 INSTITUTO POLITCNICO DE LISBOA Escola Superior de Comunica    o

 Social Licenciatura em Jornalismo  Ano 3º Disciplina : Teoria e

 História da Imagem Módulo : História da Arte Hieronymus Bosch : Um

 surrealista com cinco s  culos !
 Trabalho Realizado Por : António

 Fernando Gaspar Ferreira Lisboa , Maio de 2002 ndice

 Introdu    o__________________________________________________________

 ___3 O

 Surrealismo__________________________________________________________4

 Bosch : o

 homem________________________________________________________5 As

 Obras e os Temas____________________________________________________7

 O Jardim das

 Delcias_________________________________________________10 Bosch

 Pop____________________________________________________________14

 Bibliografia__________________________________________________________

 _15 Imagem da Capa : BOSCH , As Tenta  ões de Santo Ant  o ,   O

 mensageiro do diabo   detalhe do painel esquerdo .
 Introdu    o

 Hieronymus Bosch ( c .1450-1516 ) viveu h  cinco s  culos atr  s , mais

 ou menos a mesma dist  ncia temporal que o separa dos surrealistas .

 Uma dist  ncia que se esbate contudo nos tra  os comuns entre a sua

 pintura e as traves mestras do Surrealismo , particularmente na

 comunh  o do mundo dos sonhos , e nos pesadelos do inconsciente .
 Bosch

 viveu no final da Idade M  dia em v  speras do Renascimento , em tempos

 de obscuridade e religiosidade ferverosa .
 Um mundo fsico que se

 esfumou e que n  o encontra paralelo na sociedade do s  culo XX .
 O

 homem medieval deu lugar ao homem tecnológico .
 Contudo , os desejos e

 os medos continuam a ser os mesmos , nada mudou no subconsciente humano

 nestes cinco s  culos .
 Essa   a raz  o pela qual os surrealistas se

 reviram na obra de Bosch , pois os seus devaneios artsticos comungam

 da mesma mat  ria : os sonhos e as visões do inconsciente .
 O movimento

 surrealista adoptou Bosch , seguramente porque encontrou na sua arte

 pontos comuns com os predicados da escola , tal como o fez com S.Dal ,

 cuja obra deambulava por v  rios outras perspectivas como o Cubismo ou

 o Futurismo , e que se acabaria por mostrar como das mais valiosas

 referências da escola surrealista .
 As rela  ões e conexões entre as

 obras de Bosch e de autores surrealistas , como Dal ou Magritte ,

 poder  o ser muito discutveis , em essência talvez at  artificiais ,

 mas a sua cumplicidade como artistas pintores do inconsciente

 profundo , do irracional ,   por demais evidente .
 N  o   minha

 inten    o ir  procura dessas grandes compara  ões entre os dois ,

 at  porque me falta a legitimidade acad  mica para o fazer .
 Nem

 sequer sou um apaixonado pela pintura .
 Este trabalho acad  mico

 resulta simplesmente da minha experiência sensvel com a obra de

 Bosch , com os sentimentos e emo  ões que as suas visões me provocam .

 Escolhi - o pelo fascnio que tenho pela sua obra , porque sou seu f  .

