 Manifesto do Surrealismo

 ( Andr Breton - 1924 )

 Tamanha  a crena na vida , no que a vida tem de mais precrio , bem

 entendido , a vida real , que afinal esta crena se perde .
 O homem , esse

 sonhador definitivo , cada dia mais desgostoso com seu destino , a custo

 repara nos objetos de seu uso habitual , e que lhe vieram por sua

 displicncia , ou quase sempre por seu esforo , pois ele aceitou

 trabalhar , ou pelo menos , no lhe repugnou tomar sua deciso ( o que

 ele chama deciso !
 ) .
 Bem modesto  agora o seu quinho : sabe as

 mulheres que possuiu , as ridculas aventuras em que se meteu ; sua

 riqueza ou sua pobreza para ele no valem nada , quanto a isso ,

 continua recm-nascido , e quanto  aprovao de sua conscincia moral ,

 admito que lhe  indiferente .
 SE conservar alguma lucidez , no poder

 seno recordar-se de sua infncia , que lhe parecer repleta de

 encantos , por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos

 ensinantes .
 A , a ausncia de qualquer rigorismo conhecido lhe d a

 perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo ; ele se agarra a

 essa iluso ; s quer conhecer a facilidade momentnea , extrema , de

 todas as coisas .
 Todas as manhs , crianas saem de casa sem

 inquietao .
 Est tudo perto , as piores condies materiais so

 excelentes .
 Os bosques so claros ou escuros , nunca se vai dormir .

 Mas  verdade que no se pode ir to longe , no  uma questo de

 distncia apenas .
 Acumulam-se as ameaas , desiste-se , abandona-se uma

 parte da posio a conquistar .
 Esta imaginao que no admitia

 limites , agora s se lhe permite atuar segundo as leis de uma

 utilidade arbitrria ; ela  incapaz de assumir por muito tempo esse

 papel inferior , e quando chega ao vigsimo ano prefere , em geral ,

 abandonar o homem ao seu destino sem luz .

 Procure ele mais tarde , daqui e dali , refazer-se por sentir que

 pouco a pouco lhe faltam razes para viver , incapaz como ficou de

 enfrentar uma situao excepcional , como seja o amor , ele muito

 dificilmente o conseguir .
  que ele doravante pertence , de corpo e

 alma , a uma necessidade prtica imperativa , que no permite ser

 desconsiderada .
 Faltar amplido a seus gostos , envergadura a suas

 idias .
 De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer , ele s vai

 reter o que for ligao deste evento com uma poro de eventos

 parecidos , nos quais no toma parte , eventos perdidos .
 Que digo , ele

 far sua avaliao em relao a um desses acontecimentos , menos

 aflitivo que os outros , em suas conseqncias .
 Ele no descobrir a ,

 sob pretexto algum , sua salvao .

 Imaginao querida , o que , sobretudo amo em ti  no perdoares .

 S o que me exalta ainda  a nica palavra , liberdade .
 Eu a

 considero apropriada para manter , indefinidamente , o velho fanatismo

 humano .
 Atende , sem dvida ,  minha nica aspirao legtima .
 Entre

 tantos infortnios por ns herdados , deve-se admitir que a maior

 liberdade de esprito nos foi concedida .
 Devemos cuidar de no fazer

 mau uso dela .
 Reduzir a imaginao  servido , fosse mesmo o caso de

 ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade ,  rejeitar o que haja ,

 no fundo de si , de suprema justia .
 S a imaginao me d contas do

 que pode ser , e  bastante para suspender por um instante a interdio

 terrvel ;  bastante tambm para que eu me entregue a ela , sem receio

 de me enganar ( como se fosse possvel enganar-se mais ainda ) .
 Onde

 comea ela a ficar nociva , e onde se detm a confiana do esprito ?

 Para o esprito , a possibilidade de errar no  , antes , a contingncia

 do bem ?

 Fica a loucura .
 " a loucura que  encarcerada " , como j se disse

 bem .
 Essa ou a outra .. Todos sabem , com efeito , que os loucos no

 devem sua internao seno a um reduzido nmero de atos legalmente

 repreensveis , e que , no houvesse estes atos , sua liberdade ( o que

 se v de sua liberdade ) no poderia ser ameaada .
 Que eles sejam ,

 numa certa medida , vtimas de sua imaginao , concordo com isso , no

 sentido de que ela os impele  inobservncia de certas regras , fora

 das quais o gnero se sente visado , o que cada um  pago para saber .

 Mas a profunda indiferena de que do provas em relao s crticas

 que lhe fazemos , at mesmo quanto aos castigos que lhes so impostos ,

 permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginao e

 apreciam seu delrio o bastante para suportar que s para eles seja

 vlido .
 E , de fato , alucinaes , iluses , etc. so fonte de gozo nada

 desprezvel .
 A mais bem ordenada sensualidade encontra a sua parte , e

 eu sei que passaria muitas noites a amansar essa mo bonita nas

 ltimas pginas do livro .
 A Inteligncia de Taine se dedica a

 singulares malefcios .
 As confidncias dos loucos passaria minha vida

 a provoca-las .
 So pessoas de escrupulosa honestidade , cuja inocncia

 s tem a minha como igual .
 Foi preciso Colombo partir com loucos para

 descobrir a Amrica .
 E vejam como essa loucura cresceu , e durou .

 No  o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a

 bandeira da imaginao .

 O processo da atitude realista deve ser instrudo , aps o processo

 da atitude materialista .
 Esta , alis , mais potica que a precedente ,

 implica da parte do homem um orgulho sem dvida monstruoso , mas no

 uma nova e mais completa deposio .
 Convm nela ver , antes de tudo ,

 uma feliz reao contra algumas tendncias derrisrias do

 espiritualismo .
 Enfim , ela no  incompatvel com uma certa elevao

 de pensamento .

 Ao contrrio , a atitude realista , inspirada no positivismo , de So

 Toms a Anatole France , parece-me hostil a todo impulso de liberao

 intelectual e moral .
 Tenho-lhe horror , por ser feita de mediocridade ,

 dio e inspida presuno .
  ela a geradora hoje em dia desses livros

 ridculos , dessas peas insultuosas .
 Fortifica-se incessantemente nos

 jornais , e pe em xeque a cincia , a arte , ao aplicar-se em bajular a

 opinio nos seus critrios mais baixos ; a clareza vizinha da tolice , a

 vida dos ces .
 Ressente-se com isso a atividade dos melhores

 espritos ; a lei do menor esforo afinal se impe a eles como aos

 outros .
 Conseqncia divertida deste estado de coisas , em literatura ,

  a abundncia dos romances .
 Cada um contribui com sua pequena

 " observao " .
 Por necessidade de depurao o sr. Paul Valry propunha

 recentemente fazer antologia do maior nmero possvel de comeos de

 romances cuja insensatez ele muito esperava .
 Os mais famosos autores

 seriam chamados a participar .
 Tal idia dignificava tambm Paul

 Valry , que , no h muito , a propsito dos romances , me garantia que ,

 ele , sempre se recusaria a escrever : " A marquesa saiu s cinco horas. "

 Mas cumpriu ele a sua palavra ?

 Se o escrito de informao pura e simples de que a frase

 precipitada  exemplo , tem emprego corrente nos romances certamente 

 por no ir longe a ambio dos autores .
 O carter circunstancial ,

 inutilmente particular , de cada notao sua , me faz pensar que esto

 se divertindo , eles ,  minha custa .
 No me poupam nenhuma hesitao do

 personagem : ser louro , como se chama , vamos sair juntos no vero ?

 Outras tantas perguntas resolvidas decisivamente , ao acaso ; s me

 restou o poder discricionrio de fechar o livro , o que no deixo de

 fazer , ainda perto da primeira pgina .
 E as descries !
 Nada se

 compara ao seu vazio ; so superposies de imagens de catlogo , o

 autor as toma cada vez mais sem cerimnia , aproveita para me empurrar

 seus cartes postais , procura fazer-me concordar com os

 lugares-comuns :

 A salinha onde foi introduzido o moo era forrada de papel amarelo :

 havia gernios e cortinas de musselina nas janelas ; o sol poente

 jogava sobre tudo isso uma luz clara ...
 O quarto no continha nada de

 particular .
 Os mveis , de madeira amarela , eram todos velhos .
 Um sof

 com grande encosto inclinado , uma mesa oval diante do sof , um

 toucador , com espelho , entre as janelas , cadeiras encostadas s

 paredes , duas ou trs gravuras sem valor , representando moas alems

 com pssaros nas mos - eis a que se reduzia a moblia. ( Dostoievski ,

 Crime e Castigo )

 Que o esprito se proponha , mesmo por pouco tempo , tais motivos ,

 no tenho disposio para admiti-lo .
 Podem sustentar que este desenho

 clssico est no lugar certo e que neste passo do livro o autor tem

 seus motivos para me esmagar .
 Perde seu tempo , pois no entro no seu

 quarto .
 A preguia , a fadiga dos outros no me prendem .
 Tenho da

 continuidade da vida uma noo instvel demais para igualar aos

 melhores os meus momentos de depresso , de fraqueza .
 Quero que se

 calem , quando param de ressentir .
 E entendam bem que no incrimino a

 falta de originalidade pela falta de originalidade .
 Digo apenas que

 no fao caso dos momentos nulos de minha vida , que da parte de

 qualquer homem pode ser indigno de cristalizar aqueles que lhe parecem

 tais .
 Esta descrio de quarto , e muitas outras , permitam-me , digo :

 passo .

