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 Quinta-feira , Outubro 14 , 2004

 Comments :

 O texto  grande e no  meu mas  muito interessante  uma relao

 dos revolucionrios com a arte surrealista ,  um entendimento , uma nova

 viso ...
 sugestiva

 Fodam-se os que no gostam de ler

 Discute a relao entre arte e revoluo .
 Prope-se a resgatar

 referncias esquecidas pelo movimento , lembrando o Maio de 68 e suas

 relaes com o marxismo e o surrealismo .

 A Estrela da Manh

   preciso trazer em si o caos ,

 Para botar no mundo uma estrela danante 

 ( Internacional Situacionista , Maio de 1968 )

 So poucos os que , ainda hoje , acreditam na possibilidade da

 transformao radical do mundo e movem-se nesse sentido .
 So muito

 poucos os que acreditam que aqueles podem realmente fazer uma coisa

 dessas .
 A situao de um pas que aposta em um governo de esquerda que

 promove orgias peridicas com o que h de pior na direita torna a

 coisa pior para uns e outros .
 Mas tudo fica ruim , mas ruim mesmo ,

 quando a organizao dos primeiros ( os que acreditam e se movem ) no

 passa da repetio mecnica dos mesmos gestos , prticas e preconceitos

 de sempre ...

 Segundo Michael Lowy ,  aquele que no sabe acender no passado a

 centelha de esperana no tem futuro.  ( LOWY , 2002 : 104 ) No entanto ,

 como , em geral , costumamos olhar para o passado em comemoraes cujo

 nico objetivo  o de reforar e legitimar aspectos do presente ,

 talvez seja mais interessante buscar no passado o que ele ainda pode

 conter de surpreendente e de maravilhoso .
 Isso significa dizer tambm

 aquilo que h de mais estranho e avesso  nossa realidade , ao que

 estamos habituados .
 Escolhemos aqui trs assuntos dos quais falamos

 muito pouco : a utopia , a arte e a revoluo .
 Para ns , aqueles que

 pretendem mudar o presente precisam no s entender as relaes entre

 essas trs coisas mas pratic-las .

 Marxismo e Surrealismo

 Em A Estrela da Manh , Michael Lowy estuda as relaes entre o

 surrealismo , o marxismo e o movimento operrio internacional da

 primeira metade do sculo XX .
 O movimento surrealista surge em 1924

 com a publicao do texto do escritor e poeta Andr Breton , o

 Manifesto do Surrealismo que logo receberia a adeso de vrios

 artistas e revolucionrios ( como Pierre Naville ) por toda a Frana e

 grande parte da Europa a partir de 1930 .
 A idia central era a de

 buscar uma forma de expresso em que a mente pudesse se expressar sem

 qualquer limite ou controle externo .
 Tentava-se expressar uma outra

 realidade , to real e ( talvez at mais ) intrigante quanto a externa s

 que um pouco menos visitada : a realidade dos sonhos .
 Para os

 Surrealistas :  Deve-se criar confuso sistematicamente , deste modo

 coloca-se em movimento o processo criativo .
 Tudo o que gera a

 contradio  sinnimo de vida  .

 A carga libertria e emancipatria dessas idias nos parece evidente .

 Mas qual a sua relao com a mais antiga e atual teoria da

 emancipao , o marxismo revolucionrio ?
 Para Lowy , o ponto comum ,

 capaz de promover o encontro entre essas duas abordagens  o seu

 pessimismo revolucionrio .
 A idia  a de que o que move um

 revolucionrio no  a certeza da vitria , mas a crena de que a

 misria humana , o caos e todos os piores desastres so destinos certos

 nesse sistema e de que  impossvel permanecer imvel enquanto ele

 segue seu curso .
 No se trata , portanto , de um sentimento conformista ,

 mas de um pessimismo ativo que se prope a nadar contra-corrente .

 Outro aspecto interessante  a grande desconfiana em relao 

 quaisquer  certezas  , que estariam ligadas s formas racionais

 viciadas do presente .
 Em uma sociedade onde as luzes so identificadas

  racionalidade mecnica do lucro , do consumismo e da alienao , os

 surrealistas se anunciam como criaturas da noite , sugerindo uma aposta

 no ldico , no mgico ...
 Da a idia de um re-encantamento do mundo .
 Na

 superao dialtica do romantismo , esse re-encantamento no se daria

 evocando os mitos do passado , mas aproximando , atravs do exerccio do

 sonho , a realidade a ser conquistada no futuro .

