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 Alea : Estudos Neolatinos

 Print ISSN 1517-106X

 Alea vol .6 no .1 Rio de Janeiro Jan. / June 2004

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 Notas sobre a recepo e presena do surrealismo no Brasil nos anos 1920-1950 ^ 1

 Robert Ponge ^ *

 _________________________________________________________________

 RESUMO

 Aps brevemente situar o surgimento do surrealismo nos anos 1919-1924 e apontar

 alguns elementos dos processos de transferncias culturais entre a Europa e as

 Amricas , bem como alguns aspectos da recepo do surrealismo na Amrica

 Latina , o artigo se debrua sobre a chegada do surrealismo no Brasil , na

 segunda metade dos anos 1920 e sua expresso na revista Esttica e na

 Antropofagia .
 A seguir , procura localizar a presena do surrealismo no Brasil

 dos anos 1930 e 1940 , relacionando-a com a conjuntura cultural vigente no

 perodo Vargas .
 Enfim , destaca , nos anos 1950 e 1960 , a segunda presena de

 Benjamin Pret no Brasil , a exposio Maria Martins no MAM-RJ , a atuao de

 Srgio Lima e o incio do Grupo Surrealista de So Paulo-Rio de Janeiro .

 Palavras-chave : surrealismo , recepo , dilogos culturais , Brasil , anos

 1920-1950

 _________________________________________________________________

 ABSTRACT ^ **

 After briefly situating the emergence of Surrealism in the years 1919-1924 and

 pointing out some elements of the cultural transference processes between

 Europe and the Americas , as well as some elements of the reception of

 Surrealism in Latin America , this paper explores the arrival of Surrealism in

 Brazil , after the mid-1920s , and its expression in the journal Esttica and in

 the cultural movement of Anthropophagy .
 Next , it attempts to situate Surrealism

 in Brazil in the 1930s and 1940s , establishing its relation to the cultural

 context of the Getulio Vargas period. Finally , this work studies the 1950s and

 1960s , high lighting the second stay of Benjamin Pret in Brazil , the Maria

 Martins exposition at the Museum of Modern Art of Rio de Janeiro ( MAM-RJ ) , the

 activities of Sergio Lima and the beginning of the Surrealist Group of So

 Paulo-Rio de Janeiro .

 Key words : Surrealism , reception , cultural dialogues , Brazil , the 1920-1950s

 _________________________________________________________________

 RSUM ^ **

 Aprs une brve description de l'apparition du surralisme dans les annes

 1919-1924 , suivie de quelques considrations sur les processus de transferts

 culturels entre l'Europe et les Amriques , et sur la rception du surralisme

 en Amrique latine , l'auteur de cet article se penche sur l'arrive du

 surralisme au Brsil , dans la seconde moiti des annes 1920 , sur son

 expression dans la revue Esttica , ainsi que dans le mouvement culturel de

 l'Anthropophagie. Il s'interroge ensuite sur la prsence du surralisme au

 Brsil dans les annes 1930 et 1940 , en la situant dans le contexte culturel de

 la priode des gouvernements Var gas. Enfin , l'auteur voque quelques aspects

 du surralisme au Brsil dans les annes 1950 et 1960 , tels que le deuxime

 sjour de Benjamin Pret au Brsil , l'exposition Maria Martins au Muse d'Art

 Moderne de Rio de Janeiro , les activits de Srgio Lima et les dbuts du Groupe

 surraliste de So Paulo-Rio de Janeiro .

 Mots-cls : Surralisme , rception , dialogues culturels , Brsil , annes

 1920-1950

 _________________________________________________________________

 O surrealismo comeou a vir  luz em 1919 , em Paris , com o lanamento da

 revista Littrature , por Andr Breton , Philippe Soupault e Louis Aragon , e com

 a descoberta da escritura " surrealista " ( isto  , automtica ) pelos dois

 primeiros .
 Cinco anos depois , em 1924 , o surrealismo foi fundado , proclamado

 movimento explicitamente surrealista , atravs de vrias iniciativas tomadas por

 um grupo de jovens poetas franceses ( o Manifesto de Breton lista 19 nomes ) que

 tambm reagrupava pintores , fotgrafos e outros artistas e intelectuais , de

 diversas nacionalidades ( Max Ernst era alemo , Man Ray estadunidense , Picasso

 espanhol etc. ) .