 Ora , cheguei  psicologia , e com este assunto nem penso em

 brincar .

 O autor pega-se com um personagem , e escolhido este , faz seu heri

 peregrinar pelo mundo .
 Haja o que houver , este heri , cujas aes so

 admiravelmente previstas , tem a incumbncia de no desmanchar ,

 parecendo porm sempre desmanchar , os clculos de que  objeto .
 As

 vagas da vida podem parecer arrebata-lo , roda-lo , afunda-lo , ele

 sempre depender deste tipo humano formado .
 Simples partida de

 xadrez , da qual me desinteresso mesmo , sendo o homem , qualquer um , um

 medocre adversrio para mim .
 No posso  suportar estas reles

 discusses de tal ou qual lance , desde que no se trata nem de ganhar

 nem de perder .
 E se o jogo no vale um caracol , se a razo objetiva

 prejudica terrivelmente , como  o caso , quem nela confia , no convir

 fazer abstrao destas categorias ?
 "  to ampla a diversidade , que

 todos os tons de voz , todos os passos , tosses asjos , espirros ...
 " Se

 um cacho de uvas no tem duas sementes iguais , como querem que lhes

 descreva este bago pelo outro , por todos os outros , que dele faa um

 bago bom para comer ?
 Esta intratvel mania de reduzir o desconhecido

 ao conhecido , ao classificvel , embala os crebros .
 O desejo de

 anlise prevalece sobre os sentimentos .
 Disso resultam dilatadas

 exposies cuja fora persuasiva reside na sua prpria singularidade ,

 e que iludem o leitor pelo recurso a um vocabulrio abstrato , bastante

 mal definido , alis .
 Se as idias gerais que a filosofia se prope at

 aqui debater , marcassem por a sua incurso definitiva num domnio

 mais extenso , seria eu o primeiro a me alegrar .
 Mas por enquanto  s

 afetao ; at aqui os ditos espirituosos e outras boas maneiras nos

 encobrem  porfia o verdadeiro pensamento que se busca ele prprio , em

 vez de se ocupar em obter sucessos .
 Parece-me que todo ato traz em si

 mesmo sua justificao , ao menos para quem foi capaz de comete-lo , que

 ele  dotado de um poder radiante que a mnima glosa , por natureza ,

 enfraquece .
 Devido a esta ltima ele deixa mesmo , de certo modo , de se

 produzir .
 No ganha nada com esta distino .
 Os heris de Stendhal

 caem aos golpes deste autor , apreciaes mais ou menos felizes , que

 nada acrescentam  sua glria .
 Onde os encontraremos de fato ,  onde

 Stendhal os perdeu .

 Ainda vivemos sob o imprio da lgica , eis a , bem entendido , onde

 eu queria chegar .
 Mas os procedimentos lgicos , em nossos dias , s se

 aplicam  resoluo de problemas secundrios .
 O racionalismo absoluto

 que continua em moda no permite considerar seno fatos dependendo

 estreitamente de nossa experincia .
 Os fins lgicos , ao contrrio , nos

 escapam .
 Intil acrescentar que  prpria experincia foram impostos

 limites .
 Ela circula num gradeado de onde  cada vez mais difcil

 faze-la sair .
 Ela se apia , tambm ela , na utilidade imediata , e 

 guardada pelo bom senso .
 A pretexto de civilizao e de progresso

 conseguiu-se banir do esprito tudo que se pode tachar , com ou sem

 razo , de superstio , de quimera ; a proscrever todo modo de busca da

 verdade , no conforme ao uso comum .
 Ao que parece , foi um puro acaso

 que recentemente trouxe  luz uma parte do mundo intelectual , a meu

 ver , a mais importante , e da qual se afetava no querer saber .

 Agradea-se a isso s descobertas de Freud .
 Com a f nestas

 descobertas desenha-se afinal uma corrente de opinio , graas  qual o

 explorador humano poder levar mais longe suas investigaes , pois que

 autorizado a no ter s em conta as realidades sumrias .
 Talvez esteja

 a imaginao a ponto de retomar seus direitos .
 Se as profundezas de

 nosso esprito escondem estranhas foras capazes de aumentar as da

 superfcie , ou contra elas lutar vitoriosamente , h todo interesse em

 capt-las , capta-las primeiro , para submete-las depois , se for o caso ,

 ao controle de nossa razo .
 Os prprios analistas s tm a ganhar com

 isso .
 Mas  importante observar que nenhum meio est a priori

 designado para conduzir este empreendimento , que at segunda ordem

 pode ser tambm considerado como sendo da alada dos poetas , tanto

 como dos sbios , e o seu sucesso no depende das vias mais ou menos

 caprichosas a serem seguidas .

 Com justa razo Freud dirigiu sua crtica para o sonho .
 

 inadmissvel , com efeito , que esta parte considervel da atividade

 psquica ( pois que , ao menos do nascimento  morte do homem , o

 pensamento no tem soluo de continuidade , a soma dos momentos de

 sonho , do ponto de vista do tempo a considerar s o sonho puro , o do

 sono , no  inferior  soma dos momentos de realidade , digamos apenas :

 dos momentos de viglia ) no tenha recebido a ateno devida .
 A

 extrema diferena de ateno , de gravidade , que o observador comum

 confere aos acontecimentos da viglia e aos do sono ,  caso que sempre

 me espantou .
  que o homem , quando cessa de dormir ,  logo o joguete

 de sua memria , a qual , no estado normal , deleita-se em lhe retraar

 fracamente as circunstncias do sonho , em privar este de toda

 conseqncia atual , e em despedir o nico determinante do ponto onde

 ele julga t-lo deixado , poucas horas antes : esta esperana firme ,

 este desassossego .
 Ele tem a iluso de continuar algo que vale a pena .

 O sonho fica assim reduzido a um parntese , como a noite .
 E como a

 noite , geralmente tambm no traz bom conselho .
 Este singular estado

 de coisas parece-me conduzir a algumas reflexes :

 1. nos limites onde exerce sua ao ( supe-se que a exerce ) o

 sonho , ao que tudo indica ,  contnuo , e possui traos de organizao .

 A memria arroga-se o direito de nele fazer cortes , de no levar em

 conta as transies , e de nos apresentar antes uma srie de sonhos do

 o sonho .
 Assim tambm , a cada instante s temos das realidades uma

 figurao distinta , cuja coordenao  questo de vontade .
 Importa

 notar que nada nos permite induzir a uma maior dissipao dos

 elementos constitutivos do sonho .
 Lamento falar disso segundo uma

 frmula que exclui o sonho , em princpio .
 Quando viro os lgicos , os

 filsofos adormecidos ?
 Eu gostaria de dormir , para poder me entregar

 aos dormidores , como me entrego aos que lem , olhos bem abertos ; para

 cessar de fazer prevalecer nesta matria o ritmo consciente de meu

 pensamento .
 Meu sonho desta ltima noite talvez prossiga o da noite

 precedente , e seja prosseguido na prxima noite , com louvvel rigor .
 

 bem possvel , como se diz .
 E como no est de modo nenhum provado que ,

 fazendo isso , a " realidade " que me ocupa subsista no estado de sonho ,

 que Lea no afunde no imemorial , porque no haveria eu de conceder ao

 sonho o que recuso por vezes  realidade , seja este valor de certeza

 em si mesma , que , em seu tempo , no est exposta a meu desmentido ?
 Por

 que no haveria eu de esperar do indcio do sonho mais do que espero

 de um grau de conscincia cada dia mais elevado ?
 No se poderia

 aplicar o sonho , ele tambm , resoluo de questes fundamentais da

 vida ?
 Sero estas perguntas as mesmas num caso como no outro , e no

 sonho elas j esto ?
 O sonho ter menos peso de sanes que o resto ?

 Envelheo , e mais que esta realidade  qual penso me adstringir , 

 talvez o sonho , a indiferena que lhe dedico , que me faz envelhecer ;

 2.. retomo o estado de viglia .
 Sou obrigado a considera-lo um

 fenmeno de interferncia .
 No apenas o esprito manifesta , nestas

 condies , uma estranha tendncia  desorientao (  a histria dos

 lapsos e enganos de toda espcie cujo segredo comea a nos ser

 entregue ) mas ainda no parece que , em seu funcionamento normal , ele

 obedea a outra coisa seno a sugestes que lhe vm desta noite

 profunda das quais eu recomendo .
 Por mais bem condicionado que ele

 esteja , seu equilbrio  relativo .
 Mal ousa expressar-se , e se o faz ,

  para limitar  constatao de que tal idia , tal mulher , lhe faz

 impresso .
 Que impresso , seria incapaz de dize-lo , dando assim a

 medida de seu subjetivismo , e nada mais .
 Esta idia , esta mulher , o

 perturba , predispe-no a menos severidade .
 Ela tem a ao de isola-lo

 um segundo de seu solvente e de deposita-lo no cu , como belo

 precipitado que ele pode ser , que ele  .
 Em desespero de causa , invoca

 ele o acaso , divindade mais obscura que as outras ,  qual atribui

 todos os seus desvarios .
 Que me diz que o ngulo sob o qual se

 apresenta esta idia que o afeta , o que ele ama no olho desta mulher

 no  precisamente o que o liga a seu sonho , o prende a dados que ele

 perdeu por sua culpa ?
 E se isso fosse de outro modo , do que no seria

 ele capaz , talvez ?
 Eu gostaria de dar-lhe a chave deste corredor ;

 3.. o esprito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que

 lhe acontece .
 A angustiante questo da possibilidade no mais est

 presente .
 Mata , vi mais depressa , ama tanto quanto quiseres .
 E se

 morres , no tens certeza de despertares entre os mortos ?
 Deixa-te

 levar , os acontecimentos no permitem que os retardes .
 No tens nome .

  inaprecivel a facilidade de tudo .

