

 logorevista.jpg ( 49703 bytes ) .

 revista de cultura # 10

 ..

 fortaleza , so paulo - maro de 2001

 ..

 A PERMANNCIA DA ANARQUIA : A PROPSITO DE UMA ANTOLOGIA DO SURREALISMO

 PORTUGUS

 Claudio Willer

 ag10willer1.JPG ( 204111 bytes ) Quantas vezes , desde o incio da tradio

 romntica l pelo final do sculo XVIII , o entusiasmo de um grupo de jovens que

 combinava promessas , talentos de primeira grandeza , excntricos em estado puro

 e meros circunstantes , unidos pelo desconforto na sociedade e pela disposio

 de inovar , no acabou deixando marcas duradouras ?
 Em quantas ocasies no se

 repetiu o padro do sturm und drang , ou do crculo bironiano , dos simbolistas

 em sua associao com os " malditos " , das diferentes vanguardas e modernismos ,

 do surrealismo em sua fase herica , dos britnicos de Bloomsbury , da gerao

 beat em sua origem ?

 Um desses momentos , tornado perene , no apenas pelo registro da sua agitao em

 biografias e crnicas de poca , mas , principalmente , pelas obras s quais est

 associado ,  retratado em A nica real tradio viva - Antologia da poesia

 surrealista portuguesa .
 Organizada e prefaciada por Perfecto E. Cuadrado

 ( Assrio & Alvim , Lisboa , 1998 ) ,  a reedio com acrscimos , apoiada pelo

 Ministrio da Cultura e Instituto Portugus do Livro e das Bibliotecas , do que

 havia sado dois anos antes sob o ttulo de You are wellcome to Elsinore

 ( editora Laiovento , Santiago de Compostela ) .
 O ttulo da edio portuguesa ,

 mais recente , transcreve uma frase de Ernesto Sampaio ; o da edio galega , o de

 um poema de Mrio Cesariny .
 A observar , com simpatia , o trans-europesmo dessa

 cooperao entre editoras e instituies de Portugal , e o trabalho em

 territrios lingsticos e culturais dentro da Espanha , no caso , Galcia e

 Catalunha ( Perfecto E. Cuadrado , galego , leciona na Universidade das Ilhas

 Baleares , em Palma de Mallorca ) .
 Democratizao associada ao desenvolvimento

 econmico , nesses lugares , parecem ter como resultado polticas culturais

 pblicas e iniciativas editoriais de qualidade .

 Perfecto E. Cuadrado retrata o surrealismo portugus atravs de documentos ,

 passagens de manifestos , depoimentos , jogos e criaes coletivas , e do que mais

 interessa , uma seleo de poemas daqueles que se reuniram e manifestaram em

 Lisboa entre 1943 e o final dos anos 50 .
 Oferece uma excelente amostra da

 explosiva prosa potica de Antnio Maria Lisboa , o S Carneiro daquele grupo ,

 talento extraordinrio morto aos 25 anos de idade , conforme atesta Poesia

 ( Assrio & Alvim , 1995 ) , compilao do que no se perdeu de sua obra .
 Mostra

 ainda a transbordante imaginao de Mrio Cesariny , seu expoente maior ; a

 qualidade das imagens em Mrio Henrique Leiria , cuja obra , desaparecida de

 vista , em parte ainda indita , vem sendo reunida por Perfecto E. Cuadrado ; a

 dico melanclica de Alexandre O'Neill , outro poeta portugus de primeiro

 plano , que logo se desligaria daquele grupo ; o lirismo medido de Fernando

 Lemos , que acabaria vindo ao Brasil e projetando-se como artista plstico ; o

 tom paroxstico de Pedro Oom ; momentos torrenciais de Cruzeiro Seixas , tambm

 artista plstico .
 Isso , entre outros dos 13 representados na coletnea .

 Quanto  documentao reunida em A nica real tradio viva , esta traz  tona a

 conexo entre arte e vida , habitualmente descartada pelo academicismo

 formalista .
 Falar de obras , sem referir-se tambm a autores e suas intervenes

 e conflitos ,  trair um pressuposto do surrealismo , que jamais admitiu a

 dissociao entre o escrito e o vivido , a criao e o sujeito criador , tica e

 esttica .

 Pode-se enxergar um mpeto quase suicida nas entrelinhas do trecho de Mrio

 Cesariny , lembrando as atividades fortes e jovens no Caf Herminius ( as

 primeiras , de 1943/44 ) : afixao a cuspo , do que resulta o lento escorregar da

 matria afixada , de imagens de generais e almirantes franceses .
 Saltos mortais

 para cima das mesas .
 Uivos graduados por Jos Leonel Martins Rodrigues. ( ...
 )

 Pedro Oom assoma velhas s esquinas .
 Uma cai .
 Grande corrida noturna atrs de

 Jorge Pelaio , afligido de espritos , at os montes do Areeiro .
 Mrio Cesariny

 traz para o caf a mquina de escrever e um robe que pertenceu a Conchita

 Grandella .
 Os " ursinhos " .
 Entrada de caadores .
 Prises de esperantistas .