 Pode-se definir brevemente o objetivo do surrealismo como o de lanar e

 alcanar uma revoluo cultural questionadora dos modos vigentes de se

 expressar , sentir , pensar - em primeiro lugar a lgica estreita , fechada ,

 positivista imperante .
 Cabe assinalar que , desde os primeiros instantes , o

 surrealismo se destacou como um dos mais vigorosos e instigantes movimentos da

 modernidade - o que lhe angariou reservas e mesmo reaes adversas por parte de

 diversos setores da intelectualidade francesa ( digamos que o leque ia desde

 alguns colaboradores da modernista Nouvelle Revue franaise at a monarquista e

 fascistizante Action franaise ) ^ * 1 .
 A recepo do surrealismo , portanto , no

 foi pacfica na prpria Frana , havendo embates a respeito entre , de um lado ,

 partidrios da tradio ou de uma modernidade moderada e , do outro , os

 surrealistas e seus apoiadores .
 Vejamos agora quando , e como , o pblico letrado

 da Amrica Latina tomou conhecimento desse movimento .

 Do Velho Mundo ao Novo

 Por surpreendente que possa parecer , as informaes sobre o surrealismo

 chegaram na Amrica Latina com extrema rapidez ; tampouco tardaram os debates .

 Por exemplo , na Argentina , foi em 1925 ( provavelmente no fim do primeiro

 semestre ) que um grupo de estudantes da Universidade de Buenos Aires iniciou

 uma discusso sobre o novo movimento , a qual desembocou na formao do primeiro

 grupo surrealista da Amrica Latina e no lanamento da revista Qu ( dois

 nmeros : 1928 e 1930 ) ^ * 2 .
 No Peru , foi tambm em 1925 que a imprensa de Lima

 comeou a debater o surrealismo .
 No Brasil , no foi diferente , como veremos .

 Como explicar essa extrema rapidez ?
 Porque j havia bastante tempo que , em

 conseqncia dos desenvolvimentos da tipografia , dos transportes e das viagens ,

 os debates e a reflexo sobre os rumos da arte vinham se desenvolvendo

 internacional e , a seguir , intercontinentalmente .
 E existia um debate

 internacional porque a arte no possua mais um carter local , e sim

 supranacional .
 Em outras palavras , o impressionismo , o cubismo , o surrealismo -

 para citar apenas trs exemplos - nasceram em Paris , mas no foram movimentos

 franceses , foram movimentos internacionais .
 Nasceram em Paris devido ao lugar

 especial que , por razes histricas , essa cidade assumiu na vida intelectual e

 artstica da Europa e do planeta a partir do sculo XVIII , chegando a

 constituir-se na capital cultural do sculo XIX e do incio do sculo XX ( para

 parafrasear a conhecida expresso de Walter Benjamin ) .
 Outrossim , cabe

 constatar que , no curso do sculo XIX e no incio do sculo XX , o fluxo de

 informaes e o ritmo dos contatos internacionais tinham conhecido vrias e

 sucessivas aceleraes em decorrncia dos imensos progressos dos meios de

 comunicao ( viagens , livros , revistas , imprensa , telegrafia , etc. ) .
 O que

 permite entender como , no bojo do debate internacional sobre a arte moderna e

 seus rumos , as informaes sobre a revista Littrature , Andr Breton , seus

 companheiros e seu iderio comearam a chegar  Amrica Latina antes de 1924 ,

 no mnimo por volta de 1922 ou 1923 ^ 2 .
 Qual foi a recepo inicial ao

 surrealismo na Amrica Latina ?
 Diversa e contraditria , como no poderia deixar

 de ser e como comprovam alguns exemplos .
 Na Argentina da segunda metade dos

 anos 1920 e do incio dos anos 1930 , poucos repararam a existncia do jovem

 agrupamento surrealista e da revista Qu , pois , conforme o prprio testemunho

 de seu principal animador , Aldo Pellegrini , o grupo estava " totalmente

 desvinculado das correntes literrias " ^ * 3 que agitavam o cenrio literrio

 argentino , dominado pelo grupo da revista Martn Fierro e pela diferenciao ( a

 seguir , polarizao ) entre os de Florida e os de Boedo ( cujos plos podem

 esquematicamente ser definidos como o da literatura dita gratuita ou

 estetizante e o da literatura dita social ) .
 Parece , portanto , no ter havido

 embates abertos , explcitos , mas o desprezo ; ou , mais simplesmente , a ausncia

 de interesse e a poltica do silncio no deixam de ser formas de recepo !