 Que razo , eu te pergunto , razo to maior que outra , confere ao

 sonho este comportamento natural , me faz acolher sem reserva uma

 poro de episdios cuja singularidade , quando escrevo , me fulminaria ?

 E no entanto , posso crer nos meus olhos , nos meus ouvidos : chegou o

 belo dia , esse bicho falou .

 Se o despertar do homem  mais duro , se ele quebra muito bem o

 encanto ,  que o levaram a ter uma raa idia da expiao ;

 4.. do momento em que seja submetido a um exame metdico , quando , por

 meios a serem determinados , se chegar a nos dar conta do sonho em sua

 integridade ( isto supe um disciplina da memria que atinge geraes ;

 mesmo assim comecemos a registrar os fatos salientes ) , quando sua

 curva se desenvolve com regularidade e amplido sem iguais , ento se

 pode esperar que os seus mistrios , no mais o sendo , dem lugar ao

 grande Mistrio .
 Acredito na resoluo futura destes dois estados , to

 contraditrios na aparncia , o sonho e a realidade , numa espcie de

 realidade absoluta , de surrealidade , se assim se pode dizer .

 Parto  sua conquista , certo de no consegui-la , mas bem

 despreocupado com minha morte , vou suputar um pouco os prazeres de tal

 posse .

 Conta-se que todo o dia ,  hora de dormir , Saint-Roux mandava

 colocar  porta de seu solar em Camaret um cartaz onde se lia : O POETA

 TRABALHA .
 Muito haveria ainda a dizer , mas de passagem , s quis

 aflorar um assunto que , por si s , necessitaria um alongado discurso e

 um maior rigor ; voltarei a esse ponto .
 Desta vez , minha inteno era

 dizer a verdade sobre o dio ao maravilhoso que grassa em certos

 homens , deste ridculo no qual o querem fazer cair .
 Falando claro : o

 maravilhoso  sempre belo , qualquer maravilhoso  belo , s mesmo o

 maravilhoso  belo .

 No domnio literrio , s o maravilhoso  capaz de fecundar obras

 dependentes de um gnero inferior , como o romance , e de modo geral , de

 tudo que participa da anedota .
 Uma prova admirvel  O Monge , de

 Lewis .
 O sopro do maravilhoso o anima por inteiro .
 Bem antes de o

 autor ter libertado seus principais personagens de qualquer coero

 temporal , j se percebe que esto prontos para agir com altivez sem

 precedente .
 Esta paixo da eternidade , que os exalta sem cessar ,

 confere inesquecveis acentos a seu tormento e ao meu .
 Entendo que

 este livro s exalta , do comeo ao fim , e da forma mais pura do mundo ,

 aquilo que do esprito aspira a deixar o cho , e que , despojado de uma

 parte insignificante de sua afabulao romanesca ,  moda do tempo ,

 constitui um modelo de justeza , de inocente grandiosidade. parece-me

 que no se fez melhor , e a personagem de Matilde , em particular ,  a

 criao mais comovente que se possa pr ao ativo deste modo figurado

 em literatura .
  menos um personagem que uma contnua tentao .
 E se

 um personagem no  uma tentao , o que  ?
 Tentao extrema aquela .
 O

 " nada  impossvel a quem sabe ousar " d em O Monge toda a sua

 convincente medida .
 As aparies a tm um papel lgico , pois que o

 esprito crtico no se apodera delas para contesta-las .
 Tambm o

 castigo de Ambrsio  tratado de maneira legtima , pois  finalmente

 aceito pelo esprito crtico como desenlace natural .

 Pode parecer arbitrrio que eu proponha este modelo , quando se

 trata do maravilhoso , do qual as literaturas no Norte e as literaturas

 orientais tiraram subsdios e mais subsdios , sem falar das

 literaturas propriamente religiosas de toda a parte .
  que a maior

 parte dos exemplos que estas literaturas poderiam me fornecer esto

 eivadas de puerilidade , pela boa razo de serem dirigidas s crianas .

 Cedo elas so cortadas do maravilhoso , e mais tarde , no guardaram

 suficiente virgindade de esprito para sentirem extremo prazer com

 Pele de Asno .
 Por mais encantadores que sejam , o homem julgaria decair

 ao se nutrir de contos de fadas , e concordo que estes no so todos de

 sua idade .
 O tecido de adorveis inverossimilhanas requer mais

 finura ,  medida que se avana , e ainda se est  espera destas

 espcies de aranhas ...
 Mas as faculdades no mudam radicalmente .
 O

 medo , a atrao do inslito , as chances , o gosto do luxo so molas s

 quais no se apela em vo .
 H contos a escrever para adultos , contos

 de fadas , quase .

 O maravilhoso no  o mesmo em todas as pocas ; participa

 obscuramente de uma classe de revelao geral , de que s nos chega o

 detalhe : so as runas romnticas , o manequim moderno ou qualquer

 outro smbolo prprio a comover a sensibilidade humana por algum

 tempo .
 Nestes quadros que nos fazem sorrir , no entanto sempre se pinta

 a inquietao humana , e  por isso que os levo a srio , que os julgo

 inseparveis de algumas produes geniais , as quais , mais que as

 outras , esto dolorosamente impregnadas dessa inquietao .
 So os

 patbulos de Villon , as gregas de Racine , os divs de Baudelaire .

 Coincidem com um eclipse do gosto que sou feito para suportar , eu que

 tenho do gosto a idia de um grande defeito .
 No mau gosto de minha

 poca , procuro ir mais longe que os outros .
 Para mim , se eu tivesse

 vivido em 1820 , para mim " a freira sangrenta " , a mim , no poupar este

 sorrateiro e banal dissimulons de que fala o peridico Cuisin , a mim ,

 a mim , percorrer em metforas , como ele diz , todas as fases do " disco

 prateado " .
 Por hoje , penso num castelo , cuja metade no est

 obrigatoriamente em runa ; este cabelo me pertence , eu o vejo num

 stio agreste , no longe de Paris .
 Suas dependncias no acabam mais

 e , quanto ao interior , foi terrivelmente restaurado , de modo a nada

 deixar a desejar , em matria de conforto .
 Junto  porta , encoberta

 pela sombra das rvores , esto os automveis , estacionados .
 Alguns de

 meus amigos a esto , em permanncia : eis o Louis Aragon que parte -

 ele s tem tempo para cumprimentar-nos ; Philippe Soupault se levanta

 com as estrelas Paul Eluard , nosso grande Eluard , ainda no voltou .

 Eis Robert Desnos e Roger Vitrac , que decifram no parque um velho

 edital sobre o duelo ; Georges Auric , Jean Paulhan , Max Morise , que

 rema to bem , Benjamin Pret , em suas equaes de pssaros ; e Joseph

 Delteil ; e Jean Carrive ; e Georges Limbour ( h uma fileira de Georges

 Limbour ) ; e Marcel Noll ; eis T. Traenkel que nos acena de seu balo

 cativo , Georges Malkine , Antonin Artaud , Francis Gerard , Pierre

 Naville , J .
 A. Boiffard , depois Jacques Baron e seu irmo , belos e

 cordiais , tantos outros ainda , e mulheres deslumbrantes , palavra .

 Estes jovens no podem se recusar nada , seus desejos so , para a

 riqueza , ordens .
 Francis Picabia vem nos visitar e , na semana passada ,

 recebeu-se na galeria dos espelhos um tal Marcel Duchamp que ainda no

 se conhecia .
 Picasso caa a por perto .
 O esprito de desmoralizao

 ergueu domiclio no castelo , e  com ele que tratamos sempre que h

 problema de relao com nossos semelhantes , mas as portas esto sempre

 abertas , e sabeis , no se comea " agradecendo " s pessoas .
 De mais a

 mais , a solido  vasta , no nos encontramos muito .
 Pois o essencial

 no  sermos senhores de ns mesmos , das mulheres , do amor tambm ?

 Vo atribuir-me uma mentira potica ; cada um vai dizer que moro na

 Rua Fontaine , e que no vai beber desta gua .
 Na verdade !
 mas este

 castelo cujas honras lhe fao , tem ele certeza que seja uma viagem ?
 E

 se , no obstante , o palcio existisse ?
 Meus hspedes esto a para

 responderem por isso ; seu capricho  a estrada luminosa que a conduz .

 Vivemos de fato  nossa fantasia , quando estamos l .
 E como o que um

 faz poderia incomodar o outro , ali , ao abrigo da procura sentimental e

 dos encontros ocasionais ?