 Bosch , conheci-o pela sua influência na arte pop visual-musical de um

 fotógrafo holandês dos anos 90 chamado Anton Corbijn .
 A esse

 propósito decidi inclur no final , em jeito de nota de rodap  , um

 captulo sobre essa minha experiência .
 O Surrealismo O Surrealismo

 tem a sua g  nese no movimento Dada , que surge no final da Primeira

 Guerra Mundial pela m  o de Tristan Zara , e que fazia uso do

 esc  ndalo para provocar a sociedade .
 O movimento Dada defendia que

 uma sociedade como aquela que produziu o monstro da guerra n  o era

 merecedora da arte , da procurar ser uma anti-arte trocando o belo

 pelo feio .
 Contudo o efeito pretendido pelo movimento Dada , que era

 insultar a sociedade industrial e burguesa , acabou por n  o ser

 atingido , de tal forma que foi essa mesma sociedade que elevou essa

 anti-arte  forma de arte .
 O Surrealismo surge ent  o , exprimindo na

 Arte a loucura que lan  ou para a morte milhares de homens .
 O seu lema

 era : se a raz  o e o progresso foram as origens da Primeira Guerra

 Mundial , que o irracional , o esc  rnio e o esc  ndalo celebrem os

 novos tempos !
 E se pintores franceses como Marc Duchamp e Francis

 Picabia est  o na origem deste movimento em Nova Iorque em 1913 , foi

 em na Europa , no eixo franco-alem  o-sui  o que o Surrealismo se

 desenvolveu e espalhou .
  pela m  o de Andre Breton , um m  dico

 francês que lutara nas trincheiras da guerra que o Surrealismo toma

 maior impulso .
 Os artistas deste movimento pesquisaram e estudaram as

 obras de Sigmund Freud e Carl Jung , e dividiram-se em duas vias : os

 que se expressavam atrav  s da tradi    o abstracta , e os que se

 expressavam na tradi    o simbólica .
 E se os primeiros acreditavam

 que só atrav  s da arte abstracta se poderia dar vida   s imagens do

 subconsciente , e que essa falta de forma era a arma contra a elite .

