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 adelto goncalves

 sobre as minhas atividades de jornalista , pesquisador e escritor .

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 Quinta-feira , Abril 14 , 2005

 RESENHA

 Guilln e a Literatura Comparada

 Adelto Gonalves

 Nenhum poeta mais que Fernando Pessoa ( 1888-1935 ) , com seus heternimos e

 semi-heternimos , soube sentir to dramaticamente o dilogo entre o " eu " e os

 outros , entre o singular e o plural , entre o nico e o mltiplo , lo uno y lo

 diverso ?
 Embora no o afirme peremptoriamente , foi , com certeza , pensando em

 Pessoa que o crtico Claudio Guilln optou pelo ttulo Entre lo uno e lo

 diverso : Introduccin a la Literatura Comparada ( ayer y hoy ) , um perfeito

 manual de Literatura Comparada que , publicado inicialmente em 1985 pela

 Editorial Crtica , acaba de ganhar uma segunda edio mais encorpada , agora por

 Tusquets Editores , de Barcelona .

 O livro de Claudio Guilln , diga-se desde logo , no  uma introduo 

 investigao da literatura em geral nem uma teoria da literatura .
  , isso sim ,

 uma tentativa de compreender os textos , a partir da Literatura Comparada que ,

 como se sabe , se obtivera nos anos 50 e 60 algum prestgio nas universidades

 europias e norte-americanas , andou em baixa na dcada de 70 , quando o

 interesse acadmico voltou-se para a teoria literria , a semitica e a

 valorizao do texto por si mesmo como preconizava o new criticism .

 Depois do boom da literatura hispano-americana , do aparecimento dos escritores

 da frica , inclusive da frica branca , do Leste europeu e da sia , j no

 estamos ao tempo em que ningum colocava em dvida o cnon dos grandes

 escritores europeus .
 Vivemos , isso sim , desde o comeo dos anos 90 a fase da

 literatura ps-colonial , definio apropriada para a crtica transcultural que

 hoje predomina .

 Por tudo isso , Guilln teve de reescrever muitos dos textos da primeira edio

 de seu livro , incorporando novos conceitos , sem precisar , porm , reescrever

 suas idias fundamentais , at porque , na maioria , ainda continuam extremamente

 atuais .

 Por Literatura Comparada , diz Guilln , deve-se entender certa tendncia ou ramo

 da investigao literria que se ocupa do estudo sistemtico de conjuntos

 supranacionais .
 Pode-se entender a expresso como a definio para o exame das

 literaturas de um ponto de vista internacional , comparando-se as tendncias que

 as literaturas nacionais ou regionais seguiram ao longo dos sculos .
 Enfim ,

 constitui uma reflexo sobre a histria literria , sua configurao , seus

 condicionamentos , seu perfil temporal e possvel sentido .

 Para Guilln , o que primeiro preocupa o comparatista  saber se o tema existe

 no que se refere a sua supranacionalidade .
 Por exemplo : que pontos de contato 

 possvel traar entre duas poetas , como Judith Teixeira ( 1880-1959 ) e Patrcia

 Galvo , a Pagu ( 1910-1962 ) , que , vivendo praticamente na mesma poca ,

 enfrentaram em Portugal e no Brasil os tabus e a fora repressiva de sociedades

 retrgradas ?

 Se este tema ainda est  espera de quem o estude , h outro que segue nesse

 mesmo caminho , mas que j ganhou tese de mestrado desenvolvida por Dora

 Pinheiro de Lima : " Condio humana e condio feminina , segundo Maria Judite de

 Carvalho e Lygia Fagundes Telles " , defendida em 2002 na Faculdade de Letras da

 Universidade de Lisboa , sob a orientao da professora Maria Lcia Lepecki , e

 ainda indita em livro .

  claro que tratam de autoras que escreveram na mesma lngua , a portuguesa , e

 no em lnguas diferentes , mas que nem por isso deixaram de viver em

 espaos-geogrficos-culturais diversos , exprimindo , portanto , desiguais modos

 de ser e estar no mundo .
 Maria Judite ( 1921-1998 ) e Lygia ( 1923 ) , por exemplo ,

 tiveram a mesma formao humanista e refletiram as idias dos movimentos

 feministas que questionavam o papel tradicional da mulher na sociedade .

 Por aqui se v que temas no faltam tanto para comparar autores de expresso

 portuguesa como de outras lnguas .
 Lembra Guilln que um motivo , um

 procedimento verbal , uma instituio que temos e conhecemos como dentro de

 nosso limitado mundial cultural e literrio pode no ser um provincianismo

 fugaz , de uso local , um capricho contingente , mas sim propriedade e condio de

 uma realidade muito mais vasta , acaso de todas as literaturas .

 Alis , como mostrou o crtico canadense Northrop Frye ( 1912-1991 ) em Anatomia

 da Crtica e The Great Code , que acaba de ganhar traduo brasileira pelas mos

 do professor Flvio Aguiar , da Universidade de So Paulo , ao explicitar a sua

 teoria do sentido arquetpico , parece que os grandes autores da literatura

 universal no fizeram nada alm do que furtar a Bblia tanto quanto possvel .

 Mas no  s isso : como percebe quem estuda a Antropologia Cultural de Claude

 Lvi-Strauss ( 1908 ) , as diversas culturas combinam componentes de um vasto

 repertrio universal .

 Claudio Guilln , nascido em Paris em 1925 , estudou na Frana , Estados Unidos e

 Canad .
 Durante a Segunda Guerra Mundial , alistou-se como voluntrio nas foras

 do general De Gaulle .
 Mais tarde , foi professor em vrias universidades

 norte-americanas , como Princeton , San Diego e Harvard , e nas universidades

 Autnoma e Pompeu Fabra , de Barcelona .
 Foi ainda professor visitante em

 universidades da Alemanha , Itlia e Brasil .
 Decano dos estudos de Literatura

 Comparada em lngua espanhola ,  desde 2003 membro da Real Academia Espanhola .

 Como rastro da sua passagem por universidades do Brasil , os brasileiros

 lideram , hoje na Amrica Latina , o comparatismo , especialmente a partir dos

 seminais trabalhos das professoras Tnia Franco Carvalhal ( Literatura

 Comparada , So Paulo , Atica , 1992 ) e Sandra Nitrini Literatura Comparada , So

 Paulo , Edusp , 2000 ) , ambas citadas por Guilln com amplos elogios em Entre lo

 uno y lo diverso .

 __________________________

 ENTRE LO UNO Y LO DIVERSO : INTRODUCCIN A LA LITERATURA COMPARADA ( AYER Y HOY ) ,

 de Claudio Guilln .
 Barcelona , Tusquets Editores , 499 pgs. , 2005 .

 www.tusquets-editores.es

 ________________________

 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa e mestre em Lngua Espanhola

 e Literaturas Espanhola e Hispanoamericanas pela Universidade de So Paulo e

 autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova Fronteira ,

 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So Paulo , Publisher

 Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho , 2003 ) .
 E-mail :

 adelto@unisanta.br

 posted by ADELTO RODRIGUES GONALVES | 11:46 PM | talk to me !
 |

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 Epifana y Poema en Prosa *

 ( El Livro do Desassossego de Fernando Pessoa / Bernardo Soares )

 Ral Romero

 ( John Jay College of Criminal Justice , The City University of New York )

 Ren P. Garay

 ( The City College - Graduate Center , The City University of New York )

 Palavras-chave :

 Fernando Pessoa , Bernardo Soares , Epifana , Poema em Prosa , Livro do

 Desassossego

 Keywords :

 Fernando Pessoa , Bernardo Soares , Epiphany , Prose Poem , Book of Disquietude

 Resumo : El tema de este ensayo es el poema en prosa como categora esttica

 presente en la obra de Fernando Pessoa .
 Se pretende analizar su carcter

 subversivo e hbrido como gnero literario as como su ideologa artstica en

 el Livro do Desassossego del semi-heternimo , Bernardo Soares .
 Ms all de esta

 problemtica que nos presenta la nomenclatura de gneros literarios , se

 intentar tambin subrayar la importancia del momento lrico que caracteriz la

 escrita modernista por medio de la " epifana " , especialmente su

 intertextualidad con los escritores de prosas escritas como poema .

 Abstract : The topic of this paper is the prose poem as an esthetic category in

 the work of Fernando Pessoa .
 It will address its subversive and hybrid aspects

 as a literary genre as well as its artistic ideology in the Book of

 Disquietude , written by the fictitous ( i.e. , semi-heteronymic ) Bernardo Soares .

 In addition to the problems pertaining to definitions of literary genres , an

 emphasis will be placed on the lyrical mode of modernist literature as

 witnessed in the so-called " epiphany , " especially its intertextuality with

 writers of the type of prose conceived as a poem .

 Tenho gasto a [ vida ] fazendo versos em prosa s sensaes intransmissveis

 com que torno meu o universo incgnito .

 ( Pessoa / Soares Livro do Desassossego 210 )

 Poema en prosa o prosa potica son rtulos que varan , pero que se apoyan - - a su

 vez - - en una comodidad esttica .
 No siempre la prosa de carcter artstico

 alcanza categora potica , pues aquella puede lograrse solamente por medio de

 simples elementos formales y decorativos y hasta cierto punto artificiosos .

 Esta caracterstica la hace muchas veces insoportable a la sensibilidad

 ciberntica y visual del mundo actual. El poema en prosa es un trmino a veces

 arbitrario , inconsistente y por veces ilusorio que se concentra en la exigencia

 bsica de la brevedad denotada perspicazmente como un momento de iluminacin , y

 que se observa irrefutablemente en esa epiphaneia de revelacin ntima que

 inundaba los textos de creadores tan dismiles como Santa Teresa y James Joyce .

 El poema en prosa es una manifestacin de este momento individual de lirismo

 que no respeta las formas tradicionales y convencionales del verso .
 El poema en

 prosa es subversivo por naturaleza .
 Es irreverente , iconoclasta y es ,

 sobretodo , una experiencia profundamente personal .
 No acepta las fronteras

 represivas de la gramtica tradicional , juega con la retrica y se divierte con

 los temas que muchas veces no pueden ser descubiertos en una primera lectura .

 Textos narrativos de carcter potico hay muchos , por ejemplo ,  la recherche

 du temps perdu de Proust , Iracema de Jos de Alencar , Eurico de Alexandre

 Herculano , Stephen Hero ( esbozo para Portrait of an Artist as a Young Man ) y

 Giacomo Joyce de James Joyce , por mencionar los casos ms evidentes y en

 cierto modo " populares " y hay esos otros textos a los cuales se les denomina

 poesa pura , pero tambin tenemos ese hbrido que se sita entre estos textos

 narrativos y esa poesa pura que se pueden considerar de forma total como poema

 en prosa .
 El poema en prosa podra definirse como una visin ilusoria y sutil

 de una realidad , el primer adjetivo sirve para caracterizar el contenido , su

 filosofa de estilo , su filosofa temtica ( ontologa ) y en cierto modo su

 ideologa literaria puesto que entre aquellos que se dedican al poema en prosa

 se exige un estado de disponibilidad , una entrega , una sublimacin donde todas

 las percepciones son subjetivas .
 El poema en prosa es todo alma , es una ilusin

 que escapa de la dura realidad imposible de ser descrita de una forma narrativa

 convencional y que slo a travs de los mecanismos ambiguos de la poesa podra

 describirse. El otro objetivo , el de la sutileza , sirve para marcar las

 cualidades formales de este gnero , su sntesis , su brevedad y sus juegos

 retricos .
 El poema en prosa , en ese aspecto , es comparable al soneto , posee

 una economa de elementos con el objetivo de alcanzar un fin supremo .
 Sin

 embargo , no todos los poemas en prosa tienen este carcter espiritualista de la

 poesa simbolista , muchos poemas en prosa recurren como parte de su estrategia

 ideolgica a temas y propuestas ms mundanos , ms abarcadores , polifonas , como

 en el caso de la greguera de Gmez de la Serna donde el poeta afirma que " el

 soneto es el chaleco de seda de la poesa .
 " En la civilizacin occidental son

 dos franceses los que pusieron de moda el poema en prosa : Aloysius Bertrand con

 su Gaspard de la Nuit escrito en 1836 y publicado pstumamente y Charles

 Baudelaire con su Spleen de Paris .
 Otros ejemplos fundamentales incluyen las

 Memorable fancies de William Blake , los Cantos de Maldoror del famoso conde

 Lautreamont , los poemas en prosa de Stphane Mallarm , De Profundis de Oscar

 Wilde y Edgar Allan Poe con su cosmognica Eureka .

 Entonces  cul es el enigma de este subgnero literario ?
  Cul sera la

 definicin ms exacta ?
 La ms corta es casi tautolgica .
 Es un poema escrito en

 prosa y no en verso , puede parecer un prrafo o un cuento corto fragmentado .
 El

 poema en prosa acta como un poema en el sentido de que se vale de las

 estrategias y tcticas de la poesa , de la misma manera que el verso libre lo

 hace con la mtrica y la rima , pero ste lo hace con la lnea como unidad de

 composicin. El subgnero se vale de los medios e instrumentos de la prosa con

 los objetivos de la poesa , entendindose-como lo hace Pessoa / Soares - - que " a

 gramtica  um instrumento e no uma lei " ( Livro do Desassossego 113 ) .

 Se podra decir que el poema en prosa es poesa que esconde su verdadera

 naturaleza. En este , el poeta puede apropiarse de modelos como un artculo

 periodstico , un memorandum , una lista , una parbola , un discurso , o un

 dilogo .
 Es una forma potica con un uso ms vernculo que , segn algunos

 crticos , reproduce la relacin de adversario entre el discurso de la

 literatura burguesa y el de clase obrera ( Lehman 13 ) que va eliminando el poder

 absoluto de las estructuras lricas de la clase letrada .
 Pero la nica

 generalizacin segura que se puede hacer sobre el poema en prosa es que se

 resiste a una generalizacin ya que es una forma hbrida , una anomala , una

 paradoja o , segn Michael Riffaterre , un oxmoron , i.e. , " el gnero literario

 con un oxmoron por nombre " ( 117 ) .

 El poema en prosa ofrece la posibilidad de escapar de las invisibles cadenas

 del superego , ofrece la alternativa de huir del reino opresivo de la mtrica

 tradicional , como Charles Baudelaire lo hace en " petits pomes en prose " , donde

 se deshacen las fronteras genricas del discurso tradicional .
 Se puede decir

 que es un gnero que nace de una rebelin contra el canon , pero , que al paso

 del tiempo , se ha convertido en un sistema cannico .

 El poema en prosa es un antignero , oximornico por excelencia y totalmente

 penetrado por el concepto curiosamente subversivo de epifana. El estilo de un

 artista es determinado por la forma en que usa los instrumentos de la

 escritura .
 En muchos casos estos instrumentos no son originales o nuevos ; sin

 embargo , sus usos pueden serlo y es esta originalidad la que los hace nicos .

 Estos instrumentos le dan al artista una identidad estilstica peculiar .

 Separan cada esfuerzo creativo y al mismo tiempo le ofrecen un sentido de

 unidad .

 Fernando Pessoa en su intensa preocupacin con la esencia del ser intent

 descubrirla a travs de ese peculiar mecanismo literario conocido como la

 epifana. La idea de la epifana no es nueva , pero se ha usado de una manera

 extremadamente frecuente en la literatura moderna .
 La epifana ( i.e. ,

 epiphaneia ) en el mundo occidental se remonta , en sus orgenes , a la tradicin

 cristiana : la experiencia de Pablo en su camino a Damasco , las visiones de Dios

 de los profetas , los encuentros de los msticos espaoles y las numerosas

 experiencias de conversin en la historia de la hegemona cristiana ( e.g. , in

 hoc signo vinces de Constantino I , el Grande ) .
 Todos estos momentos de

 iluminacin o revelacin son una experiencia mstica religiosa que tiene mucho

 en comn con la epifana literaria , especialmente su aspecto trascendental. En

 ambos casos tenemos unos momentos individuales , repentinos , cortos , intensos ,

 los cuales producen una nueva conciencia que puede ser dolorosa o excitante .

 Sin embargo , las antiguas revelaciones son religiosas por naturaleza y poseen

 una negacin del ser , lo que las hace tremendamente impersonales .

