 Modernismo

 PR - MODERNISMO

 Denominamos genericamente de Pr - modernismo , ao perodo que

 sucedeu ao Realismo / Naturalismo , Parnasianismo e Simbolismo ,

 caracterizando-se pelo experimentalismo no campo das artes plsticas e

 tambm da literatura .

 II - Aspectos gerais :

 * Do ponto de vista econmico e poltico : perodo da poltica do

 caf-com-leite ; presena de imigrantes europeus e clima de medo ,

 prprio do perodo entre guerras ( Primeira guerra mundial

 1914-1918 )

 * Do ponto de vista artstico : influncia da vanguardas europias .

 - Cubismo ; Futurismo ; Expressionismo ; Dadasmo ; Surrealismo .

 III - Marco Inicial

 Na literatura brasileira , costuma-se dizer que o Pr-modemismo

 iniciou em 1902 , com as publicaes de Cana e Os Sertes de Graa

 Aranha e Euclides da Cunha respectivamente .

 Podemos elencar algumas das mais importantes caractersticas

 do Pr-modernismo :

 * Busca de uma linguagem simples ;

 * Sincretismo

 * Aparecimento de termos na poesia considerados antilricos ;

 * Redescobrimento das regies brasileiras na literatura .

 IV - Principais autores e obras :

 * Euclides da Cunha - Os Sertes .

 * Graa Aranha - Cana

 * Lima Barreto - Triste Fim de Policarpo Quaresma

 * Monteiro Lobato - Urups e Outros contos infantis

 * Augusto dos Anjos - Eu

 OBS : Augusto dos Anjos , apesar de ser aqui enquadrado como

 Pr-modernista ,  um autor de difcil enquadramento nas escolas

 literrias por ns at aqui estudadas .
 A leitura e comentrio do poema

 abaixo , compreenderemos porque se trata de um autor atpico e

 polmico .

 Versos ntimos

 Vs ?!
 Ningum assistiu ao formidvel

 Enterro de tua ltima quimera .

 Somente a ingratido - esta pantera

 Foi tua companheira inseparvel

 Acostuma-te  lama que te espera !

 O homem , que , nesta terra miservel ,

 Mora , entre feras , sente inevitvel

 Necessidade de tambm ser fera

 Toma o fsforo , acende teu cigarro !

 O Beijo , amigo ,  a vspera do escarro .

 A mo que afaga  a mesma que apedreja .

 Se a algum causa inda pena a tua chaga ,

 Apedreja essa mo vil que te afaga ,

 Escarra nessa boca que te beija

 Tecnicamente :

 Verso livre

 Rima livre

 Vitria do dicionrio .

 Esteticamente :

 Substituio da Ordem Intelectual pela Ordem Subconsciente .

 ( Mrio de Andrade )

 O que se conhece , hoje , como arte do sculo XX , teve

 repercusso posterior  Primeira Grande Guerra , datando , portanto , da

 dcada de 20 .
 Nesta , acontece uma cesura na arte , mais radical do que

 qualquer outra mudana de estilo ocorrida ao longo de sua histria .

 At ento , a despeito de todas as alteraes nas normas estticas , a

 relao de correspondncia da arte com a vida e a fidelidade da obra

 esttica  natureza no haviam sido , jamais , questionadas .
 Depois do

 Impressionismo , mas como decorrncia das experincias que nele se

 iniciaram , a arte renunciou ao papel de reprodutora da realidade : j

 no copia o real , interpreta-o .

 Diz-se que o processo se inicia no Impressionismo porque , j

 na prevalncia desse estilo , a atitude descritiva perante a natureza e

 a realidade comea a ser abalada .
 As diversas tendncias estticas

 dessa poca - Cubismo , Futurismo , Dadasmo , Surrealismo , etc. - negam

 qualquer princpio naturalista , defendendo a existncia de uma

 fronteira entre o mundo real objetivo e o mundo subjetivo da obra de

 arte .
 Nessa medida , a arte , quando se volta para a natureza ,  para

 infringi-la , no obedecendo s leis naturais .
 A representao

 artstica , rompendo com os meios de expresso convencionais , passa a

 obedecer , apenas , a suas prprias leis .

 O Modernismo no  um estilo , no rigor do termo , mas um

 complexo de estilos de poca que apresentam alguns pontos

 coincidentes .
 Esses pontos em comum no independem do fato de que , no

 nosso sculo , o conhecimento sofreu uma grande ruptura a que concorreu

 a teoria da relatividade de Einstein ; a teoria psicanaltica de Freud ;

 a filosofia de Nietzsche e a teoria econmica de Marx .
 Comum a todas 

 o questionamento do lugar do homem como sujeito do conhecimento .
 O

 abalo provocado por esse questionamento se reflete , de modo especial ,

 na manifestao artstica .

 O Futurismo teve , entre ns , grande influncia .
 A tendncia

 surgiu com o Manifesto Futurista , assinado por Marinetti , em 1909 .

 Combatendo veementemente o academicismo e toda e qualquer manifestao

 tradicional , o Futurismo vincula a arte  nova civilizao tcnica

 emergente .
 Nessa poca , surgem os primeiros avies de porte e os

 primeiros transatlnticos ; a radiofonia se torna relativamente

 potente ; fazem-se as primeiras experincias cinematogrficas e

 desenvolve-se o telgrafo .

 Com esse pano de fundo , os futuristas propem uma poesia

 baseada na exaltao da agressividade e da audcia ; na abominao do

 passado ; na exaltao  guerra e ao militarismo ; no culto s fbricas

 e s mquinas .
 No plano da linguagem , postulavam : a destruio da

 sintaxe ; a preferncia pelo verbo no infinitivo para dar idia de

 continuidade ; rejeio do adjetivo ; abolio de todas as

 metforas-clichs ; supresso do " eu " individualizante ; liberdade na

 criao de imagens e analogias ; ausncia de controle sinttico e de

 limites de pontuao .