 Mas talvez seja o Peru que fornea o melhor exemplo do carter contraditrio da

 conjuntura intelectual em relao ao surrealismo : em 1925 , respectivamente em

 julho e setembro , nos jornais em que escreviam , Jos Carlos Maritegui

 ( intelectual vivo e sensvel , marxista aberto s vanguardas ) e Csar Vallejo

 ( poeta , correspondente jornalstico em Paris ) deram notcias a respeito da

 existncia do movimento surrealista e das turbulncias que , s vezes , provocava

 em Paris .
 Ambos voltaram a escrever mais ou menos regularmente sobre o

 surrealismo entre 1926 e 1930 - a partir de pontos de vistas opostos j que

 divergiam totalmente na avaliao desse movimento : Maritegui oferecia um

 balano positivo do surrealismo , enquanto Vallejo decretava a morte do mesmo e

 redigia o laudo de sua autpsia ^ * 4 .

 Aps esses apontamentos iniciais ( que mereceriam ser esmiuados ) sobre as

 transferncias culturais entre a Europa e as Amricas e sobre alguns aspectos

 da recepo do surrealismo na Amrica Latina , podemos nos debruar sobre a

 chegada do surrealismo no Brasil .

 Anos 1920 , primeirssimos contatos do Brasil com o surrealismo

 Tudo indica que , no Brasil , no primeiro semestre de 1925 ou , quem sabe , at

 antes , o surrealismo encontrou ressonncia entre a dupla de editores da revista

 Esttica .
 Liam a Nouvelle Revue franaise , a revista Commerce ( que publicara o

 ensaio Uma vaga de sonhos , de Aragon ) e tudo mais que podiam encontrar .
 Srgio

 Buarque de Holanda e Prudente de Moraes , neto^3 estavam ansiosos para conhecer ,

 discutir , experimentar novas propostas poticas e literrias , de onde quer que

 viessem .
 De acordo com o testemunho do primeiro , ambos " comea [ ram ] a escrever

 cartas surrealistas , conforme a receita de Breton " ^ * 5 .

 Quais eram exatamente esses textos automticos ?
 No se sabe .
 Mas no chegaram

 s pginas da Esttica , que , no entanto , publicou , no segundo nmero ( datado de

 janeiro-maro de 1925 ) , um artigo em que Prudente comenta as consideraes do

 crtico francs Benjamin Crmieux sobre o surrealismo , divulgadas pela Nouvelle

 Revue franaise , e , no terceiro nmero ( datado de abril-junho de 1925 ) , um

 ensaio em que Srgio afirma que " s  noite enxergamos claro " , e reivindica

 " uma declarao dos direitos do sonho " ^ * 6 .

 A atitude de Srgio Buarque de Holanda  curiosa e merece reter nossa ateno :

 ao falar numa declarao dos direitos do sonho , o autor joga com o prefcio e

 com o lema da capa do primeiro nmero de La Rvolution Surraliste , fazendo uma

 colagem de ambos , mas sem diz-lo e sem formular uma nica vez a palavra

 surrealista ( ou supra-realista , como se usava ento ) .
 Por que essa postura ?

 Seria cautela ?
 Estariam os dois diretores da revista sondando o terreno dos

 meios literrios brasileiros ?
 Se era essa a sua inteno , ficaram sabendo de

 vrias reaes pouco favorveis , entre as quais as de Mrio de Andrade ( assaz

 reticente para com o surrealismo ) , Graa Aranha , Ronald de Carvalho e Tristo

 de Athayde ( francamente contrrios ) .
 Apesar disso , Prudente de Moraes , neto no

 se acanhou e enviou um texto de escritura automtica ao jornal A Noite

 ( publicado em 28 de dezembro de 1925 ) e outro  revista Verde ( publicado em

 novembro de 1927 ) .

 Como se percebe , com a dupla Prudente e Srgio , a rvore modernista brasileira

 poderia ter produzido um ramo franca e explicitamente surrealista .
 Mas este no

 cresceu .
 Seria interessante pesquisar o porqu .
 Salvo engano , esse estudo est

 ainda por ser feito .