 Por outro lado , os segundos acreditavam que a forma de retratar

 fielmente o subconsciente era atrav  s da forma acad  mica e

 disciplinada , onde o objecto era apenas uma met  fora de uma realidade

 interior , e atrav  s dessa met  fora o mundo real poderia ser

 compreendido .
 Os grandes nomes do Surrealismo s  o de Chirico ,

 Magritte , Delvaux , Remedios Varo , Carrington e Salvador Dal .
 Dal

 entendia a ciência da pintura como a forma de estudar a psque

 atrav  s das imagens do subconsciente , chamando a esse processo de

 M  todo Crtico-Paranóico .
 O artista traz essas imagens do

 subconsciente para o consciente e usa do seu dom para as registar na

 arte , para que o consciente entenda o seu significado .
 Mais tarde Dal

 vai expandir esse processo ao mundo dos sonhos , fixando-os na arte

 para os analizar .
 Os surrealistas procuravam aprender com os

 mist  rios da Natureza , e tal como escreveu Breton defender a causa

 da liberdade e levar  transforma    o da consciência humana .
 Nas

 obras dos surrealistas do s  culo XX descobrimos o legado de nomes

 como Brueguel , William Blake , os pintores simbólicos do s  culo 19 , e

 Bosch .
  um trabalho artstico baseado no desejo de permitir que as

 for  as que criaram o mundo iluminem a nossa consciência , e assim o

 homem possa desenvolver todo o seu potencial fsico. Vanguarda

 subversiva , ela choca , maneja a mistifica    o , mas d  tamb  m uma

 nova poesia  Pintura e   s outras artes , sempre que o talento parte

 ao encontro do inconsciente e do acaso .
 Os teóricos do Surrealismo

 definiram-no como : um certo ponto da mente onde deixa de haver

 contradi    o entre a vida e a morte , o real e o imagin  rio , o

 passado e o futuro , o comunic  vel e o incomunic  vel , os altos e os

 baixos .
 O Surrealismo procura esse ponto , e nada mais .
 Liberto de um

 ponto de vista ou raz  o construdos socialmente , o artista viaja para

 um lugar de pensamento que simult  neamente racional e irracional

 Salvador Dali disse uma vez que a única diferen  a entre ele e um

 louco era que ele n  o era louco .
 As suas obras era normalmente um

 bizarro e erótico mundo de sonho , influênciado pelos sonhos e o seu

 medo do sexo .
 Dal pintou com uma precis  o fotogr  fica , fazendo uso

 de cores brilhantes e intensas que fizeram com que os seus quadros

 parecessem vivos , tal como Bosch cinco s  culos antes .
 Ambos criaram

 retratos vision  rios a partir de elementos de visões , sonhos ,

 memórias e distor  ões patológicas e psicológicas .
 As imagens de

 Bosch transformam-se gradualmente num pesadelo visual , tal como os

 relógios derretidos na obra The Persistence of Memory de Dal .
 A

 tendência para interpretar o mundo dos quadros de Bosch segundo os

 conceitos do surrealismo moderno ou a psican  lise de Sigmund Freud ,

 apesar de possvel , deve sempre ser considerada anacrónica .
 A

 psican  lise moderna seria algo de simplesmente incompreensvel para o

 esprito medieval .
 Dificilmente a sua inten    o era dirigir-se ao

 consciente do observador mas , antes pelo contr  rio , transmitir-lhe

 certas verdades morais e espirituais e   exactamente por esse motivo

 que se defende que os seus quadros sempre tiveram um significado

 exacto e premeditado .
 Bosch : o homem Hieronymus Aeken Bosch nasceu

 provavelmente no ano de 1450 , e morreu em 1516 , mas desconhecem-se

 quase por completo grande parte dos seus dados biogr  ficos .
 Nasceu

 provavelmente em Hertogenbosch , na regi  o de Brabante , nos Paises

 Baixos ( hoje B  lgica ) .
 Foi ali  s na sua terra natal que Bosch ter 

 vivido e trabalhado .
 A primeira indica    o segura relativa a esta

 famlia data dos anos de 1430-31 e refere-se ao av  de Bosch , Jan Van

 Aken que faleceu em 1454 .
 Jan tinha cinco filhos dos quais quatro eram

 pintores ; um deles , Antonius van Aken , faleceu em 1478 , era o pai de

 Hieronymus Bosch .
 Bosch n  o deixou cartas ou di  rios .
 As poucas

 informa  ões que existem sobre a sua vida e a sua actividade podem

 ser encontradas no arquivo da cidade de Hertogenbosch , mas estes

 documentos n  o nos dizem nada sobre a sua pessoa , nem sequer ai

 consta a sua data de nascimento .
 Um retrato do artista , possivelmente

 um auto-retrato , apenas conhecido atrav  s das suas cópias

 posteriores , mostra-nos Bosch numa idade j  bastante avan  ada .