 Em 1919 , ano em que se inicia o movimento fascista , os

 futuristas aderem a essa proposta poltica , tornando-se seus

 porta-vozes .
 Oswald de Andrade ( 1890-1954 ) torna conhecido , entre ns ,

 o Futurismo , para escndalo , inclusive entre seus prprios

 companheiros modernistas .
 A rigor , nossos modernistas no eram

 futuristas .
 Foram , contudo , assim denominados pela repulsa que

 manifestavam  arte passadista , O rtulo passou a distinguir o

 grupinho intelectual de So Paulo dos nossos literatos beletristas e

 conservadores .
 O romance Memrias sentimentais de Joo Miramar , de

 Oswald de Andrade , apresenta passagens que tm sido identificadas como

 representativas da influncia futurista pela semelhana com os textos

 de Marinetti :

 Estiadas amveis iluminavam instantes de cus sobre ruas molhadas de

 pipilos nos arbustos dos squares .
 Mas a abboda de garoa desabava os

 quarteires .

 O Cubismo  um movimento de vanguarda , de incidncia

 facilmente identificvel nas artes plsticas , a partir do quadro de

 Pablo Picasso , " As senhoritas de Avignon " , de 1907 .
 O Cubismo decompe

 os objetos para recomp-los segundo uma lgica prpria , que no

 obedece s leis naturais .
 A deformao do objeto se d por via de

 geometrizao .
 A transposio desse estilo  literatura , conforme se

 pode observar na obra de Apollinaire ( 1880-1918 ) , assim como na de

 Jean Cocteau ( 1889-1963 ) , apresenta as seguintes caractersticas :

 supresso da discursividade lgica e do nexo causal ; predomnio da

 realidade pensada sobre a realidade aparente ; esttica fragmentria

 que , decompondo o objeto , seleciona e enfatiza os detalhes ,

 recarregando-os de expressividade .
 Esta composio de Oswald de

 Andrade  representativa :

 Buclica

 Agora vamos correr o pomar antigo

 Bicos areos de patos selvagens

 Tetas verdes entre folhas

 E uma passarinhada nos vaia

 Num tamarindo

 Que decola para o anil

 rvores sentadas

 Quitandas vivas de laranjas maduras

 Vespas

 O Dadasmo , por sua vez , constitui a mais radical nagao de

 todos os meios de comunicao .
 Juntamente com o Surrealismo , afirma a

 impossibilidade de que algo objetivo , formal e lgico possa expressar

 a verdade do homem .
 Paralelamente , Dadasmo e Surrealismo questionam a

 prpria natureza da arte .
 Por fora de reconhecer a inexpressividade

 das formas culturais , o dadasta prope a total destruio da arte e o

 retorno ao caos .

 O Dadasmo teve incio em Zurique , em 1916 , com o manifesto de

 Tristan Tzara , primeiro de uma sequncia de seis .
 Contudo , o auge do

 movimento s ocorreu em 1920 , quando congressos e publicaes deram

 maior destaque  proposta .
 A respeito da palavra " dada " , explica

 Tzara :

 meu propsito foi criar apenas uma palavra expressiva que atravs de

 sua

 magia fechasse todas as portas  compreenso e no fosse apenas mais

 um -

 ISMO .

 A abolio da lgica e do patrimnio cultural acumulado , assim

 como a proposta de destruio da prpria arte , constitui uma atitude

 demolidora cujos objetivos apenas um grupo de iniciados conhece .
 O

 movimento apia-se numa contradio : quer comunicar um repdio por via

 de uma no-comunicao .
 Este poema de Tzara pode ser elucidativo :

 Para fazer um poema dadasta

 Apanhe um jornal .

 Apanhe a tesoura .

 Escolha nesse jornal um artigo

 com a extenso que voc espera

 dar o seu poema .

 Recorte o artigo .

 Recorte em seguida com cuidado cada uma

 das palavras que compem tal artigo e

 coloque-as numa bolsa .

 Agite lentamente .

 Retire em seguida cada recorte um

 aps outro .

 Copie conscientemente

 na ordem em que eles sarem da bolsa .

 O poema se parecer com voc .

 E eis voc infinitamente

 Original e de uma sensibilidade encantadora

 Ainda que no compreendida pela gente vulgar .

 O niilismo dadasta se tornou , depois de um tempo ,

 insustentvel , tomando seu lugar , entre as vanguardas europias , o

 Surrealismo .
 Sob a gide de Andr Breton ( 1896-1970 ) , so expostos ,

 atravs de manifestos , os fundamentos tericos dessa tendncia .
 Foram

 agenciados para constituir esses fundamentos a tradio romntica por

 um lado ; Freud , Marx , o esoterismo , a revolta dadasta e toda e

 qualquer manifestao de recusa  hegemonia da Razo por outro lado .
 

 semelhana dos dadastas , os surrealistas no vem a arte como algo

 srio , vem , contudo , um possvel aproveitamento da arte , se ela for

 usada como veculo de penetrao no inconsciente , possibilidade de

 mergulho no mundo onrico , cujas leis so distintas daquelas que regem

 a vida de viglia , uma vez que , no sonho , a lgica racional  abolida .

 Propem a escrita automtica , sem controle intelectual , solta ao sabor

 da livre associao , posta em voga pela psicanlise , propiciando o

 fluir das idias sem o freio da disciplina sinttica , assim como de

 qualquer tolhimento racional , moral ou esttico .

 Como consequncia , o verso como unidade desaparece e , com ele ,

 as convenes rtmicas e rmicas .
 Cabe , ento ,  poesia colocar em

 xeque os princpios do pensamento ocidental , assim como seus

 pressupostos de reproduo .
 A poesia se assume como pensamento

 autnomo , regido por suas prprias leis .

 A partir de Baudelaire e Rimbaud , na Frana , e de Hlderlin

 ( 1770-1843 ) , na Alemanha , a literatura passa a recusar a pretendida

 universalidade da Razo .
 A imaginao  convocada a assumir o lugar de

 frente e demolir as bases do pensamento ocidental .
 Com ela ,

 recuperariam os surrealistas as foras psquicas primitivas , prximas

 ao sonho e  loucura .

 No Brasil , no houve Surrealismo nem Dadasmo como um sistema .

 Temos , contudo , manifestaes espordicas dessas vanguardas .
 Um de

 nossos poetas mais cerebrais , Joo Cabral de Melo Neto , em Pedra do

 Sono , datado de 1942 , compe poemas com inegveis traos surrealistas ,

 como se pode observar nesta estrofe de " Dentro da perda da memria " .

