 Viagem ao Surrealismo americano

 Por Adelto Gonalves

 Max Ernst , Imagem : " La Femme Penche " , Max Ernst ( 1891-1976 )

 UN NUEVO CONTINENTE : ANTOLOGA DEL SURREALISMO EN LA POESA DE NUESTRA AMRICA ,

 de Floriano Martins ( projeto editorial , seleo e estudo introdutrio ) .
 San

 Jos , Costa Rica , Ediciones Andrmeda , 329 pgs. , 2004 .
 E-mails :

 andromeda@amnet.co.cr e florianomartins@rapix.com.br .

 Criado por Andr Breton ( 1896-1966 ) e outros poetas em Paris na dcada de 20 , o

 Surrealismo logo deixou as fronteiras francesas para alcanar adeptos em todo o

 mundo .
 Porque no era uma nova linguagem a ser combatida ou aceita , o movimento

 propunha , isso sim , um questionamento das linguagens que se apresentavam como

 irredutveis .
 Era tambm uma tentativa de converter a poesia em bem comum , mas ,

 acima de tudo , uma manifestao do inconsciente e , por isso , conquistou tantos

 seguidores , alguns que nem mesmo seriam aceitos pelo novo corifeu .

 Para mapear a influncia do Surrealismo na poesia do continente americano , o

 poeta Floriano Martins decidiu , alm de fazer um estudo introdutrio , reunir os

 nomes mais representativos que se deixaram influenciar pelo movimento em suas

 produes .
 E produziu " Un nuevo continente : antologa del Surrealismo en la

 poesa de Nuestra Amrica " , lanado em 2004 pela Ediciones Andrmeda , de San

 Jos da Costa Rica .

 Nascido em Fortaleza , Cear , em 1957 , onde reside , Floriano Martins  poeta ,

 ensasta , tradutor e editor , mas especialmente tem se dedicado a estudar a

 literatura hispano-americana , sobretudo em relao  poesia .
  autor de

 Escritura Conquistada ( Dilogos con poetas latinoamericanos ) , de 1998 , e El

 inicio de la bsqueda ( El Surrealismo en la poesa de Amrica Latina ) , de 2001 .

 Em 1998 , publicou tradues de Poemas de amor , de Federico Garca Lorca , e

 Delito por bailar ch-ch-ch , de Guillermo Cabera Infante , seguidas de Dos

 poetas cubanos , de Jorge Rodrguez Padrn , de 1999 , Tres entradas para Puerto

 Rico , de Jos Luis Vega , de 2000 , e La novena generacin , de Alfonso Pea , de

 2000 .
 Publicou ainda as obras de poesia Alma em chamas ( 1998 ) , Cenizas del sol

 ( 2001 ) , Extravo de noches ( 2001 ) e Estudos de pele ( 2004 ) .

 Alma irrequieta , Martins ainda encontra tempo para editar , juntamente com o

 poeta Claudio Willer , de So Paulo , a revista eletrnica Agulha

 ( www.revista.agulha.nom.br ) , coordenar o projeto Banda Hispnica do Jornal de

 Poesia e ainda dirigir , em colaborao com Maria Estela Guedes , o dossi

 surrealista Poesia e Liberdade na revista eletrnica TriploV , de Portugal .

 Como ensasta fez , em novembro de 2003 , na Academia Brasileira de Letras , a

 conferncia O Surrealismo no Brasil , que acaba de sair no segundo tomo de

 Escolas Literrias do Brasil , edio em dois volumes coordenada pelo poeta Ivan

 Junqueira , presidente da instituio .
 O texto  , sem dvida , aquele que mais

 bem situa historicamente a presena do Surrealismo em terras brasileiras .

 Diz Martins que o Surrealismo penetrou na cultura brasileira de forma indireta ,

 tendo como pontos de costura tanto as afirmaes de Flvio de Carvalho , Jorge

 de Lima , Anbal Machado , como as simpatias de Pagu e Murilo Mendes e

 posteriormente a participao mais estranhvel de Maria Martins .
 Oficialmente ,

 porm , o Surrealismo chega ao Brasil em 1965 , com o estabelecimento de um grupo

 surrealista em So Paulo , capitaneado por Srgio Lima , que aderira ao grupo

 parisiense em 1961 , quando de sua residncia na Frana .

  mesma poca , j havia em So Paulo um grupo de poetas interessados no que

 ocorria na Amrica do Norte , especialmente pela movimentao potica da beat

 generation e pela contracultura .
 Estavam assim , por extenso , afinados com o

 Surrealismo , porque a beat generation havia se deixado impregnar pelos valores

 surrealistas , ainda que Andr Breton nunca houvesse de reconhecer isso .