 Fala-se nele pela primeira vez em 1474 , aparecendo o seu nome

 juntamente com o dos seus dois irm  os e da sua irm  .
 Segundo a tese

 de Fraenger , Bosch pertencia  congrega    o do Espirito Livre , um

 grupo her  tico que , após o seu primeiro surgimento no s  culo XIII ,

 existiu durante v  rios s  culos por toda a parte da Europa .
 N  o se

 sabe muito sobre esta seita , mas pensa-se , no entanto , que a

 promiscuidade sexual constitua uma parte dos seus ritos religiosos ,

 atrav  s dos quais procuravam readquirir o estado da inocência que

 Ad  o possua antes da sua queda .
 A tese de Fraenger tem como ponto de

 partida a an  lise de algumas obras de Bosch , particularmente do

 Jardim das Delcias .
 N  o existem provas históricas de Bosch ter

 pertencido  seita ou que tenha sequer pintado para eles .
 Ali  s ,  

 bem mais prov  vel que Bosch tenha sido um crist  o ortodoxo .
 Era

 membro da Confraria de Nossa Senhora , uma associa    o de cl  rigos e

 leigos dedicada ao culto de Virgem Maria , e foi para essa confraria

 que Bosch efectuou alguns trabalhos como por exemplo , em 1493 , o de um

 vitral para a decora    o da nova capela , em 1511 para um crucifixo ,

 em 1512 para um candelabro .
 Al  m disso , teve o apoio de senhores

 importantes no seio do clero e da nobreza tendo sido provavelmente um

 deles quem encomendou " O Jardim das Delicias " .
 A ultima referência ao

 pintor nos livros da Confraria de Nossa Senhora , data de 1516 e

 refere-se  sua morte ; no dia 9 de Agosto desse ano foi celebrada

 missa pela sua alma , na Igreja da S. Jo  o. As Obras e os Temas Se

 pouco se sabe sobre a vida de Bosch , menos se sabe sobre a sua origem

 artstica .
 Talvez tenha aprendido com o pai ou com o tio .
 Mas todas as

 pinturas destes se perderam .
 Como Hertogenbosch , a sua terra natal ,  

 uma cidade fortemente marcada pelo estilo gótico nos seus edificios ,

 muitos autores procuraram a origem da arte de Bosch nas tradi  ões

 góticas criadas por Robert Campin , Roger Van der Weyden e outros

 artistas que trabalhavam no sul dos Pases-Baixos .
 De facto , as

 últimas obras de Bosch , deixam transparecer muitas liga  ões com a

 arte do sul dos Pases Baixos , mas as suas primeiras obras est  o mais

 próximas da arte holandesa .
 Entre as obras geralmente aceites como

 pertencentes ao primeiro perodo criativo de Bosch , entre 1470 e 1485 ,

 encontram-se v  rias pequenas cenas bblicas : A Epif  nia , o Ecce

 Homo , as Bodas de Cana , e uma ala do altar da catedral de Viena de

 Austria intitulada Cristo Carregando a Cruz .
 A estrutura relativamente

 simples destas obras e a sua dependência dos esquemas de composi    o

 levam a concluir que foram executadas bastante cedo .
 Só poucas das

 primeiras pinturas se distinguem significativamente da iconografia

 tradicional , mas essas excep  ões deixam adivinhar as ousadas

 inova  ões da sua obra posterior .
 A arte de Bosch tem um significado

 mais profundo e houve v  rias tentativas para descobrir as suas

 origens e objectivos .
 Alguns viram Bosch como uma esp  cie de

 surrealista do s  culo XV , devido  extraordin  ria riqueza

 simbólica da sua obra .
 A arte dos mestres mais antigos baseava-se

 totalmente no mundo prosaico e real da experiência do dia-a-dia , mas

 Bosch mostra-nos um mundo de sonhos e pesadelos cujas as formas

 parecem brilhar e transformar-se perante os nossos olhos .
 Na   poca a

 generalidade das pessoas considerava-o apenas um   inventor de

 monstros e quimeras   , e os estudiosos diziam das suas obras que eram

   fantasias milagrosas e estranhas , causando muitas vezes uma

 impress  o de horror em vez de agrad  vel   .
 Embora tenha sido um

 pintor de grande import  ncia no contexto do Renascimento , o seu

 imagin  rio era ainda marcado pelo pensamento medieval .
 Um dos temas

 centrais da sua pintura   o dilema entre o bem e o mal , a tenta    o ,

 o pecado e o castigo .
 As suas visões fant  sticas de criaturas

 estranhas e infernais conduzem-nos a um mundo complexo e caótico de

 imagens e eventos terrveis , por vezes par  bolas , para medita    o do

 espectador da   poca .
 Com espantoso poder imaginativo , Bosch

 contextualizou os acontecimentos religiosos , ao dirigir o olhar , n  o

 para as imagens sagradas , mas para a massa de testemunhas vulgares ,

 criando s  tiras cru  is de uma humanidade fraca e pecadora .
 O pecado

 desempenha um papel importante na arte de Bosch , mas o seu significado

 apenas pode ser totalmente compreendido no contexto de um tema mais

 amplo na Idade M  dia : O Juzo Final .
 Esse   o ultimo acto da longa e

 turbulenta história da humanidade , que teve o seu inicio com o pecado

 original de Ad  o e Eva e a sua expuls  o do Paraso .
 Nesse ultimo

 dia , os mortos ressuscitar  o das sepulturas e Cristo regressar  para

 julgar todos os homens e dar a merecida recompensa a cada um .
 Como o

 próprio Cristo profetizou , os benditos tomar  o posse do Reino que

 est  preparado para eles   desde a cria    o do mundo  , e aos

 malditos est  reservado   o fogo eterno preparado pelo Demónio e

 seus anjos  .
 Para os contempor  neos de Bosch , os horrores do Juzo

 Final eram mais assustadores pois havia a convic    o de que esse dia

 se aproximava .
 Desde sempre houve profetas a proclamar a proximidade

 do Fim do Mundo , mas os profetas raramente mereceram tanta aten    o

 como nos finais do s  culo XV .
 As tradicionais representa  ões do Fim

 do Mundo costumavam dividir os ressuscitados em número quase igual de

 eleitos e de condenados .
 Mas , Bosch n  o partilhava dessa vis  o

 optimista , e no trptico Juzo Final mostra a maioria da humanidade no

 inferno e poucos s  o os eleitos para o Paraso .
 Em muitos exemplos

 importantes , Bosch ultrapassou os limites da narrativa bblica para

 representar a luta entre o Bem e o Mal como um fenómeno universal .