 Aes e situaes que podiam muito bem , se inventadas em vez de acontecidas ,

 figurar em algum texto de escrita automtica , dentre tantos que os

 participantes daquelas reunies produziram .
 E que no pararam por a , conforme

 mostra o trecho de Antnio Jos Forte sobre a ltima das metamorfoses do grupo

 surrealista portugus , as reunies no Caf Gelo , j no limiar da dcada de 60 :

 Um verdadeiro escndalo , que no era provocado por um manifesto , por um grupo

 com nome prprio , por uma revista , mas por um grupo iconoclasta e libertrio

 onde se falava de tudo , at de literatura e artes , e de rosas tambm .
 Um grupo

 de franco-atiradores ,  verdade ; um grupo de poetas , sem dvida .
 Que disparava

 ao acaso sobre a multido , que inventava os seus infernos e parasos , que usava

 a liberdade de expresso ora voando , morrendo , desaparecendo , escrevendo s

 vezes .

 ag10willer2.JPG ( 25695 bytes ) O que pretendiam esses franco-atiradores ?
 Que

 idias partilhavam ?
 De uma coisa no se pode acus-los : falta de clareza de

 propsitos , enunciados de modo irnico por Antnio Maria Lisboa : que no somos

 assim contra a ordem , o trabalho , o progresso , a famlia , a ptria , o

 conhecimento estabelecido ( religioso , filosfico , cientfico ) mas que na e pela

 Liberdade , Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes .
 Ou , com voz

 enftica , por Cesariny : O Homem s ser livre quando tiver destrudo toda e

 qualquer espcie de ditadura religioso-poltica ou poltico-religiosa e quando

 for capaz de existir sem limites .
 Ento o Homem ser o Poeta e a poesia ser o

 Amor Explosivo. ( ...
 ) Para a ptria , a igreja e o estado a nossa ltima palavra

 ser sempre : MERDA .

 Essas declaraes , reproduzidas em A nica real tradio viva , so uma parcela

 do que o prprio Cesariny reuniu no substancioso A interveno surrealista

 ( Assrio & Alvim , 1997 ) .
 Seriam pouco mais que retrica , no fossem seus

 autores capazes da enunciao potica , como nesta antolgica reafirmao do

 princpio da analogia e das correspondncias por Cesariny :  preciso dizer rosa

 em vez de dizer idia /  preciso dizer azul em vez de dizer pantera /  preciso

 dizer febre em vez de dizer inocncia /  preciso dizer o mundo em vez de dizer

 um homem //  preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano /  preciso dizer

 Para Sempre em vez de dizer Agora /  preciso dizer O Dia em vez de dizer Um

 Ano /  preciso dizer Maria em vez de dizer aurora .
 Ou ento , nas frases

 iniciais da homenagem a Lautramont por Antnio Maria Lisboa : Aqui ama-se sem

 leis , sem regras , no leito , em quartos abruptos e selvagens , ama-se na angstia

 ( ...
 ) Ama-se matando , recordando todos os assassinatos da histria do mundo ,

 todos os jogos malficos .
 E na lrica de Mrio Henrique Leiria : O amor feito de

 noite / ao som metlico / de uma orqudea vermelha /  a estrada uivante / que se

 enrosca em tranas / de animais marinhos .

 Impossvel no admirar a coragem de levarem a pblico tais manifestaes e

 obras , no ambiente j por si repressivo dos anos 40-50 , com sua ciso entre

 macarthismo e estalinismo , e mais ainda no Portugal salazarista , reduto por

 excelncia do obscurantismo .
 E os surrealistas portugueses no tinham s a

 PIDE , uma execrvel polcia poltica , em seus calcanhares , vigiando e por vezes

 proibindo manifestaes , alm de deter manifestantes .
 Desafiaram o beletrismo ,

 bem como o neo-realismo , corrente dominante  esquerda , mais os remanescentes

 do importante vanguardismo portugus da primeira metade do sculo , ligados s

 revistas Presena e Orpheu .
 A propsito , Cesariny sempre deu tratamento

 implacvel a um pessoano notvel , Joo Gaspar Simes , e  memria do prprio

 Pessoa , culminando nas blasfmias do recente O Virgem Negra - Fernando Pessoa

 explicado s Criancinhas Naturais e Estrangeiras por M. C. V. ( Assrio & Alvim ,

 1996 ) .
 Mesmo hoje , no Portugal moderno , aberto , esse livro deve ter provocado

 algum desconforto e consternao , alm de desmentir , no que diz respeito a seu

 autor , a mxima atribuda a Goethe - tambm objeto de pilhagem por Cesariny em

 Titnia ( Assrio & Alvim , 1994 ) - de que ningum seria radical aos 80 anos de

 idade .