 O homem pe e dispe .
 Depende dele s pertencer-se por

 inteiro , isto  , manter em estado anrquico o bando cada vez mais

 medonho de seus desejos .
 A poesia ensina-lhe isso .
 Traz nela a

 perfeita compensao das misrias que padecemos .
 Ela pode ser tambm

 uma ordenadora , bastando que ao golpe de uma decepo menos ntima se

 tenha a idia de tom-la ao trgico .
 Venha o tempo quando ela decrete

 o fim do dinheiro e parta , nica , o po do cu para a terra !
 Haver

 ainda assemblias nas praas pblicas , e movimentos dos quais no

 pensaste participar .
 Adeus selees absurdas , sonhos de abismo ,

 rivalidades , longas pacincias , a evaso das estaes , a ordem

 artificial das idias , a rampa do perigo , tempo para tudo !
 Basta se

 Ter o trabalho de praticar a poesia .
 No  a ns que compete , que j

 vivemos dela , o esforo de fazer prevalecer o que guardamos para nossa

 mais ampla inquietao ?

 No importa se h desproporo entre esta defesa e a ilustrao

 que vai segui-la .
 Tratava-se de remontar s fontes de imaginao

 potica , e mais ainda , ficar a .
 No tenho a pretenso de ter feito

 isso .
  preciso muito domnio sobre si , para querer se estabelecer

 nestas recuadas regies onde tudo parece andar to mal , e com maior

 razo , para querer a conduzir algum .
 E nunca se tem certeza de a

 estar em absoluto .
 Como no se vai gostar , fica-se disposto a se deter

 em outra parte .
 A verdade  que agora uma flecha indica a direo

 destes lugares e que alcanar a meta verdadeira s depende de

 resistncia do viajante .

 Conhece-se , pouco mais ou menos , o caminho percorrido .
 Tive o

 cuidado de contar , no decurso de um estudo sobre o caso de Robert

 Desnos , intitulado : ENTRADA DOS MDIUNS , que eu tinha sido levado a

 " fixar minhas atenes sobre frases mais ou menos parciais , que em

 plena solido , quase pegando no sono , ficam perceptveis para o

 esprito , sem ser possvel descobrir-lhes uma determinao prvia " .
 Eu

 mal acabara de tentar uma aventura potica , com o mnimo de chances ,

 isto  , minhas aspiraes eram as mesmas de hoje , mas eu tinha f na

 lentido de elaborao para fugir a contatos inteis , contatos que eu

 reprovava intensamente .
 Era o pudor do pensamento , de que me sobra

 ainda alguma coisa .
 No fim de minha vida , com dificuldade chegarei a

 falar como falam todos , culpa de minha voz e de meus gestos escassos .

 A virtude da palavra ( da escrita : bem maior ) me parecia ligada 

 faculdade de encurtar de modo marcante a exposio ( pois era uma

 exposio ) de alguns poucos fatos , poticos ou outros , substanciais

 para mim .
 Em minha idia , no era outro o processo usado por Rimbaud .

 Eu compunha , e o meu empenho de variedade merecia melhor sorte , os

 ltimos poemas do Mont de Piet , isto  , conseguia tirar das linhas em

 branco desse livro um partido incrvel .
 Essas linhas eram o olho

 fechado sobre operaes de pensamento , que , julgava eu , deviam ser

 ocultadas do leitor .
 No era trapaa , mas sim , gosto de precipitar as

 coisas .
 Eu obtinha a iluso de uma cumplicidade possvel , cada vez

 menos dispensvel para mim .
 Eu pegara o vezo de afagar imoderadamente

 as palavras pelo espao admitido em torno delas , por suas tangncias

 com outras inumerveis palavras no pronunciadas por mim .
 O poema

 FLORESTA-NEGRA marca exatamente este estado de esprito .
 Passei seis

 meses a escrev-lo e , podem acreditar , no descansei um s dia .
 Mas

 tratava-se da estima que eu ento me dedicava , no  bastante ,

 compreendam .
 Adoro estas confisses estpidas .
 Naquele tempo , a

 pseudopoesia cubista procurava se implantar , mas sara desarmada do

 crebro de Picasso , e quanto a mim , eu era tido como to enfadonho

 quanto a chuva ( ainda sou ) .
 Eu desconfiava , alis , que do ponto de

 vista potico , eu estava no caminho errado , mas eu me safava como

 podia , desafiando o lirismo , a golpes de definio e de receitas ( os

 fenmenos Dada no tardariam a se manifestar ) , e fingindo encontrar

 uma aplicao da poesia na publicidade ( eu sustentava que o mundo

 acabaria , no por um belo livro , mas por uma bela propaganda do

 inferno e do cu ) .

 Na mesma poca , um homem , to ou mais enfadonho que eu , Pierre

 Reverdy , escrevia :

 A imagem  uma criao pura do esprito .

 Ela no pode nascer da comparao , mas da aproximao de duas

 realidade mais ou menos remotas .

 Quanto mais longnquas e justas forem as afinidades de duas realidades

 prximas , tanto mais forte ser a imagem - mais poder emotivo e

 realidade potica ela possuir ...
 etc .

 Estas palavras , se bem que sibilinas para os profanos eram

 indicadores muito fortes , e sobre elas meditei longamente .
 Mas a

 imagem era fugidia .
 A esttica de Reverdy , esttica toda a posteriori ,

 fazia-me tomar os efeitos pelas causas .
 Entrementes , fui obrigado a

 renunciar definitivamente a meu ponto de vista .

 Certa noite ento , antes de adormecer , percebi , nitidamente

 articulada a ponto de ser impossvel mudar-lhe uma palavra , mas bem

 separada do rudo de qualquer voz , uma frase bem bizarra que me

 alcanava sem trazer indcio dos acontecimentos aos quais , segundo o

 testemunho de minha conscincia , eu estava preso , nessa ocasio , frase

 que me pareceu insistente , frase , se posso ousar , que batia na

 vidraa .
 Rapidamente tive a sua noo , e j me dispunha a passar

 adiante quando o seu carter orgnico me reteve .
 Na verdade , esta

 frase me espantava ; infelizmente no a guardei at hoje , era algo

 como : " H um homem cortado em dois pela janela " , mas no poderia haver

 ambigidade , acompanhada como estava pela fraca representao visual

 de um homem andando , e seccionado a meia altura por uma janela

 perpendicular ao eixo de seu corpo .
 Fora de dvida era a simples

 aprumao no espao de um homem debruado  janela .
 Mas esta janela

 tendo seguido o deslocamento do homem vi que se tratava de uma imagem

 de tipo bastante raro e logo pensei em incorpor-la a meu material de

 construo potica .
 Assim que lhe concedi este crdito ela deu lugar a

 uma sucesso quase ininterrupta de frases que no me surpreenderam

 menos e me deixaram sob a impresso de uma tal gratuidade que me

 pareceu ilusrio o imprio que at ento eu mantinha sobre mim mesmo ,

 e s pensei ento em liquidar a interminvel disputa travada em mim

 ( Knut Hamsun pe na dependncia da fome este tipo de revelao que me

 assaltou , e talvez no esteja ele errado ( o fato  que nessa poca eu

 no comia todos os dias ) .
 Com toda certeza so de fato as mesmas

 manifestaes que ele relata nestes termos :

 " No dia seguinte acordei cedo .
 Estava ainda escuro .
 Meus olhos estavam

 abertos fazia tempo , quando ouvi o relgio do apartamento inferior

 bater cinco horas .
 Quis novamente dormir mas no consegui , eu estava

 completamente desperto e mil coisas baralhavam na minha cabea .
 De

 repente me vieram uns bons trechos , prprios para utilizao num

 esboo , num folhetim ; subitamente , por acaso , achei frases muito

 bonitas , frases como jamais escreverei .
 Eu as repetia lentamente ,

 palavra por palavra , eram excelentes .
 E vinham mais outras .

 Levantei-me , peguei lpis e papel na mesa atrs de minha cama .
  como

 se eu tivesse rompido uma veia , uma palavra seguia outra , colocava-se

 em seu lugar , surgiam as rplicas , em meu crebro , eu gozava

 profundamente .
 Os pensamentos me vinham to rapidamente e fluam to

 abundantemente que eu perdia uma poro de detalhes delicados , porque

 meu lpis no podia andar to depressa , e entretanto eu me apressava ,

 a mo sempre em movimento , eu no perdia um minuto .
 As frases

 continuavam a brotar em mim , eu estava prenhe de meu assunto " .

 Apollinaire afirmava que os primeiros quadros de Chirico haviam

 sido pintados sob a influncia de distrbios cenestsicos ( enxaquecas ,

 clicas ) .

 To ocupado estava eu com Freud nessa poca , e familiarizado com os

 seus mtodos de exame que eu tivera alguma ocasio de praticar em

 doentes durante a guerra , que decidi obter de mim o que se procura

 obter deles , a saber , um monlogo de fluncia to rpida quanto

 possvel sobre o qual o esprito crtico do sujeito no emita nenhum

 julgamento , que no seja , portanto , embaraado com nenhuma reticncia ,

 e que seja to exatamente quanto possvel o pensamento falado .

 Parecia-me , ainda me parece - a maneira como me chegara a frase do

 homem seccionado o comprovava - que a velocidade do pensamento no 

 superior  da palavra e que ele no desafia foradamente a lngua , nem

 mesmo a caneta que corre .
 Foi com estas disposies que Philippe

 Soupault , a quem eu comunicara estas primeiras concluses , e eu

 comeamos a escrevinhar , pouco nos importando com o que pudesse

 suceder literariamente .
 A facilidade de realizao fez o resto .

