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 " O noivo " , de Lygia Fagundes Telles

 rica Cristina Ribeiro

 AS METAMORFOSES DO FANTSTICO : ABSURDO E SURREALISMO

 Como j dissemos na pesquisa anterior , em nosso sculo , temas e

 procedimentos do fantstico sofreram transformaes e influncias

 culturais em razo das modas literrias e do surgimento de novas

 cincias .
 Assim sendo , a literatura fantstica de nossos dias no 

 certamente a mesma do sculo XIX , uma vez que ela utiliza uma nova

 linguagem e um novo arranjo de elementos .

 De acordo com Erhsam , essa evoluo do gnero fantstico foi

 ocasionada principalmente pela interpenetrao das diferentes

 literaturas e pelo aparecimento do surrealismo .

 No sculo XX , a literatura fantstica expande-se .
 Autores como Henry

 James , Lovecraft , Frans Kafka , Jorge Luis Borges e Julio Cortazar so

 exemplos de escritores que marcaram a histria do gnero fantstico .

 O SURREALISMO

 Caracterizando-se como o ltimo movimento da vanguarda europia , o

 surrealismo afirma-se em 1924 , com o Manifesto Surrealista de Andr

 Breton .
 O surrealismo  considerado uma das mais importantes correntes

 literrias do sculo XX , sendo responsvel por uma rica e variada

 influncia na cultura ocidental .

 Breton , principal terico e fundador do surrealismo , mostra em seus

 manifestos , uma nova proposta de vida baseada na mudana da condio

 humana , ou seja , uma vida liberada da lgica , do racionalismo e das

 convenes ( culturais , religiosas e sociais ) .
 Dessa maneira , o

 movimento surrealista acaba rejeitando o mundo burgus , racional ,

 mercantil e moralista .

 Esse movimento valoriza a entrada contnua do inconsciente em nosso

 cotidiano ; procura libertar o homem de uma existncia meramente

 utilitria , buscando sistematizar os valores da imaginao de modo que

 seja permitida a transformao da realidade cotidiana , tal como se

 apresenta objetivamente .

 Os surrealistas encaram o inconsciente como fonte inesgotvel e

 superior de conhecimento do homem ; assim , tentam criar uma arte livre

 da razo que valoriza todas as formas de transgresso - o devaneio , o

 sonho , o inconsciente , a loucura , a hipnose , o humor negro e o impacto

 com o inusitado .

 Dois aspectos podem ser destacados na literatura surrealista : as

 experincias criadoras automticas e o imaginrio extrado dos sonhos .

 O automatismo artstico consiste em um mecanismo que tenta extravasar

 diretamente os impulsos criadores do subconsciente , sem qualquer

 controle da razo ou do pensamento .
 Dessa maneira , os surrealistas

 colocavam no papel os desejos interiores profundos , criando uma

 escrita ditada pelo inconsciente , sem se importarem com coerncia ,

 adequao , e outros recursos controlados pela razo .

 No que se refere ao imaginrio extrado dos sonhos , os surrealistas ,

 com base nos estudos de Freud , tentam transpor o universo onrico para

 o plano artstico .
 Para eles , o sonho serviria de inspirao , uma vez

 que , por meio desse , o homem poderia encontrar sua realidade absoluta .

 Para Breton , " a soma dos momentos de sonho , do ponto de vista do

 tempo , a considerar o sonho puro , no  inferior  soma dos momentos

 da realidade. " ( Breton , 1924 , p .41 ) .
 Com efeito , o surrealismo almeja

 " [ ...
 ] seguir um estado que concilie o sonho e a realidade , uma

 espcie de realidade absoluta , de surrealidade , se assim se pode

 dizer. " ( Breton , 1924 , p .45 ) .

 Assim , o surrealismo acaba explorando as riquezas do inconsciente e

 dos sonhos , forando as portas do mistrio e aventurando - se nos

 campos do interdito .

 De acordo com o crtico literrio Fbio Lucas , h nas narrativas de

 Lygia Fagundes Telles um forte pendor para explorar as manifestaes

 do inconsciente .
 Para ele , nessas narrativas  comum " que o

 sobrenatural se misture  ordem secular das coisas , como se no

 houvesse distncia entre o real e o surreal. " .