 La epifana literaria , en cambio , es intensamente personal y por ende

 potencialmente trivial .
 Tiene una esencia generalizadora y produce una

 concientizacin separada del ser , normalmente un vis--vis entre la vida y el

 mundo circundante .
 Este cambio de focalizacin quiz se deba a la prdida de fe

 en el mundo moderno , en el cual se sustituye la religin como fuente de

 conocimiento por la experiencia del individuo y su confrontacin con la vida

 cotidiana .
 El vivir es mucho ms importante ya que la vida es una consecucin

 de experiencias , las cuales tienen significacin para un individuo y que

 aparentemente son triviales para otros , las banalidades adquieren importancia ,

 la respuesta personal a estas trivialidades se convierte en una fuente

 potencial para una conciencia instantnea de la esencia del ser .
 La experiencia

 de iluminacin es ms que una experiencia mstica ya que es una experiencia

 individual mucho ms cercana a la epifana literaria que a la revelacin

 mstica de la experiencia religiosa .
 La preocupacin filosfica del hombre

 moderno con la naturaleza y el sentido de la experiencia son reflejadas en la

 literatura .

 En el uso de la epifana literaria existe una explicacin ms tcnica que

 filosfica , la cual explica el por qu del incremento de su uso por escritores

 modernos ; que es la invasin de la prosa de ficcin por los recursos y

 procedimientos de la poesa. Las preocupaciones filosficas de los escritores

 existencialistas se combinan con las tcnicas de los poetas y de ah emerge una

 nueva forma de prosa ficcional ; una en la cual la compleja naturaleza de la

 existencia humana es sutilmente explorada a travs de tcnicas que se

 concentran en la internalizacin de la realidad externa y su subsiguiente

 externalizacin en la forma de una realidad enteramente nueva. La destilacin

 de ambas en un intento de reflejar esa naturaleza del ser .
 Tambin los

 escritores muestran un inters en objetos aparentemente insignificantes y en

 eventos banales - - y no de la manera en que los autores realistas y psicolgicos

 hicieron en la prosa de ficcin decimonnica - - ya que sus preocupaciones son

 completamente diferentes , y es aqu donde bsicamente radica la importancia de

 la epifana como tcnica literaria central en la ficcin moderna .
 James Joyce

 usa el trmino epiphany por primera vez para referirse a un tipo especfico de

 gnero prosstico que se define en Stephen Hero .

 Nuestro poeta en cuestin , Fernando Pessoa , hbrido por naturaleza ,

 multipersonal y , si nos aventuramos y somos-a su vez-consecuentes con la

 experiencia heteronmica del escritor , multiepifnico .
 Es un autor para el cual

 no existen absolutismos literarios , ni clasificaciones hermticas que

 dividiran prosa , lrica o ensaystica ya que el sentimiento potico impregna

 todo lo que escribi. El sentido potico es inherente a la escrita pessoana , su

 obra es capaz de comunicar , explicar , argumentar y analizar en una forma

 repleta de poesa y este espritu literario es transmitido-sin discriminar - - a

 todos los heternimos , desde los ms polticos hasta los ms lricos .

 El sentimiento epifnico invade a cada una de estas extensiones de la persona

 Pessoa , en cada uno de sus heternimos existe una inaudita manifestacin

 espiritual , una liberacin dramtica del yo , la obra potica pessoana posee una

 extraordinaria significacin esttica y espiritual y cada palabra escrita ya

 sea por Caeiro , Soares , o Pessoa ortnimo poseen esta trascendencia temtica

 que redefine el concepto esttico de gneros literarios. El carcter epifnico

 de la obra del escritor portugus posee una excntrica armona que se relaciona

 con la meditacin y le da un rasgo visionario an cuando escribe sobre temas

 mundanos , vulgares o cotidianos .
 El caso del Fernando Pessoa travestido en el

 semi-heternimo Bernardo Soares , es el ms notable desde el punto de vista

 epifnico , en el Livro do Desassossego el poeta-narrador-cronista-filsofo

 expresa sus ideas de una manera que la hacen parecer como una revelacin

 divina .
 Como se dijo anteriormente esto no tiene especficamente que ver con

 las ideas expresadas en el texto de Soares sino con la opcin literaria elegida

 por el autor , la prosa de carcter potico , lo que le otorga una vez ms a este

 sub-gnero una identidad completamente epifnica .

 Adelto Gonalves en su ensayo " Prosa Potica e Poema em Prosa no Livro do

 Desassossego " , nos explica esta habilidad pessoana. El crtico brasileo

 analiza varios fragmentos del texto escrito por el semi-heternimo Bernardo

 Soares .
 Gonalves asevera que en el fragmento donde Pessoa " conoce " a su

 semi-heternimo utiliza equilibradamente el lenguaje simblico y el subjetivo ,

 como se puede observar a continuacin :

 (  ) Um dia houve um acontecimento na rua , por baixo das janellas - uma scena de

 pugilato entre dois indivduos .
 Os que estavam na sobreloja correram s

 janellas , e eu tambm , e tambm o indivduo de quem fallo .
 Troquei com elle uma

 phrase casual , e elle respondeu no mesmo tom .
 A sua voz era baa e trmula ,

 como a das creaturas que no esperam nada , porque  perfeitamente intil

 esperar .
 Mas era porventura absurdo dar esse relevo ao meu collega vespertino

 de restaurante. ( 32 )

 En este contexto , es interesante la propuesta de Gonalves quien asegura que

 " Ha ritmo nas palavras , o que  uma condio inata do poema , mas no essencial

  prosa .
 Como prosador , aqui o autor busca a coerncia e a claridade conceitual

 e resiste  corrente rtmica que fatalmente tende a se manifestar em imagens e

 no em conceitos , como no trecho em que volta  realidade ao dizer : ' Mas era

 porventura absurdo dar esse relevo ao meu collega vespertino de restaurante ' "

 ( 33 ) .
 En todo caso , lo potico domina el texto de Fernando Pessoa borrando las

 barreras entre prosa pura y prosa de carcter lrico que en la definicin de

 Octavio Paz es poesa en estado amorfo .
 Para Gonalves este fragmento est

 lejos de ser un poema en prosa porque es :

 uma expresso do ' no-eu ' : quem e o escreve est dirigido para for a do seu

 mundo , observando a realidade exterior .
 Mas a sua ao  interna , passa-se na

 conscincia da personagem , como numa fico instrospectiva .
 O escritor est

 para o ' no-eu ' , descrevendo com pormenores o momento de su primeiro encontro

 com algum que se supe tenha se tornado seu amigo .
 O seu tempo  psicolgico ,

 interior .
 E o espao no assume maior importncia como cenrio .
 Aqui h um

 arremedo de enredo , uma breve intriga ficcional , e uma outra personagem alm de

 quem escreve .
 So esse ser vivo e as coisas ao redor dele e do autor que

 constituem a massa de sua prosa potica. ( 34 )

 Para muchos , un poema en prosa es un sinnmero de pequeas piezas lricas en

 las que prepondera el uso del " yo " , o sea : el poeta volvindose para dentro de

 s mismo o , recordando las palabras de Massaud Moiss , el poeta hacindose al

 mismo tiempo espectculo y espectador .
 Las ideas de Gonalves y Moiss son

 constatables en el siguiente fragmento del Livro do Desassossego : " Eu nunca fiz

 seno sonhar .
 Tem sido esse , e esse apenas , o sentido da minha vida .
 Nunca tive

 outra preocupao verdadeira seno a minha vida interior .
 As maiores dores de

 minha vida esbatem-de-me quando , abrindo a janella para dentro de mim , pude

 esquecer-me na viso do seu movimento " ( Gonalves 36 ) .

 Gonalves inclusive sugiere que ste pudiera dividirse en segmentos

 versificados a semejanza de tantos versos libres escritos por el poeta , lo que

 hoy ya es una realidad si tomamos el ejemplo de otro fragmento llamado " Nuvens "

 en su variacin versificada en una pgina ciberntica donde los creadores de la

 misma " violan " o re-interpretan la escritura pessoana , despojndola de su

 naturaleza prosstica para ofrecerle una total identidad potica ,

 convirtindolo en un largo poema :

 Libro del desasosiego ( fragmento )

 Nubes ...
 Hoy tengo conciencia del cielo , pues hace das que

 no lo miro pero lo siento , viviendo en la ciudad y no en la

 naturaleza que la incluye. Nubes ...
 Son ellas hoy la principal

 realidad , y me preocupan como si el velarse del cielo fuese uno

 de los grandes peligros de mi destino .
 Nubes ...
 Pasan desde la

 barra hacia el Castillo , de Occidente a Oriente , en un tumulto

 disperso y desnudo , blanco a veces , se ven desharrapadas en la

 vanguardia de no s qu ; medio-negro otras , si , ms lentas , tar -

 dan en ser barridas por el viento audible ; negras de un blanco

 sucio , si , como si quisiesen quedarse , ennegrecen ms de la

 venida que de la sombra lo que las calles abren de falso espacio

 entre las lneas cerradas de las casas .

 Nubes ...
 Existo sin saberlo y morir , sin quererlo. Soy el

 intervalo entre lo que soy y lo que no soy , entre el sueo y lo

 que la vida ha hecho de m , la medida abstracta y carnal entre

 cosas que no son nada , siendo yo tambin nada .
 Nubes ...
  Qu

 desasosiego si siento , qu desconsuelo si pienso , qu inutilidad

 si quiero !
 Nubes ...
 Estn pasando siempre , unas muy grandes ,

 pareciendo , porque las casas no dejan ver si son menos grandes

 de lo que parecen , que van a ocupar todo el cielo ; otras de

 tamao incierto , que pueden ser dos juntas o una que va a par -

 tirse en dos , sin sentido en el aire alto contra el cielo cansado ;

 otras an , pequeas , que parecen juguetes de poderosas cosas ,

 bolas irregulares de un juego absurdo , slo hacia un lado , en un

 gran aislamiento , fras .

 Nubes ...
 Me interrogo y me desconozco .
 Nada he hecho de

 til ni har de justificable. He gastado la parte de la vida que no

 perd en interceptar confusamente cosa ninguna , haciendo versos

 en prosa a las sensaciones intransmisibles con que hago mo el

 universo desconocido. Estoy harto de m , objetiva y subjetiva -

 mente .
 Estoy harto de todo , y del todo de todo .
 Nubes ...
 Son

 todo , desarreglos de lo alto , cosas hoy slo ellas reales entre la

 tierra nula y el cielo que no existe ; harapos indescriptibles del

 tedio que les supongo ; niebla condensada en amenazas de color

 ausente ; algodones en rama sucios de un hospital sin paredes .

 Nubes ...
 Son como yo , un pasar desfigurado entre el cielo y la

 tierra , al sabor de un impulso invisible , tronando o no tronando ,

 alegrando blancas u obscureciendo negras , ficciones del intervalo

 y del error , lejos del ruido de la tierra y sin tener el silencio

 del cielo. Nubes ...
 Siguen pasando , siguen siempre pasando ,

 pasarn siempre siguiendo , en un enrollamiento discontinuo de

 madejas empaadas , en un alargamiento difuso de falso cielo

 deshecho .

 15-9-1931

 No hay dudas para el autor que fue Fernando Pessoa - - o los autores que fue

 Fernando Pessoa - - que los gneros " no se separam com tanta facilidade ntima "

 ( Gonalves 25 ) .
 Esta aseveracin de Pessoa define su ideologa literaria ,

 ideologa que no posee fronteras ni lmites , y si de alguna manera se pueden

 imponer barreras , stas slo existen en el descubrimiento de la experiencia

 personal y potica , como si las palabras fueran una extensin mecnica del yo .

 Pessoa se alimenta de las dualidades , de la hibridez , del yo propio ,

 desprovisto de una seduccin prefabricada. La esttica , la lrica , la

 musicalidad , la rima , y el arrebato de las metforas disfrutan de intensidad

 potica ya que el texto escrito-ya sea-en forma de verso o prosa , en forma de

 artculo periodstico o ensayo , es monopolizado por la belleza profana y

 sagrada de la poesa ; porque como en la pintura o en la msica , la belleza de

 un paisaje pictrico o un fragmento musical es , por naturaleza , potica y es ,

 por fuerza , una experiencia personal .

 BI

 posted by ADELTO RODRIGUES GONALVES | 11:45 PM | talk to me !
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 Quarta-feira , Abril 06 , 2005

 HISTRIA

 A mentalidade mgica do Quinhentismo

 Adelto Gonalves

 O smen recolhido na vulva depois do ato sexual tinha muitas aplicaes em

 magia no Portugal quinhentista .
 Podia servir , por exemplo , para traar uma cruz

 com o algodo molhado nas costas do marido dizendo : " quando tu esta vires ento

 me olvides " .
 O smen podia ser misturado tambm com um pouco de terra num testo

 onde se semeava o trigo e o testo era , em seguida , colocado no telhado .
 O

 sangue da " purgao " da mulher tambm podia produzir benquerena se misturado

 no vinho ou na comida do amante .
 Para conseguir um homem , as feiticeiras

 recomendavam que a mulher tirasse sangue dos quatro dedos mindinhos das mos e

 dos ps , dando-o para comer ou beber , misturado com sal , ao indivduo .

 O aproveitamento dos dejetos do corpo no ficava por aqui .
 Uma mourisca

 ensinava a uma mulher que se quisesse bem a um homem " que houvesse dela um

 cagalho tosquiado e que lhe desse a beber e que logo lhe quereria bem " .

 Acender a matula empapada em lquido seminal seguido de invocao de demnios

 tambm servia para atrair homens .
 A escrava de um lavrador contou que fizera

 esse ato e que , horas depois , o seu senhor que estava trabalhando na vinha

 apareceu ofegante , lanando-se sobre ela na cama .

 Estes e outros episdios foram recolhidos pelo historiador portugus Francisco

 Bethencourt em mais de cem processos que constam dos arquivos dos tribunais da

 Inquisio do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e da Biblioteca Nacional de

 Lisboa e da Biblioteca Pblica de vora e reunidos em O Imaginrio da Magia :

 Feiticeiras , Adivinhos e Curandeiros em Portugal no sculo XVI .

 Publicado originalmente em Portugal em 1987 , pelo Projeto Universidade Aberta ,

 o livro para a edio brasileira recebeu reviso e um extenso prefcio em que o

 autor faz um relato de trabalhos mais recentes que ajudaram a enriquecer o

 conhecimento da magia em Portugal nos sculos XVII e XVIII , como os livros de

 Jos Pedro Paiva publicados em 1992 e 1997 .
 Bethencourt lembra tambm que as

 obras de Laura de Mello e Souza sobre a magia e a feitiaria no Brasil , O diabo

 e a terra de Santa Cruz , publicada em 1986 , e Inferno Atlntico : demonologia e

 colonizao , sculos XVI-XVIII , publicada em 1993 , estabelecem uma dupla

 ruptura com a tradio historiogrfica brasileira .

 Alm de inverter o processo de inqurito de Srgio Buarque de Holanda em A

 viso do paraso , a historiadora procura superar os pressupostos da

 historiografia brasileira sobre a origem africana da maior parte dos ritos e

 lanar um olhar sobre o contexto europeu que explica , em parte , o universo de

 referncias de movimentos dissidentes , da religiosidade popular praticada por

 numerosos brancos , escravos e ndios submetidos ao sistema colonial .
 A partir

 dos livros de Laura e de Bethencout , o leitor brasileiro acaba por refazer boa

 parte da idia comum que se atribui  influncia africana a maior parte dos

 ritos de magia que ainda hoje ocorrem no Brasil .
 Em grande parte , esses ritos

 vieram mesmo de Portugal .

 O autor lembra que a maior parte dos relatos que recolheu em arquivos foi

 produzida sob condies de deteno pelo Tribunal da Inquisio , perante juzes

 que conduziam interrogatrios a partir de modelos preestabelecidos .
 A despeito

 disso , diz Bethencourt , a anlise dos processos mostrou uma enorme loquacidade

 dos presos , denunciantes e testemunhas , apesar de nenhum deles ter sido

 submetido a tortura .
 As declaraes encontradas no correspondiam , na maior

 parte , ao universo mental dos juzes , explica .

 Segundo o historiador , enquanto os inquisidores se preocupavam em saber se as

 prticas mgicas tinham se beneficiado do pacto diablico , os inquiridos

 falavam de prticas sincrticas , com invocao alternada de Deus e demnios , de

 almas e de foras sobrenaturais , no lanamento de sortes , na realizao de

 conjuros , no prognstico do passado , do presente e do futuro , na elaborao de

 filtros de amor , fervedouros , ligamentos , amuletos , feitios de benquerena e

 malquerena .