 No fim do primeiro dia podamos ler umas cinqenta pginas obtidas

 por este meio , e comear a comparao de nossos resultados .
 No

 conjunto , os de Soupault e os meus mostravam notvel analogia : mesmo

 vcio de construo , falhas similares , mas tambm , de cada lado , a

 iluso de um estro maravilhoso , muita emoo , escolha considervel de

 imagens de uma tal qualidade que no teramos sido capazes de preparar

 uma s delas , mesmo com muito empenho , um pitoresco muito especial , e

 de um lado e de outro , alguma proposio de pungente burlesco .
 As

 nicas diferenas entre nossos dois textos me pareceram corresponder

 essencialmente a nossos temperamentos recprocos , o de Soupault menos

 esttico que o meu , e se ele me permite esta leve crtica , ao fato de

 Ter ele cometido o erro de distribuir , ao alto de certas pginas , e

 sem dvida por esprito de mistificao , algumas palavras  guisa de

 ttulos .
 Em compensao , devo-lhe a justia de dizer que ele se ops

 sempre , com toda energia , a qualquer retoque ,  mnima correo ao

 curso de toda passagem desse gnero que me parecia at descabida .

 Tinha ele toda razo nisso .
  com efeito muito difcil apreciar em seu

 justo valor os diversos elementos presentes , diga-se mesmo , 

 impossvel apreci-los numa primeira leitura .
 A vs que escreveis ,

 estes elementos , na aparncia , vos so to estranhos quanto a outro

 qualquer , e naturalmente desconfiais .
 Falando poeticamente , eles se

 reconhecem sobretudo por um alto grau de absurdidade imediata , sendo o

 prprio desta absurdidade , num exame mais aprofundado , dar lugar a

 tudo que h de admissvel , de legtimo no mundo : a divulgao de certo

 nmero de propriedades e de fatos no menos objetivos , em suma , que os

 outros .

 Em homenagem a Guillaume Apollinaire , que morrera h pouco , e que

 por diversas vezes nos parecia ter obedecido a um arrebatamento desse

 gnero , sem entretanto ter a sacrificado medocres meios literrios ,

 Soupault e eu designamos com o nome de SURREALISMO o novo modo de

 expresso pura , agora  nossa disposio , e com o qual estvamos

 impacientes para beneficiar nossos amigos .
 Creio no ser mais

 necessrio , hoje , repisar esta palavra , e que a acepo em que a

 tomamos acabou por prevalecer sobre a acepo apollinairiana .
 Ainda

 com maior razo poderamos ter-nos apossado da palavra

 SUPERNATURALISMO , empregada por Gerard de Nerval na dedicatria de

 Filles de Feu .
 Com efeito , parece que Nerval possuiu s mil maravilhas

 o esprito ao qual recorremos , enquanto Apollinaire no possua seno

 a letra , ainda imperfeita , do surrealismo , tendo sido incapaz de lhe

 traar um esboo terico que valha a pena .
 Eis duas frases de Nerval

 que acerca disso me parecem bem significativas :

 Vou explicar-lhe , meu caro Dumas , o fenmeno que voc citou acima .

 Como voc sabe , h certos contistas que no podem inventar sem se

 identificarem aos personagens de sua imaginao .
 Voc sabe com que

 convico nosso velho amigo Nodier narrava como ele tivera a desgraa

 de ser guilhotinado na poca da Revoluo ; ficava-se de tal modo

 persuadido que se ficava querendo saber como ele conseguira recolocar

 sua cabea .

 ...
 E j que voc teve a imprudncia de citar um soneto composto

 neste estado de devaneio onrico SUPERNATURALISTA , como diriam os

 alemes , vai ouvi-los todos .
 No so nada mais obscuros do que a

 metafsica de Hegel ou as MEMORVEIS de Swedenborg , e perderiam

 encanto se fossem explicados , se a coisa fosse possvel , conceda-me ao

 menos o mrito da expresso ...

 S com muita f poderiam nos contestar o direito de empregar a

 palavra SURREALISMO no sentido muito particular em que o entendemos ,

 pois est claro que antes de ns esta palavra no obteve xito .

 Defino-a pois uma vez por todas .

 SURREALISMO , s.m .
 Automatismo psquico puro pelo qual se prope

 exprimir , seja verbalmente , seja por escrito , seja de qualquer outra

 maneira , o funcionamento real do pensamento .
 Ditado do pensamento , na

 ausncia de todo controle exercido pela razo , fora de toda

 preocupao esttica ou moral .

 ENCICL. Filos .
 O Surrealismo repousa sobre a crena na realidade

 superior de certas formas de associaes desprezadas antes dele , na

 onipotncia do sonho , no desempenho desinteressado do pensamento .

 Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psquicos ,

 e a se substituir a eles na resoluo dos principais problemas da

 vida .
 Deram testemunho de SURREALISMO ABSOLUTO os srs. Aragon , Baron ,

 Boiffard , Breton , Carrive , Crevel , Delteil , Desnos , Eluard , Gerard ,

 Limbour , Malkine , Morise , Naville , Noll , Pret , Picon , Soupault ,

 Vitrac .

 Parece que so , at agora , os nicos , e no haveria engano , no

 fosse o caso apaixonante de Isidore Ducasse , sobre o qual me faltam

 elementos .
 E certamente , no considerando seno superficialmente seus

 resultados , bom nmero de poetas poderiam passar por surrealistas , a

 comear por Dante , e , em seus melhores dias , Shakespeare .
 No curso das

 diferentes tentativas de reduo , em que empenhei , do que se chama ,

 por abuso de confiana , o gnio , nada encontrei que se possa

 finalmente atribuir a outro processo que no seja este .

 As NOITES de Young so surrealistas do comeo ao fim ; infelizmente

  um padre que fala , mau padre , sem dvida , mas padre .

 Swift  surrealista na maldade .

 Sade  surrealista no sadismo .

 Chateaubriand  surrealista no exotismo .

 Constant  surrealista em poltica .

 Hugo  surrealista quando no  tolo .

 Desbordes-Valmore  surrealista em amor .

 Bertrand  surrealista no passado .

 Rabbe  surrealista na morte .

 Poe  surrealista na aventura .

 Baudelaire  surrealista na moral .

 Rimbaud  surrealista na prtica da vida e alhures .

 Mallarm  surrealista na confidncia .

 Jarry  surrealista no absinto .

 Nouveau  surrealista no beijo .

 Saint-Pol-Roux  surrealista no smbolo .

 Fargue  surrealista na atmosfera .

 Vach  surrealista em mim .

 Reverdy  surrealista em sua casa .

 Saint-John Perse  surrealista a distncia .

 Roussel  surrealista na anedota .

 Etc .

 Insisto , eles nem sempre so surrealistas , neste sentido que

 descubro neles um certo nmero de idias preconcebidas , s quais , bem

 ingenuamente , eles se apegavam .
 Apegavam porque ainda no tinham

 ouvido a voz surrealista , a que continua a pregar  vspera da morte e

 acima das tempestades , porque no queriam servir somente para

 orquestrar a maravilhosa partitura .
 Eram instrumentos soberbos demais ,

 e por isso nem sempre produziram som harmonioso .

 Ns , porm , que no nos dedicamos a nenhum trabalho de filtrao ,

 que nos fizemos em nossas obras os surdos receptculos de tantos ecos ,

 modestos aparelhos registradores que no se hipnotizam com o desenho

 traado , talvez sirvamos uma causa mais nobre .
 Assim devolvemos com

 probidade o " talento " que nos atribuem .
 Falem-me do talento deste

 metro de platina , deste espelho , desta porta , e do cu , se quiserem .

 No temos talento , perguntem a Philippe Soupault :

 " As manufaturas anatmicas e as habitaes baratas destruindo as

 mais importantes cidades " .

 A Roger Vitrac :

 " Recm-invocara eu o mrmore-almirante ( A Mesa de Mrmore era um

 Tribunal instalado no Palcio de Justia em Paris , realizando suas

 sesses numa imensa mesa de mrmore , que lhe deu o nome ; era de sua

 alada o julgamento de militares , e sua jurisdio tinha trs

 divises : o almirantado , as florestas e guas , e a rea do

 condestvel ) quando este virou nos calcanhares como um cavalo que se

 empina diante da estrela polar e me indicou no plano de seu chapu

 bicorne uma regio onde eu devia passar a minha vida " .

 A Paul Eluard :

 " Conto uma histria bem conhecida , releio um poema clebre : estou

 apoiado a um muro , orelhas verdejantes , lbios calcinados " .

 A Max Morise :

 " O urso das cavernas e sua companhia que mia , o volante e seu

 valete no vento , o gro-chanceler com sua mulher , o espantalho e seu

 amigo alho , a fagulha com agulha , o carniceiro e seu irmo carnaval , o

 varredor com o seu tapa-olho , o Mississipi e seu sapo , o coral e o

 colar , o Milagre e seu santo por favor desapaream da superfcie do

 mar " .

 A Joseph Delteil :

 " Ai de mim !
 Creio na virtude das aves .
 E basta uma pena para me

 matar de rir !
 " .