 Uma Mudana no Olhar ...

 Se o surrealismo foi um movimento que se estendeu  todos os domnios

 da arte , e no s  ela , foi atravs da pintura que ficou mais

 conhecido e  na pintura que reside sua principal atividade na

 atualidade .
 Um dos seus maiores expoentes foi o pintor belga Ren

 Magritte .
 Suas obras so talvez as mais simples , mas , para ns , as

 mais fantsticas .

 Naquele que  talvez o seu quadro mais conhecido , A Traio das

 Imagens de 1929 , encontramos a figura de um cachimbo seguida da

 inscrio :  Isto no  um cachimbo. .De fato , no se tratava de um

 cachimbo e sim da figura de um cachimbo .
 Mas , para alm dessa

 concluso bvia , surge uma outra questo : quem decide que os cachimbos

 que so cachimbos ( e no imagens de cachimbos ) so realmente

 cachimbos ?
 Espere , no rasgue a folha ainda , a sugesto que essa

 pergunta contm no tem nada de banal ,  na verdade bastante

 libertria : sugere a possibilidade de as mulheres e homens

 reconquistarem seu domnio sobre o mundo das coisas , coisas que eles

 mesmos criaram , nomearam , mas que parecem assumir o controle e ditar

 os limites de suas vidas ...

 Um outro quadro conhecido  O filho do homem de 1964 , onde Magritte

 pinta um sujeito que tem a cara coberta por uma ma .
 O que nos

 intriga na obra  se a ma encobre ou se realmente brota da prpria

 face do homem .
 Encontramos ainda no mesmo autor imagens de lees que

 circulam tranqilos pelas ruas da cidade ou salas de jantar ; de um

 castelo em um rochedo que flutua sobre uma praia ou ainda de uma

 coleo de homens de chapu que sobrevoam a cidade ( que Magritte

 definiria como a prpria representao de seus colegas surrealistas ) .

 O que h de impressionante nesses quadros  que eles so compostos por

 figuras do nosso cotidiano ou com s quais estamos habituados .
 O que

 as torna assustadoras , intrigantes ou absurdas  a ( des ) ordem em que

 so colocadas .

 Por qu estamos falando nisso ?
 Porque encontramos aqui um certo olhar ,

 emancipador e muito precioso , um olhar que utiliza a realidade para

 desmonta-la , que desorganiza o real at torna-lo irreconhecvel e

 recria aos olhos de todos o que entendemos por fantstico ou

 maravilhoso .
 Ora , sabemos que esse mtodo , de desorganizar o real para

 organizar o novo , de revolucionar o presente para fazer emergir o

 futuro , nunca foi algo restrito somente s pinturas e s artes ...

 Maio de 68 : A Revoluo  servio da arte

 Resta ainda a questo de como articular toda essa  viagem  com a

 prtica daqueles que , como ns , pretendem fazer parte de sua

 tripulao ou ainda daqueles que arrogam conduzi-la .

 Nenhum acontecimento conseguiu pr em prtica as idias que

 descrevemos acima to bem quanto o indecifrvel Maio de 68 francs .

 So conhecidas as influncias do surrealismo nos fatos do Maio , no s

 pela participao de vrios de seus integrantes , mas pela influncia

 em autores como Guy Debord e sua Internacional Situacionista que

 desempenhou papel fundamental nas ocupaes que impulsionaram o

 movimento .

 Durante aquele ms os estudantes ocuparam no s as universidades ,

 ruas e fbricas , mas os coraes e mentes de trabalhadoras e

 trabalhadores .
 Aqui o socialismo deixa de ser um horizonte distante

 que depende das concesses e sacrifcios da militncia cotidiana .
 A

 revoluo passa a ser o cotidiano , o socialismo  posto em prtica e a

 militncia  algo totalmente avesso  idia de um sacrifcio !

 Como em uma pintura surrealista , os estudantes utilizavam as imagens

 do cotidiano para destru-lo , como mostram as histrias em quadrinhos

 de super-heris americanos que tinham seus bales de fala substitudos

 por mensagens subversivas .