 Enquanto centenas de homens e mulheres interrogados manifestavam uma crena

 profunda na eficcia das prticas mgicas , cujos conhecimentos teriam sido

 herdados ou adquiridos por aprendizagem , os inquisidores no acreditavam no

 poder prprio dos agentes mgicos , pressupondo que esse poder resultava de um

 pacto expresso ou implcito com o diabo .

 Diz ainda o autor que , enquanto os inquisidores pressupunham a separao entre

 o Cu e a Terra , estando esta sujeita  presena ativa de demnios , os

 interrogados pressupunham uma interao constante entre o mundo dos vivos e o

 dos mortos .
 A verbosidade dos presos era pacientemente registrada por

 escrives , como determinavam os estatutos da Inquisio , mas foi pouco

 examinada pelos inquisidores , que preferiam se concentrar em " questes mais

 importantes " que envolviam judasmo , islamismo e protestantismo .

 Na concluso , o autor observa que a represso da magia ilcita em Portugal no

 assumiu formas to violentas como no Centro e no Norte da Europa , onde se

 desenvolveu uma verdadeira caa s bruxas desde os finais da Idade Mdia ,

 embora o monoplio da manipulao legtima do sagrado e dos bens de salvao

 tenha sido garantido pela Igreja catlica ao longo dos sculos  custa da

 marginalizao de agentes religiosos e mgicos concorrentes .

 " A diferena de atitudes no reside na ignorncia da demonologia por parte das

 elites , nem no desconhecimento do mito da bruxa por parte da populao : no

 quadro de uma percepo religiosa e de uma tradio cultural especfica ,

 mediterrnea e peninsular , observamos a sobrevivncia em Portugal de todo um

 complexo mtico em que figura a lamia , a strix , a bruxa e o mouro encantado " ,

 diz o autor , lembrando que a recristianizao da Pennsula Ibrica nos sculos

 XI-XIII , prolongada at os sculos XV e XVI nas regies meridionais , teve de

 enfrentar graves problemas de assimilao dos mouros vencidos e de comunidades

 judaicas e morabes , habituadas a outro ambiente religioso .

 Para o leitor brasileiro , a obra de Bethencourt sofreu duas mudanas no

 subttulo , passando os saludadores e nigromantes do original para adivinhos e

 curandeiros .
 J feiticeiras tanto em Portugal como no Brasil tm o mesmo

 significado .
 Como lembra Laura de Mello e Souza na apresentao do livro , as

 nossas bruxas dos tempos coloniais tambm cultuavam santo Erasmo , eterno

 padroeiro dos amantes , e eram dadas  adivinhao da tesoura e da peneira , boa

 para encontrar objetos roubados .

 Autor de obra ainda de maior flego e posterior , Histria das Inquisies :

 Portugal , Espanha e Itlia - Sculos XV a XIX , publicada no Brasil pela

 Companhia das Letras em 2000 , Francisco Bethencourt , 50 anos , professor da

 Universidade Nova de Lisboa , ex-diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa e

 diretor do Centre Cultural Calouste Gulbenkian em Paris , ajuda-nos , neste livro

 de erudio irrepreensvel , a entender a mentalidade daqueles homens que

 comearam a povoar o Brasil no sculo XVI .

 ________________________________

 O IMAGINRIO DA MAGIA : FEITICEIRAS , ADIVINHOS E CURANDEIROS EM PORTUGAL NO

 SCULO XVI , de Francisco Bethencourt .
 So Paulo , Companhia das Letras , 373

 pgs. , 2004 , R$ 52 .
 E-mail : editora@companhiadasletras.com.br

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

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 POESIA

 Viagem ao Surrealismo americano

 Adelto Gonalves

 Criado por Andr Breton ( 1896-1966 ) e outros poetas em Paris na dcada de 20 , o

 Surrealismo logo deixou as fronteiras francesas para alcanar adeptos em todo o

 mundo .
 Porque no era uma nova linguagem a ser combatida ou aceita , o movimento

 propunha , isso sim , um questionamento das linguagens que se apresentavam como

 irredutveis .
 Era tambm uma tentativa de converter a poesia em bem comum , mas ,

 acima de tudo , uma manifestao do inconsciente e , por isso , conquistou tantos

 seguidores , alguns que nem mesmo seriam aceitos pelo novo corifeu .

 Para mapear a influncia do Surrealismo na poesia do continente americano , o

 poeta Floriano Martins decidiu , alm de fazer um estudo introdutrio , reunir os

 nomes mais representativos que se deixaram influenciar pelo movimento em suas

 produes .
 E produziu Un nuevo continente : antologa del Surrealismo en la

 poesa de Nuestra Amrica , lanado em 2004 pela Ediciones Andrmeda , de San

 Jos da Costa Rica .

 Nascido em Fortaleza , Cear , em 1957 , onde reside , Floriano Martins  poeta ,

 ensasta , tradutor e editor , mas especialmente tem se dedicado a estudar a

 literatura hispano-americana , sobretudo em relao  poesia .
  autor de

 Escritura Conquistada ( Dilogos con poetas latinoamericanos ) , de 1998 , e El

 inicio de la bsqueda ( El Surrealismo en la poesa de Amrica Latina ) , de 2001 .

 Em 1998 , publicou tradues de Poemas de amor , de Federico Garca Lorca , e

 Delito por bailar ch-ch-ch , de Guillermo Cabera Infante , seguidas de Dos

 poetas cubanos , de Jorge Rodrguez Padrn , de 1999 , Tres entradas para Puerto

 Rico , de Jos Luis Vega , de 2000 , e La novena generacin , de Alfonso Pea , de

 2000 .
 Publicou ainda as obras de poesia Alma em chamas ( 1998 ) , Cenizas del sol

 ( 2001 ) , Extravo de noches ( 2001 ) e Estudos de pele ( 2004 ) .

 Alma irrequieta , Martins ainda encontra tempo para editar , juntamente com o

 poeta Claudio Willer , de So Paulo , a revista eletrnica Agulha

 ( www.revista.agulha.nom.br ) , coordenar o projeto  Banda Hispnica  do Jornal de

 Poesia e ainda dirigir , em colaborao com Maria Estela Guedes , o dossi

 surrealista  Poesia e Liberdade  na revista eletrnica TriploV , de Portugal .

 Como ensasta fez , em novembro de 2003 , na Academia Brasileira de Letras , a

 conferncia  O Surrealismo no Brasil  , que acaba de sair no segundo tomo de

 Escolas Literrias do Brasil , edio em dois volumes coordenada pelo poeta Ivan

 Junqueira , presidente da instituio .
 O texto  , sem dvida , aquele que mais

 bem situa historicamente a presena do Surrealismo em terras brasileiras .

 Diz Martins que o Surrealismo penetrou na cultura brasileira  de forma

 indireta , tendo como pontos de costura tanto as afirmaes de Flvio de

 Carvalho , Jorge de Lima , Anbal Machado , como as simpatias de Pagu e Murilo

 Mendes e posteriormente a participao mais estranhvel de Maria Martins  .

 Oficialmente , porm , o Surrealismo chega ao Brasil em 1965 , com o

 estabelecimento de um grupo surrealista em So Paulo , capitaneado por Srgio

 Lima , que aderira ao grupo parisiense em 1961 , quando de sua residncia na

 Frana .

  mesma poca , j havia em So Paulo um grupo de poetas interessados no que

 ocorria na Amrica do Norte , especialmente pela movimentao potica da beat

 generation e pela contracultura .
 Estavam assim , por extenso , afinados com o

 Surrealismo , porque a beat generation havia se deixado impregnar pelos valores

 surrealistas , ainda que Andr Breton nunca houvesse de reconhecer isso .

 Esses poetas de So Paulo , como Allen Ginsberg , Burroughs e Jack Kerouac nos

 Estados Unidos , tambm nunca integrariam oficialmente o grupo surrealista de

 Srgio Lima : Claudio Willer e Roberto Piva .
 A razo do impedimento da adeso

 formal de ambos ao Surrealismo , diz Martins ,  ambientava certa reserva da parte

 do prprio Breton em aceitar desdobramentos do Surrealismo  , de que poderiam

 ser exemplos tanto o abstracionismo como a gerao beat e a contracultura .

 Ao fazer essa reconstituio histrica do que foi a influncia do Surrealismo

 no Brasil , Martins escolheu exatamente poemas de Srgio Lima , Claudio Willer e

 Roberto Piva para representar o Brasil em sua antologia .
 Willer  com Martins

 co-editor da revista eletrnica Agulha , mas em sua escolha no h nenhum laivo

 de compadrio ou amizade : Willer  mesmo uma das vozes mais representativas de

 um tipo de poesia que , no Brasil , sempre foi marginalizada , pouco estudada na

 academia , talvez porque ligada  contracultura , mas que , finalmente , comea a

 ser reconhecida exatamente por sua alta qualidade literria , por suas imagens

 s vezes extravagantes , mas essencialmente poticas .

 No continente americano , diz Martins em seu estudo introdutrio  Surrealismo :

 un cadver extranho de la poesa como bien comn  , a aventura surrealista tem

 mantido uma relao clara com foras antagnicas  a magia e o positivismo  ,

 lembrando que , se tem dialogado intensamente com a primeira , sempre se colocou

 visceralmente contra as argumentaes conservadoras que mais se assemelham a

 imposies .
 De fato , a idia do Surrealismo de escrita automtica gerou grandes

 reaes por parte daqueles que se agarravam  razo cartesiana tanto  esquerda

 como  direita do espectro poltico .

 Martins reconhece que fazer uma antologia no passa de uma viagem por um

 universo de sugestes .
 Escolheu trinta poetas e todas as suas escolhas foram

 acertadas , ainda que grandes poetas possam ter ficado no esquecimento .
 Mas esse

  o risco de toda antologia .

 Entre os poetas escolhidos , alm dos brasileiros , os argentinos Aldo Pellegrini

 e Enrique Molina , o peruano Csar Moro , o costarriquenho Max Jimnez e o

 dominicano Freddy Gatn Arce valem a viagem , embora o mais especial seja mesmo

 o martinicano Aim Csaire , que fez das descobertas do Surrealismo o caminho

 para a negritude , tendo se utilizado de uma tcnica europia para o seu

 reencontro com a cultura africana .

 Alm de Csaire , o norte-americano Philip Lamantia e os canadenses Roland

 Gigure e Paul-Marie Lapointe e o haitiano Clment Magloire Saint-Aude

 completam uma lista basicamente de latino-americanos , que ainda inclui os

 chilenos Rosamel del Valle , Braulio Arenas , Teofilo Cid , Enrique Gmez-Correa e

 Ludwig Zeller , o peruano Emilio Adolfo Westphalen , o equatoriano Csar Dvila

 Andrade , os argentinos Olga Orozco , Francisco Madariaga , Julio Llins e

 Alejandro Puga , a costarriquenha Eunice Odio , os venezuelanos Juan Snchez

 Pelez , Jos Lira Sosa e Juan Calzadilla , o cubano Lorenzo Garca Vega e o

 colombiano Ral Henao .
 Esperamos , agora , que Floriano Martins faa a verso da

 antologia para o portugus .

 _________________________

 UN NUEVO CONTINENTE : ANTOLOGA DEL SURREALISMO EN LA POESA DE NUESTRA AMRICA ,

 de Floriano Martins ( projeto editorial , seleo e estudo introdutrio ) .
 San

 Jos , Costa Rica , Ediciones Andrmeda , 329 pgs. , 2004 .
 E-mails :

 andromeda@amnet.co.cr e florianomartins@rapix.com.br .

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa e mestre em Lngua Espanhola

 e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de So Paulo e

 autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova Fronteira ,

 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So Paulo , Publisher

 Brasil , 2002 ) e Bocage  o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho , 2003 ) .
 E-mail :

 adelto@unisanta.br .

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 NARRATIVA

 Um romance da dispora aoriana

 Adelto Gonalves

 Se a mais recente dispora aoriana ainda est  espera de um grande autor ,

 como o Vitorino Nemsio ( 1901-1978 ) de Mau Tempo no Canal ( 1944 ) , espcie de

 saga proustiana das ilhas do Aores , ao menos , j motivou a publicao de

 alguns romances de boa qualidade .
 E at atraiu ateno de literatos

 estrangeiros , como  o caso da italiana Romana Petri , autora de A Senhora dos

 Aores ( La Donna delle Azzore ) , livro que conquistou o Prmio Grinzane Cavour

 de 2002 , que na edio anterior fora dado a Toni Morrison , vencedor do Prmio

 Nobel .
 Nascida em Roma , onde vive e trabalha , Romana Petri , 49 anos ,  doutora

 em Literatura Francesa , proessora e tradutora e escreve crtica literria

 regularmente para os jornais LUnit e Il Messaggero di Roma .

 Romana comeou sua carreira com o romance Il Gambero .
 Depois , com O Baleeiro

 dos Montes ( Il belenieri delle montagne ) , de 1993 , recebeu o prmio Modelo

 Opera Prima , um dos mais prestigiados da crtica italiana , mas no to

 importante quanto o Grinzana Cavour .
 Sua obra completa conta ainda com os

 romances LAntierotico ( O Anti-ertico ) , de 1995 , Alle Case Venie e Dagoberto

 Babiolonia , un destino , ambos de 2003 , alm de Esecuzioni , prometido para 2005 .

 Case Venie foi lanado em maio tambm pela Cavalo de Ferro , de Lisboa .

 Em A Senhora dos Aores , a autora conta a histria de uma escritora que decide

 aproveitar um perodo de frias para passar um ms no Pico , uma das ilhas dos

 Aores , e descobre um mundo de mitos e de fantasmas , de pobreza e solido , que

 imagina que no mais existisse .
 Como pano de fundo da histria dessa descoberta

 de uma italiana moderna , a tragdia da imigrao aoriana que , se em outros

 tempos foi em direo ao Sul do Brasil , hoje segue em direo aos Estados

 Unidos e ao Canad , em busca das vantagens de uma sociedade industrializada .

 A protagonista da histria , alter ego da autora , entra em contato com a

 comunidade que decidira permanecer na ilha , presa a sentimentos antigos e a

 recordaes de tempos imemoriais , ao silncio e  natureza , como justificativa

 para o comodismo de no ter ido tambm embora .
 Ao mergulhar no mundo dos

 ilhus , quase sem se dar conta , a escritora acaba por esquecer de seus prprios

 problemas que haviam ficado na mbria , mergulhando num mundo intemporal em que

 magia , ressentimentos e as palavras dos que se foram movem os passos dos que

 ficaram .

 Vistos pelo olhar de um estrangeira culta e sensvel , os Aores ganham uma nova

 dimenso num texto escrito de forma pessoal , ntima .
 " As pessoas tm medo de

 esquecer ; eu , pelo contrrio , aconselho que se viva mais o presente , que

 sejamos at um pouco ignorantes , no acredita ?
 Esperei , sem pressa nenhuma ,

 quando estava l longe , no Canad .
 Foram dezoito anos , no foi um dia .
 Um

 marido e trs filhos , por fim j compreendia a lngua , mas nunca a aprendi .
 No

 me custou , mas tambm nunca me adaptei " , diz uma personagem  pgina 57 .

 O romance  tambm o relacionameto que se inicia entre a escritora e Joo

 Freitas , aoriano imigrado na Califrnia que , de volta ao Pico em frias ,

 reluta a voltar para a Amrica , enquanto a italiana no se vai .
  ainda a

 oportunidade de se conhecer um mundo , hoje , impossvel de imaginar nas grandes

 cidades .
  Aqui , se quisermos , podemos estar dias e dias sem sair de casa .
 O

 importante  no ter o hbito de dormir at tarde , porque nesse caso  preciso

 pelo menos ter destreza fsica e bom ouvido .
 Em Arcos , entre as oito e meia e

 as nove da manh , desenrola-se aquilo que s neste lugar se pode definir como

 uma vida frentica  , diz a protagonista  pgina 105 , lembrando que  a essa

 hora que passam a furgoneta que traz o po e o homem do peixe e que , depois ,

 tudo  silncio .

 Em Case Venie , Romana localiza a ao em setembro de 1943 , data do armistcio

 da Segunda Guerra Mundial e da invaso da Itlia pelas tropas nazistas .
 O

 cenrio  a regio da mbria , local em que se deu uma famosa luta de

 resistncia antifascista e antinazista. Alcina e Aliseo , irmos rfos , vivem

 sozinhos em Case Venie e , com Spaltero , o melhor amigo de Aliseo , decidem fugir

 para as montanhas e juntar-se aos grupos da resistncia , os partigiani , que

 combatem os invasores alems .