 E nas bicicletas que eram poemas

 Chegavam meus amigos alucinados .

 Sentados em desordem aparente ,

 ei-los a engolir regularmente seus relgios

 enquanto o hierofante armado cavaleiro

 movia inutilmente seu nico brao .

 A considerao das vanguardas permite a identificao de

 algumas caractersticas bsicas a uni-las , conforme observa Jos

 Guilherme Melquior ( Os estilos histricos na literatura ocidental .
 In :

 PORTELLA , E. et alii. Teoria literria .
 Rio de Janeiro , Tempo

 Brasileiro , 1975 ) .
 So elas :

 1 .
 a emergncia de uma concepo ldica da arte

 Para o artista romntico e ps-romntico , a arte tinha um

 compromisso com a salvao espiritual do homem , o que conferia  obra

 algo de religiosidade que permitia a regenerao da alma .
 Em autores

 to diversos quanto Ibsen , Tolstoi , Melville , Mallarm percebe-se uma

 concepo da arte como uma espcie de magia superior e redentora -

 como  , especialmente , o caso de Mallarm - e como procura da verdade

 e da felicidade .

 No perodo conhecido como modernista , a arte-magia se converte

 em arte-jogo .
 E , em lugar da atitude esttico-religiosa , encontra-se

 um ludismo irnico .

 Toda a arte moderna tende a brincar com seus temas - mesmo

 quando os leva terrivelmente a srio .
 A arte oitocentista visava 

 empatia ; a arte moderna persegue o distanciamento .

 A viso tragicizante do destino , cultivada acentuadamente no

 sculo XIX , cede lugar  viso grotesca e antitrgica de Gide

 ( 1869-1951 ) , Kafka ( 1883-1924 ) , Thomas Mann ( 1875-1955 ) , Joyce

 ( 1882-1941 ) ou Borges ( 1889-1986 ) .

 Alm de brincar com seus temas , a arte moderna brinca com a

 forma , caracterizando-se por ser experimentalista .
 O jogo das

 linguagens experimentais s se torna possvel com a dessacralizao da

 forma , que deixa de lado o " acabamento " e o " bem-feito " .
 Mais que

 esses resultados , passou a interessar o jogo esttico .
 Nesse jogo , o

 leitor  chamado a participar quase como co-autor .

 2 .
 a tendncia  figurao " mtica "

 A literatura moderna abandona a figurao individualizadora

 para adotar , em seu lugar , " o estilo mtico " , ou seja , a representao

 de cenas e personagens por traos genricos , abstratos e

 despersonalizadores .
 A obra de Kafka exemplifica fartamente essa

 caracterstica do Modernismo .

 3 .
 o predomnio da figurao alegrica

 Por figurao alegrica entende-se , aqui , o modo de figurar

 que alude ao reprimido pelas censurar internas e externas da

 sociedade .

 Nisso , alis , os artistas modernos seguiram Freud com

 ortodoxia impecvel : pois Freud singulariza o inconsciente

 precisamente por sua natureza de psiquismo recalcado , censurado , que o

 distingue de mero subconsciente .
 Nesse sentido , toda a arte moderna

 foi vocacionalmente surrealista , toda ela compreendeu o princpio da

 realidade como uma coao , uma limitao das possibilidades vitais do

 homem ; toda ela concebeu a autonomia do imaginrio em termos de

 revolta existencial , de revoluo cultural .

 Se , mais uma vez , pode-se evocar a obra de Kafka , caba

 registrar , tambm , a de James Joyce , Eugene O'Neill ( 1888-1953 ) ,

 Samuel Beckett ( 1906 ) , Luigi Pirandello ( 1867-1936 ) , Garcia Loca

 ( 1889-1936 ) , Fernando Pessoa ( 1888-1935 ) .

 No Brasil , o Modernismo costuma ser dividido em duas geraes .

 Na primeira , a poesia tem a proeminncia , a partir da Semana da Arte

 Moderna , em 1922 , e graas  liderana de Mrio de Andrade e Oswald de

 Andrade e  presena de Manuel Bandeira .
 Na segunda gerao , por volta

 de 1930 , a fico brasileira  enriquecida com a obra de Graciliano

 Ramos , Jos Lins do Rgo , Jorge Amado , rico Verssimo , Raquel de

 Queirs .
 Na poesia , destacam-se os nomes de Jorge de Lima , Murilo

 Mendes e Carlos Drummond de Andrade .

 Um estudo sobre perodos literrios revela a oscilao dos

 parmetros ideolgicos e estticos ao longo do tempo .
 Essa oscilao ,

 por sua vez , denota , por um lado , a relatividade dos padres ; por

 outro , o condicionamento da literatura a fatores que extrapolam o

 meramente esttico , situando-se no histrico , no social , no poltico ,

 no psicolgico , etc. , de tal forma que o estudo aprofundado do assunto

 conduziria a uma investigao interdisciplinar , sob pena de ,

 circunscrevendo-se a questo , reduzir-se a complexidade dos problemas .

 A designao das pocas como barroca , neoclssica , romntica ,

 simbolista , modernista , etc. , obedeceu a um critrio tipolgico e ,

 como tal , generalizador e posterior aos fenmenos literrios .
 A voz

 que , no texto literrio , fala , se , por um lado , apresenta

 caractersticas catalogveis em poca e estilos , tem , por outro , sua

 permanncia assegurada apenas na medida em que firma uma dico

 prpria na soma dos discursos que constituem a literatura .

 O MODERNISMO PORTUGUS

 O contexto ...

 O surgimento do Modernismo em Portugal est associado  grande

 instabilidade poltica da primeira Repblica , iniciada em 1910 , depois

 do assassinato do rei Carlos X .
 O movimento constitui uma espcie de

 resposta esttica de setores sociais urbanos mais cosmopolitas e

 inovadores  situao poltico-social .

 Alm dessas questes , os anos da Primeira Guerra foram

 bastante difceis , pois Portugal teve dificuldades para manter suas

 colnias ultramarinas , cobiadas pelas grandes potncias .