 O Maio conseguiu tambm transformar as idias tradicionais sobre a

 poltica , a democracia e a liberdade .
 Os estudantes fizeram com que a

 poltica passasse a ser algo to amplo quanto a transformao que

 pretendiam ; levaram abaixo tanto o conceito de representao burguesa

 quanto de delegao burocrtica , privilegiando as assemblias como

 esferas decisrias ; arrancaram a noo de liberdade das garras do

 individualismo burgus , praticando-a como valor coletivo (  A liberdade

 do outro amplia a minha ao infinito  lia-se em um grafite ) .

 Sabemos , como Marx , que a histria s se repete como farsa e no

 estamos sugerindo qualquer reedio , comemorao ou simulao do Maio

 francs ou de qualquer movimento que o tenha influenciado .

 Acreditamos , contudo , na possibilidade de retomar seus patamares de

 conscincia .
 Quando , no Brasil , o projeto de esquerda em que as

 geraes passadas depositaram todo o seu tempo e esperana j parece

 bastante duvidoso , ao invs de anunciarmos alternativas dogmticas ou

 repetirmos chaves sobre o que a classe trabalhadora e a esquerda

 precisam , talvez seja o momento de exercitarmos todo o nosso potencial

 utpico e pensarmos qual sociedade queremos e criar o novo a partir

 da .
 Talvez seja o momento de , como os surrealistas do sculo passado

 ( e deste que ainda  criana ) mergulhar de novo o real em uma profunda

 escurido noturna , para pintar novas estrelas que o iluminem ...

 - - posted by TNIA VIZACHRI at 8:42 PM

 Domingo , Outubro 10 , 2004

 Comments :

 No ponto de nibus , um senhor , j quase de idade , vem conversar comigo

 e com minha me , no incio pedindo dinheiro , e conta uma histria de

 que ele ficou onze anos presos no carandiru devido  uma mulher no

 ponto de nibus que o chamou de " bicho " .
 O motivo , pouco importa , o

 mximo que aquele senhor podia ter feito era ter tentado assalt-la , o

 que acredito ser pouco provvel , mas mesmo que fosse isto tentem

 imaginar o motivo para tanto dio , ONZE ANOS preso .
 Relevando um pouco

 esse absurdo , comecei a refletir sobre o fato dela o ter chamado de

  bicho  , outro absurdo pelas pessoas levarem essa denominao junto

 com  animal  como uma ofensa , afinal nossa espcie humana tambm no

 se inclui na classificao de animal ?
 No somos todos animais de

 espcies diferentes , mais ou menos evoludos ( dependendo do que se

 compreende por evoluo ) , que merecem respeito ?
 Poxa , disse para o

 senhor que se ele era  bixo  ela tambm era pois eram da mesma espcie

 caramba !

 No entendo com que direito o homem vem se vendo , durante praticamente

 toda sua existncia , como o fim e o motivo de toda evoluo animal ,

 como se tudo existisse para o grande final que  ele .
 O homem no

 passa de mais um animal , que ainda esta em evoluo e , como qualquer

 outro , no possui direitos especiais sobre outros da mesma ou de outra

 espcie , pois estes tambm sentem , vivem e evoluem assim como ele .

 Esta na hora de pararmos de agir como se fossemos alm da nica

 espcie , o nico ser .
 Precisamos comear a perceber que estamos

 integrados a natureza .

 Isso  tambm a luta , do veganismo : um boicote que engloba , alm de

 diversas causas e consequncias positivas , a viso do homem como parte

 da natureza , agindo de acordo com ela e respeitando todos os seres

 tanto da mesma espcie como de outras , entendendo que os animais ( no

 humanos ) tambm sentem dor , medo , felicidade , etc ...
 e no foram

 feitos para nos servir .
 No  o fato de no compreendemos seu modo de

 pensar e no conseguimos nos comunicar com eles que os torna

 inferiores , desprezveis , incapacitados de sentir e , por isso , devemos

 ignorar sua natureza animal .
 O vegan compreende isso e age neste

 sentido .

 - - posted by TNIA VIZACHRI at 4:39 PM