 Nos anos seguintes , cabe , entre outros dados , assinalar que , em 1927 , durante

 uma viagem  Europa , Ismael Nery entrou em contato ( breve ?
 ) com Breton e fez

 amizade com Chagall ( que no pertencia ao grupo surrealista e tampouco se

 considerava surrealista ) .
 No Brasil , em 1928 , ao fazer a crtica da exposio

 apresentada por Ccero Dias no salo da Policlnica Geral do Rio de Janeiro ,

 Graa Aranha caracterizou como " pintura surrealista " a obra do artista

 pernambucano , que , pouco informado sobre esse movimento , estaria , portanto ,

 fazendo - espontnea e ingenuamente - telas surrealistas ^ * 7 .
 Mas 1928 deve ser

 relembrado sobretudo como o ano do lanamento da Antropofagia , com revista e

 manifesto .
 Neste , Oswald de Andrade no esqueceu de situar - mais ainda ,

 caracterizar - a Antropofagia em relao ao surrealismo ( " J tnhamos o

 comunismo .
 J tnhamos a lngua surrealista " ^ * 8 ) .

 Dessa forma , deixava claro que o surrealismo integrava de alguma forma o

 cabedal antropfago .
 O que no transformava automaticamente os antropfagos em

 surrealistas .
 Por vrias razes ; entre outras , porque , como veremos , os demais

 membros do grupo no concordavam necessariamente com Oswald e porque a prtica

 deste no era forosamente conseqente com suas palavras .

 Independentemente da dose de retrica ou de firme propsito que motivaram esse

 j tnhamos a lngua surrealista , resta que vrias telas de Tarsila do Amaral

 flertaram - namoraram ?
 - ento com o surrealismo .
 E tambm que , ao chegar ao

 Brasil , em fevereiro de 1929 , com sua esposa brasileira ( a cantora lrica Elsie

 Houston ) , o poeta surrealista francs Benjamin Pret foi imediatamente saudado

 pela Revista de Antropofagia com um artigo especfico , assinado por

 Cunhambebinho ( ou seja , o prprio Oswald ) , e aceito como " um antropfago que

 merece cauins de cacique " e ...
 " precisa ficar entre ns " .
 Por que precisaria

 Pret ficar entre os antropfagos ?
 Para que pudesse aprender e crescer com

 eles ?
 Certamente , mas , sem dvida , para que os antropfagos pudessem , igual e

 reciprocamente , conhecer melhor o surrealismo , aprender e crescer com Pret e

 com esse movimento ( elogiado pelo Cunhambebinho porque vinha oferecendo " um dos

 mais empolgantes espetculos para qualquer corao de antropfago " ) .
 Alis , a

 Revista acrescentou taxativamente : " Depois do surrealismo , s a

 antropofagia " ^ * 9 .

 O que afirmava a preeminncia do movimento brasileiro por sua capacidade de

 ingurgitar , mastigar e digerir , assimilando-convertendo-superando as teses e

 propostas europias .
 Mas , como o surrealismo era um projeto com um grau de

 definio muito mais alto e preciso que o movimento brasileiro ( o que os

 antropfagos no ignoravam ) , essa pequena frase era tambm um programa e tanto !

 De fato , tivesse Cunhambebinho-Oswald conscincia disso ou no , constitua um

 verdadeiro desafio , chamando  superao da Antropofagia , para que , em relao

 ao surrealismo , aquela deixasse de ser uma prima ainda distante ou reservada

 ( porque cultuava uma certa indefinio e heterogeneidade ) , e se transformasse

 em uma interlocutora privilegiada , uma amiga do peito , uma autntica irm ou ,

 se preferir o leitor , um alter ego .
 O que , obviamente , s poderia ocorrer por

 meio de uma complexa alquimia em que a Antropofagia se transformaria ,

 avanaria , mantendo o surrealismo original ( J tnhamos a lngua surrealista ) ,

 preservando o canibalismo impiedoso , integrando as conquistas do surrealismo

 moderno ( 1919-1929 , e depois ) e superando ( Aufhebung ) todos esses componentes

 para alcanar uma nova e superior sntese que poderia ou no assumir uma

 denominao diferente .

 Sabe-se que isto no ocorreu .
 Porque Pret no era bem acolhido por todos os

 antropfagos ( Carlos Drummond de Andrade rompeu com a Revista de Antropofagia

 pois , entre outros motivos e sem esquecer a possvel pitada de provocao , esta

 " ainda no jant [ ara ] " Pret , elemento inaceitvel no grupo brasileiro " por ser

 supra-realista e francs " ) ^ * 10 .
 Porque , aos olhos de certos antropfagos ,

 pesavam contra os surrealistas tanto a qualidade de seu engajamento

 poltico-revolucionrio ( declaravam-se marxistas e simpatizantes do comunismo )