 No satisfeitos por se situarem contra todos os demais grupos literrios e

 artsticos portugueses , Cesariny , Lisboa , Leiria , Oom , entre outros , em uma

 espcie de meta-rebelio , tornaram-se surrealistas fora do prprio surrealismo .

 Enquanto se preparava a primeira exposio coletiva de surrealistas em Lisboa ,

 em 1949 , procederiam a um " racha " , um anti-grupo surrealista dos surrealistas ,

 para Cesariny , ou surrealismo-abjeccionismo , incorporando o termo criado por

 Pedro Oom .

 E , como se ainda no bastasse , jamais foram reconhecidos pelo movimento

 encabeado por Andr Breton .
 Quais interlocutores desqualificados provocaram

 essa situao , e at que ponto isso retrata uma burocratizao ou enrijecimento

 do grupo francs ,  petite histoire .
 Mas , ao que tudo indica , a primeira

 publicao de textos de Cesariny em conexo direta com um movimento surrealista

 internacional foi mesmo aquela efetuada em So Paulo por Srgio Lima , em A

 Phala , de 1967 .
 Bibliografia francesa associando-os a surrealismo , s na dcada

 seguinte ( inclusive um ensaio de Pierre Rivas apontando bem o carter paradoxal

 desse surrealismo dissidente do surrealismo ) .

 Portanto , foram algo como a margem da margem da margem , naquela sucesso de

 reunies e separaes , encontros e desencontros de uma rapidez desconcertante .

 Ao mesmo tempo , se mapeados os grupos e movimentos que adotaram a unio do

 mudar a vida e do transformar a sociedade proposta por Breton , o surrealismo

 portugus poder mostrar-se o mais importante e influente em poesia , afora

 aquele do mbito francfono .
 Seu carter frentico parece haver ampliado sua

 produtividade , em vez de reduzi-la , sob dois aspectos .
 Um deles , a obra

 caudalosa que deixaram , quando tomada em seu conjunto e , especialmente , ao se

 examinar a contribuio pessoal de Cesariny .
 Outro , a marca deixada na poesia

 contempornea portuguesa .
 No interessa , aqui , estabelecer uma topografia

 redutora ( que Perfecto E. Cuadrado acertadamente evita ) a partir da evidncia

 de que Herberto Helder , Ana Hatherly , Isabel Meirelles , Helder Macedo , Natlia

 Correia , entre outros , tiveram contato com Cesariny e seus companheiros , ou

 participaram dessa agitao , ao menos na fase final , das reunies do Caf Gelo .

 Importante , isso sim ,  constatar que boa parte do melhor da literatura

 portuguesa de hoje ( conforme j observei em Agulha # 9 , a propsito de Herberto

 Helder ) se caracteriza pela riqueza imagtica , por qualquer coisa de

 transbordante e transgressivo , em contraste com a produo brasileira

 contempornea , cerebral , regrada , em suma , bem-comportada em autores de maior

 prestgio .

 ag10willer3.jpg ( 16320 bytes ) Talvez isso tenha a ver , no s com a irrupo

 vigorosa desse grupo , porm , lembrando a tese sustentada por Natlia Correia em

 O surrealismo na poesia portuguesa , com algo inerente  tradio literria de

 Portugal , desde as origens medievais .
 O culto ao escrnio e maldizer , ao

 exagero ,  metfora extravagante , ao grotesco , permite que , em um trabalho de

 arqueologia , se vislumbre um ou outro remoto precursor lusitano de Rabelais ou

 Lautramont .
 Pode ser , ainda , a exemplo dos espanhis de 27 , que neles se

 encontrassem duas linhagens : a imagtica desenvolvida no mbito do simbolismo

 francs , adotada por vanguardistas e surrealistas , de um lado , e a recuperao

 da herana barroca .
 Mas , convm insistir , em Portugal o barroco , por sua vez ,

 est ancorado em uma das origens da prpria literatura europia .
 E , ainda

 impondo limites ao paralelo entre as duas naes ibricas , de modo diverso da

 Espanha ( mas  semelhana de pases americanos de lngua espanhola ) , houve em

 Portugal surrealismo organizado , estruturado , com uma clara definio de

 propsitos e procedimentos ( que em nada impediu a exteriorizao catica ) .