 A Louis Aragon :

 " Durante uma interrupo da partida , quando os jogadores , reunidos ,

 rodeavam a poncheira escaldante , perguntei  rvore se ainda tinha sua

 fita vermelha " .

 A mim mesmo , que no pude me impedir de escrever as linhas

 serpentinas , alucinantes , deste prefcio .

 Perguntem a Robert Desnos que , dentre ns , foi talvez quem mais se

 aproximou da verdade surrealista , aquele que , em obras ainda inditas

 e ao longo de mltiplas experincias s quais prestou , justificou

 plenamente a esperana que eu depositava no surrealismo e me intima a

 esperar muito dele ainda .
 Hoje em dia Desnos fala surrealista 

 discrio .
 A prodigiosa agilidade de que ele dispe para seguir

 oralmente seu pensamento nos vale , quanto nos apraz , discursos

 esplndidos , e que se perdem , Desnos tendo mais que fazer do que

 fixa-los .
 Ele l em si como em livro aberto , e nada faz para reter as

 folhas que se desvanecem no vento de sua vida .

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 SEGREDOS DA ARTE MGICA SURREALISTA

 Composio surrealista escrita , ou primeiro e ltimo jato

 Mande trazer com que escrever , quando j estiver colocado no lugar

 mais confortvel possvel para concentrao do seu esprito sobre si

 mesmo .
 Ponha-se no estado mais passivo ou receptivo , dos talentos de

 todos os outros .
 Pense que a literatura  um dos mais tristes caminhos

 que levam a tudo .
 Escreva depressa , sem assunto preconcebido , bastante

 depressa para no reprimir , e para fugir  tentao de se reler .
 A

 primeira frase vem por si , tanto  verdade que a cada segundo h uma

 frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser

 exteriorizada .
  bastante difcil decidir sobre a frase seguinte : ela

 participa , sem dvida , a um s tempo , de nossa atividade consciente e

 da outra , admitindo-se que o fato de haver escrito a primeira supe um

 mnimo de percepo .
 Isto no lhe importa , alis ;  a que reside , em

 maior parte , o interesse do jogo surrealista .
 A verdade  que a

 pontuao se ope , sem dvida ,  continuidade absoluta do vazamento

 que nos interessa , se bem que ela parea to necessria quanto a

 distribuio dos ns numa corda vibrante .
 Continue enquanto lhe apraz .

 Confie no carter inesgotvel do murmrio .
 Se o silncio ameaa cair ,

 por uma falta da inateno , digamos , que o leve a cometer um pequeno

 erro , no hesite em cortar uma linha muito clara .
 Aps uma palavra

 cuja origem lhe parea suspeita , ponha uma letra qualquer , a letra

 " l " , por exemplo , sempre a letra " l " , restabelea o arbitrrio ,

 impondo esta letra como inicial  palavra que vem a seguir .

 Para no mais se aborrecer acompanhado

  difcil .
 No receba ningum , e s vezes , quando ningum , e s

 vezes , quando ningum tiver forado sua porta para interrompe-lo em

 plena atividade surrealista e cruzar seus braos , pense : "  igual ,

 certamente h coisa melhor para fazer , ou para no fazer .
 O interesse

 da vida no se mantm .
 Simplicidade , o que se passa em mim ainda me

 aborrece !
 " ou qualquer banalidade revoltante .

 Para fazer discursos

 Fazer-se inscrever , na vspera da eleio , na lista de candidatos

 do primeiro lugar que ache bom proceder a esse gnero de consulta .

 Cada um tem em si o material de orador : tangas multicores , vidrilhos

 das palavras .
 Pelo surrealismo ele vai surpreender o desespero em sua

 pobreza .
 Uma tarde , numa estrada , ele sozinho cortar em pedaos o cu

 eterno , esta Pele do Urso .
 Vai prometer tanto , que se cumprir mesmo

 uma insignificncia ser uma consternao .
 Dar s reivindicaes do

 povo todo uma entonao parcial e derrisria .
 Obter a comunho dos

 mais irredutveis adversrios num desejo secreto que acabar com as

 ptrias .
 E conseguir isso com apenas se deixando exaltar com a

 palavra imensa que derrete em piedade e rola em dio .
 Incapaz de um

 desalento , brincar sobre o veludo de todo sos desalentos .
 Ser mesmo

 eleito , e as mais suaves mulheres o amaro com violncia .

 Para escrever falsos romances

 Voc , seja quem for , se  de seu agrado , faa queimar algumas

 folhas de louro , e sem atiar este fogo fraco , e comece a escrever um

 romance .
 Voc tem a permisso do surrealismo : basta voc mudar a

 agulha de " Tempo bom e estvel " para " Ao " e a mgica est feita .
 Eis

 aqui personagens com atitudes disparatadas : os nomes deles em sua

 escritura so uma questo de maisculas e estaro to a vontade com os

 verbos ativos como na conjugao impessoal , os pronomes esto

 subentendidos , em expresses tais como : chove , h ,  preciso , etc .

 Eles vo comanda-los , por assim dizer , e quando a observao , a

 reflexo , e as faculdades de generalizao no lhe tenham ajudado

 nada , esteja certo de que eles vo lhe retribuir mil intenes que

 voc no teve .
 Assim dotados de poucas caractersticas fsicas e

 morais , estes seres , que em verdade lhe devem to pouco , no se

 desviaro de uma certa linha de conduta , com a qual voc no precisa

 se incomodar .
 Da resultar uma intriga mais ou menos hbil na

 aparncia , justificando ponto por ponto esse desfecho comovente ou

 tranqilo , ao qual voc no d nenhuma ateno .
 O seu falso romance

 imitar admiravelmente um romance verdadeiro ; voc ficar rico , e

 todos concordam em dizer que voc tem " algo na barriga " , pois  a

 mesmo que este algo est .

 Bem entendido , por um processo anlogo , e  condio de ignorar o

 que voc vai comentar , voc poder se aplicar com sucesso  falsa

 crtica .

 Para se exibir a uma mulher que passa na rua

 Contra a morte

 O surrealismo vai introduzir voc na morte que  uma sociedade

 secreta .
 Ele vai enluvar sua mo , sepultando a o " M " profundo por

 onde comea a palavra Memria .
 No deixe de tomar felizes disposies

 testamentrias ; por minha parte , peo que eu seja conduzido ao

 cemitrio num carro de mudana .
 Que meus amigos destruam at o ltimo

 exemplar , a edio do Discurso sobre o Pouco da Realidade .

 A linguagem foi concedida ao homem para fazer dela um uso

 surrealista .
 Na medida em que lhe  insdispensvel fazer-se

 compreender , ele consegue , bem ou mal , exprimir-se e assim assegurar o

 desempenho de algumas funes , das mais banais .
 Falar , escrever carta

 no lhe oferecem nenhuma dificuldade real , desde que , fazendo-o , ele

 no se proponha um objetivo acima da mdia , isto  , desde que se

 limite a entreter-se ( pelo prazer de entreter-se ) com algum .
 Ele no

 fica aflito com as palavras que viro , nem com a frase que vir ,

 terminada a sua .
 Ele ser capaz de responder  queima-roupa a uma

 pergunta bem simples .
  falta de tiques contrados no convvio com os

 outros , ele pode opinar espontaneamente sobre alguns poucos assuntos :

 para isso no lhe  preciso antes " contar at dez " nem ter frmulas

 preparadas .
 Quem poder t-lo convencido de que esta faculdade de

 " falar logo  primeira " s serve para desserv-lo , quando ele se

 prope estabelecer ligaes mais delicadas ?
 Ele no deve se recusar a

 falar ou escrever de improviso sobre nada .
 Ouvir-se , ler-se , no tem

 outro efeito seno o de suspender o oculto , o admirvel auxlio .
 No

 conto para me compreender ( chega !
 sempre me compreenderei ) .
 Se esta ou

 aquela de minhas frases me traz na hora uma leve decepo , confio na

 frase seguinte para redimi-la , cuido para no recome-la ou

 aperfeioa-la .
 A mnima perda de mpeto ser-me-ia fatal .
 As palavras ,

 os grupos de palavras que se sucedem exercem entre si a maior

 solidariedade .
 No me compete favorecer estas em detrimento daquelas .

 Quem deve intervir  uma miraculosa compensao : e ela intervm .

 No s esta linguagem sem reservas que procuro tornar sempre

 vlida , que me parece adaptar-se a todas as circunstncias da vida ,

 no s esta linguagem no me desfalca nenhum de meus recursos , mas

 ainda me confere uma extraordinria lucidez justo no domnio onde eu

 menos esperava dela .
 Posso at sustentar que ela me instrui , e com

 efeito j me aconteceu utilizar surrealmente palavras cujo sentido eu

 esquecera .
 Pude verificar depois que o uso feito por mim correspondia

 exatamente a sua definio .
 Isto poderia fazer crer que no se

 " aprende " , que sempre se " reaprende " .
 H expresses felizes com as

 quais assim me familiarizei .
 E no me referi  conscincia potica dos

 objetos que s pude adquirir pelo seu contato espiritual mil vezes

 repetido .

  ainda ao dilogo que as formas da linguagem se adaptam melhor .