 " O NOIVO " DE LYGIA FAGUNDES TELLES

 O conto " O noivo " , de Lygia Fagundes Telles , relata a histria de um

 jovem que , em uma certa manh , desperta ao ouvir batidas na porta de

 seu quarto : " [ ...
 ] As batidas eram suaves .
 Mas insistentes .
 Ele abriu

 os olhos .
 Sentou-se na cama. " ( Telles , 1974 , p .71 ) .
 Percebe ser sua

 empregada , Emlia , vindo avis-lo de que iria preparar o caf , pois a

 hora do casamento estava chegando .

 O jovem , meio confuso , no consegue se lembrar desse casamento : " [ ...
 ]

 quem  que se casa hoje ?
 No tenho nenhum casamento marcado para hoje .

 E logo cedo ...
 " ( Telles , 1974 , p .71 ) , e chega a pensar que sua

 empregada estivesse confundindo as coisas por causa da idade .

 Encaminha-se para o banheiro enxerga , pelo espelho , um fraque

 estendido em sua poltrona : " [ ...
 ] as calas bem vincadas , o colete

 apontando dentro do palet e a gravata prateada pendendo at o cho. "

 ( Telles , 1974 , p .72 ) .
 Comea a examinar o fraque , mas no consegue

 lembrar quem seria o dono : " [ ...
 ] Mas que fraque era esse ?
 Mas que

 bobagem  esta , meu Deus ?!
 Quem deixou esse fraque comigo ?
 Como se eu

 devesse vestir para alguma cerimnia. " ( Telles , 1974 , p .72 ) .

 Aps ter deparado com o fraque ele v que , ao lado do armrio , est

 sua maleta de viagens : " [ ...
 ] Tocou de leve no calo de banho , nos

 shorts , nos sapatos de lona .
 Tudo novo , tudo pronto para uma curta

 temporada na praia , a lua-de-mel ia ser na praia .
 E quem ia se casar

 era ele. " ( Telles , 1974 , p .73 ) .
 Fica estupefato .

 Nesse momento , comea a achar que havia perdido a memria , mas logo a

 seguir percebe que se lembra de certos detalhes de sua vida : " [ ...
 ]

 Estou timo , nunca estive to bem , sei tudo , meu nome  Miguel ,

 advogado , quarenta anos , trabalho na Goldsmith e Pedro  meu chefe ,

 so chatos , mas ganho bem , minha me morreu h trs anos e Nan 

 minha amante , ela faz cermica , mas agora faz esttuas , o filho menor

  o Dudu. " ( Telles , 1974 , p .74 ).Ao fazer esse apelo  memria nota

 que no havia nenhuma lembrana sobre casamento e , dessa maneira ,

 resolve recorrer a um lbum de fotografias com o intuito de encontrar

 sua suposta noiva : " [ ...
 ] Folheou avidamente o lbum com retratos da

 famlia , casas amarelas e mortas , desconhecidas .
 Nas ltimas pginas ,

 ainda no colados , alguns retratos mais recentes. " ( Telles , 1974 ,

 p .75 ) .
 Em seguida , tenta recordar-se das antigas namoradas - Dora ,

 Nan , Rosana , J , Amanda , Regina e Virgnia - , mas no consegue saber

 qual delas poderia ser sua noiva .

 Continuando sua busca , Miguel resolve examinar os telegramas que havia

 recebido , : " [ ...
 ] ele examinou o primeiro .
 O segundo .
 Nenhuma pista.O

 nome dela no estava mencionado nos votos ingnuos , convencionais .

 Telegramas de colegas de escritrio .
 De parentes .
 Ao noivo , ao noivo. "

 ( Telles , 1974 , p .76 ) .
 Mas , em nenhum deles , encontra o nome da noiva .

 S ento resolve fazer a barba .
 No banheiro , quando se corta pela

 segunda vez repara que est fazendo a barba sem ensaboar o rosto .

 Nesse instante , ouve a voz de seu amigo Frederico que vem busc-lo

 para a cerimnia : " [ ...
 ] Mas Miguel ...
 voc ainda est assim ?
 Faltam

 s dez minutos homem de Deus !
 Como  que voc se atrasou desse jeito ?