 Podemos constatar este facto na taberna assolada por diabos , onde se

 festejam as Bodas de Cana , e o trptico A epif  nia .
 As tenta  ões a

 que estavam sujeitos os crentes em Cristo s  o motivo frequente na

 obra de Bosch , mostrando personagens heróicas e poderosas rodeadas de

 demónios como acontece em Ret  bulo dos Ermitas , S  o Jerónimo

 Penitente , S  o Jo  o Evangelista em Patmos e no trptico As

 Tenta  ões de Santo Ant  o .
 Na Segunda metade do s  culo XVI , o rei

 Filipe II de Espanha , o mais conservador de todos os católicos

 adquiriu algumas das obras de Bosch , entre elas O Jardim das Delicias ,

 pas onde ali  s a obra se encontra at  hoje exposta no Museu do

 Prado de Madrid .
 Eram anos de Reforma e Contra Reforma , uma altura em

 que a Inquisi    o ressuscitou e em que as pessoas estavam

 extremamente sensveis  s questões do dogma e da doutrina certa .
 E

   por esta altura que surgem em Espanha a suspeita de que essas obras

 de Bosch   cheiravam a heresia  , mas influentes sectores da igreja

 espanhola rejeitaram sempre esta acusa    o .
 Encontra-se no Museu de

 Arte Antiga de Lisboa um dos mais importantes dos seus trabalhos , o

 trptico As Tenta  ões de Santo Ant  o .
 Servindo-se dos v  rios

 motivos da lenda ligada a este santo , Bosch reúne uma s  rie de temas

 que lhe s  o caractersticos : os horrores do inferno , as imagens

 grotescas do pecado , e , por outro lado , a resistência do santo , que

 consegue conservar-se imune  s tenta  ões mundanas e demonacas .
 As

 figuras inventadas por Bosch eram , de facto , extremamente originais ,

 mas simbolizavam conceitos religiosos existentes na cristandade desde

 h  s  culos .
 Na arte de Bosch , a moribunda Idade M  dia ainda atingiu

 um novo brilho , antes de se apagar definitivamente .
 Porque Bosch viveu

 muito anos  frente dos restantes homens da sua   poca , os

 surrealistas n  o hesitaram em dar-lhe um lugar na sua escola cinco

 s  culos depois da sua morte .
 S  o tamb  m de sua autoria as obras : Os

 Sete Pecados Capitais ( Museu do Prado , Madrid ) ; A Carro  a de Feno

 ( trptico , Museu do Prado , Madrid ) ; Coroa    o de Espinhos ( National

 Gallery , Londres ) ; O Filho Pródigo ( Museu Boymans van Beuningen ,

 Roterd  o , Pases Baixos ) ; S  o Jo  o Baptista no Deserto ( Museu

 Lazaro-Galdino , Madrid ) .
 O Jardim das Delcias Bosch produziu alguns

 dos quadros mais fant  sticos e inventivos da história da arte .
 As

 suas visões obsessivas e sobrenaturais tem origem nos ambientes

 góticos do final da Idade M  dia , e apesar de cinco s  culos depois

 esse mundo medieval se ter perdido no tempo , tem havido tentativas

 recentes de encontrar significados modernos nas suas obras .
  de uma

 imagina    o desenfreada que nasce a impertinente obra-prima

 intitulada Jardim das Delcias , o maior e mais maravilhoso trptico de

 H.Bosch , que est  no Museu do Prado em Madrid .
 Prova da habilidade

 que tinha em construr uma detalhada paisagem , atrav  s de uma s  rie

 de exageros bizarros e distorcidos , o motivo da pintura central   uma

 selvagem orgia sexual , onde a luxúria   demonstrada como a causa da

 perdi    o do homem .
  esquerda est  o Paraso e  direita o

 Inferno , os lugares destinados ao homem .
 A obra completa   composta

 de quatro pinturas distintas que est  o juntas num painel

 desdobr  vel , trptico ; o painel exterior intitula-se O terceiro dia

 da Cria    o .
 No interior a obra central , O Jardim das Delcias , tem

  esquerda uma pintura intitulada Jardim do Eden ou Paraiso e 

 direita Inferno ou Inferno Musical .
 Um trptico   um quadro sobre

 três planos ou t  buas , dois dos quais se dobram sobre o do meio .
 Em

 nenhuma outra obra do autor , e at  de outros surrealistas modernos ,

 se pode encontrar t  o extraordin  ria representa    o de personagens

 e cenas , numa alian  a entre o maravilhoso ( painel central e esquerdo )

 e o fant  stico ( painel direito ) .
 Esta obra clama continuamente pela

 nossa aten    o , surpreendendo a cada olhar .
 E se cada detalhe pintado

 por Bosch pode ser passvel de interpreta  ões distintas  luz dos

 dogmas de cada sociedade , e de cada espa  o temporal , o idela ser 

 que o olhemos somente , tal como o artista nos deu a olhar .
 Só desta

 forma poderemos evitar que o nosso olhar se turve de preconceitos , e

 assim poder admirar e partilhar do êxtase de estilo que nos   dado

 no painel central .
 Ele   a express  o singular de todo o g  nio de

 Bosch .
 Para fazer o seu elogio da luxúria , o pintor adoptou o estilo

 das tape  arias medievais apresentando a cena em alinhamento vertical .