 A , dois pensamentos se confrontam ; enquanto um ser revela , o outro se

 ocupa com ele , mas como ?
 Supor que o incorpore a si seria admitir que

 certo tempo lhe  possvel viver inteiramente deste outro pensamento ,

 coisa muito improvvel .
 De fato , a ateno que lhe  dada  toda

 exterior ; s tem ensejo de aprovar ou de desaprovar , geralmente

 desaprovar , com toda a deferncia de que o homem  capaz .
 Este modo de

 linguagem no permite , alis , chegar ao fundo de um assunto .
 Minha

 ateno , vtima de uma solicitao que no pode decentemente repelir ,

 trata o pensamento alheio como inimigo ; na conversao usual ela o

 " censura " quase sempre pelas palavras , pelas figuras de que se serve ;

 ela me pe em condies de tirar partido delas , desnaturando-as .
 Isto

  to verdade que em certos estados mentais patolgicos , onde os

 distrbios sensoriais afetam toda a ateno do doente , limita-se este ,

 que continua a responder s perguntas , a pegar a ltima palavra

 pronunciada junto dele , ou o ltimo membro de frase surrealista que

 deixou vestgio em seu esprito :

 " Que idade voc tem ?
 " - Tem ( Ecolalia )

 " Como voc se chama ?
 " - Quarenta e cinco casas ( Sintoma de Ganser ,

 ou das respostas absurdas )

 No h conversa onde no entre algo dessa desordem .. O esforo de

 sociabilidade a reinante e a nossa grande prtica  que nos disfaram

 esse fato , por pouco tempo .
 Tambm  a grande fraqueza do livro entrar

 sempre em conflito com seus melhores leitores , quero dizer , com os

 mais exigentes .
 No pequenssimo dilogo que acima improvisei , entre o

 mdico e o alienado ,  este , alis , quem leva vantagem : pois suas

 respostas o impem  ateno do mdico examinador - e no  o mais

 forte ?
 Talvez .
 Ele tem liberdade de no se importar com seu nome nem

 com sua idade .

 O surrealismo potico , ao qual consagro este estado , dedicou-se

 at agora a restabelecer o dilogo em sua verdade absoluta , isentando

 os dois interlocutores das obrigaes de cortesia .
 Cada um deles

 simplesmente prossegue em seu solilquio , sem procurar tirar da um

 prazer dialtico particular nem se impor a seu vizinho , de forma

 alguma .
 Os conceitos emitidos na conversa no visam , como geralmente ,

 o desenvolvimento de uma tese , to insignificante quanto se queira ,

 eles so to desafetados quanto possvel .
 Quanto  resposta que

 reclamam , ela  , em princpio , totalmente indiferente ao amor-prprio

 de quem falou .
 As palavras , as imagens no se oferecem seno como

 trampolim ao esprito de quem escuta .
  dessa maneira que devem se

 apresentar em Les Champs Magntiques , primeira obra puramente

 surrealista , as pginas reunidas sob o ttulo de Barrires nas quais

 Soupault e eu nos mostramos como estes interlocutores imparciais .

 O Surrealismo no permite queles que se entregam a ele que o

 abandonem a seu bel-prazer .
 Tudo leva a crer que ele atue no esprito

 como os estupefacientes : como eles , cria um certo estado de

 dependncia e pode impelir o homem a revoltas terrveis.Tambm  , se

 quiserem , um paraso artificial , e o prazer que nele se tem depende da

 crtica de Baudelaire ao mesmo ttulo que os outros .
 Assim tambm a

 anlise dos misteriosos efeitos e dos gozos particulares que ele pode

 produzir - em muitos aspectos o surrealismo aparece como um vcio

 novo , que no deve ser apangio de alguns homens apenas ; como o

 haxixe , ele pode satisfazer todos os delicados - e uma tal anlise no

 pode faltar neste estudo .

 1. Passa-se com as imagens surrealistas como as imagens do pio ,

 no mais evocadas pelo homem , mas que " se lhe oferecem ,

 espontaneamente , despoticamente .
 No pode manda-las embora , porque a

 vontade no tem mais fora e no mais governas faculdades " ( Ch.B. )

 Resta saber se alguma vez se " evocou " as imagens .
 Se a pessoa se

 apia , como eu fao , na definio de Reverdy , no parece possvel

 aproximar voluntariamente o que ele chama " duas realidades distintas " .

 A aproximao se faz ou no se faz , eis tudo .
 Nego , por minha parte ,

 de maneira mais formal , que em Reverdy imagens tais como :

 No regato corre uma cano

 ou

 O dia se desdobrou como uma toalha branca

 ou

 O mundo esconde-se num saco

 ofeream o mnimo grau de premeditao .
 Considero falso pretender que

 " o esprito discerniu as relaes " das duas realidades em presena .

 Para comear , nada  discernido conscientemente .
  da aproximao , por

 assim dizer , fortuita dos dois termos que fulgiu uma luz especial , a

 luz da imagem ,  qual somos infinitamente sensveis .
 O valor da imagem

 depende da beleza da centelha obtida ;  , por conseguinte , funo da

 diferena de potencial entre os dois condutores .
 Se esta diferena mal

 existe , como na comparao , a centelha no se produz .
 Ora , no est , a

 meu ver em poder do homem combinar a aproximao de duas realidades

 to distantes .
 O princpio da associao de idias , tal como o

 concebemos , ope-se a isso .
 Ou ento seria preciso voltar a uma arte

 elptica , condenada por Reverdy , como tambm por mim .
  foroso ,

 portanto , admitir que os dois termos da imagem no so deduzidos um do

 outro pelo esprito em vista da centelha a produzir , que eles so os

 produtos simultneos da atividade que denomino surrealista ,

 limitando-se a razo a constatar e a apreciar o fenmeno luminoso .

 E assim como a centelha aumenta quando produzida atravs de gazes

 rarefeitos , a atmosfera surrealista criada pela escrita mecnica , que

 fiz questo de colocar ao alcance de todos , presta-se especialmente 

 produo das mais belas imagens .
 Pode-se dizer at que as imagens

 aparecem nesta corrida vertiginosa como os guies nicos do esprito .

 Aos poucos o esprito se convence da suprema realidade das imagens .

 Limitando-se no comeo a lhes prestar sugesto , logo ele percebe que

 lisonjeiam sua razo , aumentam , outrossim , seu conhecimento .
 Ele toma

 conhecimento dos espaos ilimitados onde se manifestam seus desejos ,

 onde se reduzem sem cessar o pr e o contra , onde sua obscuridade no

 o atraioa .
 Ele vai , conduzido por estas imagens que o seduzem , que

 apenas lhe do tempo para soprar os dedos queimados .
  a mais bela das

 noites , a noite dos fulgores ; perto dela , o dia  a noite .

 Os tipos inumerveis de imagens surrealistas reclamariam uma

 classificao , que por hora no me disponho a tentar .
 Agrup-los

 conforme suas afinidades particulares me levaria longe ; pretendo levar

 em considerao , e essencialmente , sua virtude comum .
 No escondo que ,

 para mim , a mais forte  a que tem o mais elevado grau de arbitrrio ;

 a que exige mais tempo para ser traduzida em linguagem prtica , seja

 por conter uma enorme dose de contradio aparente , seja por ficar um

 de seus termos curiosamente disfarado , seja por se apresentar como

 sensacional e parea se desenlaar pouco ( fechando bruscamente o

 ngulo de seu compasso ) , seja porque retira dela mesma uma

 justificao formal derrisria , seja por ser de ordem alucinatria ,

 seja por ser de ordem alucinatria , seja por atribuir com naturalidade

 ao abstrato a mscara do concreto , ou inversamente , seja por implicar

 a negao de alguma propriedade fsica elementar , seja por provocar o

 riso .
 Eis , por ordem , alguns exemplos :

 O rubi do champanhe .
 Lautramont

 Belo como a lei da parada do desenvolvimento do peito nos adultos cuja

 propenso ao crescimento do peito nos adultos cuja propenso ao

 crescimento no tem relao com a quantidade de molculas assimiladas

 pelo seu organismo .
 Lautramont

 Uma igreja erguia-se , estrepitosa como um sino .
 Philippe Soupault

 No sono de Rose Slavy um ano surgido de um poo com ar soturno vem

 comer seu po com um moo no horrio noturno .
 Robert Desnos

 Sobre a ponte o orvalho com cara de gata se embalava .
 Andr Breton

 Um pouco  esquerda , em meu firmamento imaginado , vislumbro - ser

 apenas uma nvoa de sangue e morte - o brilhante fosco das

 perturbaes da liberdade .
 Louis Aragon

 Na floresta abrasada .
 Roger Vitrac

 A cor das meias de uma mulher no est obrigatoriamente  imagem de

 seus olhos , o que fez um filsofo ( intil nome-lo ) dizer : " Os

 cefalpodes tm mais razo que os quadrpedes para odiar o progresso : .

 Max Morise

 1. Que se queira ou no , h aqui matria para satisfazer a vrias

 exigncias do esprito .
 Todas estas imagens parecem comprovar que o

 esprito est maduro para outra coisa , diferente das benignas alegrias

 que ele geralmente se concede .
  a nica maneira que ele tem de fazer

 virar a seu favor a quantidade ideal de acontecimentos de que est

 carregado .
 Estas imagens lhe do a medida de sua dissipao ordinria

 e dos movimentos resultantes .
 No  mau que elas o desconcertar o

 esprito  coloca-lo no seu erro .
 As frases que citei providenciam

 bastante para isso .
 Saboreando-as , o esprito tira dessas frases a

 certeza de estar no caminho certo ; para ele prprio , ele no poderia

 condenar-se por argcia ; nada tem a temer , pois , alm de tudo , ele se

 sente capaz de alcanar tudo .