 Descalo , de pijama ...
 " ( Telles , 1974 , p .76 ).Miguel pensa em

 perguntar ao amigo o nome de sua noiva , mas desiste pois seria

 denunciar sua loucura .

 Sem sada , Miguel vai para a igreja .
 Ao chegar no local , observa a

 presena de muitas pessoas conhecidas .
 Tem , ento , uma espcie de

 desfalecimento : " [ ...
 ] quis se apoiar em alguma coisa que estivesse ao

 seu alcance .
 Mas nada ao alcance para se apoiar .
 A cabea latejou com

 mais violncia. " ( Telles , 1974 , p .78 ) .

 Com a chegada da noiva , Miguel fixa seu olhar na porta de entrada :

 " [ ...
 ] no alto da escadaria , a noiva foi surgindo lentamente , como se

 estivesse estado submersa abaixo do nvel do tapete vermelho. [ ...
 ]

 Tinha o rosto coberto por um vu que flutuava na correnteza do vento

 como a vela desfraldada de um barco [ ...
 ] .
 Vinha como uma nebulosa a

 deslizar pelo tapete. " ( Telles , 1974 , p .79 ) .
 Ele resolve se adiantar

 e encaminha-se em direo  noiva .
 Ao pegar a mo da noiva percebe que

 essa " [ ...
 ] era leve como se a luva estivesse vazia , nada l dentro ,

 ningum sob os vus , s nvoa .
 Nvoa. " ( Telles , 1974 , p .79 ) .
 O rosto

 estava encoberto .
 Lembra-se das cantigas de roda das brincadeiras da

 infncia : " [ ...
 ] No peito , o agudo grito da cantiga de roda com a

 menina ajoelhada tapando o rosto com o leno. " ( Telles , 1974 , p .79 ) .

 Tais cantigas tinham como principal objetivo descobrir quem estava por

 trs do leno , fato que estava ocorrendo com ele , no momento presente ,

 uma vez que queria descobrir quem estava por trs do vu .

 Ao apanhar o vu na ponta dos dedos , " ele teve o sentimento de que

 estava chegando ao fim .
 A cantiga de infncia voltou ainda mais

 prxima [ ...
 ] .
 O vu foi subindo devagar , to devagar , difcil o

 gesto. " ( Telles , 1974 , p .79 ).Com esse movimento , Miguel encara a noiva

 e afirma : " [ ...
 ] Que estranho .
 Lembrei-me de tantas !
 Mas justamente

 nela eu no tinha pensado. " ( Telles , 1974 , p .79 ) .
 Assim , ao final da

 narrativa , Miguel inclina-se e beija a noiva .

 Vemos ento que a narrativa tem toda a aparncia de um sonho , seja

 pela estrutura ou pela descrio de objetos e personagens .

 Inicia-se em pleno pice dos acontecimentos , isto  , no h gradao

 para o acontecimento do fato estranho : " As batidas da porta eram

 suaves .
 Mas insistentes .
 Ele abriu os olhos .
 Sentou-se na cama .

 - Emlia ?
 Voc , Emlia ?
 A mulher demorou um pouco para responder. - Eu

 queria saber se o senhor j acordou .
  que est chegando a hora ...
 -

 Hora do qu ?...
 - Hora do casamento !
 Casamento ?
 Que casamento ?
 Que

 casamento Emlia ?
 Ela deu uma risadinha. " ( Telles , 1974 , p .71 ) .
 O fato

 do conto iniciar-se em seu ponto culminante vai contra o aspecto

 sinttico da estrutura da narrativa proposta por Todorov , em que

 gradativamente os acontecimentos vo caminhando para um ou vrios

 pontos culminantes .

 Em " O noivo " , notamos que a personagem estava na cama , acabando de ser

 acordada por sua empregada que diz : " - O senhor j acordou mesmo ?
 Acho

 que o senhor ainda est dormindo ,  bom tomar um caf .
 Vou trazer um

 caf. " ( Telles , 1974 , p .71 ) .
 Essas palavras chamam a ateno para o

 fato de Emlia anunciar que acha " que o senhor est dormindo " .
 A

 partir da passa-se  descrio dos pensamentos da personagem e do

 espao , ou seja , de seu quarto e dos objetos de acordo como ela os v .

