientfica no Brasil  Dinah Silveira de Queiroz .

 Estreou em 1939 , com o romance Floradas na Serra .
 No entanto , so

 outros seus livros que devem ser aqui lembrados : Eles herdaro a

 Terra , de 1960 , e Comba Malina , de 1969 .

 Nessa mesma linha esto Almeida Fischer , Lus Lopes Coelho e Fausto

 Cunha .
 O primeiro  autor de O Homem de Duas Cabeas , de 1950 .
 O

 segundo publicou A Morte no Envelope ( 1957 ) , O Homem que Matava

 Quadros ( 1961 ) e A Idia de Matar Belina ( 1968 ) .
 O terceiro  autor de

 As Noites Marcianas ( 1961 ) a O Dia da Nuvem ( 1980 ) , ambos tambm

 dentro dos padres da science fiction .

 Voltemos , porm , a narrativa fantstica propriamente dita e sigamos

 rumo aos dias da hoje .
 No meio do caminho , no entanto , seremos

 forados a abrir trs atalhos ou veredas , para depois voltarmos  .

 grande estrada .
 Dedicaremos algumas palavras mais a trs nomes

 fundamentais de nossa literatura fantstica : Murilo Rubio , Jos J .

 Veiga e Pricles Prade .

 Em 1944 estreou em livro Lygia Fagundes Telles .
 Na apresentao da 3

 edio de Antes do Baile Verde , antologia que vai de 1949 a 1969 ,

 Fbio Lucas afirma : " Hoje , todas as literaturas consideradas

 amadurecidas admitem e aplaudem as obras fantsticas .
 Jorge Lus

 Borges , por exemplo , pode ser considerado um dos mais influentes

 propagadores da narrativa fantstica. " E mais adiante : " A fadiga de

 algumas formas realistas tem conduzido determinados escritores 

 regio do fantstico e do maravilhoso .
 Alguns vo ter a esse terreno

 por natural tendncia do esprito .
 Cremos ser o caso de Lygia Fagundes

 Telles ...
 "

 Qu dizer do fantstico Guimares Rosa ?

 Sob o ttulo Realismo Mgico , Jos Hildebrando Dacanal reuniu trs

 ensaios dedicados aos romances Grande Serto : Veredas , O Coronel e o

 Lobisomem e Fogo Morto .
 Os dois primeiros so , para ele , " obras

 essenciais do ` realismo mgico '. " E mais : " o mgico , o maravilhoso em

 sua naturalidade , o mtico , ou como quer que o denominemos , somente

 agora , nas literaturas do Terceiro Mundo , passou a fazer parte da

 narrao romanesca. "

 Dacanal tudo faz para aproximar o romance de Guimares Rosa do Cem

 anos de solido ou do realismo mgico praticado por romancistas

 hispano-americanos .
 No entanto , o prprio ttulo do ensaio - " Grande

 Serto : Veredas ou A apologia do imanente " - demonstra que Dacanal se

 ocupou muito mais da importncia literria da obra de Rosa do que de

 sua ligao com o realismo mgico .

 Temstocles Linhares menciona a " Estria do homem do pinguelo " como um

 dos momentos em que Guimares Rosa se ocupou do fantstico .

 Na tese intitulada O fantstico no conto brasileiro , Maria Lusa do

 Amaral Soares dedica especial ateno ao autor de Sagarana .

 A maioria dos estudiosos da obra de Guimares Rosa - e so incontveis

 esses estudiosos , o que o torna um dos mais estudados escritores

 brasileiros - , a grande maioria pouco se refere ao elemento fantstico

 na sua imensa obra .

 Moreira Campos estreou em livro pouco depois de Guimares Rosa .

 Dedicou-se quase que exclusivamente ao conto e se preocupou sempre

 muito mais com a qualidade do que com a quantidade .
 Assim , Os doze

 parafusos , publicado em 1978 , ou seja , quase 30 anos aps o primeiro ,

  apenas o seu 5 livro de contos .

 Comentando esse livro , Jos Alcides Pinto diz : " Os doze parafusos

 abrem um novo caminho na fico de Moreira Campos , j esboada sob o

 ponto de vista prtico em outras obras , mas sem a liberdade de como os

 assuntos so agora tratados , vistos de frente , com um realismo mgico

 e epidrmico ...
 " .

 Para Antonio Hohlfeldt , o contista cearense e um dos cultores do que

 chama de " conto rural " .
 Temstocles Linhares em Moreira Campos um

 discpulo dos " velhos mestres do naturalismo " .
 De opinio diversa ,

 porm ,  Braga Montenegro , ao comentar Os doze parafusos : " Elaborando

 os seus temas sob a inspirao de um realismo mgico , o autor no se

 desnuda , no blefa , e tudo realiza no mbito do implcito e do

 metafrico .
 Entretanto , nos seus textos nada h de sibilino ou de

 hermtico , ou ainda de supra-realista. "

 No artigo " Afinal , os ces vem coisas ?
 " , Linhares Filho pergunta :

 " Qual a razo do interesse maior do fantstico em Moreira Campos , se

 tal categoria no constitui uma constante do escritor ?
 " E responde :

 " Justamente o fato de , sendo ele um autor neo-realista s vezes ,

 outras vezes neo-naturalista , apresentar-se cioso da verossimilhana ,

 adotando , nos raros contos em que abriga o fantstico , uma postura que

 mais se inclina para o estranho do que para o maravilhoso .
 De maneira

 que o tratamento proporcionado pelo contista ao sobrenatural nunca 

 gratuito , mas contrabalanado convenientemente com as possibilidades

 do natural , do que resultam produes cheias de legitimidade

 artstica .
 " O dia de Santa Genoveva " , inserido no livro Os doze

 parafusos , constri-se , na sua tenso entre o sobrenatural e o

 natural , como um legtimo conto fantstico. " E encerra assim :

 " Conclumos que , at mesmo no difcil gnero fantstico , em que se

 exige uma pronunciada ambigidade , se mantm o equilbrio artstico de

 Moreira Campos , confirmando-se o seu talento de ficcionista apreciado

 pelo leitor comum e consagrado pela mais exigente crtica , e

 cumprindo-se , assim , o seu papel de intelectual consciente , que usa

 com sensibilidade peculiares e poderosos recursos para a expresso do

 humano. "

 Samuel Rawet  anterior a J. J. Veiga , pois estreou em 1956 .
 Segundo

 Assis Brasil , a estria de Rawet , com o livro Contos do Imigrante ,

 marca a renovao do conto brasileiro , assim como Doramundo e Grande

 Serto : Veredas marcam a renovao do romance .

 E quanto ao fantstico ?
 Temstocles Linhares no via o fantstico como

 trao dominante da literatura de Rawet .
 No seu entender , tanto ele

 como Rubio " poderiam ser classificados com outros rtulos " .
 O

 fantstico de Rawet seria um " fantstico alimentado de fragmentos

 biogrficos , que se apresenta em vrios planos , num tipo de conto

 analtico , enxadrezado " , explicava .