 Esses poetas de So Paulo , como Allen Ginsberg , Burroughs e Jack Kerouac nos

 Estados Unidos , tambm nunca integrariam oficialmente o grupo surrealista de

 Srgio Lima : Claudio Willer e Roberto Piva .
 A razo do impedimento da adeso

 formal de ambos ao Surrealismo , diz Martins , ambientava certa reserva da parte

 do prprio Breton em aceitar desdobramentos do Surrealismo , de que poderiam ser

 exemplos tanto o abstracionismo como a gerao beat e a contracultura .

 Ao fazer essa reconstituio histrica do que foi a influncia do Surrealismo

 no Brasil , Martins escolheu exatamente poemas de Srgio Lima , Claudio Willer e

 Roberto Piva para representar o Brasil em sua antologia .
 Willer  com Martins

 co-editor da revista eletrnica Agulha , mas em sua escolha no h nenhum laivo

 de compadrio ou amizade : Willer  mesmo uma das vozes mais representativas de

 um tipo de poesia que , no Brasil , sempre foi marginalizada , pouco estudada na

 academia , talvez porque ligada  contracultura , mas que , finalmente , comea a

 ser reconhecida exatamente por sua alta qualidade literria , por suas imagens

 s vezes extravagantes , mas essencialmente poticas .

 No continente americano , diz Martins em seu estudo introdutrio Surrealismo : un

 cadver extranho de la poesa como bien comn , a aventura surrealista tem

 mantido uma relao clara com foras antagnicas a magia e o positivismo ,

 lembrando que , se tem dialogado intensamente com a primeira , sempre se colocou

 visceralmente contra as argumentaes conservadoras que mais se assemelham a

 imposies .
 De fato , a idia do Surrealismo de escrita automtica gerou grandes

 reaes por parte daqueles que se agarravam  razo cartesiana tanto  esquerda

 como  direita do espectro poltico .

 Martins reconhece que fazer uma antologia no passa de uma viagem por um

 universo de sugestes .
 Escolheu trinta poetas e todas as suas escolhas foram

 acertadas , ainda que grandes poetas possam ter ficado no esquecimento .
 Mas esse

  o risco de toda antologia .

 Entre os poetas escolhidos , alm dos brasileiros , os argentinos Aldo Pellegrini

 e Enrique Molina , o peruano Csar Moro , o costarriquenho Max Jimnez e o

 dominicano Freddy Gatn Arce valem a viagem , embora o mais especial seja mesmo

 o martinicano Aim Csaire , que fez das descobertas do Surrealismo o caminho

 para a negritude , tendo se utilizado de uma tcnica europia para o seu

 reencontro com a cultura africana .

 Alm de Csaire , o norte-americano Philip Lamantia e os canadenses Roland

 Gigure e Paul-Marie Lapointe e o haitiano Clment Magloire Saint-Aude

 completam uma lista basicamente de latino-americanos , que ainda inclui os

 chilenos Rosamel del Valle , Braulio Arenas , Teofilo Cid , Enrique Gmez-Correa e

 Ludwig Zeller , o peruano Emilio Adolfo Westphalen , o equatoriano Csar Dvila

 Andrade , os argentinos Olga Orozco , Francisco Madariaga , Julio Llins e

 Alejandro Puga , a costarriquenha Eunice Odio , os venezuelanos Juan Snchez

 Pelez , Jos Lira Sosa e Juan Calzadilla , o cubano Lorenzo Garca Vega e o

 colombiano Ral Henao .
 Esperamos , agora , que Floriano Martins faa a verso da

 antologia para o portugus .

 _________________________________

 Adelto Gonalves  doutor em Literatura Portuguesa e mestre em Lngua Espanhola

 e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de So Paulo e

 autor de Gonzaga , um Poeta do Iluminismo ( Rio de Janeiro , Nova Fronteira ,

 1999 ) , Barcelona Brasileira ( Lisboa , Nova Arrancada , 1999 ; So Paulo , Publisher

 Brasil , 2002 ) e Bocage o Perfil Perdido ( Lisboa , Caminho , 2003 ) .
 E-mail :

 adelto@unisanta.br .

 [ VOLTAR ]