 quanto o fato de sua revolta , sua contestao se estenderem a todos os domnios

 da vida e do pensamento , incluindo a religio e a prpria instituio

 artstico-literria e seus valores .
 E , se isso no bastasse , porque a

 Antropofagia se desagregou , explodiu , vtima de sua prpria heterogeneidade e

 da impossibilidade de conciliar suas contradies , sendo o ltimo nmero da 2

 dentio da Revista o n  15 , de 1 de agosto de 1929 .
 Enfim , porque Oswald , em

 vez de procurar avanar , partindo das conquistas da Antropofagia ( seja com uma

 3 dentio ou sob nova forma e denominao , na base do menos , mas melhor ) ,

 resolveu dar as costas a ela , reneg-la e buscar caminho e luz na poltica

 cultural da Internacional Comunista , j estalinizada !
 Ou seja ,  como se o

 desaparecimento da Revista de Antropofagia tivesse tido por conseqncia o

 esgotamento , por alguns decnios , da possibilidade de efetivo funcionamento de

 um grupo surrealista - antropofagicamente surrealista !
 - no Brasil .

 Anos 1930 e 1940

 Para nos debruarmos sobre os anos 1930 , parece instrutivo iniciar com um

 paralelo entre Brasil e Argentina no que se refere ao destino do surrealismo em

 ambos pases .
 Na Argentina , o segundo nmero da revista Qu saiu datado de

 dezembro de 1930 .
 Pouco depois , o grupo se dissolveu , segundo Aldo Pellegrini ,

 devido s " intrigas e canalhices de alguns dos componentes " ^ * 11 .

 Certamente , mas ser preciso esperar o fim dos anos 1940 - quase duas dcadas -

 para que torne a surgir um grupo surrealista em Buenos Aires .
 Ser , ento , que

 basta a explicao referente s intrigas e canalhices ?
 No Brasil , a Revista de

 Antropofagia desapareceu em 1929 ; ser que tambm por intrigas e canalhices de

 membros do grupo ?
 Neste caso , sabe-se que havia numerosas divergncias , de

 ordem terica e sobre os rumos a tomar ; novamente , isso basta para explicar ?

 Parece haver mais que puro acaso nas duas dissolues quase perfeitamente

 concomitantes : algo como um sinal dos tempos , sintomtico de uma mudana nos

 ventos pr-vanguardas .
 No seria o caso de levar em conta tambm a conjuntura

 cultural internacional e a conjuntura poltica no continente ou , pelo menos ,

 nos dois pases aqui citados ?
 No tocante  conjuntura cultural , Pierre Rivas a

 caracteriza da seguinte forma :

 [ ...
 ] 1930 marca , como  sabido , em toda parte , o tempo do refluxo , o retorno

 ao tema , ao realismo , a passagem da vanguarda  modernidade .
  sobretudo o

 tempo do confronto entre vanguarda e realismo : populismo socialista ,

 neo-realismo , literatura proletria. [ ...
 ] .
 A especificidade histrico-poltica

 dos pases perifricos se traduz por uma colocao entre parnteses do avano

 surrealista .
 As ditaduras existentes [ ...
 ] e as urgncias sociais condenam o

 artista a uma ' m conscincia ' ou a uma renncia. ^ * 12

 Em apoio  caracterizao de Pierre Rivas , cabe lembrar , de passagem , que , nos

 mais diversos pases , a linha cultural dos partidos comunistas comeou , no

 incio dos anos 1930 , sob a bandeira da literatura proletria , passou para o

 realismo socialista e desembocou na exaltao do realismo nacional , mas sempre

 mantendo uma firme oposio  arte moderna e s vanguardas .
 Quanto aos governos

 ditos nacionalistas ou populistas ( quando no se tratou pura e simplesmente de

 ditaduras ) da Amrica Latina , todos ou quase todos encorajaram uma arte

 empenhada em caracterizar-se como nacional .

 E a conjuntura poltica ?
 Na Argentina , expresso de uma reao extremamente

 conservadora , o golpe de Estado liderado pelo general Uriburu abriu as

 comportas para uma sucesso de governos antidemocrticos , cuja atuao no

 terreno da cultura no poderia ser ilustrada ( Aldo Pellegrini foi preso em

 1933 , por motivos polticos ) .
 No Brasil , a chamada Revoluo de 1930 e os

 sucessivos governos Vargas restringiram cada vez mais as j reduzidas

 liberdades democrticas ( Benjamin Pret foi expulso do Brasil em 1931 , acusado

 de ser um agitador comunista ; Flvio de Carvalho sofreu seguidas vezes a

 represso etc. ) , alm de convidar os intelectuais a marchar culturalmente sob a

 bandeira do nacionalismo .