 Hermilo Borba Filho dedicou-se ao teatro e  literatura .
 Uma de suas

 ltimas obras publicadas foi o conjunto de novelas intitulado O

 General est pintando , onde os personagens " vivem episdios que no se

 podem qualificar seno de fantsticos " , como est dito na orelha do

 livro .
 " So situaes inusitadas - continua o observador anmimo - ,

 que o recurso ao mgico  constante , e que do a cada novela o seu

 impacto mais violento , justamente por estarem intimamente mescladas

 com a realidade banal do dia-a-dia .
 Esse realismo fantstico , que ora

 se manifesta puramente maravilhoso e ora chega s raias do grotesco , 

 a forma que o autor encontrou para apresentar um estado de coisas num

 mundo desencontrado , repleto de contrastes chocantes e absurdos

 inexplicveis. "

 Hlio Plvora publicou o primeiro livro , Os Galos da Aurora , em 1958 .

  considerado um dos precursores da literatura brasileira de cunho

 documental e fantstico .

 Estreante na dcada de 60  tambm Moacyr Scliar , que mais

 recentemente publicou A Balada do Falso Messias , Os Mistrios de Porto

 Alegre e Histrias da Terra Trmula , todos em 1976 , e O Ano no

 Televisor , em 1979 .

 Cultivando o fantstico ou para-fantstico , " os trabalhos de Moacyr

 Scliar no se esgotam na gratuidade dos temas : vo mais alm e se

 situam ao nvel de uma stira de carter universal , bero da melhor

 literatura " , comenta Assis Brasil .

 Com relao a Caio Porfrio Carneiro , tambm h quem veja nele um

 realista que aqui e ali resvala para o fantstico .
 Marcos Rey chega a

 dizer : "  um autor todo voltado  realidade , sem ser fantico do

 realismo .
 A realidade  seu ponto da partida , embora nem sempre da

 chegada. "

 Jos Cndido de Carvalho estreou em 1939 , com o romance Olha para o

 cu , Frederico .
 Porm somente em 1964 surgiu sua obra maior - O

 Coronel e o Lobisomem .
 Jos Hildebrando Dacanal escreveu um dos

 ensaios mais argutos sobre o realismo mgico brasileiro , sob o ttulo

 " O Coronel e o lobisomem entre o Mtico e o Sacral " .
 Citemos um trecho

 dele : " A estrutura da narrativa  irracional se apreciada da

 perspectiva do romance do real-naturalismo ao qual O Coronel e o

 Lobisomem aparantemente se liga .
 Contudo , se for colocada dentro do

 esquema acima encontrarei seu pleno sentido : ela tambm oscila entre o

 plano racional , realista , e o mtico-sacral , fantstico , mgico , ou

 como se quiser cham-lo .
 Por sua parte , tambm a narrativa termina no

 plano do fantstico ao mesmo tempo que dissolve a dicotomia entre os

 dois planos ao elev-la ao nvel da " irracionalidade estrutural " ( do

 ponto de vista tcnico ) com o ltimo captulo , no qual Ponciano narra

 o fim da ao , o fim do romance e sua prpria destruio como

 personagem e , portanto , seu prprio desaparecimento como heri

 dilacerado entre dois mundos. "

 Jos Alcides Pinto  autor de romances singularssimos , como O Drago ,

 Os Verdes Abutres da Colina e O Criador de Demnios .
 Sua trilogia O

 Tempo dos Mortos , no dizer de Faria Guilherme , " situa-se numa linha

 introspectiva , de integrao psicolgica , num universo esotrico , sem

 perder da vista o fantstico ...
 "

 A melhor anlise de sua obra , no entanto ,  do tambm romancista Jos

 Lemos Monteiro , no livro O Universo M ( s ) tico de Jos Alcides Pinto .

 Diz , a certa altura , o crtico : " ...
 o universo criado por Jos Alcides

 Pinto sintoniza com uma diretriz nova da histria de nossa literatura ,

 qual seja , a da explorao do fantstico , do estranho ou do

 maravilhoso. "

 Assim como Hermilo Borba Filho , o romancista Ariano Suassuna iniciou -

 se no teatro .
 Seus romances constituam uma trilogia , iniciada com

 Romance d'A Pedra do Reino , em 1971 , seguido de Histria d'O Rei

 Degolado , em 1976 .

 A respeito do " realismo mgico " , ele mesmo escreveu " nota " publicada

 junto ao O Rei Degolado : " ser que o mito  uma fantasia irreal e

 anestesiadora , incompatvel com o realismo , ou , pelo contrrio , tem um

 sentido mais real e carregado de significados do que os personagens

 das novelas meramente " veristas " ?
 Note-se que , de propsito , estou

 usando um nome ligado ao " verismo " naturalista , e no ao " realismo " ,

 que  outra coisa : inclusive j escrevi uma vez - tentando desfazer

 certos equvocos a respeito do meu pretenso " realismo mgico " - que ,

 na Amrica Latina de fala espanhola , o " realismo mgico " era mais

 mgico do que realista , enquanto que no Brasil ele era mais realista

 do que mgico. "

 MURILO RUBIO

 Nascido Murilo Eugnio Rubio , em l  de junho de 1916 , um dos mais

 importantes cultores do conto fantstico no Brasil estreou em 1947 ,

 com o livro O ex-mgico .

 Murilo Rubio dedicou-se exclusivamemte ao conto , como poucos

 escritores brasileiros .
 Todos os grandes contistas brasileiros so

 tambm romancistas e poetas .
  o caso de Machado de Assis .

 Outra singularidade da Murilo - a dedicao ao fantstico .
 E por que

 isso ?
 Ele mesmo responde : .
 " Minha opo pelo fantstico foi herana da

 minha infncia , das leituras que fiz , e tambm porque sou um sujeito

 que acredita muito no que est alm das coisas : nunca me espanto com o

 sobrenatural , com o mgico , com o mistrio. "

 Carlos Vogt constata serem " poucos e magros " os espcimes do gnero

 fantstico , " tendo na solido paciente do trabalho de Murilo um raro

 caso de expresso maior. " E  verdade .
 E at seria mais cmodo para o

 historiador ou o estudioso dedicar-se exclusivamente ao contista

 mineiro .
 Pois a literatura crtica brasileira  rica em artigos e

 ensaios que tem como foco o criador do Pirotcnico Zacarias.Em 1987 o

 Suplemento Literrio do Minas Gerais , por exemplo , dedicou uma srie

 de trs edies a Rubio , com artigos e ensaios assinados por alguns

 dos melhores crticos literrios brasileiros .
 A srie intitulou-se

 " Murilo Rubio , 40 anos de ex-mgico " .