 Vivendo to prxima da morte , Alcina apaixona-se por Spaltero e descobre que

 ainda h uma longa vida por viver , quem sabe na Argentina , num lugar bem longe

 de Case Venie .
 O amor de Spaltero dar , enfim , a Alcina uma razo de viver .

 Escrito em terceira pessoa por um autor onisciente , Case Venie reserva ao

 leitor grandes passagens de prosa potica e constitui um hino de amor  vida em

 meio  dura realidade da guerra .

 __________________________

 A SENHORA DOS AORES , de Romana Petri , traduo de Margarida Periquito .
 Lisboa ,

 Cavalo de Ferro Editores , 115 pgs. , 2003 .

 CASE VENIE , de Romana Petri , traduo de Margarida Periquito .
 Lisboa , Cavalo de

 Ferro Editores , 207 pgs. , 2004 .
 E-mail : geral@cavalodeferro.com

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage  o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

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 NOVELA

 No comboio entre Lisboa e Porto

 Adelto Gonalves

 Ronaldo Andrade , 28 anos , nascido em frente ao mar de Santos , So Paulo , passou

 trs anos na Europa , entre Lisboa , Barcelona e Paris .
 De Portugal , de suas

 viagens de trem entre Lisboa e o Porto , trouxe uma histria que colocou no

 papel , a novela A mulher do comboio , que saiu em livro em edio de autor .
  a

 histria da viagem de uma mulher que reconstitui a sua vida em pensamento

 enquanto observa a paisagem noturna pela janela .

 Identificado com o universo feminino , Andrade , agora , quer ir mais longe nesse

 ofcio que acaba de descobrir e pretende esticar a novela , talvez em busca de

 um romance , embora no esconda que seu objetivo a longo prazo seja escrever uma

 trilogia .

 Material e experincia no lhe faltam : exerceu vrias profisses pouco

 qualificadas em Portugal , andou por Paris e viveu no Paralelo , bairro do bas

 fond de Barcelona , que j atraiu gnios da escrita como os franceses Jean Genet

 ( 1910-1986 ) e Andr Pierry de Mandiargues ( 1909-1991 ) .

 De volta a Santos e  famlia como um filho-prdigo , cursa o primeiro ano de

 Jornalismo na Universidade Santa Ceclia ( Unisanta ) e trabalha como garom na

 Secretaria de Turismo da cidade , enquanto aguarda uma oportunidade para

 sobreviver como jornalista free lancer .

 Escrita de maneira objetiva , mas sem deixar de incorporar o fluxo de

 conscincia joyceano e outras conquistas do romance moderno , a novela A mulher

 do comboio pega o leitor logo nas primeiras linhas , levando-o a uma leitura de

 um s flego .
 Numa linguagem em que o portugus do Brasil se confunde com o

 portugus de Portugal , Andrade  um dos primeiros ficcionistas a produzir um

 texto hbrido em que no se sabe se  um portugus que o escreve ou um

 brasileiro que aportuguesou seu estilo .

 Quem sabe no esteja aqui um dos primeiros romancistas que vai contar a

 histria da imigrao luso-brasileira s avessas , agora vista com os olhos de

 quem v deste lado do Atlntico , talvez para repetir inversamente a trajetria

 de um Ferreira de Castro , que conheceu as dificuldades da Amaznia , ou de um

 Miguel Torga , que viveu em Minas Gerais as agruras da imigrao antes de

 retornar a Portugal para escrever obras-primas .

 A mulher da novela de Andrade  uma bibliotecria que trabalha num arquivo no

 centro de Lisboa e vem de dois casamentos desfeitos e duas grandes decepes

 que a fizeram  enclausurar-se em torno de si  e de seu trabalho .
 Por seu

 linguajar , percebe-se que no seria uma lisboeta , talvez uma brasileira que j

 estivesse em Portugal havia muitos anos .

 Sem filhos , sem maiores compromissos , ela decide comprar na gare do Oriente um

 bilhete para o Porto com o objetivo de rever familiares .
  na viagem noturna

 at o Porto que conhece um homem atraente , que se dizia mdico e que a faz

 repensar na possibilidade de voltar a amar algum do sexo oposto .
 Vive , ento ,

 um sonho densamente ertico .
 O final , porm ,  surpreendente porque pouco

 convencional , sfico .

 A novela mostra que Andrade j  um autor com o pleno domnio de seu ofcio ,

 pois sabe como conduzir o leitor at o final surpreendente .
 Sem contar que 

 capaz de descrever cenas erticas com o despojamento de um Henry Miller .

 Igualmente  supreendente em um autor to jovem a percepo do mundo feminino ,

 a maneira como procura transmitir as emoes sentidas pela mulher .
  claro que

 s mesmo uma leitora sensvel pode confirmar se a viso do autor  mesmo

 feminina , mas no h dvida de que esse esforo o fez produzir o encanto tpico

 de uma literatura de alta qualidade .

 __________________________

 A MULHER DO COMBOIO , de Ronaldo Andrade .
 So Paulo , edio do autor , 43 pgs. ,

 2003 .
 E-mail : roanoli@uol.com.br

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage  o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

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 Segunda-feira , Maro 21 , 2005

 RESENHA

 Claudio Willer , ou a poesia em movimento

 Adelto Gonalves

 Poucos poetas hoje no Brasil j leram tanto e so to cultos quanto Claudio

 Willer , que acaba de lanar o seu quarto livro no gnero , Estranhas

 experincias e outros poemas , que rene produes de toda uma vida dedicada 

 poesia , mais especificamente , e  cultura de um modo geral .
 Willer chega 

 idade em que a vida anoitece com a clarividncia que lembra a daqueles

 participantes da guerra civil espanhola que , embora derrotados no campo de

 batalha , nunca capitularam diante dos poderosos .

 Nada mais natural , no fosse o poeta um anarquista , que no precisou ler

 Octavio Paz para descobrir que o marxismo trazia embutido em sua ideologia um

 monstro que , uma vez instalado no poder , comea a comer a liberdade pelas

 bordas .
 E que por isso foi relegado ao ostracismo pela patrulha esquerdista e

 anatematizado pela burguesia .
 Por isso , nada mais lhe restou do que viver 

 margem .

 J comeou  margem , quando em 1964 lanou Anotaes para um Apocalipse ( So

 Paulo , Massao Ohno Editor ) , estimulado , entre outras coisas , por um coquetel do

 Robert Desnos de Libert ou lamour , Michaux e Bataille , que leu em francs ,

 mas , principalmente , influenciado por Poeta em Nova York , de Federico Garca

 Lorca .
 Por esses anos , leu modernistas , surrealistas , os poetas e narradores

 da gerao beat com Jack Kerouac  frente e participou de alguns happenings de

 poesia ao lado de Roberto Piva nas noites de So Paulo .

 Jamais integrou oficialmente o grupo surrealista que existiu no Brasil de 1965

 a 1969 , como diz o poeta Floriano Martins na conferncia " O Surrealismo no

 Brasil " , que faz parte do livro Escolas literrias no Brasil ( Rio de Janeiro ,

 Academia Brasileira de Letras , 2004 , dois volumes ) , de Ivan Junqueira

 ( coordenao ) .
 Isso , porm , no significa que no tenha sido surrealista .
 Pelo

 contrrio .
 A poesia surrealista foi a formao de Willer e tambm a de Piva .
 A

 raiz do impedimento de ambos  adeso formal ao grupo surrealista brasileiro

 comandado por Srgio Lima , diz Martins , foi uma certa reserva de Andr Breton

 de aceitar desdobramentos do surrealismo , como a beat generation e a

 contracultura .

 Nos anos 70 , Willer leu T.S.Eliot e no passou inclume .
 Leu tambm com

 sofreguido o poeta portugus Herberto Helder , que tem poemas que ele confessa

 que gostaria de ter escrito - haveria maior elogio ?
 E no foi s a boa poesia

 que o influenciou : leu tambm muita prosa de alta qualidade , como a dos

 brasileiros Guimares Rosa e Clarice Lispector , a dos argentinos Jorge Lus

 Borges e Julio Cortzar , a dos cubanos Severo Sarduy e Lezama Lima , sem

 esquecer dos tericos que inspiraram poesia como Wilheim Reich , Norman Brown

 ( que fez um livro de filosofia em prosa potica , lembrou ele numa entrevista a

 Floriano Martins que est na revista eletrnica Agulha ) , Bataille , Foucault ,

 Walter Benjamin e , especialmente , Octavio Paz .

 Em 1968 , em Paris , s vsperas do Maio francs , Willer participou de uma

 reunio entre surrealistas , mas j sem Breton , morto em 1966 .
 Em companhia de

 Paulo Paranagu , esteve na casa de Vincent Bounure , integrante ativo do grupo ,

 com quem teve prolongada discusso a respeito da gerao beat , cujo valor

 literrio o francs nunca admitiu .
 Willer no , talvez por causa de seu

 pensamento anrquico , identificou-se com os corifeus da gerao beat , embora

 nunca tenha deixado de estar ligado , ao menos idealmente , ao surrealismo .

 Tanto que produziu um prefcio e preparou Os Cantos de Maldoror ( So Paulo ,

 Editora Vertente , 1970 ; Max Limonad , 1986 ) , de Lautramont , os Escritos de

 Antonin Artaud ( Porto Alegre , L & PM Editores , 1983 ) e fez vrios poemas

 engajados na temtica surrealista .
 Mas o que Willer se tornou foi mesmo um

 poeta-ensasta como Breton , Paz e Allain Ginsberg , de quem ele traduziu Uivo e

 Kaddish e outros poemas ( Porto Alegre , L & PM Editores , 1984 ) .
 Prepara-se agora

 para publicar ensaios sob o ttulo Surrealismo , poesia e potica , pela Editora

 Perspectiva , de So Paulo .
 Escreveu ainda a narrativa Volta ( So Paulo ,

 Iluminuras , 1996 ) e participou de vrias antologias de poesias publicadas no

 Brasil e no exterior .

 Em 1976 , lanou Dias Circulares ( So Paulo , Massao Ohno ) , que coincidiu com um

 acontecimento que recebeu o nome de Feira de Poesia e Arte , realizada no Teatro

 Municipal de So Paulo ,  poca da fase mais agressiva da ditadura militar

 ( 1964-1985 ) , mas que , de certo modo , tinha a ambio de repetir um pouco o que

 fora a Semana Modernista de 1922 .
 A Feira ficou esquecida - e s  aqui

 lembrada porque o prprio Willer a registrou em " Viagens 6 Quase um manifesto " ,

 que faz parte de Jardins da Provocao ( So Paulo , Massao Ohno-Rosiwitha Kempf

 Editores , 1981 ) .

 Agora , Willer lana Estranhas Experincias e outros poemas ( Rio de Janeiro ,

 Editora Lamparina , 2004 ) , que rene poemas mais recentes , mas basicamente

 republica outros que saram em Anotaes para um Apocalipse , Dias Circulares e

 Jardins da Provocao .
 Sua gnese , porm , como diz o poeta na apresentao ,

 est no denso caldo de cultura dos grupos de jovens poetas paulistanos da

 dcada de 60 .

 Esse ambiente , alis , Willer comentou no posfcio que escreveu para a Antologia

 Potica da Gerao 60 ( So Paulo , Editorial Nankin , 2000 ) .
 O poeta lembra que

 ele e seus amigos costumavam ler em voz alta , uns para os outros , Fernando

 Pessoa , Jorge de Lima , os poetas do surrealismo - e Willer , especialmente , sabe

 muito bem ler seus prprios poemas , transformando-os com sua emoo .
 Diz Willer

 que o horizonte literrio desses poetas vinha do Rimbaud de Iluminaes e Uma

 temporada no inferno , " livros de cabeceira de tantas geraes literrias , do

 incio do sculo XX at hoje " .

 S a apresentao que Willer fez para Estranhas Experincias  um testamento de

 uma poca que nem sempre  lembrada com a devida reverncia e importncia por

 nossos crticos literrios , alguns inclusive que ainda falam da poesia

 brasileira como se o mundo houvesse parado em 1958 , sem que eles tivessem

 descido .
 Ele lembra que em 1974-75 as suas influncias eram o romance Sob o

 Vulco , de Malcolm Lowry , e os contos de Dashiell Hammet .
 Nessa poca , escreveu

 " Homenagem a Dashiell Hammet " em que diz :

 ( ...
 ) uma gerao pulou no abismo

 mas voc foi mais adiante

 levantou a tampa da vida .

 Como poeta-ensasta , melhor do que ningum , soube traar a trajetria dos

 desajustados poetas paulistanos dos anos 60 .
 No comeo , ele , Piva e Rodrigo de

 Haro , um beatnik que ficou esquecido , no foram levados a srio .
 Devotaram-lhes

 um sonoro silncio .
 Willer mesmo reconhece que ele e seus companheiros de

 viagem levaram mais de 20 anos para serem lidos e aceitos pela crtica

 tradicional , que ainda estava impregnada por uma influncia conservadora e

 beletrista .

 Depois , todos passaram a ser vistos como poetas cerebrais , mas ainda  margem .

 A rigor , at hoje , nem Piva nem Haro nem Willer tiveram a recepo que merecem ,

 j no se diz entre a crtica tradicional de jornais , mas entre os acadmicos ,

 que sempre torceram o nariz para a gerao on-the-road ( ou p-na-estrada ) .

 Ultimamente , porm , Willer coma ser canonizado , se  que este adjetivo pode

 cair bem a quem sempre viveu e pensou anarquicamente , longe dos campanrios e

 igrejinhas literrias : tem sido procurado por poetas mais jovens que descobrem

 que muitas de suas excentricidades ou idias revolucionrias j foram

 percorridas por ele h dcadas .

 O poeta , porm , no pra .
 Com Floriano Martins , poeta de gerao mais recente ,

 cuida desde 2000 da revista eletrnica Agulha ( www.revista.agulha.nom.br ) , que ,

 alm de abrir espao para a poesia e a crtica brasileiras , tem mantido intenso

 dilogo com poetas de lngua espanhola .
  que Willer odeia a estagnao , sua

 poesia est sempre em movimento , seus signos em rotao , como diria Octavio

 Paz , o que se pode comprovar em poemas recentes e inditos que incluiu em

 Estranhas experincias .
 Num deles , " A verdade " , diz :

 ( ...
 ) todos , todos eles

 os que agora vagam pelas mesmas ruas

 os personagens fantsticos os profetas do desencontro os poetas

 malditos os videntes os ensandecidos os marginais

 seus passos , nossos passos contraculturais e magnficos

 ecoam , ressoam pelas runas do Ocidente

 - todos - todos eles irremediavelmente enlouquecidos

 e nada sobra -

 escrever  difcil , mais difcil ainda  relatar como agora a vejo

 em todo lugar

 simultnea multiplicao de abismos ( ...
 )

 __________________________

 ESTRANHAS EXPERINCIAS E OUTROS POEMAS , de Claudio Willer .
 Rio de Janeiro ,

 Editora Lamparina , 144 pgs. , 2004 .
 E-mail : lamparina@lamparina.com.br

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

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 Domingo , Maro 20 , 2005

 IDIAS

 Ser intelectual : de Said a Maxwell *

 Adelto Gonalves

 At onde o intelectual deve se envolver ?
 Deve filiar-se a um partido poltico ,

 servir a uma idia , personalidades , empregos ?
 At que ponto a lealdade a uma

 causa leva algum a ser consistentemente fiel a ela ?
  possvel defender idias

 de maneira independente e , ao mesmo tempo , manter empregos pblicos ou mesmo em

 grandes instituies privadas de saber ?

 Essas e outras questes so levantadas por Edward W. Said ( 1935-2003 ) em

 Representaes do Intelectual : as Conferncias Reith de 1993 , srie de

 palestras que o autor fez para a BBC de Londres .
 Nascido em Jerusalm , Said foi

 educado no Cairo e em Nova York , onde lecionou literatura na Universidade

 Columbia .

 Um dos mais importantes crticos literrios e culturais dos Estados Unidos ,

 Said  autor de dezenas de livros , entre os quais os mais importantes so

 Orientalismo ( 1990 ) , Cultura e imperialismo ( 1995 ) , Reflexes sobre o exlio

 ( 2003 ) , Paralelos e paradoxos ( em co-autoria com Daniel Barenboim ) e Fora do

 lugar ( 2004 ) , todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras .

 Nada disso , porm , impediu que Said tenha sido acusado na Inglaterra de

 ativista na luta pelos direitos dos palestinos e , portanto , desqualificado para

 qualquer tribuna sria ou respeitvel .
 The Sunday Telegraph chegou a cham-lo

 de " antiocidental " , considerando que o seu objetivo em seus escritos e

 conferncias tem sido o de culpar o Ocidente por todos os males do mundo ,

 principalmente do Terceiro Mundo .

 Foi mesmo por ter sido sempre incompreendido na sociedades norte-americana e

 inglesa por suas posies que Said decidiu escrever estas seis conferncias ,

 mais tarde , reunidas em livro .
 Para ele , as representaes do intelectual - o

 que ele representa e como essas idias so apresentadas para uma audincia -

 esto sempre enlaadas e devem permanecer como parte orgnica de uma

 experincia contnua da sociedade : a dos pobres , dos desfavorecidos , dos

 sem-voz , dos no representados , dos sem-poder .

 Portanto , quase sempre o intelectual acaba por se colocar - ou passa a ser

 visto -  esquerda , pois defender o contrrio significa quase sempre ficar ao

 lado de interesses inconfessveis , que oprimem os menos favorecidos .
 Isso ,

 porm , no equivale a dizer que no existam grandes intelectuais  direita

 Said lembra que chegou menino aos Estados Unidos , procedente do Oriente Mdio ,

 nos anos 1950 , quando o macarthismo estava no auge .
 Desde ento , a sociedade

 norte-americana pouco mudou : todo mundo sabe que  extremamente difcil , diz

 ele , tentar fazer alguma crtica  poltica dos Estados Unidos ou de Israel nos

 grandes meios de comunicao ocidentais - controlados por meia dzia de grandes

 corporaes - , embora inversamente seja muito fcil dizer coisas hostis aos

 rabes como povo e cultura , ou ao Isl como religio .
 De fato , depois do 11 de

 Setembro , h uma guerra cultural entre Ocidente e o mundo rabe e muulmano .

 Admitir qualquer posio pr-Palestina  assumir a condio de inimigo dos

 Estados Unidos .

 Para Said , um dever especial do intelectual  criticar os poderes constitudos

 e autorizados de nossa sociedade , que so responsveis por seus cidados ,

 particularmente quando esses poderes so exercidos numa guerra manifestamente

 desproporcional e imoral ou , ento , em programas deliberados de discriminao ,

 represso e crueldade coletiva .

 Diz o autor que nada  mais repreensvel do que certos hbitos de pensamento do

 intelectual que induzem  absteno .
 Isso  muito claro tambm em sociedades de

 lngua portuguesa em que , muitas vezes , a aspirao do intelectual  ser

 convidado , consultado , ser membro de um conselho , de uma comisso ou comit de

 prestgio , quem sabe mais tarde ser recompensado com um grau honorfico , um

 grande prmio , talvez at uma embaixada mesmo sem ter cumprido a carreira

 diplomtica .

 Para Said , esses hbitos de pensamento so corruptores par excellence .
 " Se

 alguma coisa pode desfigurar , neutralizar e , finalmente , matar uma vida

 intelectual apaixonada  a interiorizao de tais hbitos " , diz o autor ,

 lembrando que , no caso da questo Palestina , o medo de falar abertamente sobre

 uma das maiores injustias da histria moderna amarrou , cegou e amordaou

 muitos que conhecem a verdade e esto em posio de defend-la .

 Em qualquer sociedade desenvolvida ou subdesenvolvida , ser intelectual no

 sentido que Said defende no  tarefa das mais fceis .
 Veja-se agora o caso do

 historiador ingls Kenneth Maxwell , que escreveu livros importantes como A

 Devassa da Devassa ( 1977 ) , Marqus de Pombal : paradoxo do Iluminismo ( 1996 ) e A

 construo da democracia em Portugal ( 1995 ) .

 Por quinze anos , ele foi diretor do Programa para a Amrica Latina do Conselho

 de Relaes Exteriores ( Council on Foreign Relations ) de Nova York e , por onze

 anos , escreveu resenhas de livros para a revista Foreing Affairs , publicao do

 Council .
 No comeo de 2004 , Maxwell foi obrigado a deixar a instituio por

 causa de presses de Henry Kissinger , antigo secretrio de Estado , 81 anos ,

 depois que produziu para a edio de novembro-dezembro de 2003 da revista uma

 recenso do livro The Pinochet File : A Declassified Dossier on Atrocity and

 Accountability ( Nova York , New Press ) , de Peter Kornbluh , lanado em 2003 para

 marcar o 30 aniversrio da morte do presidente Salvador Allende .

 Maxwell escreveu que Kissinger e o Departamento de Estado estiveram metidos at

 o pescoo no Chile na conspirao que levou o general Pinochet a derrubar o

 governo eleito de Allende , passando a cometer toda a sorte de atrocidades e

 violaes dos direitos humanos .
 Disse tambm que " os Estados Unidos sabiam ,

 aprovaram e mesmo apoiaram o plano para o seqestro de Ren Schneider " , chefe

 das Foras Armadas chilenas , que teria se oposto  execuo do golpe militar .

 Depois , Schneider apareceu morto .

 Maxwell lembrou ainda que o governo Nixon apoiou a famosa Operao Condor , que

 envolveu servios de inteligncia da Argentina , Chile , Uruguai , Paraguai ,

 Bolvia , Brasil , Peru e Equador , que passaram a coloborar mutuamente na

 deteno e eliminao fsica de adversrios polticos de seus regimes .

 Em razo dos acontecimentos que se sucederam  publicao da recenso , Maxwell ,

 hoje professor visitante do David Rockfeller Center for Latin American Studies

 em Harvard , em artigo publicado a 2 de dezembro de 2004 no site da Harvard

 University ( http : // drclas.fas.harvard.edu ) , colocou em xeque a credibilidade do

 poderoso Council on Foreign Relations , seu antigo empregador .

 Em texto publicado no Washington Post em 27 de fevereiro de 2005 , o reprter

 Lynne Duke escreveu que Kissinger preferiu no comentar o assunto .
 Duke lembrou

 que , em sua autobiografia publicada em 1982 , The Years of Upheaval , Kissinger

 escrevera que o envolvimento dos Estados Unidos no caos chileno de 1973 no

 passava de " mitologia poltica " .
 J Willians D. Rogers , scio e advogado de

 Kissinger , segundo o jornalista , preferiu chamar Kornbluh e Maxwell de

 " fazedores de mitos " , acusando-os de " esquerdistas " .

 Como se v , ao contrrio de muitos pensadores , Maxwell , 64 anos ,  um ldimo

 representante daquela categoria de intelectual preconizada por Said : nunca

 serviu a nenhum governo e no tem a menor inteno de faz-lo .

 _________________________

 REPRESENTAES DO INTELECTUAL , de Edward W. Said .
 So Paulo , Companhia das

 Letras , 127 pgs. , 2005 .
 www.companhiadasletras.com.br

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

 * Publicado no suplemento Opo Cultural do Jornal Opo , de Goinia-GP , em

 20/3/2005 .

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 ESTUDO

 A poesia sfica de Judith Teixeira

 Adelto Gonalves

 Em Portugal como no Brasil , nas primeiras dcadas do sculo XX , a cultura

 patriarcal dominava nos campos literrio e artstico .
 A maioria das mulheres

 limitava-se a desempenhar as atividades do lar , ou a sua superviso , no caso

 das mais abastadas , e a cuidar dos filhos .
 Poucas destacaram-se na literatura .

 E , ainda assim , aquelas que o fizeram passaram a sofrer as conseqncias de um

 certo " apagamento " ditado pela hegemonia masculina , tendncia que s nos

 ltimos anos , com a ascenso da mulher na sociedade , comeou a ser revertida .

 No Brasil , h o caso de Patrcia Galvo ( 1910-1962 ) , escritora e primeira

 mulher a ser presa no pas na luta revolucionria ideolgica , redescoberta pelo

 poeta concretista Augusto de Campos em seu pioneiro livro Pagu : vida-obra ( So

 Paulo , Brasiliense , 1982 ) , e pesquisada com profundidade por Lcia Maria

 Teixeira Furlani em Pagu - livre na imaginao , no espao e no tempo ( Santos ,

 Editora da Unisanta , 1999 ) e Croquis de Pagu e outros momentos felizes que

 foram devorados reunidos ( So Paulo , Editora da Unisanta / Cortez , 2003 ) .

 Em 2002 , o crtico Ren P. Garay , nascido em Havana e professor de Lngua e

 Literatura Luso-Brasileira e Hispnica no City College-Graduate School-The City

 University of New York ( Cuny ) , lanou Judith Teixeira : o Modernismo Sfico

 Portugus ( Lisboa , Universitria Editora ) , que resgata do silncio Judith

 Teixeira ( 1880-1959 ) , a nica poetisa do modernismo portugus , condenada 

 dupla marginalidade - primeiro por ser mulher participante e , depois , por sua

 " inquietante projeo lsbica " .

 Eis aqui um excelente tema de Literatura Comparada para um trabalho de mestrado

 ou doutoramento em Letras , que possa , nos moldes preconizados pelo professor

 Claudio Guilln , autor do recente Entre lo uno y lo diverso : Introduccin a la

 Literatura Comparada ( Barcelona , Tusquets , 2005 ) , resgatar e estabelecer os

 paralelos entre as obras e as trajetrias dessas duas mulheres .
 As duas foram

 poetisas , ambas lutaram contra uma sociedade opressiva e , de um modo ou de

 outro , romperam convenes e barreiras .

 Nascida em Viseu , Judith deixou para a posteridade trs livros de poemas :

 Decadncia ( 1922 ) , Castelo de Sombras ( 1923 ) e Nua .
 Poemas de Bizncio ( 1926 ) .

 Como observa Ren Garay , foi uma poetisa peculiar no panorama literrio

 portugus , " pela originalidade de sua arte potica e pelo seu franco desprezo

 pelas convenes tradicionais " .
 Alm disso , foi uma das poucas mulheres , seno

 a nica , " a evidenciar-se no campo decadentista " , sofrendo , a exemplo de Pagu ,

 as marcas da perseguio scio-poltica .

 Em estudo da poesia de Judith Teixeira , Garay constata em sua produo , alm do

 propsito de escandalizar , como era prprio do decadentismo , " inconformismo

 artstico , uso persistente da descrio , com forte tendncia para a esttica da

 sugesto , contribuindo para uma certa descontinuidade , fragmentao e

 desequilbrio do todo " , bem como constantes aluses ao mundo profuso dos

 perfumes exticos , motivos visuais e tteis , que tornam a sua arte extremamente

 sinestsica , tal como a de Camilo Pessanha ( 1867-1926 ) .

 Decadncia foi apreendido pelo Governo Civil de Lisboa em 1923 em plena

 Repblica , muito antes da instaurao da censura pelo governo Salazar ,

 juntamente com Sodoma Divinizada , de Raul Leal , e Canes , de Antnio Botto ,

 dois autores declaradamente homossexuais , todos considerados livros " imorais " .

 No Dicionrio de Literatura Portuguesa ( Lisboa , Presena , 1996 ) , lvaro Manuel

 Machado diz que Judith Teixeira , influenciada sobretudo por Antnio Botto ,

 " assume-se como poetisa que exalta e pratica a homossexualidade ( alm de se

 drogar com morfina ) , provocando escndalo desde a publicao de sua primeira

 coletnea , Decadncia , que foi apreendida " .

 Para Garay , Judith foi , sem dvida , uma das primeiras vtimas de excluso entre

 essas outras " amazonas " da histria literria que enfrentaram e lutaram contra

 o abuso do poder patriarcal .
 No entanto , como diz o autor , fica a esperana de

 que " tanto Judith Teixeira como outras escritoras da modernidade ( independente

 da sua orientao sexual ) encontraro - talvez pela primeira vez - um espao

 crtico em que se permitir uma avaliao menos oblqua e de feio analtica " .

 Para o ensasta , o mrito fundamental de Judith Teixeira reside na sua

 originalidade , ao procurar captar a realidade em novos modos de expresso .
 " A

 sua poesia est ligada  arte decadentista , pelo seu poder de seduo ,

 ambigidade , dor , alegria , sonho , utopia , misticismo e religiosidade , morte e

 vida " , diz Garary , lembrando ainda que , para alm do verso livre , a poesia de

 Judith impe-se pelo uso de imagens fortes , inditas , prprias do decadentismo

 e pelo efeito de acentuada catarse que proporciona .

 Sobre o assunto , Garay j havia escrito um ensaio que foi publicado em Faces de

 Eva - Revista de Estudos sobre a Mulher , n  5 , 2001 , da Universidade Nova de

 Lisboa , que trouxe na capa o rosto de Judith Teixeira , e outro que saiu em

 Artes & Artes , jornal literrio da Universitria Editora , de Lisboa , alm de

 palestras , todos agora reunidos em Judith Teixeira : o Modernismo Sfico

 Portugus , livro que arranca a poetisa de um limbo a que estava entregue no s

 pelo preconceito de seus contemporneos como pela indiferena dos seus

 psteros .

 Embora no tenha tido at agora , segundo o autor , recepo crtica na imprensa

 portuguesa , esta obra de Garay est a correr o mundo anglo-saxnico :

 encontra-se nas bibliotecas da Universidade de Oxford , da Universidade de

 Chicago e da Universidade do Texas , em Austin , e faz parte de uma lista de

 leituras para um curso sobre o fascismo na literatura portuguesa na

 Universidade de Cambridge .

 Alm do estudo , o volume rene uma antologia de poemas e prosas de Judith

 Teixeira traduzidas para o ingls e para o espanhol pelo autor com a ajuda de

 Maria Teresa Carrilho e Ral Romero e outros de seus alunos do mestrado e

 doutoramento do City College-Graduate School / City University of New York , da

 qual faz parte " Saudade " :

 Segue-me noite e dia o teu desejo !...

 Oio a tua voz rbida e cantante

 suplicar-me a carcia do meu beijo ,

 numa teima exigente e perturbante !

 E o meu corpo vencido , dominado ,

 vai tombar doloroso , inconsciente ,

 sobre a lembrana morna do passado

 - e fica-se a sonhar ...
 perdidamente !

 Doutorado pela Vanderbilt University com uma tese sobre Gil Vicente ( " Concept

 and Structure of the Vicentine Comedy " ) , Ren Garay publicou , entre outros

 livros , Gil Vicente and the Development of the Comedia ( University of North

 Caroline , 1989 ) , que teve prefcio do professor Massaud Moiss , da Universidade

 de So Paulo , e uma edio bilingue da Comdia de Rubena de Gil Vicente ( The

 Play of Rubena , Nova York , National Hipanic Foundation for the Humanities ,

 1993 ) em co-autoria com Jos Surez .
 Garay foi professor visitante de Lngua

 Portuguesa na Universidade de Puerto Rico de 1995 a 1996 e na Universidade Nova

 de Lisboa em 1994 , onde organizou um seminrio de ps-graduao sobre a

 Literatura Colonial dos Estados Unidos .

 __________________________

 JUDITH TEIXEIRA : O MODERNISMO SFICO PORTUGUS , de Ren P. Garay .
 Lisboa ,

 Universitria Editora , 231 pgs. , 2002 .
 www.universitariaeditora.com

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

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 HISTRIA

 Esquecidos e renascidos no Brasil colonial

 Adelto Gonalves

 Antes mesmo de o Brasil se tornar nao independente , eruditos reuniram-se na

 cidade de Salvador , na Bahia , para fundar a Academia Braslica dos Esquecidos ,

 em 1724 , e a Academia Braslica dos Renascidos , em 1759 , com a objetivo de

 escrever a histria da Amrica portuguesa .
 A criao dessas academias permitiu

 que a atividade historiogrfica ganhasse foros de ao coletiva , j que , at

 ento , ficara restrita a iniciativas isoladas de colonos , missionrios ,

 viajantes , militares e administradores .

 O livro Esquecidos e Renascidos : Historiografia Acadmica Luso-Americana

 ( 1724-1759 ) , de Iris Kantor , mestre e doutora em Histria pela Universidade de

 So Paulo ( USP ) e professora do Departamento de Histria dessa instituio ,

 recupera , com objetividade de escrita e profundidade de pequisa em arquivos do

 Brasil e de Portugal , essas duas iniciativas coletivas que constituem a gnese

 da pr-histria da historiografia brasileira .

 Ao mesmo tempo , as memrias produzidas por esses acadmicos so o despertar da

 identidade americana em oposio ao estatuto colonial , j que , ao escrever a

 histria dos primeiros cls povoadores , esses pioneiros acabaram , at mesmo de

 maneira involuntria , por transformar seu trabalho em instrumento jurdico de

 defesa dos privilgios de posse imemorial da terra .