 Criou três zonas distintas mas dependentes entre si , e onde as cores

 ajudam  distin    o e orientam a sugest  o do espa  o de baixo para

 cima : verde delicado , amarelo esverdeado , e azul celeste rodeado de

 ocre claro .
 Estas cores e tonalidades s  o a base de uma deliciosa

 melodia onde a prioridade   dada aos vermelhos e aos azuis , em tons

 doces , transparentes e luminosos .
 Do ponto de vista crom  tico este

 quadro   o mais claro que Bosch pintou .
 A luminosidade mostra a

 positividade do lugar , onde n  o existe nada obscuro ou mau , onde tudo

 parece delicioso .
 O painel esquerdo tamb  m comunga das mesmas nuances

 ao nvel da cor , mostrando uma vis  o terna e ardente .
 Em contraste o

 painel direito   mais sombrio , socorrendo-se de tons mais frios ,

 negros desbotados , cinzentos chumbo , pontuados por laivos violentos de

 azuis , vermelhos e amarelos fulgurantes .
 A cor ajuda ao entendimento

 da cenas , no caso do painel central um prodigioso paraso artificial

 onde nos s  o mostradas as mil e uma flores do mal , os motivos da

 perdi    o do homem .
 Festins de desejo , piqueniques de amor , banquetes

 de cerejas e framboesas .
 O sexo elevado  potência do prazer , com os

 seus vcios deliciosos .
 Enlaces voluptuosos sob olhares ansiosos .

 Atitudes inocentes , banhos públicos .
 A cumplicidade da natureza com

 os bosques a servirem de refúgio .
 E as plantas , flores e os passaros

 a misturarem o seu amor com o dos homens .
 Tudo se passa como se um

 perfume afrodsiaco embriagasse toda a natureza .
 E apesar de tudo ,

 nada nos parece chocante ou imoral .
 Bosch nunca cai naquilo a que

 poderiamos chamra mau gosto , as suas figuras mais escabrosas cont  m

 sempre uma dignidade , um charme , uma eleg  ncia .
 As figuras humanas

 tem os tra  os da tradi    o gótica , finos e espadaúdos , despidos de

 roupas para parecerem desencarnados , desmaterializados .
 S  o homens e

 mulheres anónimos , que podem ser qualquer um de nós , vindos de

 qualquer profiss  o ou escal  o social .
 Existe uma comunh  o perfeita

 entre o homem e os restante seres vivos ( animais e plantas ) .
 Estes

 representam um papel importante na cena e d  o coerência ao mundo

 real , isto apesar das suas formas est  ticas : ameijôas gigantes ,

 p  ssaros enormes , peixes bizarros e voadores .
 Contudo Bosch opõe 

 do  ura refinada das personagens animais , alguma aspereza das plantas

 que agarram as pessoas , as folhas de pontas afiadas , as flores com

 espinhos .
 Entre esta imensa mescla de personagens surgem umas formas

 esf  ricas opacas e transparentes , que rodam no ch  o , ondulam na

   gua ou planam no ar .
 S  o globos de vidro , mundos redondos , onde se

 escondem casais enebriados de paix  o .
 Estas imagens esf  ricas s  o

 um motivo recorrente na obra de Bosch , e alguns autores interpretam-no

 como uma f  bula do inferno , tal como Buda aprisionava os demónios em

 caixas de esmolas para os pobres .
 Caixas de vidro e com a forma de

 globos .
 Esta lenda dos demónios aprisionados estava muito difundida

 na Idade M  dia .
 Fechado o painel central com os dois outros pain  is ,

 as portas do Jardim das Delicias revelam uma enigm  tica composi    o :