 A instabilidade interna , agravada por greves freqentes , o

 deflagrar da guerra e a disputa pelas colnias , fez que se

 desenvolvesse um forte sentimento nacionalista , baseado no saudosismo

 das antigas glrias martimas e no arraigado sebastianismo .
 Tudo isso

 impregnou a produo do primeiro Modernismo portugus , iniciado em

 1915 , com a publicao da revista Orpheu .

 As etapas do Modernismo em Portugal .

 O primeiro momento modernista : Orfismo ( 1915 - 1927 )

 A cronologia do Modernismo portugus  marcada pela publicao

 de duas revistas : Orpheu e Presena .

 Orpheu

 inicia a primeira gerao modernista , contempornea das vanguardas

 europias , cujos maiores expoentes so Fernando Pessoa , Mrio de S

 Carneiro e Almada Negreiros .

 O Modernismo de Orpheu foi um movimento tipicamente lisboeta ,

 que se colocava contra a poesia simbolista e neo-romntica .

 Irreverente , questionava o provincianismo portugus , preocupado apenas

 com o pitoresco regional de um nacionalismo exagerado .
 Buscava

 sintonia com os movimentos da vanguarda europia .
 As tendncias

 artsticas presentes em Orpheu eram diversificadas , reunindo velhos e

 novos valores .
 Ao mesmo tempo que se viam valores simbolistas e

 decadentistas do final do sculo XIX , via-se tambm a reformulao

 desses valores , orientada pelas novidades trazidas pelo Futurismo e o

 Cubismo .

 O segundo momento : Presencismo ( 1927 - 1940 )

 Esse momento articulou-se em torno da revista Presena .

 Promovendo uma literatura de cunho mais intimista , o grupo do

 presencismo no chegou a se opor ao orfismo , representando muito mais

 uma continuao da proposta inicial do modernismo .
 Nessa fase ,

 destacam-se Jos Rgio , Branquinho da Fonseca e Irene Lisboa .

 O terceiro momento ( 1940 - 1947 )

 O grupo que se reuniu a partir de 1940 pretendeu afastar-se do

 intimismo e da subjetividade e fazer uma literatura marcadamente

 social .
  o chamado neo-realismo .
 Destacam-se , nesta fase , alm de

 Fernando Namora , Alves Redol e Verglio Ferreira .

 O quarto momento ( 1947 - dias atuais )

 Em antagonismo  literatura social , surgiu um grupo

 surrealista , cujas obras foram reunidas em Lisboa a partir de 1949 .

 Destacando elementos surreais , esse grupo se valeu da subjetividade .

 Pertence a esse momento o poeta Jos Augusto Frana entre outros .

 Atualmente , a literatura portuguesa tem como um de seus expoentes o

 escritor Jos Saramago ( Memorial do Convento e Jangada de pedra ) , o

 qual foi Nobel de literatura recentemente .

 Fernando Pessoa - - vida e obra .

 Nascido em Lisboa , no dia 13 de junho de 1888 , Fernando

 Antnio Nogueira de Seabra Pessoa ficou rfo do pai , Joaquim de

 Seabra Pessoa , antes de completar seis anos de idade .
 Em 1894 , perdeu

 o irmo mais novo ; em seguida , sua me Maria Madalena , casa-se

 novamente com um cnsul residente na frica do Sul .
 Por esse motivo ,

 me e filho viajam para a frica em 1896 .
 Depois de ter cumprido os

 estudos primrios e a comunho , Pessoa cursa o segundo grau na Durban

 High School .
 A adquiriu sua base literria : Milton , Shelley e

 Shakespeare , entre outros autores .

 Aos dezoito anos , de volta a Portugal , Pessoa redescobre sua

 cultura e sua literatura , principalmente a poesia de Cesrio Verde ,

 Antnio Nobre e Camilo Pessanha .

 Algum tempo mais tarde , ciente de sua inabilidade para os

 negcios , Pessoa comea a exercer , em 1908 , a atividade de

 " correspondente estrangeiro " , funcionrio avulso , encarregado de

 correspondncias comerciais , em francs e ingls .

 Apesar de ser o fenmeno da heteronmia ( fragmentao anmica

 de Pessoa em trs outros poetas : Ricardo Reis , Alberto Caeiro e lvaro

 de Campos ) , um dos dados mais polmicos da potica do autor ,

 reservaremos nosso estudo  obra de Pessoa ortnimo ( ele-mesmo ) .

 Poeta lrico e nacionalista , Fernando Pessoa , ele mesmo ,

 cultivou uma poesia voltada para os temas tradicionais de Portugal e

 ao seu lirismo saudosista , que expressa reflexes sobre seu " eu

 profundo " , suas inquietaes , sua solido , seu tdio .
 A temtica

 desenvolvida por Pessoa relaciona-se a uma nsia de conhecer , de saber

 mais e a conscincia de que a angstia  o cerne da natureza humana .

 Poeta da mgoa .

 Na obra Cancioneiro , Pessoa identifica-se com a produo

 lrica portuguesa , desde a Idade Mdia , revelando-se um poeta da

 mgoa .

 " Biam leves , desatentos ,

 Meus pensamentos de mgoa ,

 Como , no sono dos ventos ,

 As algas , cabelos lentos

 Do corpo morto das guas " .

 Seus poemas expressam uma negao constante , o que chega a

 desmantelar a objetividade do eu-lrico .
 H , em muitos de seus textos ,

 um padecer : o de quem se procura .

 " Paro  beira de mim e me debruo "

 Algo semelhante foi expresso na dcada de 80 , pelo poeta

 Renato Russo .

 " Quero me encontrar mas no sei onde estou "

 Nacionalismo mtico .

 Em Mensagem , obra publicada em 1934 , o poeta faz uma rplica

 de Os Lusadas a partir de uma perspectiva nacionalista mstica .

 Atuando como um verdadeiro sebastianista , prega a volta de el-rei D .

 Sebastio - morto na frica em 1578 - para restaurar Portugal .

 Textos do autor

 Texto 1

 Cancioneiro .