 Iris Kantor lembra que seu livro procura dar nfase  idia de que as academias

 braslicas constituram uma experincia corporativa de produo do conhecimento

 histrico .
 Na primeira parte , a autora acompanha o processo de especializao

 do ofcio de historiador no interior das corporaes religiosas e acadmicas na

 passagem do sculo XVII para o XVIII , ressaltando algumas especificidades do

 caso portugus em relao ao campo historiogrfico europeu no contexto de

 mudanas no campo do Direito civil e eclesistico ptrios , encetadas pela Paz

 de Vestflia ( 1648 ) .

 " A partir de ento " , diz a historiadora , " a legitimidade das bulas papais e o

 direito de exclusividade comercial concedidos pelo Papado s monarquias

 ibricas passaram a ser sistematicamente questionados pelas demais potncias

 europias " .
 Nesse quadro poltico , a fundao da Academia Real da Histria

 Portuguesa em 1720 assumia feio geopoltica , j que a presso das diversas

 potncias europias teria levado Portugal a municiar-se com documentao

 comprobatria de seus direitos , investindo na construo da memria histrica

 de seus domnios ultramarinos .

 Na segunda parte do livro , Iris Kantor discute as circunstncias da formao

 das Academias dos Esquecidos e dos Renascidos , no s chamando a ateno para o

 significado poltico e intelectual dessas experincias corporativas no ambiente

 baiano como acompanhando a discusso sobre o papel dessas instituies na

 defesa e conservao do Imprio portugus .
  preciso lembrar que Salvador 

 poca era considerada a maior cidade portuguesa depois de Lisboa .

 Como diz a autora , na perspectiva do conselheiro ultramarino Jos Mascarenhas

 Pacheco Pereira de Melo , a Academia dos Renascidos poderia ter-se transformado

 num instrumento de governo em meio ao processo de redefinio das fronteiras

 territoriais , da expulso dos jesutas e do controle da mo-de-obra indgena ,

 caso o empreendimento no tivesse sido abortado .

 Como se sabe , a Academia no chegou funcionar da maneira como estava previsto

 em seus estatutos , pois um ms depois de abertas as suas portas o marqus de

 Pombal mandou que o seu principal promotor , o conselheiro Jos Mascarenhas

 Pacheco Pereira de Melo , fosse encarcerado e " sepultado vivo " no presdio da

 ilha de Santa Catarina , onde permaneceria confinado por 14 anos , junto com a

 criadagem e livraria particular .
 O que , convenhamos , levando-se em conta a

 brutalidade da poca , no constituiu pena excessivamente rigorosa .

 A reviravolta poltica que motivou a reao de Pombal ainda  cercada de algum

 mistrio .
 Afinal , o prestgio de Jos Mascarenhas na Corte era imenso .
 No ano

 anterior a sua designao , ele havia assistido ao seu pai , o desembargador Joo

 Pacheco Pereira de Vasconcelos , na violenta represso ao motim no Porto contra

 a criao da Companhia de Comrcio de Vinhas do Alto Douro em 1757 , a famosa

 Revolta dos Borrachos .

 Suas credenciais , portanto , eram suficientes para que Pombal o elegesse como

 condutor da poltica de expulso dos jesutas e de secularizao da

 administrao da mo-de-obra indgena .
 Alm disso , Jos Mascarenhas era

 intransigente defensor da idia de Pombal em favor da intensificao da

 miscigenao como forma de povoar um territrio to extenso , levando-se em

 conta a exigidade de gente que a metrpole podia remeter para as conquistas .

 Os problemas para Jos Mascarenhas comearam quando ele decidiu convidar o

 capito-tenente da Armada Real Francesa ancorada no porto da Bahia para

 participar da Academia Braslica dos Renascidos e o vice-rei D. Marcos de

 Noronha enviou correspondncia ao Conselho Ultramarino denunciando a " estreita

 amizade " entre ambos .
 O vice-rei acusava tambm o conselheiro de

 colaboracionismo naquela pesada conjuntura da Guerra dos Sete Anos ( 1756-1763 )

 em que Portugal permaneceria aliado da Inglaterra , contra a Frana e a Espanha .

 Contra Jos Mascarenhas tambm pairava a desconfiana de que tentara no s a

 conciliao com os jesutas como conspirara em favor dos franceses , o que teria

 provocado a reao abrupta do ministro de d. Jos .
 A desconfiana era at

 razovel , pois , de fato , a Coroa francesa arquitetava em segredo um plano de

 invaso do Rio de Janeiro com inteno de estabelecer um vice-reino francs no

 Brasil em 1762 .

 Tanto que espies enviaram para Paris mapas e memrias sobre as praas

 martimas na Amrica portuguesa .
 Mas a traio de Jos Mascarenhas nunca foi

 provada e ele , depois de transferido para a Ilha das Cobras , no Rio de Janeiro ,

 em 1774 , foi anistiado pelo indulto de dona Maria I em 1777 na esteira dos

 acontecimentos que passaram para a Histria como a Viradeira .

 Segundo a autora , porm , a documentao consultada confirma o funcionamento

 informal da Academia por cerca de um ano , depois da sada forada de Jos

 Mascarenhas .
 Outros membros , como Jos Mirales , frei Santa Maria de Jaboato ,

 Jos Vitoriano Braga da Fonseca e frei Gaspar da Madre de Deus , continuaram a

 escrever suas obras nas dcadas subseqentes .

 Na terceira e ltima parte do livro , a historiadora analisa a produo dos

 acadmicos e conclui que os eruditos luso-americanos resistiram s tendncias

 de secularizao do discurso historiogrfico pombalino ao menos no plano das

 tcnicas eruditas , procurando harmonizar os paradigmas teolgico-polticos com

 as concepes ilustradas de histria .
 Para Iris Kantor , essa talvez fosse uma

 maneira de reivindicar os privilgios de posse imemorial da terra , mas tambm

 de atribuir novos significados ao aprendizado da colonizao .

 Originalmente apresentado como tese de doutoramento em 2002 na USP , este livro

 de Iris Kantor , como diz na apresentao o historiador Istvn Jancs , amplia

 substancialmente a percepo da formao do Brasil como nao .

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 ESQUECIDOS E RENASCIDOS ; HISTORIOGRAFIA ACADMICA LUSO-AMERICANA ( 1724-1759 ) ,

 de Iris Kantor .
 So Paulo , Editora Hucitec / Centro de Estudos Baianos da

 Universidade Federal da Bahia , 286 pgs. , 2004 .
 E-mail : hucitec@terra.com.br

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

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 POESIA

 Moacir Amncio : um poeta e suas obsesses *

 Adelto Gonalves

 Em todas as literaturas , o verso clssico  anterior ao verso livre , diz Jorge

 Lus Borges , leitor fervoroso de Robert Louis Stevenson , para quem , desde que

 se encontre uma unidade mtrica - seja um hexmetro , um endecasslabo ou um

 alexandrino - , fcil  fazer um poema , basta repetir uma unidade .
 A prosa ,

 porm , seria muito mais difcil porque  preciso variar a unidade e , ao mesmo

 tempo , essa variao deve ser grata ao ouvido .
 Borges disse isso , um ano e meio

 antes de morrer , num dilogo que manteve com o escritor e crtico Jorge Cruz em

 abril de 1985 no palco do Teatro Coliseo , em Buenos Aires , por ocasio da

 Semana Cultural promovida pelo jornal La Nacin , a que tive a sorte de

 acompanhar pessoalmente por uma dessas circunstncias felizes que a vida , s

 vezes , nos proporciona .

 Talvez seja por isso que , como deixa entrever a idia de Stevenson , os

 escritores comecem a sua trajetria quase sempre pelo verso , passando s mais

 tarde para a prosa , como fez Borges .
 Quem sabe isso se d porque a juventude

 seja a poca dos experimentos , das tentativas de mudar o mundo , ainda que o

 instrumento seja apenas a palavra , enquanto a maturidade leva ao conformismo , 

 aceitao da irreversibilidade das coisas .

 Portanto , que um autor venha cumprindo essa trajetria ao inverso ,  fato que ,

 de imediato , deveria chamar a ateno da crtica .
 Esse autor  Moacir Amncio

 ( 1949 ) que , depois de uma estria quase despercebida com a novela O Saco

 Plstico , de 1973 , surpreendeu com a prosa fragmentria e experimental de

 Estao dos Confundidos ( So Paulo , Smbolo , 1977 ) , romance que trata da vida

 de Joaquim Chapeta Arruda , um deserdado da terra perdido na desumana e

 impessoal cidade de So Paulo .

 Redator de texto conciso e preciso , Amncio , que passou a maior parte de sua

 vida profissional nas redaes dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de

 S.Paulo , publicou ainda o livro de contos O Riso do Drago ( So Paulo , tica ,

 1981 ) , em que parece j disposto a extravasar as fronteiras do gnero , deixando

 de lado um certo convencionalismo dos primeiros livros , embora o fragmentarismo

 e as quebras de frase j indicassem o caminho futuro .

 Esse procedimento se acentuou em Scia de Mafagafos ( So Paulo , TA Queiroz

 Editor , 1982 ) , que rene duas histrias bastante fragmentadas e com a linguagem

 da prosa j se misturando com a poesia , num tom meio juvenil .
 Quem sabe por

 dentro o autor j carregasse a idia de refazer sua carreira literria , mas

 agora dentro dos limites extensos da poesia .
 De qualquer modo , o que se pode

 concluir  que a experincia de texto tinha por objetivo lev-lo  poesia .

 O autor no renega sua obra anterior , mas , aparentemente , prefere deix-la

 esquecida , pois no consta dos dados bibliogrficos que aparecem em seus livros

 mais recentes .
 O que se conhece  que se rendeu  poesia a partir de 1992 ,

 quando lanou Do Objeto til ( So Paulo , Iluminuras ) , disposto a oferecer uma

 nova proposta ao gnero , como se tivesse por meta escapar de uma certa

 linguagem exaurida pelo uso ao longo de todo um sculo de experimentao ,

 repetio e diluies , para se assumir aqui o que o romancista Eustquio Gomes

 escreveu na apresentao de Contar a Rom ( So Paulo , Record , 2001 ) .

 Essa virada , por coincidncia ou no , deu-se depois que Amncio imergiu na

 cultura judaica , talvez em meados da dcada de 1980 , pois de 1987  a temporada

 que passou em Jerusalm , que no s lhe inspirou parte dos poemas de Do Objeto

 til como o fez h poucos anos reencaminhar a sua vida como professor de

 Literatura Hebraica na Faculdade de Filosofia , Letras e Cincias Humanas da

 Universidade de So Paulo , ao deixar para trs o cotidiano da redao de O

 Estado de S.Paulo , passando a atuar apenas como colaborador de seu caderno de

 variedades .

 Tambm aqui fez carreira inversa : preparou-se muito bem antes de entrar numa

 sala de aula como professor numa altura da vida em que a maioria dos docentes

 j sonha com a aposentadoria .
 Doutorou-se na rea de Lngua Hebraica ,

 Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de So Paulo com a tese Dois

 palhaos e uma alcachofra ( So Paulo , Editora Nankin , 2001 ) em que discute as

 diferentes formas de se ver o Holocausto .
 Em tradues recentes , busca um

 dilogo com a Ibria hebraica de Sevilha e Crdoba .

 Na poesia , tem procurado reconstruir a linguagem , virando-a do avesso para

 criar " mundos paralelos como se fossem dimenses fantsticas da realidade

 objetiva " , como observou Eustquio Gomes .
 O resultado tem sido uma linguagem

 muito prpria , que est longe de oferecer fcil acesso ou que pode mesmo ser

 considerada hermtica , mas que  resultado de meticuloso trabalho de um arteso

 da palavra , ou melhor , de um artfice , enfim , de um poeta superiormente culto .

 Em Figuras na Sala , de 1996 , o autor faz uma homenagem  melhor tradio

 modernista brasileira , assumindo-se como herdeiro do impulso potico de Carlos

 Drummond de Andrade e Joo Cabral de Melo Neto .
 Mas no deixa de impregnar os

 seus versos com um certo simbolismo que faz lembrar o portugus Camilo

 Pessanha : Rotina que se quebra / chama que irrompe / dentro da chama , / ou apaga .

 / Refletes / um rastro / e te dispersas .

 Em 1997 , publica um livro de reportagens e artigos , Os Bons Samaritanos e

 Outros Filhos de Israel ( So Paulo , Editora Musa ) , interrompendo a seqncia de

 livros dedicados  poesia .
 Mas logo volta com O Olho do Canrio ( So Paulo ,

 Musa Editora , 1998 ) , que , alis , diferencia-se de seus livros anteriores de

 poesia na alternncia e variedade dos ritmos , como observou Carlos Vogt na

 apresentao .

 Aqui o verso comea srio , para , depois , inflar-se , abrindo espao para a prosa

 potica no meio , adquirindo velocidade para retornar , por fim , a decasslabos

 sonantes .
 Por este breve panorama , via-se que a potica de Amncio ainda estava

 inconclusa e sofria alteraes de uma edio para a outra , sempre em benefcio

 da criatividade .

 Como gosta de jogar com a idia de que as lnguas latinas so na verdade um s

 idioma , defendendo o argumento de que determinadas emoes e idias s caberiam

 adequadamente em italiano , outras em francs , em portugus , romeno , catalo ou

 espanhol , Amncio publica Colores Siguientes ( So Paulo , Musa Editora , 1999 ) em

 que reuniu poemas escritos em castelhano .

 Em Contar a Rom ( So Paulo , Record , 2001 ) tambm no deixa de prestar

 homenagem ao idioma de Gngora , Quevedo e Cervantes , especialmente em " Duelo de

 la nariz y la cara " em que transita do espanhol para o portugus e igualmente

 da poesia para a prosa potica ( e vice-versa ) sem perder o sentido .

 Com a maior desenvolvura , faz poesia dos grandes temas culturais e histricos .

 O que no  fcil , pois nem todos os grandes poetas sabem fazer da matria

 cultural ou histrica o fulcro de sua temtica .
 E , assim como transita entre as

 formas poticas , tambm o faz , de um salto , da ( ainda ) agreste paisagem

 sul-americana para o Velho Mundo , cantando tanto a pequena Aiuruoca , no

 interior de Minas Gerais , numa homenagem ao poeta Dantas Motta , como a Madri do

 Museu do Prado , de Bosco e Velzquez , ou a Lisboa do Palcio do Marqus da

 Fronteira , de Cames , de Pessoa .

 Agora , Amncio lana pela Travessa dos Editores , de Curitiba , bvio , em que

 radicaliza as preocupaes estticas de livros anteriores , desta vez , compondo

 um poema , " Arghvan " , em ingls , a exemplo do que fizera em espanhol em Colores

 Siguientes , quem sabe inconformado com as amarras lingsticas e as limitaes

 do portugus .
 Esse longo poema , que melhor seria definido como um conto em

 versos , constitui a segunda parte do livro , mas se entrecruza com as duas

 outras partes .

 A primeira parte , " Luz Acesa " , que ocupa a maior parte do livro ,  tambm um

 longo poema , outra vez em decasslabos .
 Ao largo desse poema , sentimos a

 presena da tradio judaica , nunca descrita , mas sugerida , de que Amncio ,

 hoje , no Brasil ,  um dos maiores conhecedores .

 Se este texto comeou com Borges , por alguma razo  .
 Borges no s se deixou

 envolver pelo mistrio da cabala , da tradio judaica , como fez com que em sua

 obra alguns temas se repetissem como obsesses .
 Essas mesmas obsesses se

 repetem na poesia de Amncio , como os olhos da pantera , os espelhos , o

 labirinto , que no s remetem o seu fazer potico para o mestre argentino como

 para T.S. Eliot e , mais para atrs , Walt Whitman e Mallarm .
 Em " Mtodo " , que

 faz parte do terceiro livro , " bvio " , que d ttulo ao volume , o poeta diz :

 Quanto a saber as mos impe-se encarar

 os olhos da pantera eles so as garras

 dela apenas no vacilam quando mostram

 plenos pelos desvos do espelho um acordo

 com a chama recortada dos cristais

 modo de seu ataque aquele relmpago

 em detalhes brota do choque da luz

 com espanto o rigor repete se avanam

 Se no se cita aqui nenhum parente brasileiro de uma possvel famlia literria

 do fazer potico de Amncio ,  porque o poeta j comea a correr em faixa

 prpria .
 Que neste livro j tenha escapado da influncia de Carlos Drummond de

 Andrade e Joo Cabral de Melo Neto  sinal de que a poesia brasileira comea a

 trilhar novos caminhos .