 Um dos mais alentados ensaios da srie  assinado por Nelly Novaes

 Coelho e tem por ttulo " A civilizao-da-culpa e o fantstico-absurdo

 muliriano " .
 Transcrevamos os dois primeiros pargrafos : " 0 fantstico

  posterior  imagem de um mundo sem milagres , submetido a uma

 rigorosa causalidade. / ...
 S as culturas que chegarem a uma ordem

 constante , objetiva e imutvel dos fenmenos , puderem dar origem , como

 por comtraste , a essa forma particular de imaginao , que contradiz ,

 expressamente , a regularidade perfeita ( daquela ordem ) : o espanto do

 sobrenatural. ( Rogar Caillois , in Antologia del Cuento Fantastico .

 Buenos Aires , Ed. Sudamericana , 1970 ) .

 Diramos , porm , que o fantstico muriliano ( tal como o de Kafka ) 

 posterior ao espanto , de que fala Caillois .
 Este teria correspondido 

 primeira reao dos homens diante da nova imagem-do-homem-e-do - mundo

 que a Cincia positivista lhes revelara .
 Superado o espanto do

 primeiro momento , sobreveio a revolta e depois a resignao , a apatia

 ou o espanto congelado ( de que fala Davi Arriguci ) , diante do

 inevitvel .
 Nesse sentido , o que espanta o leitor de Murilo Rubio  o

 fato de nada espantar os seus personagens .
 Envolvidos ,

 inexplicavelmente , nas situaes mais fantsticas , trgicas e sem

 sentido , eles se deixam levar .
 Impotentes diante dos fatos ou

 incapazes de revolta , submetem-se passivamente  fatalidade dos

 acontecimentos. "

 Outra dedicada crtica de Rubio  Eliane Zagury .
 Ao lembrar o tempo

 decorrido entre o primeiro e o segundo livro do contista , a ensasta

 constata : " Murilo nunca teve pressa em exibir o novo que nos tinha a

 ofertar. " Em outro ensaio , " O contista do absurdo " , Zagury traa o

 perfil literrio do contista - " o representante originalssimo de uma

 literatura de fico muito pouco explorada na literatura Brasileira ,

 to afeita s analogias mais primitivas da realidade que a sustm. "

 Antonio Hohlfeldt v no escritor mineiro o mais importante

 representante brasileiro do que ele chama de " conto alegrico " .
 No

 entender de Temstocles Linhares , no entanto , o fantstico no  o

 trao dominante na literatura de Rubio .
 " Na verdade , o sonho e a

 fantasia  que inspiram a maioria de seus contos " , diz ele .
 E noutra

 pgina de seus 22 Dilogos sobre o Conto Brasileiro Atual observa : que

 o fantstico praticado por Murilo no livro de estria " era outro tipo

 de fantstico , um fantstico mais mgico , menos real , se assim me

 posso exprimir .
 As estrias de Rubio se desenvolviam mais em torno do

 sonho e da fantasia .
 Eram mais parbolas que continham muita verdade ,

 sou o primeiro a reconhecer , mas que se afastavam desse outro tipo de

 fantstico mais prximo das velhas crenas humanas e que traduz de

 certa forma a volta a um estado da conscincia bastante antigo , ou

 seja , a revivescncia de sentimentos instintivos , tal como nos faz

 sentir Jos J. Veiga. - De qualquer modo , so apenas diferenas de

 tom , pois tanto o fantstico , como o mgico ou o ferico tm origem

 comum. - Sim , mas o fantstico pertence pelo esprito ao mundo do

 terror ou do medo , ao passo que o mgico , ou melhor , o ferico , talvez

 a melhor caracterstica de Rubio , ao mundo da intercesso , do refgio

 contra o terror ou o medo. " Mais adiante afirma : " O fantstico de

 Murilo Rubio talvez seja mais intelectual .
 Os seus fantasmas so mais

 concebidos pelo esprito ...
 "

 Neste dilogo , onde faz algumas comparaes de J.J. Veiga com Murilo

 Rubio , ainda explica : " Os ( contos ) de Murilo Rubio giram mais em

 volta de gente da cidade , de mgicas , de almas penadas , de defuntos

 que revivem , de loucos , de mulheres monstruosas , etc .
 Quer dizer , um

 fantstico mais ligado s pessoas , aos seus costumes mgicos , ao passo

 que ...
 "

 A bibliografia de Murilo Rubio  a seguinte : O ex-mgico ( 1947 ) , A

 estrela vermelha ( 1953 ) , Os drages e outros contos ( 1965 ) , O

 pirotcnico Zacarias ( 1974 ) , O convidado ( 1974 ) , e A casa do girassol

 vermelho ( 1978 ) .
 Seriam , pois , seis livros .
 No entanto , como explica

 Carlos Vogt no artigo " A construo lgica do absurdo " , a matemtica

 muriliana no  bem assim , vez que o contista sempre reescreveu e

 reeditou seus contos , sob ttulos diferentes de livros .
 Assim , A casa

 do girassol vermelho contm os mesmos contos de A estrela vermelha " e

 contos que l se encontravam foram , por sua vez , publicados em 1965 no

 volume Os drages e outros contos , que , por sua vez , continha

 trabalhos republicados em 1974 , em O pirotcnico Zacarias , ttulo

 tambm de um conto j publicado no Ex-mgico .
 Enfim , a circularidade 

 sem fim .
 Propositadamente .
  que Murilo Rubio  , na verdade , um

 reescritor , no melhor e mais conseqente sentido que este termo possa

 ter , quando aplicado a um autor que elabora e reelabora minuciosamente

 os seus contos e no apenas por zelo profissional " ( ...
 ) .

 Na " sntese crtica " de Murilo Rubio , no didtico Dicionrio Prtico

 de Literatura Brasileira , escreveu Assis Brasil : " Murilo Rubio  , no

 Brasil , um dos pioneiros do conto fantstico , que entraria mais em

 voga na dcada de 70 , por influncia de alguns escritores

 latino-americanos .
 Mas a linhagem  clssica , machadiana , enveredando

 quase sempre pelo clima da fantasia. "

 JOS J.VEIGA

 Nascido Jos Jacinto Veiga , em 2 de fevereiro de 1915 , outro nome

 fundamental da literatura fantstica no Brasil  Jos J. Veiga .
 A

 Enciclopdia de Literatura Brasileira , de Afrnio Coutinho e J .

 Galante de Sousa traz a seguinte sinopse do escritor goiano : " Estreou

 um pouco tarde , 1959 , mas Os cavalinhos de Platiplanto chamou logo a

 ateno da crtica e o autor foi apontado como um dos introdutores do

 realismo mgico na lit. brasileira , em cuja linhagem , at ento , s

 era citado Murilo Rubio .
 Entre o primeiro livro e o segundo houve um

 hiato de sete anos , mas A hora dos ruminantes , agora uma novela

 ( inspirada num dos contos publ. antes ) tambm chamou a ateno da

 crtica e dos leitores .
 J.J.V. passou a ser mais conhecido .