 No que se refere ao espao , toda a narrativa de Lygia Fagundes Telles

 ocorre no quarto da personagem .
  necessrio lembrar que , segundo

 Tadi , o quarto  um espao fantstico por excelncia , correspondendo

 ao castelo das narrativas tradicionais .
 No conto de Lygia Fagundes

 Telles , o espao  caracterizado por adjetivos como enevoado , escuro ,

 embaado , opaco e nublado : " [ ...
 ] Vagou o olhar pelo quarto

 [ ...
 ] Bocejou .
 Os objetos do quarto flutuavam informes em meio da

 escurido .
 Pensou em restos de naufrgio num vago fundo de mar .
 To

 potico .
 Apertou os olhos e fixou-se no espelho oval que emergia das

 sombras como um peixe luminoso .
 Quinta-feira doze. - Que casamento 

 esse ?
 No sei de nada ...
 " ( Telles , 1974 , p .71 ) .
 Nessa comparao o

 espelho j se destaca como um motivo fantstico , contribuindo para a

 aparncia aqutica do quarto onde mergulha a personagem .

 Mais adiante , Miguel , ao olhar-se no espelho , tem a ntida sensao de

 estar virando vampiro : [ ...
 ] Arregaou os lbio para examinar os

 dentes .
 Os incisivos teriam que ser mais agudos , lembrou-se e riu .
 Que

 pesadelo .
 Chegara a sentir as asas , a penugem aveludada do morcego. "

 ( Telles , 1974 , p .72 ) .
 Nessa descrio o vampiro pode ser considerado

 como outro motivo fantstico ligando-se ao tema do pesadelo , como ele

 prprio anuncia , remetendo , tambm , como veremos a seguir , a uma

 metfora designando um homem que tem muitas mulheres - metfora , alis ,

 utilizada por Dalton Trevisan em O vampiro de Curitiba .

 Tanto o peixe quanto o espelho voltam em outro trecho do conto : " Como

 pode o peixe vivo ...
 cantarolou olhando para o espelho .
 Foi ento que

 viu : estendido na poltrona , estava um fraque. " ( Telles , 1974 , p .72 ).O

 fraque  visto , nesse momento , pronto para ser usado em um casamento .

 Continuando a olhar-se no espelho , faz conjecturas sobre de quem seria

 o fraque : " Via-se embaado no espelho como uma figura de sonho .
 Soprou

 mais fumaa .
 O fraque tambm se afastava num vapor azulado , breve

 reflexo de um espelho criador de imagens : uma face que podia ser de

 outra pessoa , um fraque que no era de ningum. " ( Telles , 1974 , p .72

 ) .
 Continuando esse jogo de estranhamento v uma maleta arrumada com

 objetos de viagem .
 Nesse instante , Miguel chega a concluso de que ele

 era o noivo .

 O espao , bem como os objetos que fazem parte dele , transfiguram-se e

 caracterizam-se como elementos sados de um sonho .
 A prpria empregada

 Emlia , descrita no incio da narrativa como " sria demais " , nesse

 trecho do conto  vista pelo protagonista como : " [ ...
 ] de um certo

 modo esquiva .
 Ambgua. " ( Telles , 1974 , p .76 ) .

 Em " O noivo " , a atitude do protagonista parece tambm evidenciar a

 presena do sonho .
 Inicialmente a inquietao da personagem em relao

 a um fato to importante de sua vida - o dia de seu casamento : " [ ...
 ]

 Lembrava-se de tudo , de tudo menos do casamento .
 S essa faixa da

 memria continuava apagada , s nesse terreno a nvoa se fechava

 indevassvel .
 Nomes , caras , tudo era escurido .
 A comear pela noiva

 diluda no ter .
 As coisas se passavam como nas histrias encantadas ,

 onde o prncipe mandava vir a donzela de um reino distante sem t-la

 visto nunca : o amor era criado em torno de um anel de cabelo , de um

 leno , de um retrato. " ( Telles , 1974 , p .74 ) .
 Logo em seguida , a

 personagem aceita participar desse fato que ele no compreende : " [ ...
 ]

 Num andar de autmato , Miguel foi caminhando em meio dos convidados

 que se agitavam farfalhantes. " ( Telles , 1974 , p .78 ) .
 Com a chegada da

 noiva , momento mais angustiante do conto , o protagonista comea a se

 lembrar das cantigas das brincadeiras de criana .
 Nesse trecho da

 narrativa temos uma ruptura do tempo cronolgico , uma vez que a

 personagem resgata momentos vividos em seu passado remoto , misturando

 presente e passado : " [ ...
 ] Senhora Dona Sancha !...
 Quem , quem ?
 O vu

 foi subindo devagar , to devagar , difcil o gesto .
 E to fcil .