 Autopsicografia

 O poeta  um fingidor

 Finge to completamente

 Que chega a fingir que  dor

 A dor que deveras sente

 E os que lem o que escreve ,

 Na dor lida sentem bem ,

 No as duas que ele teve ,

 Mas s a que eles no tm

 E assim nas calhas de roda

 Gira a entreter a razo

 Esse comboio de corda

 Que se chama o corao .

 Mensagem

 Texto 2

 Os Castelos

 Primeiro / Ulisses

 O mito  o nada que  tudo .

 O mesmo sol que abre os cus

  um mito brilhante e mudo _

 O corpo morto de Deus ,

 Vivo e desnudo .

 Este , que aqui aportou ,

 Foi por no ser existindo .

 Sem existir nos bastou .

 Por no Ter vindo foi vindo

 E nos criou .

 Assim a lenda se escorre

 A entrar na realidade ,

 E a fecund-la decorre .

 Em baixo , a vida , metade

 De nada , morre .

 Mensagem .

 X Mar Portugus .

  mar salgado , quanto do teu sal

 So lgrimas de Portugal !

 Por te cruzarmos , quantas mes choraram ,

 Quantos filhos em vo rezaram !

 Quantas noivas ficaram por casar

 Para que fosses nosso ,  mar !

 Valeu a pena ?
 Tudo vale a pena

 Se a alma no  pequena .

 Quem quer passar alm do Bojador

 Tem que passar alm da dor .

 Deus ao mar o perigo e o abismo deu ,

 Mas nele  que espelhou o cu .

 Cancioneiro

 Ela canta , pobre ceifeira ,

 Julgando-se feliz talvez ;

 Canta e ceifa , e a sua voz , cheia

 De alegre e annima viuvez .

 Ondula como um canto de ave

 No ar limpo como um limiar ,

 E h curvas no enredo suave

 Do som que ela tem a cantar .

 Ouvi-la alegra e entristece

 Na sua voz h o campo e a lida ,

 E canta como que tivesse

 Mais razes p'ra que a vida .

 Ah , canta , canta sem razo !

 O que em mim sente ` st pensando .

 Derrama no meu corao

 A tua incerta voz ondeando !

 Ah , poder ser tu , sendo eu !

 Ter a tua alegre inconscincia ,

 E a conscincia disso !
  cu !

  campo !
  cano !
 A cincia

 Pesa tanto e a vida  to breve !

 Entrai por mim dentro !
 Tornai

 Minha alma a vossa sombra leve !

 Depois , levando-me , passai !

 Fragmentos do Livro do Desassossego .

 1

 Lembro-me de quando era criana e via , como hoje no posso ver ,

 a manh raiar sobre a cidade .
 Ela ento no raiava para mim , mas para

 a vida ,

 porque ento eu ( no sendo consciente ) era a vida .
 Via a manh , e

 tenho alegria ;

 hoje vejo a manh , e tenho alegria , e fico triste .

 Eu vejo como via , mas por traz dos olhos vejo-me vendo e s com isso

 se obscurece o sol

 O verde das rvores  velho e as flores murcham antes de aparecidas .

 2

 Eu agi sempre ...

 Eu agi sempre para dentro , eu nunca toquei na vida

 Nunca soube como se amava , apenas soube como se sonhava amar

 Se eu gostava de usar anis de dama nos meus dedos ,  que s vezes eu

 queria

 Julgar que as minhas mos eram de princesa

 Gostava de ver a minha face refletida porque eu podia sonhar que era a

 face de outra criatura .

 O Modernismo no Brasil

 A Modernidade

 O perodo que , no Brasil ,  chamado de Belle poque , vai de

 1889 , data da Proclamao da Repblica , at 1922 , ano em que se

 realizou a Semana de Arte Moderna .

 Este perodo se caracteriza pelo surgimento de urna nova

 produo artstica no Brasil que acontece concomitante a um conjunto

 de profundas transformaes ocorridas na sociedade brasileira , a qual ,

 no espao de algumas dcadas , havia presenciado a abolio da

 escravatura , a proclamao da Repblica , o crescimento da imigrao , o

 surgimento da indstria e a modernizao das cidades .

 O modernismo  urna das expresses desse novo Brasil .
 Os

 artistas e intelectuais aspiram colocar a cultura brasileira em

 sintonia com a nova poca e esse projeto ambicioso ser um dos

 responsveis pela formao de urna nova conscincia cultural

 brasileira .
 Entretanto , a introduo das idias modernas no se deu

 por um programa sistemtico de renovao .
 Sofreu , sim , inmeras

 hesitaes e dificuldades diante de um ambiente cultural retrgrado e

 da produo de urna arte acadmica .

 Nessa poca , o centro cultural do pas era o Rio de Janeiro ,

 onde , ao lado do governo , estavam as principais instituies culturais

 ( Academia Brasileira de Letras , Escola Nacional de Belas Artes ) .

 Para o Rio de janeiro convergiam pessoas de todo o pas e a

 cidade era , ao mesmo tempo , plo de atraco e modelo para as capitais

 estaduais .
 O sistema de arte estava enraizado nas tradies de suas

 instituies culturais .
 J a importncia de So Paulo era mais recente

 e decorria do rpido crescimento pelo qual a cidade passou na virada

 do sculo , o que implicou numa vida cultural menos estratificada ,

 embora baseada nos mesmos princpios das do Rio de Janeiro .
 So Paulo

 vivia um momento prspero .
 Tornou-se importante centro ferrovirio ,

 comercial e poltico e , alm disso , ultrapassava o Rio em quantidade

 de indstrias .
 Em poucos anos adquire um aspecto de cidade do sc. XX ,

 provocando um novo ritmo no cotidiano das pessoas e abrindo uma nova

 relao com o espao. isso tornava mais evidente o descompasso entre a

 arte que era produzida ainda dentro dos moldes a acadmicos e a

 modernidade do ambiente urbano .

 Todos estes aspectos justificam o porque da arte moderna ter

 surgido em So Paulo e no no Rio de Janeiro .
 A exposio de Anita

 Malfatti em 1917 , com suas telas expressionistas ,  o principal

 detonador do movimento modernista no Brasil .