 Ultimamente vem se dedicando s narrati-vas mais longas ( nov. ) , embora

 o seu forte , desde a estria , sejam os contos mais sintticos .
 Prximo

 ao realismo mgico ou ao Surrealismo , com um vigor kafkaniano , o autor

 cria uma realidade bem brasileira , usando o nosso coloquial e

 localismos , como se estivesse escrevendo lit. regional .
 Mas a dimenso

 da sua fico  universal , naquele ponto em. que joga com problemas

 humanos e com o homem em qualquer quadrante. "

 Numa entrevista , Veiga negou haver qualquer influncia de Garca

 Mrquez , Cortzar e Scorza em sua obra .
 Porque no os conhecia quando

 publicou Os cavalinhos de Platiplanto , A mquina extraviada e A hora

 dos ruminantes .
 E acrescentou : ( ...
 ) " fao uma literatura realista .

 Nem fantstico , nem mgico. "

 Veiga j chegou a ser comparado a Swift e Lewis Carrol .
 H na sua obra

 " toques de humor , ora de ironia , s vezes de grotesco ou pattico ,

 resvalando pelo macabro , " comenta nio Silveira .

 Em exaustiva anlise da obra de Veiga , diz Temstocles Linhares : ( ...
 )

 " nele o fantstico se reveste daquilo que , a meu ver , lhe  mais

 determinante : o de se afastar de qualquer noo de Paraso Terrestre ,

 de Idade de Ouro ou da representao de sonhos , isto  , de lugares em

 que o homem mdio pudesse viver em estado de completa proteo , como

 ocorre em Rubio. "

 O autor de 22 Dilogos sobre o Conto Brasileiro Atual refere-se a J .

 Veiga em mais de um de seus dilogos .
 No de n  3 , dedicado a

 " nomes-chave do conto brasileiro atual " , alude a Veiga assim : ( ...
 )

 tambm ele foi dos que conseguiram fundir sonho e realidade , chegando

 at a criar o ambiente de pesadelo para alguns de seus contos .

 Indiscutivelmente , ele  nome-chave para este captulo dos " contos

 fantsticos " .
 Pena  que publique to pouco. "

 No dilogo 13 o ponto de referncia central  o prprio autor de

 Aquele mundo de Vasabarros .
 Comparando-o a Murilo Rubio , afirma : " Em

 Veiga o fantstico flui mais das coisas , da natureza , dos

 acontecimentos , entrando em comunicao com o mundo visvel mais

 imediatamente , mais naturalmente , para mostrar sobretudo que o

 sentimento humano entra muitas vezes em contato com os espritos

 elamentares e que a terra , a gua , o ar , os animais sobretudo so

 personalidades to ativas quanto o eram para os filsofos pr -

 socrticos .

 A obra de Jos J. Veiga tem sido objeto de incontestveis estudos , tal

 a sua importncia no panorama da Literatura Brasileira .
 Assim , em A

 literatura no Brasil , vasto painel crtico e histrico de nossa arte

 literria , seu nome e sua obra esto presentes em diversos captulos .

 Em " Ciclo Central " , assinado por Wilson Lousada a parte de " O

 Regionalismo na Fico " , Veiga aparece como narrador regionalista ,

 apesar de seu mundo estar " construdo sobre o grotesco e o onrico ,

 absurdo e simblico " ( ...
 ) .

 Ivo Barbieri , em " Situao e Perspectivas " , captulo " O Modernismo na

 Fico " , assim define J.Veiga : " Na habilidade em flagrar detalhes

 reveladores do concreto cotidiano e nele inserir o fantstico que

 desorganiza a ordem de superfcie , instaura o choque estilstico. "

 Segundo Assis Brasil , em Os Cavalinhos de Platiplanto J. Veiga " joga

 com dois elementos criativos essenciais : o fantstico e uma linguagem

 marcadamente brasileira .
 Assim , temos , em princpio , um " maravilhoso "

 nosso e no importado .
 O filo vem mais incisivamente de Kafka - cujo

 mundo se presta a muitos equvocos - e no podemos esquecer Allan Poe ,

 o Papini de Og e Magog , e o Par Lakergvist dos contos diablicos .
 A

 linhagem vem ainda de uma tradio imaginativa , o gtico , que tem

 enriquecido a fico atravs dos tempos e hoje invadindo , com bastante

 eficcia , a fico cientfica. "

 Noutro trecho de sua anlise , Assis Brasil lembra que " Jos J. Veiga

 no situa " no mapa " ( como se refere num de seus contos ) as suas

 narrativas , mas temos um escritor brasileiro , pelas expresses que

 usa , pelos costumes que apresenta , e o maravilhoso e fantstico de

 seus trabalhos so apenas o pano de fundo de seus trabalhos , que tm a

 sua cor local caracterstica. "

 Hlio Plvora frisou bem esse aspecto da obra de Veiga - " sua lngua 

 a do homem do interior , os seus assuntos derivam da terra , dos homens

 - uma realidade nossa " .

 Jos J. Veiga  regionalista , sim , porm da outro naipe .
  inventivo ,

 imaginativo .
 Da a constante presena do elemento fantstico em sua

 obra .
 Poderamos at dizer que o escritor goiano v em mais

 profundidade o mundo , o pequeno , pobre e montono mundo rural .
 Ou o v

 em duas dimenses - a real e a irreal ou supra-real .

 Wilson Martins sintetiza esse modo de ver de Veiga " suas experincias

 jogam agora perigosamente com elementos imediatos do realismo para

 obter a atmosfera de fantstico em que novas dimenses se acrescentam

 ao mundo visualmante perceptivo " .

 So incontveis os estudos dos contos e romances de Veiga .
 Se fssemos

 apenas citar os ttulos deles j careceramos de dezenas de pginas .
 E

 isto  to-somente um esboo histrico .

 Encerremos , pois , esta parte .
 Antes , vamos nos valer de algumas

 observaes de Mrio da Silva Brito : " Jos J. Veiga por mais que se

 desgarre na fantasia e se entregue a locubraes imaginosas , ou se

 emaranhe no absurdo - territrio que freqenta com a mesma calma e

 serenidade do peixe em suas guas - no consegue , de modo algum , ser

 um habitante da torre de marfim , um distante das durezas da vida , um

 egosta enamorado do prprio umbigo e corrodo pela alienao. "

 E logo adiante : " Se priva com Poe , Hoffmann , Kafka , Ionesco , Orwel ou

 Karel Kapek - esses captores de ncubos ou scubos , esses sensveis

 radares da realidade que se escondem atrs ou alm daquilo que

 rotineiramente se costuma supor seja o real - tambm compartilha das

 vicissitudes do ser humano , mais do que isso , tem conscincia de que

 este pode ser esmagado , sofrer deformaes , passar de pessoa a objeto ,

 re-gredir no seu trajeto histrico quando sob o imprio do arbtrio ou

 submetido a presses que o anulam at o aniquilamento. "

 PRICIES PRADE

 Nascido Pricles Lus Medeiros Prade , em 7 de maio de 1942 , o terceiro

 nome mais importante da literatura fantstica no Brasil no  dos mais

 conhecidos escritores brasileiros .
 Dedicado mais  poesia e ao ensaio ,

 Pricles Prade  , no entanto , autor de dois dos mais instigantes

 livros do gnero fantstico : Os Milagres do Co Jernimo ( 1971 ) e

 Alapo para Gigantes ( 1980 ) .