 Atirou-o para trs num movimento suave e mas firme. " ( Telles , 1974 ,

 p .79 ) .
 Logo em seguida , ao olhar a noiva , Miguel acaba aceitando tudo

 de uma maneira normal , como se fosse um sonho .
 Assim , o conto 

 encerrado sem que saibamos quem seria a noiva .

 De acordo com Fbio Lucas , na maioria dos contos de Lygia Fagundes

 Telles , as figuras masculinas so dependentes das femininas .
 Para ele ,

 as personagens masculinas no apresentam contornos to bem definidos

 como as femininas ; " [ ...
 ] antes aparecem como signos designativos de

 funo social ou de papel , como smbolos de poder , de riqueza ou de

 status .
 No dispem da vibrao e das nuances das personagens

 femininas. " ( Lucas , 1999 , p .14 ).Em " O noivo " , apesar do ttulo e do

 protagonista indicarem a figura masculina , percebemos a predominncia

 das figuras femininas .
 Primeiramente notamos que Miguel depende de sua

 empregada para saber o que estava acontecendo ; ela parece ser seu

 porto seguro .
 Alm dela , outras figuras femininas aparecem na

 narrativa .
 Inicialmente a personagem descreve uma mulher que havia lhe

 presenteado com abotoaduras de camisa - Nan , sua amante .
 Mais adiante

 Miguel relembra suas antigas namoradas - Dora , Rosana , J , Amanda ,

 Regina , Virgnia e Vera - ; com o intuito de descobrir qual delas seria

 sua noiva e , para isso , descreve-as minuciosamente .
 Esse cortejo de

 mulheres acaba depondo contra o prprio protagonista , uma vez que , por

 meio desse desfile , pode ser evidenciada sua personalidade negativa e

 volvel .

 Segundo Fbio Lucas , " Lygia Fagundes Telles tem a arte de construir

 situaes humanas , principalmente amorosas , plenas de expectativas ,

 mas quase sempre atingidas de modo dramtico pelo desencontro .
 H um

 determinismo cruel a condenar as suas criaturas ao insucesso " .
 A

 autora " usa o seu dom da ironia e do grotesco para chamar a ateno

 sobre alguns males sociais ou mesmo uma crtica das relaes

 humanas. " ( Lucas , 1999 , p .15 ) .

 A ESTRUTURA NARRATIVA

 Podemos notar que , pelo menos quanto ao aspecto sinttico , o conto no

 segue a estrutura proposta por Todorov , uma vez que a histria comea

 em seu ponto culminante .
 Quanto ao aspecto verbal , em relao 

 enunciao , o fato de a histria centrar-se no protagonista e de tudo

 ser descrito por meio de seus pensamentos , sua viso , suas emoes ,

 torna tudo mais ambguo .
 A princpio pode-se no perceber que se trata

 de um sonho .
 O enunciado contribui para o aumento da ambigidade ,

 sobretudo pelo estilo da autora que utiliza frases curtas ,

 interrogaes e reticncias .

 Em " O noivo " podemos encontrar um grande nmero de pontos de

 interrogao ( aproximadamente oitenta ) e um bom nmero de reticncias

 ( aproximadamente dezoito ) que , de certa maneira , acentua a ambigidade

 do sonho que beira o pesadelo .

 No conto , alm das inmeras interrogaes que a personagem faz a si

 mesmo , a autora utiliza termos modalizantes tais como parecia , se ,

 provavelmente , como se : " [ ...
 ] Mas que bobagem  esta , meu Deus ?
 !