 Com efeito , nessa poca de franco retorno  ordem poltica e cultural , o espao

 para as vanguardas - e , no caso , para o surrealismo - s podia ser limitado .

 Vejamos o que isso significou concretamente .

 Na Argentina , as pesquisas desenvolvidas at agora no permitiram encontrar

 vestgios de vida surrealista coletiva nos anos 1930 .
 At ignoram-se quais

 foram as atividades de Pellegrini , alm de defender sua tese de doutoramento ,

 fazer a traduo dos Manifestos do surrealismo ( para cuja publicao no

 encontrou editor - pode-se entender por qu ) e redigir poemas ( que publicou

 posteriormente , a partir de 1949 ) .
 Apenas aps o fim da Segunda Guerra se

 registra um reincio das atividades coletivas .

 No Brasil , o surpreendente  que , apesar das condies poucos favorveis , o

 mesmo perodo apresentou vrios nomes cuja categorizao como surrealista

 continua diversamente avaliada - reconhecida , discutida , questionada ou negada

 - , mas cuja obra potica e / ou plstica mantinha relaes ou afinidades com as

 obras dos surrealistas .
 Assim , quando se fala em surrealismo no Brasil , nos

 anos 1930 ,  impossvel no fazer , no mnimo , referncias a , entre outros ,

 Ismael Nery , Jorge de Lima , Murilo Mendes e Flvio de Carvalho .
 Tambm , a

 partir do incio da dcada de 1940 , a Walter Lewy .
 E , obviamente ,  sempre

 esquecida Maria Martins , cuja obra foi descoberta e reconhecida como

 surrealista em ...
 Nova Iorque , em 1943 , por Breton e seus amigos .

 Anos 1950 e 1960

 O que salientar em termos de surrealismo no Brasil dos anos 1950 ?
 Diante da

 impossibilidade de entrar aqui em questes apontadas anteriormente ,

 limitar-me-ei a destacar trs dados .
 Em primeiro lugar , o retorno de Benjamin

 Pret ao pas , em junho de 1955 , com os fins de descansar ( estava com srios

 problemas de sade ) , rever seu filho , reencontrar amigos etc .
 Durante essa

 segunda estada brasileira , Pret deu vrias entrevistas , redigiu um original e

 inovador ensaio sobre o quilombo de Palmares ^ * 13 , circulou pelo Norte e o

 Nordeste , realizou duas viagens para reservas indgenas , adquiriu objetos de

 arte indgena e popular , bateu muitas fotos e tomou anotaes que lhe

 permitiram escrever vrios artigos - assaz informativos , alm de poticos -

 sobre os ndios brasileiros .
 O que , para os surrealistas , no  secundrio , em

 funo de seu apaixonado interesse pelas culturas e artes ditas primitivas .

 Em abril de 1956 , Pret embarcou de volta para a Frana .
 O que , infelizmente ,

 lhe fez perder - por um ms !
 - algo marcante para o surrealismo : a bela e

 excepcionalmente ampla ( 42 esculturas , alm de litografias , desenhos , gravuras

 e alguns objetos de ouro ) exposio de Maria Martins apresentada no Museu de

 Arte Moderna do Rio de Janeiro , cujo catlogo continha trs textos : um de

 Breton , um de Murilo Mendes e um do prprio Pret : " [ ...
 ] as esculturas de

 Maria anunciam um mundo que ainda no existe , a menos que ele prolifere

 alhures , fora da nossa vista ; mas debaixo de que cus ?
 " .

 Enfim , deve-se assinalar que , na segunda metade da dcada , Sergio Lima iniciou

 sua atividade plstica segundo uma perspectiva surrealista .
 Viaja  Frana ,

 encontrando Breton em 1961 e participando das reunies do grupo parisiense .

 Aps sua volta ao Brasil , impulsionou a formao do grupo surrealista de So

 Paulo / Rio , o qual , com o apoio do grupo francs , bem como de Maria Martins e de

 Flvio de Carvalho , organizou a Exposio Internacional do Surrealismo

 intitulada A mo mgica e o andrgino primordial , realizada em So Paulo , em

 1967 .

  guisa de concluso

 Tendo finalizado este breve percurso acerca do surrealismo no Brasil dos anos

 1930 , 1940 e 1950 , o que concluir ?