 uma imensa esfera transparente intitulada O Terceiro Dia da Cria    o

 do Mundo .
 Seccionada no plano equatorial , a esfera apresenta no seu

 seio uma suberba paisagem pintada em tons de cinzento .
 Esta   tida

 como a primeira paisagem pintada na história da arte europeia .
 Do

 ponto de vista iconogr  fico faz-se notar alguma infl  encia oriental

 em Bosch , nomedamente nos pain  is central e esquerdo .
 Em redor do

 banho circular  a fonte da juventude  que ocupa o centro de

 composi    o principal , homens galopam montados em leões , tigres ,

 hienas , leopardos , dromed  rios .
 No painel esquerdo est  o retratados

 um elefante e uma girafa , uma palmeira e uma   rvore caractersticas

 da vegeta    o tropical .
 Todos estes elementos trazem o exotismo dos

 parasos terrestres .
 Bosch ter  consultado exaustivamente cartas

 geogr  ficas e livros de viagens   s Indias e ao Oriente , escassos na

   poca , para conseguir retratar t  o fielmente figuras que eram

 desconhecidas do comum dos europeus .
 Da composi    o pode-se dizer que

   bastante livre .
 Existe um eixo sim  trico entre os pain  is central

 e esquerdo , relacionando-os entre si no alinhamento das linhas de

 for  a e nos tra  os base  o j  falado alinhamento vertical .
 O

 esquema de composi    o   bastante prim  rio , com uma ausência de

 cordena    o interior e liga    o entre os episódios retratados , uma

 caracterstica da pintura da   poca .
 Existe um complexo simbolismo em

 cada figura , em cada ac    o , em tudo o que   retratado .
 Podem

 descobrir-se analogias primitivas , refrências   alquimia , valores

   ticos crist  os ou esot  ricos .
 A cor rosa e vermelha s  o as cores

 do amor , e todas as nuances de azul tem a ver com a mentira e a

 fraude .
 O camelo , o touro , o le  o , e o cervo s  o smbolos divinos .
 A

 borboleta representa a inconst  ncia , o rato a falsidade , o corvo a

 incredulidade , o macaco a mentira , o pisco a luxúria .
 A cereja e a

 framboesa , a uva e a rom  representam a volúpia .
 A Fonte da

 Juventude , o unicórnio , o ovo , o frasco de crsital reportam ao mundo

 secreto dos alquimistas .
 Entregue  liberdade dos sentidos , a

 humanidade pratica todas as formas de deboche .
  uma concep    o

 her  tica do mundo .
 O pintor mostra , julga e condena .
 Ainda que para

 alguns estudiosos de Bosch o objectivo do pintor n  o era tanto

 condenar o Mal e apregoar a moralidade , mas sim indicar o caminho a

 seguir para uma completa harmonia entre a Natureza e o Esprito .
 O

 Inferno Musical , o painel direito deste trptico , merece uma an  lise

 distinta .
 Ele   seguramente uma das visões demonacas mais

 impressionantes da pintura , um vastssimo pandemónio .
 Dominado pelos

 seus tons sombreados , e pela concentra    o figurativa que partilha

 com os outros dois pain  is .
 Contudo estas figuras s  o bem mais

 irreais e fant  sticas , partindo de um imagin  rio assente nas

 dial  ticas dos estados hbridos , do excessivo , do reverso dos

 conceitos , das fun  ões e dos valores .
 Os instrumentos musicais como

 a harpa , a lira , a viola e o tambor que eram os meios cl  ssicos de

 entoar a glória do Senhor , s  o aqui instrumentos de tortura dos

 homens pecadores .
 Um motivo central domina o painel , que   um

 homem-  rvore , figura branca e p  lida , nos tons da morte .
 Os seus

 p  s s  o duas barcas , as suas pernas troncos de   rvore , o seu corpo

   o ovo do mundo : enfim esta metamorfose da   rvore em figura humana

 revela uma demonologia exótica .
 Este painel tem presente todas as

 imagens de marca do autor .
 Em cada figura , cada signo e cada detalhe

 deste Inferno Musical transparece a presen  a do autor .
 As figuras de

 Bosch trasmitem uma vitalidade , uma qualidade , um charme .
 Tudo  

 sobrenatural , inesperado e in  dito .
 Tem um sabor a autênticidade ,

 escondem a marca impressa do autor nas linhas , nas cores , nas