 Por este ou aquele motivo , no  sequer citado nos dois livros de

 Assis Brasil consultados para a elaborao deste esboo .
 O mesmo se d

 com os Dilogos de Temstocles Linhares .

 Contudo , Antonio Hohlfeldt o colocou ao lado de Murilo Rubio , Moacyr

 Scliar , Roberto Drummond e Victor Giudice , no captulo " 0 Conto

 Alegrico " de seu bem elaborado Conto Brasileiro Contemporneo .

 Copiemos trecho de sua anlise : " Prade tambm no dispensa a ironia

 com que refere algumas narrativas , demonstrando sobretudo a solido em

 que vive todo aquele que esteja de plena posse de sua conscincia ,

 tema que , como verificamos , no  absolutamente ausente da obra de

 Murilo Rubio .
 Por vezes a personagem de seus contos faz-nos pensar

 num alter-ego metaforizado .
 Em outras ocasies , temos um

 narrador-revelador como personagem sobrevivente de alguma catstrofe

 qualquer .
 Misturem-se aqui profecias e narrativas mticas , num momento

 igualmente circular. "

 Almeida Fischer , ao descobrir Pricles Prade ( fala de " tremendo susto "

 ao ler seus livros ) , teceu-lhe muitas loas : " Pricles Prade  escritor

 singular na literatura brasileira , sem ningum que se lhe assemelhe

 quanto  elaborao de seus escritos , em prosa ou em versos .
 Que seus

 textos so fantsticos , no h nenhuma dvida , mas inteiramente

 diferentes de outros transgressores do real de nossas letras .
 Poderiam

 enquadrar-se como do chamado realismo mgico da literatura bero -

 americana ?
 Talvez , em parte .
 Mas no perfeitamente , emborca tambm

 neles haja magia .
 So textos claramente surrealistas , talvez os mais

 marvantes dessa tendncia em nosso Pas .
 Vo , porm , alm do

 surrealismo de Andr Brote e seus companheiros do grupo francs .
 

 falta de melhor classificao , vamos dar-lhes o nome de surrealismo

 fantstico-maravilhoso. "

 No prefcio ao Alapo para Gigantes , Tassilo Orpheu Spalding

 constata : " Atualmente so poucos os escritores que se dedicam 

 extraordinria tarefa de recriar a vida em parmetros mgicos ou

 fantsticos .
 Em recriar outra vida , mais nova e mais gostosa .
 Porque

 temos todos duas vidas - a que vivemos e que no vivemos , segundo

 afirma Oscar Wilde : " Para a maioria de ns , a vida real  a vida que

 no vivemos '. "

 A anlise que faz da obra de Pricles Prade  fundamental para este

 estudo , vez que so raros os ensaios sobre a nossa literatura

 fantstica .
 Transcrevemos , pois , outros trechos do prefcio de

 Tassilo : " Estes contos curtos evocam toda uma magnificncia oculta ,

 mas real - da a denominao que os crticos lhe do de real -

 fantstico - que subjaz  conscincia lcida e vigilante. "

 " Lendo-se os contos deste magnfico Alapo para Gigantes vm-nos 

 mente , de imediato , as obras de Jarry , Adamov , Wedekind e , sobretudo ,

 Bert Brecht .
 Se este ltimo apresenta a seus leitores um mundo

 demasiadamente explicado , Pricles Prade , por seu turno , revela-nos um

 cosmos totalmente hermtico e incongruente , que tende a exprimir uma

 realidade tornada estranha e imperscrutvel. "

 " s vezes as estrias parecem grotescas , bem no sentido do Teatro del

 Grottesco , dos Chiarelli e Nicodemi , mas , no fundo , o que existe  um

 mundo real que no pode ser apreendido pelos nossos sentidos

 convencionais .
 Quando o autor diz , por exemplo , que o Touro urinava

 peixes longos e brilhantes ,  evidente que alia uma funo fisiolgica

 normal e comum - urinar - a uma desconcertante Einigkeit - os peixes. "

 " Pricles Frade de repente desfaz todas as leis a que estamos

 acostumados a obedecer .
 Suspende a ordem habitual das coisas , desfaz o

 convencional e cria o mgico fazendo-nos mergulhar numa outra vida , a

 de Oscar Wilde e Fernando Pessoa , entre outras. "

 " Encontro nestes contos , e sobre isso , somente , quero me deter - o que

 j vislumbrei no fascinante Os Milagres do Co Jernimo , a saber , uma

 tendncia nitidamente surrealista .
 No livro acima citado , esta

 tendncia manifesta-se de modo muito sutil ; neste , com toda a

 intensidade .
 Mas no me refiro ao Surrealismo de Hans Arp , de Salvador

 Dali , de Paul Delvaux , de Max Ernst , de Ren Magritte ou de Wolfgang

 Paalen .
 Refiro-me ao surrealismo candente de Bosch e Brueghel. "

 E nais este trecho , j finalizando o prefcio : " Em termos isomrficos

 todos ( os contos ) tm a mesma caracterstica daquilo que Todorov chama

 de fantstico-maravilhoso : emergem do cotidiano e nos fazem mergulhar

 fundo no inconsciente. "

 Sobre os contos de Os Milagres do Co Jernimo assim falou Cassiano

 Ricardo : " Os contos de Pricles Prade penetram fundo o territrio

 brumoso do fantstico , num mundo alienante-surrealista cuja

 inteligncia do texto se nega a qualquer tentativa de leitura

 ingnua. "

 Luz e Silva  categrico : " Pricles Frade , sem favor algum ,  a figura

 mais expressiva do conto fantstico brasileiro , podendo ser situado

 entre os escritores mais importantes da Amrica Latina na atualidade. "

 Segundo Lauro Junkes " o fantstico de Pricles Prade , porm , longe de

 ser pura especulao de emoes fceis , de cenas mirabolantes e

 espetaculares , assume multvocas variantes que o enriquecem bem mais

 com o sugerido do que com o declarado , enveredando pelos ilimitados

 domnios do surreal , do demonaco , do mtico e sobretudo do

 subconsciente. "

 Carlos Jorge Appel esclarece : " Pode-se entender , assim , a adeso de

 Pricles Prade ao fantstico como instrumento adequado para criar o

 seu mundo de fico , porque se ope ao falso realismo , que consiste em

 crer que todas as coisas podem ser descritas e explicadas como o dava

 por assentado o otimismo filosfico e cientfico de outros tempos. "

 Prdigo em elogios , Jos Afrnio Moreira Duarte afirma : " Pricles

 Prade revelou-se um dos maiores contistas brasileiros na linha do

 realismo mgico , com Os Milagres do Co Jernimo. "

 Pricles Prade  escritor singular .
 O fantstico de seus contos no

 encontra similar em nossa literatura , mesmo em Murilo Rubio ou em

 Jos J. Veiga .