 ______________________

 BVIO , de Moacir Amncio .
 Curitiba , Travessa dos Editores , 123 pgs. , R$ 32 .

 www.travessadoseditores.com.br

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

 22:51 20/03/05

 * Publicado no suplemento Das Artes Das Letras do jornal O Primeiro de Janeiro ,

 do Porto , em 14/3/2005 .

 posted by ADELTO RODRIGUES GONALVES | 10:50 PM | talk to me !
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 RESENHA

 A literatura dos deserdados

 Adelto Gonalves

 Que as sensveis e amargas imagens de Braslia que se v em Concerto para

 arranha-cus ( Braslia , LGE Editora , 2004 ) sejam obra de um mineiro de

 Cataguases que tem praticamente a idade da cidade e nela vive h 26 anos  algo

 que no nos deve surpreender .
 Braslia , capital de todos os brasileiros desde

 21 de abril de 1960 , foi construda por candangos que se largaram de todo o

 Brasil para participar de sua construo , mas foi erguida mesmo por visionrios

 mineiros como o presidente Juscelino Kubitschek , Israel Pinheiro e outros .

 Alis , no dizer de seu projetista , o arquiteto Oscar Niemeyer , a cidade  uma

 continuao do conjunto arquitetnico da Pampulha , bairro de Belo Horizonte ,

 como se l no livro que o historiador Ronaldo Costa Couto , outro mineiro ,

 escreveu em homenagem ao ex-presidente , Braslia Kubitschek de Oliveira ( Rio de

 Janeiro , Record , 2001 ) .

 Braslia , segundo seus idealizadores , era para ter 500 mil habitantes na virada

 do milnio , mas , hoje , o aglomerado urbano do Distrito Federal j passou dos

 dois milhes e , se adicionarmos o Entorno , chega a mais de trs milhes .
 Um

 espanto .
  um microcosmo do Brasil , com suas relaes na base da fora bruta ,

 desigualdades sociais , dominao , mandonismo , altas picaretagens e a poltica

 mida em que os interesses coletivos s servem , muitas vezes , para mascarar os

 lucros que vo para os bolsos daqueles que conhecem bem o jogo de mo dupla do

 poder .

 Com tamanho caldo de cultura  natural que essa sociedade tambm produza seus

 intelectuais , poetas , contistas e romancistas que no podem assistir a esse

 dia-a-dia indiferentes .
 Um desses intelectuais  Ronaldo Cagiano que , com os

 relatos de Concertos para arranha-cus , vem afirmar-se como um dos mais mais

 argutos observadores dos dramas cotidianos de Braslia , que nunca chegam ao

 grande noticirio dos jornais e que , quando chegam ,  para ocupar apenas as

 pginas policiais .

 Metrpole desumana , que se destaca por seus edifcios envidraados , seu ar seco

 que deixa um permanente n na garganta e seu poder de tornar insensveis

 aqueles que assumem seus postos estratgicos , Braslia  retratada por um dos

 mais consistentes dentre os narradores contemporneos brasileiros , como j

 percebeu o poeta Claudio Willer , responsvel pela apresentao deste livro .

 Cagiano , depois de publicar cinco livros de poesia , um de contos , uma novela

 juvenil e mais um volume em que reuniu artigos e resenhas , chega ao seu segundo

 livro de contos com uma prosa madura , vigorosa e extremamente precisa .

 Em " bito 75.888 " , dedicado ao escritor Moacyr Scliar e que abre o volume ,

 Cagiano transforma em conto o drama final do Samuel Rawet , um dos maiores

 escritores brasileiros contemporneos , mas nascido na Polnia , em 1929 , e

 imigrado para o Brasil em 1936 .
 Judeu , Rawet , autor de Contos do imigrante

 ( 1956 ) e outros livros inesquecveis , mas nunca suficientemente valorizados

 pela crtica , criou-se no Rio de Janeiro e , depois , formado engenheiro , fez

 parte da equipe de Niemeyer , que construiu Braslia .

 Morreu em 1984 , sozinho , sem dinheiro , incgnito funcionrio de uma repartio

 ministerial , sem que ningum tivesse se lembrado dele : s depois de uma semana

 de morto  que chamou a ateno pela estado adiantado de putrefao de seu

 corpo .
 Com ironia , o autor recorda que , no dia seguinte , 26 de agosto de 1984 ,

 os principais jornais brasileiros no trouxeram uma linha da morte do grande

 escritor : o obiturio do dia era todo reservado a Truman Capote , um dos cones

 do new journalism norte-americano .

 No conto que d ttulo ao livro , Cagiano traa um perfil da cidade : " orquestra

 de motores , Babel de tipos com sua artilharia de inquiries : engravatados ,

 bbados , mendigos , office-boys , entregadores de pizza , despachantes ,

 funcionrios pblicos , prestadores , garotas de programas , michs , camels ,

 desempregados , condutores de vans , diabticos , cancerosos , soropositivos , gente

 que passa em meio  pressa febril de tudo urgenciando as coisas " .
 O texto 

 gil , veloz como os carros que cortam as superquadras sem esquinas e , logo ,

 deixam a arquitetura moderna para entrar na antiarquitetura , do moderno ao

 arcaico em poucos segundos .

 Concerto para arranha-cus , porm , no  s Braslia : h diversidade de temas ,

 como observa Willer .
 Os enredos tratam de diferentes pocas e lugares , desde a

 Braslia do comeo do novo milnio a Cataguases e as metafricas Santa Rita de

 Duas Pontes e Curralpolis do incio da dcada de 60 .
 Claro , Cataguases , Santa

 Rita e Curralpolis so microcosmos da grande metrpole focalizada em " Paralelo

 16 : olhar 43 " , a Braslia das safadezas polticas , do jogo rasteiro pela

 sobrevivncia em cargos pblicos em que s os mais srdidos  que alcanam os

 postos mais altos : " ( ...
 ) E eu estou aqui , nesse momento Halley , epifania do

 caos , l fora escuto falar de reforma disso , reforma daquilo , o Brasil vai

 mudar , o Brasil no mudou , e na passarela que liga o Conjunto Nacional ao Conic

 vejo a imagem do Brasil real : pedintes , ambulantes , mendigos , cegos , mutilados ,

 a tristre e gorda velha com elefantase , revelaes ( e reverberaes ) de uma

 sociedade doente , doente alm da dor fsica ; a cidade est ali , o Pas est

 ali ,  o mundo vivo nesses estandartes da exposta misria humana , que j no

 comovem nem incomodam Patrcia , a mim , aos outros , deficientes , seus aleijes ,

 suas feridas como um trofu em busca da misericrdia , da caridade oficial , da

 indulgncia , do que no vir ( ...
 ) " .

 Como se v , se Braslia j serviu para discursos altissonantes que diziam de

 uma nova civilizao que nasceria no Planalto Central , desta vez , o tom 

 outro , sussurrado , lamentoso , que nasce da falta de perspectivas para um pas

 em que a violncia e informalidade tornam impossvel a lgica capitalista que

 deu certo em naes mais avanadas .

 Aqui cada vez se torna mais difcil aos segmentos restritos da sociedade

 usufruir o que obtiveram com seus altos nveis de renda : a mo-de-obra

 despreparada e analfabeta logo cai no desespero e vira do avesso receitas

 econmicas neoliberais que deram certo no mundo industrial , ainda que

 semi-alfabetizados consigam romper as barreiras e cheguem at a dirigir os

 destinos da nao .
 No pas dos contrastes , o agravamento da crise social cresce

 na mesma proporo em que aumenta a concentrao de renda .
 Um quadro que faria

 a Rssia de Fedor Dostoievski parecer o melhor dos mundos .

 Willer compara os contos de Cagiano aos de Joo Antnio por causa da

 indignao , do senso crtico agudo , do desprezo pelas concesses .
 Nelson

 Oliveira na contracapa tambm lembra de Joo Antnio e acrescenta Samuel Rawet

 e Luiz Ruffato .
 E no exageram na comparao .
 Todos vem o mundo de baixo , das

 classes sociais mais oprimidas .
 E fazem literatura de alto nvel porque sada

 das entranhas da vida .

 __________________________

 CONCERTO PARA ARANHA-CUS , de Ronaldo Cagiano .
 Braslia , LGE Editora , 151 pgs .

 2004 .
 E-mail : lgeeditora@lgeeditora.com.br ( www.lgeeditora.com.br )

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

 posted by ADELTO RODRIGUES GONALVES | 10:48 PM | talk to me !
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 Domingo , Maro 06 , 2005

 ESTUDO

 Grande Serto : Brasil

 Adelto Gonalves

 Do alferes Joaquim Jos da Silva Xavier , o Tiradentes , em algum lugar , ficou

 registrado o seu pensamento de que ( dos concilibulos que redundariam na

 fracassada conjurao mineira de 1789 ) faria uma meada que nem em cem anos

 seria possvel desenredar .
 Sua meada j ultrapassou dois sculos e parece longe

 de ter sido no s desenrolada como compreendida pelo menos por alguns

 articulistas de hoje , que , inconformados com a extorso tributria promovida

 pelo governo a empresas e pessoas fsicas , insistem em atribuir  anunciada

 derrama a razo da conspirao mineira , quando o que motivou o movimento foi a

 situao crtica em que estavam alguns arrematantes dos contratos de entradas ,

 que haviam arrecadado impostos sem repass-los para a Coroa , enfiando o produto

 da arrecadao nas prprias algibeiras .

 Queriam se ver livres do governo de Lisboa ,  verdade , mas , principalmente ,

 porque , com isso , livravam-se das dvidas .
 A derrama , que , de fato , era um

 achaque tributrio , na verdade , s funcionaria como senha , pois os cabeas da

 conspirao pretendiam aproveitar a insatisfao da arraia-mida para deflagrar

 um movimento que beneficiaria principalmente grossos devedores , gente que podia

 muito bem ser comparada aos banqueiros dos dias atuais .

 No  s na Histria do Brasil que h meadas  espera de quem se dedique a

 desenrol-las .
 Na Literatura tambm .
 Ainda agora acaba de chegar s livrarias o

 livro Grandeserto.br : o romance de formao do Brasil , do professor Willi

 Bolle , que abre novas perspectivas para a interpretao de Grande Serto :

 Veredas , romance de Joo Guimares Rosa ( 1908-1957 ) publicado em 1956 .
 Ao

 partir da idia de que o livro de Guimares Rosa ganha em complexidade quando

 lido como uma reescrita crtica de Os Sertes ( 1902 ) , de Euclides da Cunha

 ( 1866-1909 ) , Bolle defende que ambas as obras " so discursos de

 narradores-rus-e-testemunhas diante de um tribunal em que se julgam momentos

 decisivos da histria brasileira " .

 Nascido em 1944 perto de Berlim , Willi Bolle  desde 1977 professor de

 Literatura Alem na Universidade de So Paulo , onde defendeu tese de

 livre-docncia sobre Walter Benjamin ( 1892-1940 ) e a cultura da Repblica de

 Weimar .
 J publicou , entre outros , Frmula e fbula : teste de uma gramtica

 narrativa , aplicada aos contos de Guimares Rosa ( 1973 ) e Fisiognomia da

 metrpole moderna : representao da histria em Walter Benjamin ( 1994 ) .
 Para

 escrever Grandeserto.br , fez vrias viagens ao norte de Minas Gerais , onde

 comea o serto , cujo eixo  o rio So Francisco com seus afluentes , o corao

 do Brasil .

 Em seu estudo , o professor mapeia toda a rede de relaes existentes entre

 Grande Serto : Veredas e os principais ensaios de interpretao do Brasil ,

 desde a obra euclidiana at os estudos fundamentais de Gilberto Freyre , Srgio

 Buarque de Holanda , Caio Prado Jnior , Raymundo Faoro , Antonio Candido , Celso

 Furtado , Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro , que considera ensaios de

 formao .

 Ao comparar Grande Serto : Veredas com os ensaios sociolgicos e

 historiogrficos daqueles autores , Bolle chega  concluso de que a obra

 rosiana  um romance de formao ( Bildungsroman ) , no no sentido convencional

 em que costuma ser entendido , ou seja , um gnero centrado no indivduo , em

 oposio ao " romance social " , mas no sentido de que o autor , por meio da

 inveno da linguagem , prope-se a pensar o pas .

  o que sugere Bolle : ler Grande Serto : Veredas como um " romance de formao "

 do Brasil , um retrato sem retoques do pas , mas tambm um romance da formao

 do indivduo dentro de um projeto mais arrojado : " a construo de uma cultura

 coletiva , incorporando as dimenses polticas de esfera pblica , da cidadania e

 dos conflitos sociais " .

 Para Bolle , aspectos centrais do romance , como a narrao labirntica e em

 forma de rede , o sistema de jagunagem e , sobretudo , o pacto de Riobaldo com o

 diabo podem ser lidos sob uma nova luz .
 Sua tese principal , porm ,  que o

 romance de Rosa  o mais detalhado estudo de um dos problemas cruciais do

 Brasil : a falta de entendimento entre a classe dominante e as classes

 subalternas , o que constitui um srio obstculo para a verdadeira emancipao

 do pas .

 Segundo o professor , o pseudodilogo entre o narrador sertanejo , Riobaldo ,

 ex-jaguno e , agora , latifundirio , e o interlocutor letrado , um " doutor " da

 cidade , mas que pode ser tambm o diabo em pessoa - na verdade , um extenso

 monlogo , j que a outra parte no intervm - ,  uma encenao irnica , com

 papis invertidos , da falta de dilogo entre as classes sociais .
 " O descaso dos

 donos do poder para com o povo humilde , em que pesam quatro sculos de

 escravido , representa um imenso atraso para a emancipao efetiva do pas " ,

 diz o crtico .

  claro que h muitas diferenas entre Os Sertes e Grande Serto : Veredas , at

 porque , como diz Bolle , o olhar de Rosa  o exato oposto das vistas euclidianas

 do alto :  uma viso rasteira .
 Ou seja : enquanto o ensasta-engenheiro sobrevoa

 o serto como num aeroplano , o romancista-diplomata caminha por ele por uma

 estrada-texto , compara Bolle , recorrendo a uma imagem de pensamento de Walter

 Benjamin .

 Sem se preocupar com anacronismos , Bolle considera Rosa um precursor da

 Internet , que intuiu as revolucionrias tecnologias da informao , pois

 construiu o seu romance em forma de rede , tornando-o um labirinto em que uma

 imagem ou frase pode constituir um link para outra cena ou pgina ,

 desdobrando-se quase ao infinito .
 Da , o ttulo Grandeserto.br , que procura

 aproximar o romance da nova linguagem representada pela rede mundial de

 computadores , um hipertexto que configura uma " narrao-em-forma-de-rede " .

 Para Bolle , Rosa , ao contrrio de Euclides da Cunha , trata o povo no como um

 objeto de estudo e de teorias , mas como sujeito capaz de inventar e narrar sua

 prpria histria .
 Nascido a partir de um manancial de estrias que Rosa

 recolheu da boca do povo sertanejo , Grande Serto : Veredas  o romance do

 " fazendeiro endemoninhado " Riobaldo que , apesar de ter crescido muito

 materialmente , assumindo-se como um dos donos do poder , " no faz seno

 confirmar a sua origem , na medida em que incorpora uma multido de estrias

 paralelas em forma de casos , expressando assim uma concepo multifocal e

 polifnica da Histria " , como diz Bolle , sem esconder que se baseia nas teorias

 do crtico russo Mikhail Bakhtin ( 1895-1975 ) .

 Como observa o autor , o regime vigente no serto de Guimares Rosa  o da

 sociedade patriarcal , ainda muito forte no Brasil tanto no campo como mesmo nas

 grandes cidades , caracterizada pelo pleno poder do grande proprietrio ou

 grande potentado sobre os seus agregados , cuja condio oscila entre " homens

 livres " e servos .
 Os smbolos dessa ordem so as casas-grandes , diz Bolle ,

 esquecendo-se talvez de que nas grandes cidades os smbolos so as fortalezas

 em que se escondem os grandes deliqentes de colarinho branco que sabem como

 arrombar os cofres pblicos sem deixar vestgios ou os grandes traficantes de

 drogas .

 A rigor , o mundo retratado por Guimares Rosa ainda est longe de ser extinto .