 Por todas essas razes , o surrealismo portugus , em sua especificidade e

 excentricidade , acabou por tomar rumos prprios , autctones , no plano da

 criao literria .
 Isso  bem assinalado por Perfecto E. Cuadrado na terceira

 parte do seu prefcio de A nica real tradio viva , ao falar dos seus

 procedimentos .
 Em suas palavras , ao Surrealismo portugus se deve um trabalho

 de recuperao de formas e sentidos - perdidos ou maginalizados - tpicos da

 poesia popular e de algumas correntes especficas da poesia culta tradicional .

 Por isso , a subverso desde o texto acabaria , assim , numa subverso do prprio

 texto , incluindo a escrita automtica , jogos como o cadver delicado ( ou , como

 preferiram eles , cadver exquisito ) , as perguntas e respostas ( sem que um

 soubesse o que o outro perguntava ) , o um no outro , e , indo alm , as

 adulteraes e apropriaes de textos alheios , remontando-os ,

 descontextualizando-os e fundindo-os .
 Notadamente em Mrio Cesariny e em

 Alexandre O'Neill , observa-se esse trnsito , da escrita potica de imagens e

 associaes livres , passando pela stira e pela pardia , at a pilhagem de

 outros autores , chegando , ainda segundo Perfecto E. Cuadrado ,  relao direta

 com os procedimentos habituais da desarticulao e experimentao da poesia

 concreta e experimental .
 Da haver correspondncia , em algum nvel , com autores

 como um construtivista portugus do calibre de Ernesto de Melo e Castro ( cuja

 Antologia Efmera , aqui lanada no final de 2000 pela Lacerda Editores , ainda

 no obteve repercusso  altura de sua importncia ) .

 A observar que , aparentemente , os concretistas de l no foram to excludentes

 e sectrios , em sua fase de afirmao , quanto os de c ( que de modo algum

 admitiam surrealismo , imagtica lorqueana , poesia de Mutilo Mendes e Jorge de

 Lima etc. ) .
 Alm disso , stira , pardia e jogos tipicamente intertextuais , alm

 daqueles com homofonias ou aliteraes , tambm fizeram parte da produo

 surrealista tpica , principalmente nos anos 20 com Robert Desnos .
 E as

 pilhagens , adulteraes e reescrituras de outros textos , tm sua notria raiz

 nas Poesias de Lautramont .
 Em Cesariny , podem ser entendidas , ainda , como

 exacerbao de um dilogo , patente em sua contribuio como tradutor de Rimbaud

 e Artaud , entre outros .

 O que importa , de tudo isso ,  Mrio Cesariny ser um autor rigorosamente

 moderno , atualizado sob todos os aspectos , sem deixar , por isso , de ser fiel s

 idias que recompilou na coletnea Textos de afirmao e de combate do

 movimento surrealista mundial .
 Mais uma vez , atesta que essa afirmao e

 combate , realizando tudo o que se engendrava nas transgresses vitais e

 textuais dos anos 40 e 50 , correspondem a um mpeto transformador que est bem

 longe de se esgotar ou de perder sua razo se ser .

 _________________________________________________________________

 Claudio Willer  poeta , ensasta e tradutor .
 Publicou , dentre muitos outros :

 Jardins da Provocao ( Massao Ohno / Roswitha Kempf Editores , 1981 ) ; Escritos de

 Antonin Artaud ( L & PM Editores , 1983 ) ; Uivo , Kaddish e outros poemas de Allen

 Ginsberg ( L & PM Editores , 1984 ; Volta ( narrativa em prosa , Iluminuras , 1996 ) ;

 Lautramont - Obra Completa - Os Cantos de Maldoror , Poesias e Cartas

 ( Iluminuras , 1997 ) .
 Como crtico e ensasta , colaborou em suplementos e

 publicaes culturais : Jornal da Tarde , Jornal do Brasil , revista Isto  ,

 jornal Leia , Folha de So Paulo , revista Cult , Correio Braziliense , Xilo etc. ,

 e projetos da imprensa alternativa : Versus , revista Singular e Plural e outros .

 Presidente da Unio Brasileira de Escritores , UBE , eleito em maro de 2000 ,

 cargo j exercido em 1988 e 1992 .
  co-editor de Agulha .
 Contato :

 cjwiller@uol.com.br .
 A foto que abreeste ensaio rene , da esquerda para a

 direita , Cruzeiro Seixas , Mrio Henrique Leiria , Natlia Correia e Mario

 Cesariny de Vasconcelos , na galeria Otollini , por ocasio da exposio " O

 cadver esquisito e pinturas coletivas no meio sculo da Revoluo

 Surrealista " , Lisboa , fevereiro de 1975 .
 Pgina ilustrada por Alberto Murillo

 ( Costa Rica , 1960 ) .

 retorno  capa desta edio

 ..

 restodomundo.jpg ( 7311 bytes )

 jpoesia01.jpg ( 15326 bytes )

 agcollage.jpg ( 24559 bytes )