 Anita Malfati , recm chegada da Europa e dos Estados Unidos ,

 realizou urna exposio individual considerada como estopim da

 modernidade .
 Suas obras apresentavam traos do Expressionismo e do

 Cubismo que modificavam a antiga " arte do retrato " e a descrio da

 natureza .
 Suas pinturas j incorporavam os princpios bsicos da arte

 moderna ( deformao do desenho , tratamento sem distino da

 figura-fundo , abandono do claro escuro , ocupao da tela valorizando o

 espao etc ...
 ) .
 Devido a isso , Malfati foi duramente atacada pela

 critica , em especial por Monteiro Lobato , em seu artigo " parania o

 mistificao " .
 Sua carreira modernista foi curta , mas de grande

 significado para o desenvolvimento da esttica modernista .

 A Semana da Arte Moderna

 Grande acontecimento no mbito da criao cultural no Brasil ,

 a Semana da Arte Moderna aconteceu no Teatro Municipal de So Paulo ,

 nos dias 13 , 15 e 17 de fevereiro de 1922 .
 Da exposio participaram

 Anita Malfati , Di Cavalcanti , Almeida Prado , Brecheret , John Graz ,

 Manuel Bandeira , Oswald de Andrade , Mrio de Andrade , Vila-Lobos entre

 outros .

 A conferncia de abertura foi de Graa Aranha .
 Na segunda

 noite , Oswald de Andrade leu fragmentos da poesia " Pau-Brasil " , Mrio

 de Andrade recitou alguns trechos de " Paulicia " e Vila Lobos provocou

 um escndalo por ter incorporado aos instrumentos tradicionais da

 orquestra , outro totalmente inesperados , como material de congada ,

 tambores e uma folha vibratria de zinco .
 Na terceira e ltima noite ,

 Vila Lobos reapareceu com um programa menos ousado e aceito pelo

 pblico .

 A Semana de Arte Moderna , no pode ser entendida como um

 acontecimento isolado , dado que a partir dela  que os projetos

 maiores da primeira fase do Modernismo sero divulgados : destronar a

 cultura acadmica e Parnasiana ; estabilizar uma conscincia critica

 nacional ; difundir as bases de uma literatura genuinamente brasileira .

 A Semana ecoou na imprensa e abriu caminho para a difuso dos

 princpios fundamental do modernismo brasileiro .

 Algumas das Caractersticas da Linguagem Modernista

 * Fragmentao e Flashes cinematogrficos -

 Procurando copiar a realidade e a simultaneidade dos diferentes

 planos da realidade , marcada pelo dinamismo da vida .

 Capoeira

 - Qu apanh Sordado ?

 - O qu ?

 - Qu apanh ?

 * Pernas e cabeas na calada .

 * Sntese :

 Linguagem modernista em geral  contrria a adjetivao abundante ,

 busca-se a frase curta .

 AMOR

 Humor

 * busca de urna linguagem brasileira :

 Desprezo pelas rgidas regras gramaticais e especialmente das regras

 ditadas pela gramtica lusitana , objetivando aproximar a lngua

 escrita da lngua falada .

 A Vida no me chegava pelos jornais nem pelos livros

 Vinha da boca do povo

 Lngua certa do povo porque ele  que fala gostoso o portugus do b

 rasil ao passo que ns

 O que fazemos

  macaquear a sintaxe lusada .

 * Nacionalismo :

 Os primeiros modernistas interessam-se por temas brasileiros .

 metamorfose

 Meu av foi buscar prata Mas prata virou ndio

 Meu av foi buscar ndio Mas o ndio virou ouro

 Meu av foi buscar ouro mas o ouro virou terra

 Meu av foi buscar terra E a terra virou fronteira

 Meu av ainda intrigado , Foi modelar a fronteira :

 E o Brasil tomou forma de Harpa .

 * Ironia , Humor , Piada :

  a tentativa dos modernistas de unir crtica e bom-humor .

 Senhor feudal

 Se Pedro Segundo vier aqui com histria eu boto ele na cadeia .

 * Urbanismo :

 Influenciados pelo futurismo , apreciam temas relacionados  cidade e

 seus aspectos .

 Joo gostoso era carregador de feira livre e morava no morro

 da Babilnia num barraco sem nmero

 Urna noite ele chegou no bar vinte de novembro

 bebeu Cantou , Danou depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e

 morreu afogado .

 M. bandeira

 Fases do movimento no Brasil

 O modernismo no Brasil , costuma ser dividido em 3 fases : a

 primeira fase vai de 1922 a 1930 , a segunda vai de 1930 a 1945 e a

 terceira vai de 45 at 1950 , com o surgimento de vanguardas da

 ps-modernidade .
 Vale dizer que isso  apenas um recurso didtico , j

 que os poetas de uma determinada fase continuaram produzindo e

 passando por diversas tendncias

 A primeira fase ( 1922-30 ) tambm chamada de fase herica

 prope o combate e a destruio da literatura acadmica com sua

 linguagem pomposa ; busca da libertao , da inovao na linguagem , bem

 como a va1orizao potica do cotidiano .
 Este momento  de afirmao

 dos valores estticos .

 Esse perodo foi marcado ainda por uma verdadeira orgia

 intelectual , muito bem representada pela srie de revistas e

 manifestos publicados no perodo .
 Dentre eles a revista Esttica , a

 Verde e a Klaxon ( publicada logo aps a Semana ) , e os manifestos

 Pau-brasil ( o qual pregava a poesia de exportao ) e o manifesto

 Antropofgico ( promovendo a devorao da cultura estrangeira sem a

 perda da identidade brasileira ) .

 A segunda fase ( 1930-45 ) tambm chamada de fase construtiva

 caracteriza-se por ser urna literatura voltada para preocupaes

 ideolgicas , filosficas , e metalingsticas .
  um tempo de

 consolidao da esttica Moderna .

 A terceira fase ( 1945-50 ) tambm chamada de " Gerao de 45 " .

 Nela observa-se a preocupao com o verso apurado , o senso de medida e

 de coeso ; a preocupao existencial e metalingstica .