 Da mesma forma que na Argentina e no Peru , a recepo ao surrealismo variou

 bastante .
 As figuras e correntes mais tradicionais e conservadoras reagiram com

 antipatia , praticando a poltica do silncio e recorrendo vez por outra ao

 ataque explcito .
 No campo modernista , registram-se oscilaes entre a

 curiosidade interessada e as reservas ( por exemplo , Carlos Drummond e Mrio de

 Andrade ) , mas tambm simpatia e mesmo reaes entusisticas , duradouras ou no

 ( Prudente , Srgio Buarque , Ismael Nery , Oswald , Tarsila , Murilo , Jorge de Lima ,

 Flvio de Carvalho , Lewy , Maria Martins etc. ) .

 O que levanta , no mnimo , duas questes .
 Uma , que j comeou ( e apenas comeou )

 a ser discutida e respondida : por que a tese dominante e inconteste , no Brasil ,

 foi durante muito tempo a de que no houve surrealismo no pas at os anos

 1960 , em que bases foi fundamentada tal concepo e em que medida  correta ou

 no ?
 ^ 4 A outra questo ainda est por ser investigada : por que , a partir das

 atividades individuais , contemporneas entre si , desenvolvidas nos anos 1930 e

 1940 - que foram ou so caracterizadas como surrealistas e / ou se

 autocaracterizaram como tal ( mesmo que "  moda brasileira " ^ * 14 ) - , no surgiu

 nenhuma atividade surrealista coletiva ?
 Ou ter existido , sem ser at hoje

 reconhecida ?

 Recebido em 15/09/2003

 Aprovado em 30/11/2003

 * Doutor em Letras ( USP ) .
 Professor titular do Instituto de Letras da

 Universidade Federal do Rio Grande do Sul ( UFRGS ) .
 Pesquisador das vanguardas

 literrias e artsticas , bem como das relaes Literatura / Histria .
 Organizou o

 volume Surrealismo e Novo Mundo ( Porto Alegre : Editora da UFRGS , 1999 ) , entre

 outros ttulos .
 Coordena o grupo de pesquisa interinstitucionalO surrealismo e

 seus dilogos com a modernidade : aproximaes interdisciplinares

 ( SURRDIAL / CNPq ) .

 ** O resumo foi traduzido para o ingls por Laura Bocco e para o francs por

 Vincent Leclercq .

 * 1 ( Sobre o assunto , consultar , por exemplo : Breton , Andr .
 Entretiens ( 1952 ) .

 Paris : Gallimard , 1969 - principalmente os captulos iniciais - ; e Bridel ,

 Yves .
 Miroirs du surralisme : essai sur la rception du surralisme en France

 et en Suisse franaise ( 1916-1939 ) .
 Lausanne : L'ge d'homme , 1988 .
 )

 * 2 ( Sobre o surrealismo na Argentina , devo minhas informaes  tese de

 doutorado , bem documentada e precisa , do prof. Mndez Castiglioni , bem como 

 bibliografia  qual remete .
 Cf .
 Mndez Castiglioni , Ruben Daniel .
 Aldo

 Pellegrini , surrealista argentino .
 Porto Alegre : PUC-RS , 2000 .
 )

 * 3 ( Pellegrini , Aldo .
 " Carta a Graciela de Sola " .
 Em : Sola , Graciela de .

 Proyecciones del surrealismo en la literatura argentina .
 Buenos Aires :

 Ediciones Culturales Argentinas , 1967 : 11 .
 )

 * 4 ( A esse respeito , ver : Lefort , Daniel .
 " Surrealismo no Peru " .
 Em : Ponge ,

 Robert ( org. ) .
 Surrealismo e Novo Mundo .
 Porto Alegre : Editora da UFRGS , 1999 :

 253 , e minha comunicao " O surrealismo na Amrica Latina : o caso do Peru " , nos

 anais do 2 Congresso da Associao Brasileira de Hispanistas , realizado em

 outubro de 2002 , na USP , no prelo .
 )

 * 5 ( Holanda , Srgio Buarque de .
 " Entrevista a Maria Clia de Moraes Leonel , em

 julho de 1975 " .
 Em : Leonel , Maria Clia de Moraes .
 " Esttica " e modernismo .
 So

 Paulo / Braslia : Hucitec / INL , Fundao Nacional Pr-Memria , 1984 : 178 .
 )

 * 6 ( Holanda citado por Leonel , Maria Clia de Moraes .
 " Esttica " e modernismo .