 texturas , nas interpreta  ões .
 Bosch Pop *   Apesar de dominado por

 regras ditadas por um prontu  rio consumista que oferece privil  gios

 a formas pl  sticas construdas por um marketing de apelo imediatista ,

 nalguns casos , infelizmente n  o t  o frequentes , a cultura pop

 musical almeja investiga  ões artsticas al  m do mais directo apelo

 ao reconchudo olho do comprador .
 V  o surgindo aqui e ali alguns

 projectos gerados , e desenvolvidos , sob uma orienta    o iluminada por

 uma educa    o artstica. Da resultam obras capazes de marcar pela

 inteligência e verdade est  tica , um lugar de relevo na história que

 se desenha todas as semanas , a cada nova edi    o discogr  fica .
 Os

 Depeche Mode , projecto nascido na alvorada techno pop brit  nica de

 1980 , representam hoje uma das mais credveis entre as propostas

 est  ticas que o universo pop conhece .
 Comandados por uma carreira que

 ao longo de de vinte anos , soube caminhar calma e atentamente , por

 referências que passaram pelos domnios das esferas industriais , o

 imagin  rio ecologista , e os caminhos da f  e religiosidade ,

 apresentam-se como um dos poucos nomes capazes de impõr sobre a sua

 música uma express  o visual que se eleva acima das fun  ões de

 mercado .
 Ao adicionar  sua música uma vertente visual cuidada e

 pensada , completam-se de certo modo , as imagens das palavras e as

 cores dos sons.  Alguns dos pormenores das Tenta  ões de Santo

 Ant  o , nomeadamente uma mulher-p  ssaro e o mensageiro do

 demónio , serviram precisamente de motivo para a capa do disco e

 videoclip de uma música intitulada   Walking in my shoes  , extrada

 do   lbum de 1993   Songs Of Faith and Devotion  .
 A ideia foi do

 fotógrafo e director artstico da banda , o holandês Anton Corbijn ,

 famoso fotógrafo ligado ao universo musical e cinematogr  fico .
 A

 obra de Bosch por si só   relacion  vel com todo o universo de

 referências dos Depeche Mode na   poca de edi    o deste disco , que

 fazia uma incurs  o pelos espa  os da f  e pelos sentidos possveis

 de express  o religiosa .
 Apenas uma curiosidade .
 Nada mais que um

 motivo para entender que , por vezes , as expressões da música pop

 moderna podem , com resultados est  ticos positivos , procurar dados e

 inspira    o no legado da história das artes visuais .
 Bibliografia

 BOSSCHRE , J. de ( 1962 ) , Jerôme Bosch et le fantastique , Paris .

 DELEVOY , Robert L. ( 1990 ) , Bosch , Genève , Editions dArt Albert

 Skira .
 DURAND , Gilbert ( 1979 ) , A Imagina    o Simbólica , Lisboa ,

 Estampa .
 GNUDI , C. e DUPONT J. ( 1990 ) , La peinture gothique , Genève ,

 Editions dArt Albert Skira .
 HODGE , Nicola e ANSON Libby , The A-Z of

 Art .
 KERNOLDE , G.K. ( 1974 ) From Art to Theatre , Form and Convention in

 the Renaissance , Chicago .
 PEREIRA , Paulo ( Dir. ) , História da Arte

 Portuguesa-2  volume , Lisboa , Crculo de Leitores .
 PICON , Ga  tan ,

 ( 1990 ) , Le surr  alisme , Genève , Editions dArt Albert Skira .
 Sites

 na internet : www.empower.net / dali / dalimain.html

 www .. oir.ucf.edu / wm / paint / auth / bosch / * Texto original de   Bosch Pop 

 da autoria de Nuno Galopim , publicado no Di  rio de Notcias ( data

 desconhecida ) .
 5 Hieronymus Bosch : Um Surrealista Com Cinco S  culos !

 A Epifania ( trptico , Museu do Prado , Madrid ) S  o Jo  o Evangelista

 em Patmos ( Museu de Berlim ) As Tenta  ões de Santo Ant  o ( trptico ,

 Museu de Arte Antiga de Lisboa ) O Jardim das Delcias ( painel central ,

 Museu do Prado , Madrid ) O Jardim do Eden ( painel esquerdo , Museu do

 Prado , Madrid ) O terceiro dia da Cria    o ( trptico fechado , Museu do

 Prado , Madrid ) O Inferno Musical ( painel direito , Museu do Prado ,

 Madrid ) Depeche Mode , Walking in my shoes ( Pormenor da capa interior do

 disco ) Depeche Mode , Walking in my shoes ( Pormenor da capa interior do

 disco )