 Os poetas do ps - 1945 ( hoje considerado polemicamente como

 Ps-Moderno ) centralizam num procedimento verbivocovisual , em que os

 versos devem possuir urna estruturao ptico-sonora , como

 procedimento de influncia concretista .
 Alm desta preocupao com a

 forma (  ) observa-se uma tendncia memorialista , bem como

 metalingstica .

 Os prosadores do que se chama " ps-modernidade " manifestam-se

 em vrias tendncias que coexistem concomitantemente .
 Uma delas  o

 realismo mgico .

 O REALISMO MAGICO ( ou fantstico , ou absurdo ) que se

 caracteriza por em relevo o absurdo social , ou individual .
 Aqui o

 fantstico  utilizado para " expressar a inexistncia de fronteiras

 entre o real e imaginrio , o natural " ( Salvatore d'Onofre ) .

 Em resumo ...

 Primeira fase

 A fase herica .
 Nela podemos observar as seguintes propostas :

 * Esttica do Contra , sobre tudo contra o academicismo , a

 literatura discursiva e pomposa ;

 * Promover uma reviso crtica de nosso passado histrico

 * Eliminar de vez o nosso complexo de colonizados .

 Principais autores : Oswald de Andrade , Graa Aranha , Mrio de Andrade ,

 Manuel Bandeira e Alcntara Machado .

 Segunda Fase

 A fase construtiva , observamos as seguintes propostas ;

 * Uma linguagem mais brasileira , regionalista , com enfoque direto

 dos fatos .

 * Aparecimento da narrativa documental

 * Ressurgimento do romance regionalista

 * Poemas sem excessos ou radicalismos de contestaes

 * Ampliao do poema e rediscusso da poesia .

 * Metalinguagem e produo de poesia social , religiosa , filosfica ,

 ertica e histrica .

 Principais autores : Graciliano Ramos , Raquel de Queiroz , Jos Lins do

 rego , Jorge Amado , rico Verssimo , Carlos Drummond de Andrade , Murilo

 Mendes , Jorge de lima , Vincius de Moraes e Ceclia Meireles ...

 Manuel Bandeira - vida e obra .

 Manuel Carneiro de Sousa Bandeira nasceu no dia 19 de abril de

 1886 , na cidade do Recife , filho de uma dona de casa e de um

 engenheiro .
 Chegou ao Rio de Janeiro aos 4 anos de idade , onde o poeta

 diz ter nascido " para a vida consciente " , e ter " descoberto o segredo

 da poesia " .

 Aos 6 anos , a famlia regressou ao Recife , onde ele

 permaneceria por mais 4 anos .
 As figuras populares da terra natal , as

 cantigas de roda , ruas com nomes lricos - da Unio , da Aurora , da

 Saudade , Formosa - vo invadindo a vida do poeta e construindo o que

 ele chamava de " minha mitologia " .
 Personagens familiares como a av ,

 Dona Aninha Viegas , a preta Tomsia , velha cozinheira da casa , Rosa , a

 bab mulata que lhe contava histrias , o pai , alimentavam mais e mais

 essa mitologia .
 Cedo se deu conta de que a poesia estava em tudo e que

 o lirismo  o plen que reveste o mundo .

 Aos 17 anos , partiu para So Paulo onde se matriculou na

 escola Politcnica para fazer faculdade de Arquitetura , mas ao final

 do primeiro ano contraiu tuberculose .

 Em 1904 , quando caiu enfermo , e em 1917 , ano de publicao de

 seu primeiro livro Cinza das Horas , Bandeira pouco pde fazer , tolhido

 pela doena .

 A partir da publicao de seu segundo livro , Carnaval ,

 Bandeira comeou a fazer conexo com o grupo paulista que faria a

 Semana de Arte Moderna , trs anos mais tarde .
 Bandeira no quis

 participar da Semana de 22 ; achou o tom do evento um pouco

 contundente .

 Em 1938 , foi nomeado professor de Literatura do Colgio Pedro

 II .
 O prestgio vinha do pblico e da crtica .
 Em 1940 , foi indicado

 para a Academia Brasileira de Letras com 21 votos .
 Contra todos os

 prognsticos de morte que a tuberculose lhe deu desde os 18 anos ,

 Bandeira viveu at os 82 anos , vindo a falecer no Rio de Janeiro , a 13

 de outubro de 1968 .

 O lirismo superlativo do cotidiano

 A sombra da morte que acompanhou o poeta desde a adolescncia

 sensibilizou-o para sempre , fazendo com que ele observasse a vida em

 seus aspectos midos , prosaicos , e encontrasse neles uma beleza e um

 lirismo desmedidos .

 Pode-se entrever trs fases na obra potica de Bandeira .

 * Fase ps - simbolista : inclui seus trs primeiros livros .
 Cinza das

 horas , Carnaval e Ritmo Dissoluto .
 Nesse momento , sentimos o poeta

 ainda impregnado do esprito decadentista , bem como de

 musicalidade formal .

 * Modernista : Inclui Libertinagem e Estrela da Manh .
 Os versos

 livres e brancos que ele comeou a ensaiar em Carnaval , tornam-se

 uma constante ; o vocabulrio intensifica sua coloquialidade ,

 enfim , o poeta adere s idias de vanguarda que nortearam parte do

 primeiro momento modernista brasileiro .

 * Ps Modernista : Lira do Cinqent'Anos contm a maior parte da obra

 do poeta .
 Nela Bandeira concilia a tradio e a vanguarda .
 O poeta

 parece no estar preocupado com tend6encias , mas sim em exercer

 seu estro com liberdade de transitar pela forma que mais se

 adequar ao esprito das emoes que deseja transmitir .

 Quanto aos temas , apesar de serem vrios e mltiplos , h trs

 nos quais o autor incide com freqncia : a infncia , o amor e a morte .

 Textos do autor

 1

 Profundamente

 Quando ontem adormeci

 Na noite de So Joo

 Havia alegria e rumor

 Estrondos de bomba luzes de Bengala

 Vozes cantigas e risos

 Ao p das fogueiras acesas .

 No meio da noite despertei

 No ouvi mais vozes nem risos

 Apenas bales

 Passavam errantes

 Silenciosamente

 Apenas de vez em quando

 O rudo de um bonde

 Cortava o silncio com um tnel .