 Diz Bolle que , para os homens de armas do serto , o prestgio de um

 latifundirio , chefe de jagunos ,  proporcional ao nmero de pessoas que ele

 matou ( ou mandou matar ) .
 A lei natural , a lei da violncia ,  , como observa

 Riobaldo , a lei que rege aquela sociedade .

 Aquela ?
 No por acaso volta e meia os meios de comunicao " descobrem " entre

 polticos brasileiros , alguns com assento at no Congresso , quem ainda pratica

 o trabalho escravo em suas propriedades rurais .
 Mas  s quando esse poltico

 contraria eventuais donos do governo que , s vezes , algum " vaza " informaes a

 seu respeito para a imprensa .

 Ento , a populao letrada - aquela que ainda l jornais e revistas - descobre

 que o Brasil do sculo 21 ou o de Guimares Rosa , com exceo de algumas

 circunstncias , ainda  o mesmo que Euclides da Cunha viu em Canudos e retratou

 nOs Sertes .
 Se calhar , ainda  o mesmo que , em 1789 , viu o alferes Tiradentes

 pagar com a vida por uma conspirao urdida por poderosos que , para se verem

 livres de dvidas , no hesitaram em mascarar seus interesses particulares por

 trs dos ideais de liberdade dos mazombos .
 Como se v , o povo brasileiro j era

 enganado antes de o Brasil existir como nao .

 Que Guimares Rosa fez de Grande Serto : Veredas um microcosmo de um Brasil que

 insiste em no morrer , no foi Bolle o primeiro a descobrir .
 Mas que sua

 interpretao  uma das mais ousadas que surgiram nos ltimos anos , no h

 dvida .
 A partir da revolucionria leitura feita por Bolle , muitos outros

 estudos devero aparecer , pois o enigma de Grande Serto : Veredas ainda est

 longe de decifrado .
  mais uma meada a desafiar o tempo .

 __________________________

 GRANDESERTO.BR , de Willi Bolle .
 So Paulo , Duas Cidades / Editora 34 , 480 pgs. ,

 R$ 44,00 .
 E-mail : imprensa@editora34.com.br

 __________________________

 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

 posted by ADELTO RODRIGUES GONALVES | 11:03 AM | talk to me !
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 ESTUDOS

 Lafet e Gullar : as dimenses da poesia

 Adelto Gonalves

 Joo Luiz Lafet ( 1946-1996 ) foi um dos crticos literrios mais brilhantes de

 sua gerao , mas que , infelizmente , teve a vida interrompida quando chegava 

 maturidade de seu trabalho como professor e terico da Literatura .
 Nasceu em

 Montes Claros , Minas Gerais , e foi professor de Teoria Literria da

 Universidade Estadual de Campinas ( Unicamp ) , entre 1974 e 1979 , e da

 Universidade de So Paulo ( USP ) , entre 1978 e 1996. autor de 1930 : a crtica e

 o Modernismo ( So Paulo , Livraria Duas Cidades , 1974 ) relanado em 2000 pela

 Editora 34 , e Figurao na intimidade : imagens na poesia de Mrio de Andrade

 ( So Paulo , Martins Fontes , 1986 ) .

 A dimenso da noite e outros ensaios , organizado pelo professor Antonio Arnoni

 Prado , do Departamento de Teoria Literria da Universidade Estadual de Campinas

 ( Unicamp ) , lanado em 2004 pela Editora 34 , de So Paulo , resume sua trajetria

 intelectual desde o incio dos anos 70 at a sua morte .
 Embora no tenha vivido

 muito , conforme salienta Murilo Marcondes Moura na apresentao , Lafet deixou

 uma obra efetivamente realizada , que se caracteriza pela conjugao

 extremamente original de trs perspectivas crticas : o marxismo , a psicanlise

 e a teoria dos gneros .

 Como diz no prefcio Antonio Candido , o decano dos crticos brasileiros e seu

 professor na Faculdade de Filosofia , Letras e Cincias Humanas da USP , o autor

 tinha em alto grau o dom de descobrir relaes ocultas e desvendar o

 significado de textos complexos , nem sempre captados por leituras menos finas .

 "  o que , alis , j tinha mostrado em 1974 num ensaio magistral sobre S .

 Bernardo ( de Graciliano Ramos ) , no qual revelou que um captulo considerado

 meio solto por vrios crticos ( inclusive eu ) tem de fato significado

 estrutural decisivo " , lembra Candido , que orientou oficialmente os trabalhos de

 mestrado e doutorado de Lafet , " embora na prtica ele tenha atuado com a

 independncia que o caracterizava " .

 Entre ensaios , prefcios , comentrios e uma entrevista - na verdade , a

 transcrio de uma conversa com estudantes de Letras no primeiro semestre de

 1978 - , alguns deles inditos ou de difcil acesso , A dimenso da noite rene

 ao todo 42 textos em que o leitor vai encontrar estudos fundamentais sobre

 Graciliano Ramos , Carlos Drummond de Andrade , Mrio de Andrade , Ferreira

 Gullar , Pedro Nava , Rubem Fonseca , Joo Antnio , Paulo Francis e Moacyr Scliar ,

 alm de reflexes publicadas nas sees literrias de jornais e revistas do

 Brasil e do exterior , a incorporadas com algumas intervenes crticas em

 simpsios e seminrios acadmicos .

 Em todos os textos , Lafet procura sondar na prosa e na poesia produzidas no

 Brasil nas dcadas de 70 , 80 e incio de 90 os possveis encontros e

 desencontros entre a literatura e a experincia poltica , despertando assim

 tambm o interesse das reas de Histria , Cincia Poltica e Psicanlise .

 Poucos crticos , provavelmente por deficincia de formao , fazem isso .
 E muito

 menos com a desenvoltura com que Lafet o fazia .

 O brilho das suas anlises pode ser captado j a partir da leitura do ensaio

 " Esttica e ideologia : o Modernismo em 30 " , que faz parte de seus escritos

 iniciais .
 Nesse estudo , o jovem crtico , ao analisar as mudanas trazidas pelos

 modernistas , lembra que a crtica da velha linguagem pela confrontao com uma

 nova linguagem j contm em si o seu projeto ideolgico , ressaltando que , at

 1922 , os romancistas e poetas brasileiros ainda estavam , na maioria , apegados a

 padres do sculo XIX ou da belle poque , que os novos procuraram romper .

 Desde ento , no houve mais esse tipo de ruptura pelo menos na literatura , j

 que no jornalismo esse confronto de um novo tipo de escrever com o velho padro

 ocorreu , de maneira mais acentuada , ao final da dcada de 60 e incio de 70 ,

 quando alguns jornalistas mais intelectualizados comearam a imitar o estilo do

 New Journalism americano , embora reprteres mais antigos , como Joel Silveira e

 mesmo Euclides da Cunha , j ao final do sculo XIX , tenham exercitado essa

 tcnica sem saberem que aquele modo de escrever mais tarde seria reivindicado

 como primazia pelos americanos .

 " O ataque s maneiras de dizer se identifica ao ataque s maneiras de ver ( ser ,

 conhecer ) de uma poca ; se  na ( e pela ) linguagem que os homens externam sua

 viso-de-mundo ( justificando , explicitando , desvelando , simbolizando ou

 encobrindo suas relaes reais com a natureza e a sociedade ) , investir contra o

 falar de um tempo ser investir contra o ser desse tempo " , diz Lafet .

 Para o crtico , o Modernismo rompeu a linguagem bacharelesca , artificial e

 idealizante que espelhava , na literatura passadista de 1890-1920 , a conscincia

 ideolgica da oligarquia rural instalada no poder , a gerir estruturas

 esclerosadas que em breve , graas s transformaes provocadas pela imigrao ,

 pelo surto industrial , pela urbanizao ( enfim , pelo desenvolvimento do pas ) ,

 iriam estalar e desaparecer em parte .
 " Sensvel ao processo de modernizao e

 crescimento de nossos quadros culturais , o Modernismo destruiu as barreiras

 dessa linguagem " oficializada " , acrescentando-lhe a fora ampliadora e

 libertadora do folclore e da literatura popular " , acrescenta .

 Apesar disso , lembra Lafet , a arte moderna no Brasil no nasce com o

 patrocnio dos capites-de-indstria .
  a parte mais refinada da burguesia

 rural , os detentores das grandes fortunas acumuladas com o caf que acolhem ,

 estimulam e protegem os escritores da nova corrente .
  a mesma burguesia que ,

 de certa forma , foi afastada do poder pelos vencedores da chamada de Revoluo

 de 30 que , de revoluo , pouco teve , tendo sido , isso sim , uma composio entre

 oligarquias mais atrasadas que ocuparam o vcuo deixado pela burguesia paulista

 que , afetada pelo crack da Bolsa de Nova York de 1929 , no teve mais condies

 de se impor sozinha no comando poltico do pas .

 O Modernismo , sem que se saiba muito bem por que , foi dar na gerao de 45 ,

 como diz Lafet em seu estudo mais profundo e , por coincidncia o mais extenso ,

 de quase 100 pginas , " Traduzir-se : ensaio sobre a poesia de Ferreira Gullar " .

 Aqui , o crtico defende a tese de que o desgaste do experimentalismo modernista

 e a necessidade de substitu-lo por formas mais apuradas produziram a gerao

 de Mrio de Andrade , Manuel Bandeira , Carlos Drummond de Andrade , Murilo Mendes

 e Jorge de Lima , que alcanaram na dcada de 30 uma verdadeira superao das

 inovaes tcnicas que o Modernismo havia introduzido entre os brasileiros .

 Ferreira Gullar ( 1930 ) estreou na dcada de 50 dentro do clima esteticista da

 gerao de 45 , mas passou pela ruptura do Concretismo e do Neoconcretismo e

 pelo discurso populista da dcada de 60 , quando o peso da propaganda poltica

 quase matou a sua arte .
 Em seguida , depois do golpe militar de 1964 , fez um

 retorno  poesia , procurando o equilbrio entre a expresso dos sentimentos

 subjetivos e a comunicao da sua viso de mundo .
 Para Lafet , a linguagem

 potica de Gullar , sem a agressividade dos primeiros tempos , impressiona pela

 facilidade com que desentranha do coloquialismo uma atmosfera potica densa ,

 mas tranqila , sem a sombra do desespero .

 Parece que foi a poesia de Ferreira Gullar a que mais atraiu Lafet entre os

 poetas brasileiros contemporneos , levando-o a descobrir significados em seus

 poemas que passaram batidos na leitura de muitos crticos e historiadores da

 literatura brasileira , pois so raras e sempre en passant as referncias ao

 poeta nesse tipo de obra .
 Para Lafet , ser poeta  saber traduzir uma coisa na

 outra , a pulso dionisaca na forma apolnea , o indivduo na coletividade .
 E

 isso Gullar soube fazer no poema " Traduzir-se " , musicado por Raimundo Fagner no

 comeo da dcada de 80 , e tantos outros .
 Para Lafet , porm ,  em " Poema

 obsceno " que o poeta ampliou o sentido dessa " traduo " :

 Faam a festa

 cantem e dancem

 que eu fao o poema duro

 o poema-murro

 sujo

 como a misria brasileira

 No se detenham :

 faam a festa

 Bethnia Martinho

 Clementina

 Estao Primeira de Mangueira Salgueiro

 gente de Vila Isabel e Madureira

 todos

 faam

 a nossa festa

 enquanto eu soco este pilo

 este surdo

 poema

 que no toca no rdio

 que o povo no cantar

 ( mas que nasce dele )

 No se prestar a anlises estruturalistas

 No entrar na antologias oficiais

 Obsceno

 como o salrio de um trabalhador aposentado

 o poema

 ter o destino dos que habitam o lado escuro do pas

 - e espreitam .

 __________________________

 A DIMENSO DA NOITE E OUTROS ENSAIOS , de Joo Luiz Lafet ( organizao de

 Antonio Arnoni Prado ) .
 So Paulo , Editora 34/Editora Duas Cidades , 576 pgs. ,

 2004 , R$ 49,00 .
 ( www.editora34.com.br ) .

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 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo e autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : adelto@unisanta.br

 posted by ADELTO RODRIGUES GONALVES | 11:01 AM | talk to me !
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 RESENHA

 Adorno e a arte do ensaio

 Adelto Gonalves

 Poucos pensadores refletiram sobre o ensaio como gnero .
 O alemo Theodor W .

 Adorno ( 1903-1969 ) foi um deles e o fez com rara percucincia .
 Como se pode

 comprovar em " O ensaio como forma " , texto de abertura do livro Notas de

 Literatura I , que acaba de ser publicado pela Editora 34 , em conjunto com a

 Livraria Editora Duas Cidades , de So Paulo , reunindo outros sete ensaios

 escritos por Adorno logo depois de seu retorno na dcada de 1950  Alemanha

 aps o exlio , alm de um fragmento do incio da dcada de 1940 .

 Para se compreender melhor o contexto em que Adorno escreveu estes textos de

 interveno ,  preciso que se diga que ,  poca , a crtica literria alem

 vivia um tempo de crise , a ponto de ter difamado o ensaio como um produto

 bastardo .
 O pensador faz nesse texto uma defesa intransigente e lcida da forma

 ensastica , mostrando que o gnero constitui a maneira mais adequada de se

 traduzir os movimentos do pensamento dialtico , que decifra o objeto sem

 prend-lo  teia rgida dos conceitos .

 Segundo o pensador , a crtica literria alem havia perdido seus vnculos com a

 tradio da crtica dialtica que , nas obras de Georg Luckcs e de Walter

 Benjamin , pensara de maneira instigante e sem reducionismos a relao entre a

 arte e a sociedade , como observa na apresentao o tradutor Jorge de Almeida ,

 professor do Departamento de Teoria Literria e Literatura Comparada da

 Universidade de So Paulo .

 Dos ensaios reunidos por Adorno em 1958 , dois textos j haviam sido divulgados

 em traduo brasileira na dcada de 1970 - " Posio do narrador no romance

 contemporneo " , por Modesto Carone , e " Lrica e sociedade " , por Rubens

 Rodrigues Torres Filho - , mas foram retraduzidos " em busca de uma dico

 prpria e da unidade do conjunto da obra " , o que significa adequ-los 

 " fluncia quase musical " do texto de Adorno , segundo Almeida .

 Alm desses textos clebres , o leitor encontrar neste primeiro volume ensaios

 menos conhecidos sobre Homero , Heine , Eichendorff , Valry , o Surrealismo e as

 relaes entre a fala , a escrita e os sinais de pontuao .
 Mais trs volumes

 esto previstos e vo reunir textos publicados em 1961 e 1965 , alm de ensaios

 que saram postumamente em 1974 .

 No ensaio " Posio do narrador no romance contemporneo " , Adorno discute os

 limites do romancista e sua obra , observando que o romance deveria se

 concentrar naquilo que no  possvel dar conta por meio do relato .
 S que , em

 contraste com a pintura , diz , a emancipao do romance em relao ao objeto foi

 limitada pela linguagem , j que esta ainda o constrange  fico do relato .
 Por

 isso , ressalta a grandeza de James Joyce que foi coerente ao vincular a

 rebelio do romance contra o realismo a uma revolta contra a linguagem

 discursiva .

 Leitura fundamental para a compreenso da sociedade e da literatura do sculo

 XX , estes ensaios de Adorno merecem ser lidos por todos aqueles que se dedicam

 ao exerccio solitrio da crtica literria .
 So ferramentes indispensveis ao

 ofcio porque ensinam o crtico a compreender a obra de arte , dela libertar-se

 para criar a sua prpria obra .

 Afinal , embora parta de um texto j criado , o ensaio , se feito com brilho , pode

 se tornar tambm uma obra de arte , como se tem visto desde Sainte-Beuve a

 Edmund Wilson , passando pelo prprio Adorno , por Erich Auerbach , T.S. Eliot ,

 Mikhail Bakhtin , Northrop Frye e tantos outros .

 ____________________________

 NOTAS DE LITERATURA I , de Theodor Adorno , traduo e apresentao de Jorge de

 Almeida .
 So Paulo , Editora 34 e Livraria Editora Duas Cidades , 176 pgs. ,

 2003 , R$ 27,00 .
 e-mail : imprensa@editora34.com.br

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 Adelto Gonalves , doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de So

 Paulo ,  autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova

 Fronteira , 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So

 Paulo , Publisher Brasil , 2002 ) e Bocage - o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho ,

 2003 ) .
 E-mail : marilizadelto@uol.com.br

 posted by ADELTO RODRIGUES GONALVES | 10:54 AM | talk to me !
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