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<DATE>940621</DATE>
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Em 1989, a Incepa –um dos maiores fabricantes brasileiros de cerâmica branca– teve um lucro de US$ 50 milhões, sem esforço. Tinha 5.000 funcionários e, assim como outras empresas do setor, um dos preços mais caros do planeta (US$ 18 o metro quadrado), sustentados por um mercado fechado e de farta liquidez.
Em 1990, o mundo caiu na sua cabeça. O preço de seus produtos desabou para US$ 4 o metro quadrado. Amargou prejuízos e lutou durante dois anos para sobreviver. No final do terceiro ano, não só tinha sobrevivido como estava preparada para enfrentar o mundo.
O número de funcionários caiu para 2.500, o preço para US$ 6 o metro quadrado e este ano deve voltar a ter os lucros de 1989. Vai investir e recontratar em bases incomparavelmente mais saudáveis.
Este aumento da competitividade das empresas brasileiras deve-se a dois fatores, ambos ligados à abertura do mercado.
O primeiro foi o próprio desafio de enfrentar novos concorrentes. O segundo foi o acesso a equipamentos e insumos externos.
Nos anos 80, por exemplo, a Itautec vendia PCs a US$ 18 mil a unidade –cinco vezes a mais do que os preços internacionais–, dos quais US$ 10 mil eram lucro líquido, garantidos pela reserva de mercado. Nem por isso virou empresa moderna e eficiente.
Com a abertura do mercado, foi obrigada a reestruturar-se internamente e também teve facilidades para adquirir no exterior componentes importantes.
Hoje seus micros custam apenas 15% a mais que os preços internacionais. Mas ela pretende reduzir o preço mais ainda, para enfrentar os grandes fabricantes internacionais que deverão se instalar no país nos próximos anos.
Longas distâncias
Os maiores avanços desta integração com a economia mundial ocorreram com aquelas empresas que ganharam expertise enfrentando grandes desafios no país –não naqueles setores em que o país dispunha de vantagens comparativas relevantes.
A tecnologia para administrar redes de telecomunicações extensas permitiu à Equitel (fábrica brasileira, com participação e tecnologia da Siemens) ser contratada para oferecer sistemas de segurança à maior rede de fibras óticas em construção no mundo –7.500 quilômetros na antiga União Soviética.
A necessidade de fabricar veículos de transporte para enfrentar longas distâncias nas condições precárias das estradas brasileiras transformou a Volkswagen do Brasil em fornecedora exclusiva de caminhões para a rede mundial da empresa. E a Mercedes-Benz brasileira em um dos principais fabricantes de ônibus interestaduais do mundo.
O que falta
Não significa que tudo esteja às mil maravilhas. Faltam política industrial, um modelo tributário mais racional, defesas contra dumpings externos e sistemas de financiamento de longo prazo –medidas que dependem do governo.
Falta, principalmente, preparar o Estado para atacar os grandes problemas sociais, algo que poderá ser feito com mais eficiência agora que se tiraram as empresas privadas de suas tetas.
Mas encerrado o paternalismo anterior, a economia brasileira começa rapidamente a encontrar seu espaço no mercado mundial.
Tem-se, de todas as maneiras, de lutar para subordinar o Estado à grande luta para a erradicação da miséria. Mas culpar as empresas por irem bem, enquanto o povo vai mal, é um ato de profundo masoquismo, comparável a culpar o pulmão por estar funcionando bem, enquanto o fígado está batendo pino.
Abuso econômico
Mesmo com as asneiras introduzidas pelo presidente da República, a Lei de Defesa da Concorrência vai ter um base fundamental na implantação do real, coibindo abusos e acordos de preços.
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