 Onde estavam os que h pouco

 Danavam

 Cantavam

 E riam

 Ao p das fogueiras acesas ?

 - - Estavam todos dormindo

 Estavam todos deitados

 Dormindo

 Profundamente

 Quando eu tinha seis anos

 No pude ver o fim da festa de So Joo

 Porque adormeci

 Hoje no ouo mais as vozes daquele tempo

 Minha av

 Totnio Rodrigues

 Tomsia

 Rosa

 Onde esto todos eles ?

 - - Esto todos dormindo

 esto todos deitados

 Dormindo

 Profundamente .
 In Lira dos Cinqnt'Anos .

 2

 Teresa

 A primeira vez que vi Teresa

 Achei que ela tinha pernas estpidas

 Achei tambm que a cara parecia uma perna .

 Quando vi Teresa de novo

 Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo

 ( Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo

 nascesse )

 Da terceira vez no vi mais nada

 Os cus se misturaram com a terra

 E o esprito de Deus voltou a se mover sobre a face das guas. in

 Libertinagem

 3

 Pneumotrax

 Febre , hemoptise , dispnia e suores noturnos .

 A vida inteira que podia Ter sido e que no foi .

 Tosse , tosse , tosse .

 Mandou chamar o mdico :

 - - Diga trinta e trs .

 - - Trinta e trs ...
 Trinta e trs ...
 trinta e trs ...

 - - Respire .

 ...............................................................

 - - O senhor tem uma escavao no pulmo esquerdo e o pulmo direito

 infiltrado .

 - - Ento , doutor , no  possvel tentar o pneumotrax ?

 - - No .
 A nica coisa a fazer  tocar um tango argentino .
 In

 Libertinagem .

 4

 Vou-me Embora pra Pasrgada. ( frag. )

 Vou-me embora pra Pasrgada

 L sou amigo do rei

 L tenho a mulher que eu quero

 Na cama que escolherei

 Vou-me embora pra Pasrgada

 Vou-me embora pra Pasrgada

 Aqui eu no sou feliz

 L a existncia  uma aventura [ ...
 ]

 E como farei ginstica

 Andarei de bicicleta

 Montarei em burro brabo

 Subirei em pau-de-sebo

 Tomarei banhos de mar !
 [ ...
 ]

 Vou-me embora pra Pasrgada .

 5

 Os sapos ( frag. )

 Enfunando os papos ,

 Saem da penumbra ,

 Aos pulos , os sapos .

 A luz os deslumbra

 Em ronco que aterra ,

 Berra o sapo-boi :

 - - " Meu pai foi  guerra !
 "

 - - " No foi !
 " - - " Foi !
 " - - " No foi !
 "

 O sapo-tanoeiro ,

 Parnasiano agudo ,

 Diz : - - " Meu cancioneiro

  bem martelado. [ ...
 ] .

 Anexos

 Trechos da Carta de Fernando Pessoa ao poeta e crtico Casais

 Monteiro , em que concede esclarecimentos sobre o fenmeno da

 heteronmia .

 [ ...
 ] Vou entrar na gnese dos meus heternimos literrios que

  afinal o que v. quer saber [ ...
 ]

 A por 1912 , salvo erro ( que nunca pode ser grande ) , veio-me 

 idia escrever uns poemas de ndole pag .
 Esbocei umas coisas em verso

 irregular ( no o estilo de lvaro de Campos , mas num estilo de meia

 regularidade ) , e abandonei o caso .
 Esboara-se-me , contudo , numa

 penumbra mal urdida , um vago retrato da pessoa que estava a fazer

 aquilo. ( Tinha nascido , sem que eu soubesse , o Ricardo Reis. )

 Ano e meio , ou dois anos depois , lembrei-me um dia de fazer

 uma partida ao S Carneiro - de inventar um poeta buclico , de espcie

 complicada , e apresentar-lho , j me no lembro como , em qualquer

 espcie de realidade .
 Levei uns dias a elaborar um poeta , mas nada

 consegui .
 Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de maro de

 1914 - acerquei-me de uma cmoda alta e , tomando um papel , comecei a

 escrever , de p , como escrevo sempre que posso .
 E escrevi trinta e

 tantos poemas a fio , numa espcie de xtase cuja natureza no

 conseguirei definir .
 Foi o dia triunfal da minha vida , e nunca poderei

 ter outro assim .
 Abri com o ttulo - " O guardador de rebanhos " .
 E o

 que se seguiu foi o aparecimento de algum em mim , a quem dei desde

 logo o nome de Alberto Caeiro. [ ...
 ] E , de repente , e em derivao

 oposta  de Ricardo Reis , surgiu-me impetuosamente um novo indivduo .

 Num jato , e  mquina de escrever , sem interrupo nem emenda , surgiu

 a " Ode Triunfal " de lvaro de Campos - a Ode com esse nome e o homem

 com o nome que tem. [ ...
 ]

 Glossrio

 VANGUARDA -

 do francs avant - garde " estar a frente " - Termo de conotaes

 militares , mas que designa os movimentos e conceitos artsticos e

 culturais que , surgidos no perodo que compreende as trs primeiras

 dcadas deste sculo , procuraram empreender mudanas radicais ,

 apontando para uma nova concepo de mundo e um novo cdigo artstico .

 ( HELENA , Lcia .
 Modernismo Brasileiro e Vanguarda ) .

 BELLE POOUE -

 Expresso usada para denominar o clima artstico-intelectual do

 perodo compreendido aproximadamente de 1885 at o fim da 1 ^ a Guerra

 Mundial ( 1918 ) .
 Caracteriza-se por ter Paris como centro exportador de

 cultura .

 ANTROPOFAGIA -

 Significado metafrico , refere-se a atitude esttico-cultural de

 " devorao " e assimilao critica dos valores transplantados pela

 colonizao , alm de realar outros valores reprimidos pelo

 colonizador .

 MODERNISMO -

 Surgiu no inicio da dcada de 20 , em So Paulo , abrangendo vrias

 manifestaes culturais : artes plsticas , msica , literatura ,

 arquitetura , etc .
 Propunha uma produo artstica voltada para os

 ternas nacionais , aliada aos avanos das linguagens artsticas das

 vanguardas europias .