 No nos parece aconselhvel a transcrio de trechos de poemas e

 contos .
 No entanto , apenas como amostra da singularidade de Pricles

 Prade , vejamos dois fragmentos de um de seus livros :

 " Quando , pela primeira vez , o gigante caiu no alapo , o baque foi

 violento e surdo .
 Nas seguintes , a queda era suportada com prudncia e

 habilidade. " ( " Alapo para Gigantes " )

 " No cesto encontrei doze ovos de chumbo .
 Desconfiado , olhei para os

 lados na expectativa de uma presena desconcertante .
 No houve

 equvoco , pois em seguida um corpo indefinido arrastou-se em minha

 direco. " ( " O Servo de Schedin " )

 Para finalizarmos este captulo , pedimos de emprstimo a Hermann Jos

 Reipert duas palavras : " E , assim , se escrevendo pouco ressoa tanto ,

 f-lo com mo de mestre e os latidos do Co Jernimo ainda por aqui

 esto , dizendo coisas que os homens no compreendem , mas compreendero

 um dia , nesse dia em que souberem que somos filhos do mistrio , embora

 representando to mal a nossa triste condio de duendes. "

 OS NOVOS

 Assis Brasil subdividiu a Literatura Brasileira neste sculo em Pr -

 Modernismo ( 1909-1922 ) , Modernismo ( 1922-1955 ) e Nova Literatura

 ( 1956-1976 ) .
 No caso especfico deste esboo histrico da literatura

 fantstica no Brasil , ousaremos chamar de " novos " aqueles escritores

 que estrearam em livro no final dos anos 1960 .
 Critrio puramente

 didtico , sem deixar de lado a cronologia .
 E embora alguns

 ficcionistas que surgiram no incio do sculo , e que chamamos de

 " sucessores " , tenham continuado ou continuem escrevendo e publicando .

 Vejamos , pois , um a um , os mais importantes novos cultores do

 fantstico no Brasil .

 Edla van Steen apresentou ao pblico seu primeiro livro em 1965 .
 O

 romance Coraes Mordidos  de 1983 e sobre ele Telenia Hill escreveu

 o artigo " Realismo Mgico de Edla van Steen " .
  dele este trecho : " Do

 realismo minucioso , que se registra com a dimenso do contemporneo ,

 transita-se para um realismo mgico , em que as coisas acontecem

 inexplicavelmente , criando uma atmosfera de surrealidade. "

 Luiz Vilela estreou em 1967 , com os contos de Tremor de Terra .

 Analisando o terceiro livro do contista , Assis Brasil sustenta : " E sua

 versatilidade se faz sentir mais uma vez , quer quando explora a

 temtica ertica , como em Ousadia , quer no conto que d ttulo ao

 volume , Tarde da Noite , onde mistura o real com o fantstico e tira

 deste " jogo " subsdios para situar a vida morna e parada de um casal. "

 Tambm Temstocles Linhares se atm ao fantstico na obra de Vilela :

 " - No sei bem se podemos classific-lo como contista do fantstico

 infantil .
 Mas muita coisa da atrao que a criana tem pelo mistrio ,

 pelo esprito de aventura , por certos valores ambguos , perpassa por

 estas pginas .
 Na verdade , o fantstico e o real so vividos pela

 criana como sucede nestes contos .
 Visivelmente os dois estados

 transparecem em algumas personagens do livro .
 O primeiro conto se

 inicia com a declarao de uma delas que dizia ter visto o demnio

 quando tinha oito anos .
 A parte fantstica , porm , logo se alterna ou

 mistura com a real , diante do padre , da igreja , do pedido feito 

 Virgem , cuja imagem era vesga e que fez o menino disparar de riso e da

 igreja .
 No era s o diabo , contudo , que aparecia  noite .
 Tambm o

 av barbudo e forte imprimia em sua figura os dois lados , o real e o

 fantstico. "

 Juarez Barroso , que faleceu em 1976 , havia inaugurado sua obra em

 1969 , com Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal .

 Aps ressaltar o regionalismo na obra do escritor de Baturit , o

 crtico Temstocles Linhares se detm num dos contos de seu primeiro

 livro : " 0 conto melhor do livro , a meu ver ,  precisamente o mais

 extenso , onde no se v sombra desse linguajar inculto .
 E onde o

 " fantstico " se mostra em cena culminante .
 O conto se intitula

 " Estria de D. Nazinha e de seu cavalo encantado " e o fantstico , como

 elemento macabro e m6rbido , est. na descrio da corrida interminvel

 do Capito , o marido de D. Nazinha , em frente de seu quarto , na

 fazenda , que montava o cavalo milagroso por ele dado de presente 

 mulher , agora castigada no seu orgulho e prognie ( ...
 ) "

 Elias Jos teve o primeiro livro A Mal-Amada editado em 1970 .

 Temstocles Linhares dedica-lhe um captulo inteiro de seus 22

 Dilogos .
 Para ele os mini-contos de A Mal-Amada no chegariam a ser

 contos , se no fosse o " fantstico " deles .
 E conclui : ( ...
 ) " os

 melhores contos do livro so os da segunda parte , onde o " fantstico "

 se mostra mais dbil , e eles assentam em outros elementos dramticos ,

 bastante intensos tambm , como esse da incompreenso entre os homens .

 Os contos de grande categoria do livro prescindem totalmente do

 " fantstico " .

 Note-se , ainda , a seguinte observao do crtico paranaense : ( ...
 )

 " pode arrolar estes contos entre os " fantsticos " , pois o fantstico

 se mostra em muitos deles , em muitas de suas passagens , embora no

 seja desejo do autor , quero crer , permanecer no reino do mistrio como

 seu iniciado. "

 Ricardo L. Hoffmann fez sua estria em 1967 , porm sua " experincia

 plena " viria em 1971 , com A Crnica do Medo , " onde passa da viso

 provinciana do grupo familiar a um " laboratrio " da experincia

 humana , num romance algo fantstico , cruel , irnico " , no dizer de

 Assis Brasil .