 Quem deixou esse fraque comigo ?
 Como se eu devesse vestir para alguma

 cerimnia " ( Telles , 1974 , p .72 ).Nessa passagem o uso do modalizante

 aumenta a estranheza da situao apontando para uma ocorrncia

 freqente nos sonhos .
 Em outro momento , o protagonista tem um

 estremecimento pois " parecia que a voz de Emlia vinha de dentro do

 espelho. " , o que tambm assinala o universo onrico - de dvidas e

 nvoa - que envolve Miguel .

 O imperfeito unido  modalizao aumenta a ambigidade do texto : " Era

 como estivesse ali  espera no alguns minutos mas alguns anos. " ,

 reforando a elasticidade do tempo .

 J o aspecto semntico resgata alguns motivos tradicionais do

 fantstico como o espelho e o vampiro usados , entretanto , de uma

 maneira to sutil que passariam despercebidos a um leitor menos

 atento .
 Sabemos , no entanto , que essa utilizao no  feita por

 acaso , so sempre ndices que a autora nos d para dirigir a leitura .

 O tema do sonho utilizado como tema fantstico desde o romantismo

 aparece aqui renovado , no conduzindo a um despertar que caracteriza o

 texto como fantstico estranho ou de explicao racional , ao

 contrrio , como j dissemos anteriormente , o conto pode ser lido sem

 que se perceba que se trata de um sonho .
 Isso porque , como afirmam os

 surrealistas , o sonho seria um contnuo com traos de organizao ; 

 algo coerente tendo lgica e ritmo prprios .

 Notamos assim que no existe hesitao entre acontecimentos reais e

 acontecimentos irreais .
 O protagonista no questiona uma nica vez a

 veracidade dos acontecimentos .
 Para Todorov , o fantstico "  a

 hesitao experimentada por um ser , que apenas conhece as leis

 naturais , face a um acontecimento aparentemente sobrenatural. " (

 Todorov , 1975 , p .31 ) .
 No havendo hesitao , a teoria de Todorov , que

  baseada nesse elemento , no se revela suficiente para definir o

 fantstico , a partir de Kafka .

 Trabalhando com dados intrnsecos ao texto literrio , Irene Bessire

 contesta a nfase na hesitao da personagem e do leitor assinalada

 por Todorov ; para ela , " a narrativa fantstica provoca a incerteza , ao

 exame intelectual porque trabalha com dados contraditrios reunidos

 seguindo um coerncia prpria. " ( Bessire , 1974 , p .10. ) .

 No conto de Lygia Fagundes Telles , podemos perceber que a autora

 paulista , no que se refere aos temas e motivos , no despreza as

 caractersticas do fantstico tradicional , porm ela segue as

 concepes surrealistas , resgatando o imaginrio extrado dos sonhos ,

 inovando a narrativa fantstica com seu estilo peculiar .
 Como j vimos

 no relatrio anterior , esse estilo  marcado por uma srie de traos -

 pontuao , utilizao da figura feminina , brevidade da narrativa ,

 forma concisa de narrar os fatos - ; que confirmam o poder criador e a

 forte imaginao da ficcionista brasileira .

 Para o crtico literrio Fbio Lucas , por meio da leitura dos contos

 de Lygia Fagundes Telles percebe-se que a autora tem uma " intrnseca

 vocao para a histria curta , que exige ao condensada e virtuosismo

 tcnico capaz de criar caracteres em sumrios lances e de explorar

 tenses dramticas em cenas objetivas e dilogos curtos " .
 Para ele ,

 " todos os contos da autora so realizados sob forte tenso de impacto .

 O leitor se diverte com a natureza dos dilogos vvidos , elpticos ,

 cheios de idas e vindas , de oralidade e coloquialismo .
 O texto de

 Lygia Fagundes Telles assemelha-se a uma rede de entrelaados meios , a

 combinar efeito de realidade com o efeito da fantasia. ( Lucas , 1999 ,

 p .14 ) .
 Realidade e fantasia , real e sobrenatural so elementos bsicos

 na construo de um texto fantstico ; um texto artstico que " como uma

 pintura desejando alar para fora da moldura , sua narrativa nos faz

 experimentar os limites da possibilidade da significao do objeto

 narrado e por isso nos comunica um sentimento de inquietude e

 estranheza. " ( Rgis , 1998 , p .95 ) .

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