 Ob. cit. : 75. )

 * 7 ( Ver : Aguilar , Nelson .
 " Ccero Dias e o surrealismo " .
 Em : Ponge Robert

 ( org. ) .
 O Brasil e o surrealismo .
 Porto Alegre : Editora da UFRGS , no prelo .
 )

 * 8 ( Andrade , Oswald de .
 " Manifesto antropfago " .
 Revista de Antropofagia , ano

 1 , n  1 .
 So Paulo : maio 1928 : 3 .
 )

 * 9 ( Cunhambebinho .
 " Pret " .
 Revista de Antropofagia , 2 dentio , n  1 .
 Dirio

 de So Paulo , 17 de maro de 1929 .
 )

 * 10 ( " Cartas na mesa : os Andrades se dividem " ( Carta de Carlos Drummond de

 Andrade a Oswald de Andrade ) .
 Revista de Antropofagia .
 2 dentio , n  11 .

 Dirio de So Paulo .
 19 de junho de 1929 .
 )

 * 11 ( Pellegrini .
 " Vida , pasin y muerte del surrealismo argentino " .
 Entrevista

 a Stefan Baciu .
 Em : Baciu , Stefan .
 Surrealismo latinoamericano : preguntas y

 respuestas. Valparaso ( Chile ) : Ediciones Universitarias de Valparaso , 1979 :

 17 .
 )

 * 12 ( Rivas , Pierre .
 " Priphrie et marginalit dans les surralismes

 d'expression romane : Portugal , Amrique latine " .
 Em : Surralisme priphrique .

 Actes du colloque " Portugal , Qubec .
 Amrique latine : un surralisme

 priphrique ?
 " .
 Prsents et dits par Lus de Moura Sobral .
 Universit de

 Montral , 1984 : 14-5 .
 )

 * 13 ( Pret , Benjamin .
 O quilombo dos Palmares .
 Organizao , ensaios

 complementares e comentrios por Mrio Maestri e Robert Ponge .
 Porto Alegre :

 Editora da UFRGS , 2002 .
 )

 * 14 ( Mendes , Murilo .
 " Andr Breton " .
 Em : Poesia completa e prosa .
 Organizao ,

 preparao do texto e notas por Luciana Stegagno Picchio .
 Rio de Janeiro : Nova

 Aguilar , 1994 : 1238 .
 )

 1 Este texto  uma verso , levemente modificada ( atravs de alguns cortes e

 acrscimos ) , da comunicao intitulada " Notas sobre o embate

 Tradio / Modernidade em torno do surrealismo no Brasil , nas dcadas de 1920 e

 1930 " , apresentada no simpsio " PEN-4 : El discurso de la tradicionalidad ; para

 una crtica de la modernidad en Amrica Latina en los siglos XIX y XX " , no

 mbito do 51 Congresso Internacional de Americanistas , realizado de 14 a 18 de

 julho de 2003 , na Universidade do Chile , em Santiago do Chile .

 2 Neste pargrafo , retomei idias e formulaes apresentadas em " O surrealismo

 na Amrica Hispnica e no Brasil " ( Alea : Estudos Neolatinos , vol. 4 , n  1 .

 julho-dezembro 2001 .
 p. 119-132 ) .
 Para uma anlise mais desenvolvida e

 detalhada dessas questes , ver os itens " Gestao internacional do surrealismo "

 e " Paris , capital das vanguardas " , em : " O surrealismo como via de mo dupla " .

 Em : Bernd , Zil ( org. ) .
 Americanidade e transferncias culturais .
 Porto Alegre :

 Editora Movimento , 2003 .
 p. 90-93 e 96-100 .

 3  assim mesmo que ele grafava seu nome , com a vrgula e a minscula .

 4 A esse respeito , ver os instigantes ensaios de Flvio Kothe , Sergio Lima e

 Valentim Facioli na Organon , n  22 , intitulada Aspectos do surrealismo , que

 contm uma seo de cinco artigos dedicados  questo do surrealismo no Brasil

 ( Porto Alegre : Instituto de Letras da UFRGS , 1994 , p. 145-206 ) .
 Como o referido

 nmero est esgotado , os trs ensaios esto sendo novamente publicados em :

 Ponge , R. ( org. ) .
 A recepo das vanguardas literrias e artsticas no Brasil e

 na Amrica Hispnica .
 So Paulo : Nankin , no prelo .

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 Letras , Unversidade Federal do Rio de Janeiro

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