 Diz ainda esse crtico : " Longe de ser um romance objetivo , Hoffmann

 entra mais agora , decididamente , na rea de uma fico mgica , que tem

 caracterizado a novelstica brasileira dos ltimos anos .
 Naquela

 estranha casa tem lugar a " fervura " de todos os sentimentos humanos ,

 num cadinho onde as paixes so jogadas , numa linhagem que por vezes

 lembra o sombrio Edgar Allan Poe de A Queda da Casa de Usher. "

 Victor Giudice estreou com Necrolgico , em 1972 .
 Segundo Hohlfeldt ,

 " desde a estria , Giudice primou pela ironia e at mesmo o humor -

 negro , seja na temttica da morte , que atravessa todo este volume ,

 seja pela organizao formal dos contos ...
 " Exemplo claro desse

 humor-negro e o conto O Arquivo , onde um burocrata , de reduo

 salarial em reduo salarial , de rebaixamentos de postos em

 rebaixamentos de postos , vai , pouco a pouco , se metamorfoseando em

 coisa , at terminar num simples arquivo .

 No prefcio de Os Banheiros , segundo livro de Giudice , sado em 1979 ,

 diz Elizabeth Lowe : " Todo o humorista  um moralista disfarado , e as

 histrias de Victor Giudice , quase sempre , so acentuadamente

 alegricas .
 Por baixo da pintura , do cetim e do brilho do mundo do

 Pierrot , encontra-se a poeira das i1uses fugazes .
 Assim como fez com

 a linguagem , Giudice tambm corporifica a moral. "

 Francisco Sobreira Bezerra iniciou-se em livro com os contos de A

 Morte Trgica de Alain Delon , em 1972 .
 No segundo livro , A Noite

 Mgica , o absurdo  o ingrediente principal da iguaria narrada .
 s

 vezes um absurdo que , de to cotidiano , perde o sabor de coisa

 literria .
 No conto " A Lmina " , por exemplo .
 Outras vezes , o absurdo

 apresenta-se como se o personagem fosse apenas um deficiente mental ,

 incapaz de perceber o que ocorre ao seu redor , manejado por tentculos

 to torturantes quanto os fantasmas dos pesadelos .
 A realidade marrada

 aproxima-se , ento , do sonho .
 Os protagonistas e os espexctadores so

 meros joguetes nas malhas de seres todo - poderosos .
 No  por outra

 razo que em certos contos desse livro a presena do elemento onrico

 e perfeitamente perceptvel ou mesmo preponderante .
 Os atos e as

 imagens se sucedem de forma incoerente , deixando o personagem

 simplesmente perplexo , espantado diante da estranha realidade que vive

 e de que tenta desesperadamente fugir .
 Antes , reduz  condio de

 fico , de brincadeira de mau gosto , de encenao , quando muito de

 logro , a pea que lhe pregam .
 No acredita ser possvel to absurda

 realidade .
 Por fim se convence e tenta fugir .
 Mas j  tarde .

 Nagib Jorge Neto teve editado seu primeiro livro , O Presidente de

 Esporas , em 1972 .
 Hermilo Borba Filho chegou a dizer que o contista

 conseguira fundir " o realismo-fantstico , o sonho , o potico , a

 linguagem nova numa escrita correta de gente e terra que se aproxima ,

 e muito , da mais extraordinria literatura latino-americana de agora "

 ( ...
 )

 O segundo livro de Nagib , As trs princesas perderam o encanto na boca

 da noite , publicado em 1976 , saiu com uma substancial anlise crtica

 de Ivan Cavalcanti Proena .
 Depois de esquadrinhar palmo a. palmo a

 estria-ttulo , constata o crtico : " Em O Presidente de Esporas , que

 passou despercebido do grande pblico e da crtica , possivelmente dos

 mais inportantes livros de contos dos ltimos tempos , sem " boom " ( o

 que equivale a dizer sem festividades ) , sem mais nada , a gente j

 encontrava o material que , aqui , vai ampliar-se e ganhar novas

 roupagens em alegorias mais ou menos favorecedoras de uma retomada do

 real. "

 Cludio Aguiar comeou em 1972 , com os contos de Exerccio para o

 Salto .
 Seu grande passo foi dado , porm , com o romance Caldeiro , de

 1982 .

 Para Dimas Macedo , trata-se da maior epopia brasileira depois de

 Grande Serto : Veredas e Sargento Getlio .
 Quanto a defini-lo como

 romance fantstico , vale lembrar o pargrafo em que falamos das

 semelhanas entre certos acontecimentos reais e fatos narrados em

 obras de fico .
 Ora , o fantstico no  o irreal , o nunca acontecido ,

 o impossvel .
 Os acontecimentos de Caldeiro so obra dos homens em

 sociedade .
 Transfigurados em fico , adquirem uma conotao

 maravilhosa , mgica , absurda .

 Gilmar de Carvalho publicou o primeiro livro , Pluralia Tantum ,

 subtitulado " um livro de legendas " , em 1973 .
 Na orelha do livro

 escreveu Juarez Barroso : " Seu estilo  clssico , sua narrao ,

 fabular , levemente borgeana. " E mais adiante : " Gilmar no escreve

 contos .
 O conto , por mais de vanguarda que seja , tem a sua disciplina ,

 sua forma de discurso .
 Gilmar  um compositor de cantos em prosa ,

 discpulo remoto do Rei Salomo " ( ...
 ) .

 Dimas Macedo diz : " Sua concepo borgeana e , portanto , inusitada do

 apreender a concretude do universo ficcional , aliada a uma refinada

 capacidade de resgatar o inslito atravs de recursos estilsticos

 alegorizantes , tudo isso tem concorrido para emprestar  produo

 1iterria de Gilmar de Carvalho uma situao privilegiada entre o

 inventrio dos seus contemporneos de gerao. "

 O grande momento de Gilmar de Carvalho  , no entanto , Para blum , de

 l977 .
 Para muitos , um grande romance .
 Para outros , uma formidvel obra

 literria sem gnero definido .

 Nilto Maciel publicou o primeiro livro , Itinerrio , em 1974 .

 Seguiram-se mais oito livros ( contos , novelas e romances ) .

 Em artigo includo em Textos & Contextos , Francisco Carvalho observou :

 " Nunca ser demais louvar-lhe a extrema habilidade em conduzir a

 fabulao das narrativas e o desenvolvimento harmonioso das situaes

 ficcionais , muitas vezes transportadas ao plano do chamado realismo

 fantstico. " E mais adiante : ( ...
 ) " tambm cultiva , em altssimo grau ,

 gosto acentuado pela arquitetura dos labitintos e pela recriao de

 temas literrios da antiguidade clssica , sobretudo na esfera da

 mitologia , chegando a ombrear-se nesse tocante com o engenhoso Jorge

 Lus Borges " ( ...
 ) .