 2. O esprito que mergulha no surrealismo revive com exaltao a

 melhor parte de sua infncia .
 Para ele  um pouco como a certeza de

 quem , a ponto de morrer afogado , repassa em menos de um minuto todo o

 insupervel de sua vida .
 Diro que  muito animador .
 Mas no fao

 questo de animar quem me diz isso .
 Das recordaes de infncia e de

 algumas outras , vem um sentimento de no abarcado , e pois , de

 desencaminhado , que considero o mais fecundo que existe .
 Talvez seja a

 infncia que mais se aproxima da " vida verdadeira " ; a infncia alm da

 qual o homem s dispe , alm de seu salvo-conduto , de alguns bilhetes

 de favor ; a infncia onde tudo concorria entretanto para a posse

 eficaz , e sem acasos , de se si mesmo .
 Graas o surrealismo , parece que

 estas chances voltam .
  como se a pessoa ainda corresse para sua

 salvao , ou sua perda .
 Revive-se , na sombra , um terror precioso ,

 Graas a Deus , por enquanto  s o purgatrio .
 Atravessa-se em

 sobressalto , o que os ocultistas chamam de paisagens perigosas .
 Meus

 passos suscitam monstros que espreitam ; eles no esto ainda muito

 mal-intencionados a meu respeito , e no estou perdido , pois os temo .

 Eis " os elefantes com cabea de mulher e os lees voadores " que

 Soupault e eu ainda h pouco tremamos de medo de encontrar , eis o

 " peixe solvel " que ainda me assusta um pouco .
 PEIXE SOLVEL , no

 serei eu o peixe solvel , nasci sob o signo de Peixes e o homem 

 solvel em seu pensamento !
 A fauna e a flora do surrealismo so

 inconfessveis .

 3. No creio que esteja prximo de se estabelecer um decalque

 surrealista .
 Os caracteres comuns a todos os textos do gnero entre os

 quais aqueles que acabo de assinalar e muitos outros que s poderamos

 entender com anlise gramatical e anlise lgica cerradas , no se

 opem a uma certa evoluo da prosa surrealista no tempo .
 Vindo depois

 de inmeros ensaios aos quais nesse sentido me dedico h cinco anos ,

 e de que tenho a fraqueza de julgar extremamente desordenados pela

 maior parte , as historietas que formam a seqncia deste volume

 trazem-me uma prova-flagrante disso .
 Nem por isso as considero mais

 dignas de figurar aos olhos do leitor os benefcios que o subsdio

 surrealista  susceptvel de fazer sua conscincia realizar .

 Os meios surrealistas reclamariam , alis , uma ampliao .
 Tudo 

 bom para obter de certas associaes a desejvel subitaneidade .
 Os

 papis colados de Picasse e de Braque tm o mesmo valor que a

 introduo de um lugar-comum num desenvolvimento literrio do estilo

 mais castio .
  at mesmo permitido intitular POEMA o que se obtm

 pela agregao to gratuita quanto possvel ( observemos , faz favor , a

 sintaxe ) de ttulos e fragmentos de ttulos recortados dos jornais :

 POEMA

 Uma risada

 de safira na ilha de Ceilo

 As mais belas palhas

 Tm a cor esmaecida

 Na priso

 Numa fazenda isolada

 NO DIA-A-DIA

 agrava-se

 O agradvel

 Um caminho carrovel

 vos conduz ao desconhecido

 O Caf

 roga por si mesmo

 O ARTESO QUOTIDIANO DE VOSSA BELEZA

 Senhora ,

 um par

 de meias de seda

 no 

 Um salto no vazio

 UM CERVO

 Antes de tudo o amor

 Tudo poderia acabar to bem

 Paris  uma grande aldeia

 Vigial

 o fogo incubado

 a orao

 Sabei que

 os raios ultravioleta

 terminaram seu trabalho

 bom e rpido

 O PRIMEIRO JORNAL BRANCO

 DO ACASO

 Vermelho ser

 O cantor errante

 ONDE ESTAR ?

 na memria

 em sua casa

 NO BAILE DOS ARDENTES

 Fao

 danando

 O que se fez , o que se far

 E os exemplos poderiam ser multiplicados .
 O teatro , a filosofia , a

 cincia , a crtica ainda conseguiriam encontrar-se a .
 Quero logo

 dizer que as futuras tcnicas surrealistas no me interessam .

 Bem mais graves me parecem ser , j suficientemente o dei a

 entender , as aplicaes do surrealismo  ao .
 Claro , no creio na

 virtude proftica da palavra surrealista .
 " O que digo  orculo " : Sim ,

 enquanto eu quiser , mas o que  este mesmo orculo ?
 A devoluo dos

 homens no me engana .
 A voz surrealista que sacudia Cumes , Dodona e

 Delfos no  seno a que me dita os meus discursos menos irados .
 Meu

 tempo no deve ser o seu , porque iria ela ajudar-me a resolver o

 problema infantil de meu destino ?
 Finjo , por desgraa , agir em um

 mundo em que , para chegar a ter em consideraes suas sugestes , seria

 obrigado a passar dois tipos de intrpretes , uns para me traduzirem

 suas proposies , outros , impossveis de encontrar , para impor a meus

 semelhantes a compreenso que eu dele teria .
 Este mundo no qual eu

 suporto o que suporto ( e no queiram saber ) m este mundo moderno ,

 afinal , diabo , que querem que eu faa nele ?
 A voz surrealista se

 calar talvez , perdi a conta dos desaparecimentos .
 No entrarei mais ,

 nem um pouco , na discriminao maravilhosa de meus anos e de meus

 dias .
 Serei como Nijinski , conduzido no ano passado ao Balet Russo ,

 que no compreendeu a que espetculo assistia .
 Estarei s , bem s em

 mim , indiferente todos os bals do mundo .
 O que eu fiz , dou tudo para

 vocs .

 Desde logo , me d uma grande vontade de considerar com indulgncia

 o devaneio cientfico , afinal de contas , e a tantos respeitos , to

 inconvenientes .
 Os sem-fio ?
 No vejo malo nisso .
 Cinema ?
 Bravo !
 para

 as salas escuras .
 Guerra ?
 Bem que nos ramos .
 Telefone ?
 Al , sim .

 Mocidade ?
 Encantadores cabelos brancos .
 Procurem me fazer dizer

 " obrigado " .
 " Obrigado " Obrigado ...
 Se o vulgo d valor ao que  ,

 propriamente falando , pesquisa de laboratrio ,  que isto levou ao

 lanamento de uma mquina ,  descoberta de um soro , com os quais o

 vulgo se acha diretamente interessado .
 Ele no duvida , quiseram

 melhorar sua sorte .
 No sei quanto entra exatamente no ideal dos

 sbios de votos humanitrios , mas no me parece que isto constitua

 grande ato de bondade .
 Falo , bem entendido , dos verdadeiros sbios e

 no dos vulgarizadores de toda ordem que se fazem entregar um

 certificado .
 Creio que neste domnio como num outro , na pura alegria

 surrealista do homem que , advertido pelo fracasso sucessivo de todos

 os outros , no se d por vencido , parte de onde quer , e , por um

 caminho qualquer que no  razovel , chega onde pode .
 Tal ou tal

 imagem , com que ele julgar oportuno balizar sua marcha , e que talvez

 lhe valer o reconhecimento pblico , posso confessar que me 

 indiferente em si .
 O material com o qual ele precisa se atravancar to

 pouco me impressiona : seus tubos de vidro , minhas penas metlicas ...

 Quando a seu mtodo , para mim , troco pelo que vale o meu .
 Vi em ao o

 inventor do reflexo cutneo plantar : manipulava sem descanso seus

 pacientes , o que praticava era bem outra coisa que no um " exame " .

 era claro que ele no confiava mais em plano nenhum .
 Daqui e dali , ele

 formulava uma observao de modo distante , sem pr de lado sua agulha ,

 enquanto seu martelo corria sempre .
 O tratamento dos doentes , deixava

 ele ao cuidado dos outros esta tarefa ftil .
 Esava possudo dessa

 febre sagrada .

 O surrealismo , tal como o encaro , declara bastante o nosso

 no-conformismo absoluto para que possa ser discutido traz-lo , no

 processo do mundo real. , como testemunho de defesa .
 Ao contrrio , ele

 s pode justificar o estado completo de distrao da mulher em Kant , a

 distrao das " uvas " em Pasteur , a distrao dos veculos em Curie so

 a esse respeito profundamente sintomticos .
 Este mundo s

 relativamente est  altura do pensamento , e os incidentes deste

 gnero so apenas os episdios at aqui mais marcantes de uma guerra

 de independncia , da qual tenho o orgulho de participar .
 O surrealismo

  o " raio invisvel " que um dia nos far vencer os nossos adversrios .

 " No tremes mais , carcaa. " Neste vero as rosas so azuis , a madeira

  de vidro .
 A terra envolta em seu verdor me faz to pouco afeito

 quanto um fantasma .
 VIVER E DEIXAR DE VIVER  QUE SO SOLUES

 IMAGINRIAS .
 A EXISTNCIA EST EM OUTRO LUGAR .