 Referindo-se especificamente ao livro As Insolentes Patas do Co ,

 Francisco Carvalho faz mais duas observaes que nos interessam aqui :

 " O conto Iluses de Gato e Rato ( p. 42 ) possui todos os ingredientes

 de uma fbula moderna , onde o bichano encarna a selvageria do poder , e

 o rato faz s vezes de vtima indefesa .
  uma histria com todas as

 implicaes alegricas de uma narrativa kafkeana. " ( ...
 ) " Um fato que

 desperta a curiosidade do leitor  a presena ostensiva de gatos e

 ratos na fico de Nilto Maciel .
 Uns e outros circulam arrogantemente

 em alguns dos melhores contos do livro , numa promiscuidade

 antropomrfica que s encontra paralelo nas clebres fbulas de La

 Fontaine. "

 Haroldo Bruno deixou dois bons romances : A Metamorfose , publicado em

 1975 , e As Fundaes da Morte .
 Aquele  uma parbola , uma alegoria que

 teria " um pouco de Kafka e quase nada de Apuleio " , explica o autor .

 Gilvan Lemos  autor de diversos romances e contos .
 Publicou em 1975

 Os Olhos da Treva , obra de mistrios e enigmas .

 Roberto Drummond fez estria tambm naquele ano , com o festejado A

 Morte de D.J. em Paris .

 No dizer de Antonio Hohlfeldt , ele " traduz com clareza um sentimento

 de deslocamento , de marginalizao , de expulso do ser humano em

 relao  sociedade organizada. " E mais adiante : " Seja qual for a

 situao dramtica abordada , a ao do conto encontra-se sempre

 envolta numa srie de elementos da sociedade de consumo , que vai da

 escova de dentes ou dentifrcio ao cigarro , os calados , a cala , o

 refrigerante e assim por diante , o que levou um crtico a afirmar que

 todo o conto de Roberto Drummond assume um tom de " inventrio " dos

 objetos disponveis e absolutamente desnecessrios criados pela

 sociedade de consumo , de onde emana " uma enorme dor , uma saudade

 imensa do que j foi e inexiste neste momento " , sem que se atinja

 qualquer grau de nostalgia , porque em momento algum a personagem pode

 sequer imaginar em restaurar aquele universo. "

 Naomar de Almeida Filho  autor do romance Ernesto Co , publicado em

 1978 .
 Pelo ttulo j percebemos tratar-se de obra filiada ao mito da

 metamorfose .
 O protagonista se perde nas ruas e nos becos , atraindo

 sobre si os ces da cidade .
 Ernesto  um ser dividido , espcie de

 Gregor Samsa em estado de pr-metamorfose. Homem-co , lobisomem

 urbano .

 Socorro Trindad estreou com Os Olhos do Lixo .
 Em 1978 teve editado

 Cada Cabea uma Sentena .

 Airton Monte publicou o primeiro livro , O Grande Pnico , em 1979 .
 No

 conto " A ltima noite " at a personagem principal tem nome simblico -

 Cidado .
  o homem diante do medo coletivo de desobedecer a norma ou o

 costume .
 Algum tem de se fazer ovelha negra e pintar a casa de azul ,

 numa sociedade onde o costume impe a cor cinzenta .

 Paulo Vras no teve tempo de escrever muito .
 Em 1979 publicou O

 Cabea-de-Cuia e a seguir a novela Ita .

 Na opinio de Ligia Morrone Averbuck , " os vagos limites entre o real e

 o fantstico , a razo e a loucura , a verdade e o faz-de-conta emergem

 das pginas de O Cabea-de-Cuia ( ...
 ) .

 Carlos Emlio Corra Lima surgiu em 1979 , com o caudaloso A Cachoeira

 das Eras : a Coluna de Clara Sarabanda

 Na opinio de Jos Alcides Pinto , " no encontramos entre escritores

 contemporneos quem , como ele , possua um potencial criativo to

 variado e rico de smbolos e signos .
 O fantstico , o misterioso e o

 mtico andam de mos dadas nesse livro. "

 Jos Lemos Monteiro estreou em 1980 , com A Valsa de Hiroxima .

 Seguiu-se A Serra do Arco-ris , sobre o qual Moreira Campos disse :

 " Literatura fantstico-real ou absurdo-real , como se queira chamar , a

 lembrar tambm o rinoceronte de Ionesco , autor sempre referido por

 mim , em casos dessa natureza. "

 Cristovam Buarque estreou em 1981 , com o romance Sinand .
 Seu quarto

 livro , Os Deuses Subterrneos , se inscreve na linha da fico

 cientfica , segundo Wilson Pereira .

 Airton Maranho tem publicados at aqui apenas dois livros .
 O segundo

  A Dana da Caipora , de 1994 .
 Segundo Dimas Macedo , o romance

 " configura uma atmosfera de ameaas e assombros , uma fuso original e

 envolvente dos processos de sintetizao do imaginrio e do alegrico

 presentes no inconsciente mstico da tradio popular. "

 CONCLUSO

  este o primeiro ensaio ( mais no sentido de tentativa ) de elaborao

 de uma Histria da Literatura Fantstica brasileira .
 E  tambm um

 esboo , que poderei servir de base a um livro , onde os escritores

 relacionados tenham suas vidas e obras esmiuadas .

 O historiador poder , ainda , dedicar captulos exclusivos a cada uma

 das modalidades da literatura neo-realista , distinguindo uns de outros

 escritores .
 Assim , aqui estaro os cultores do conte alegrico , ali os

 do romance gtico , acol ...

 Nomes importantes tero deixado de ser mencionados nestas pginas , 

 que seus nomes no constam dos compndios de Histria da Literatura ou

 dos estudos de crtica literria como cultivadores de quaisquer das

 categorias estticas que , noutros tempos , se amoldavam ao esteretipo

 da literatura fantstica .
 Isto no quer dizer tenhamos realizado o

 trabalho to-somente de consulta .
 No entanto , abstivemo-nos de emitir

 juzo de valor .
 Aqui pouco importa se tal livro  literariamente mais

 valioso que outro .
 Interessou-nos saber apenas se a obra pode ser

 catalogada como de literatura fantstica .

 Por outro lado , no tivemos acesso  " biblioteca geral " .
 Assim , 

 possvel que ensaios , teses e artigos sobre autores e livros

 concernentes ao assunto aqui tratado tenham escapado aos nossos olhos .

 Como a tese " O fantstico no conto brasileiro " , defensida por Maria

 Luisa do Amaral Soares , na Faculdade de Letras da Universidade de

 Coimbra , em 1970 .

 De qualquer forma , temos certeza de que so poucos os livros , quer de

 Histria , quer de Crtica , dedicados  literatura fantstica no

 Brasil .
 At porque tambm so poucos os cultores desse gnero em nosso

 pas .
 E mais ainda porque cada obra dessa literatura no-real , seja

 ela dita simbolista , alegrica , surreal , surrealista , grotesca ,

 estranha , maravilhosa , fantstica , real-mgica , ou como queiramos

 cham-la , cada obra literria dessa natureza  , na verdade , uma obra

 singular e , portanto , difcil de ser classificada .

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 Para no estendermos demasiadamente esta lista , excluimos dela ttulos

 de romances , novelas e livros de contos citados ao longo do ensaio ,

 bem como ttulos de apresentaes ou orelhas e de ensaios e artigos

 consultados em peridicos .

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