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VASILI PETRENKO
Especial para a Folha
Existem datas e cenários nos países que se enfrentaram na Segunda Guerra Mundial que viraram símbolos e testemunhos do ódio e da crueldade semeados pela Alemanha nazista e suas tropas.
Há fatos que demonstraram a maneira mais baixa como um ser humano pode se comportar, que evidenciaram desrespeito a todas as leis e convenções de guerra.
Mas o crime principal cometido pela Alemanha nazista contra a humanidade foi a instalação de mais de mil campos de concentração e suas filiais, usados para a destruição de milhões de vidas condenadas pelo hitlerismo.
As vítimas do terror nazista nos campos de concentração foram 7,5 milhões, dos quais 4 milhões morreram em Auschwitz (números atualizados dão conta de 1,6 milhão de mortos).
Esse campo, que matou pessoas de 24 países, em sua maioria judeus, foi aberto em maio de 1940 e transformou-se no mais tristemente célebre, não apenas por ser o maior em tamanho e quantidade de prisioneiros, mas também pelos meios bárbaros usados no assassinato de pessoas. Foi a síntese do campo de concentração hitlerista, uma das provas do esforço nazista para impor sua idéia da hegemonia mundial da raça ariana.
Mas colocou-se um fim a essa atividade criminosa dos nazistas com o resultado da operação Vístula-Oder, realizada pelo Exército soviético em janeiro de 1945.
Rumo a Berlim
O comando supremo do Exército soviético começou a preparar a operação no final de 1944. Seu objetivo político era completar a libertação da Polônia e deslocar as ações militares para o próprio solo alemão. O objetivo estratégico consistia, no final, em aplainar o terreno para o golpe decisivo que seria a tomada de Berlim.
A operação usou tropas vindas de duas frentes: da Bielorrússia, sob comando do marechal Jukov, e da Ucrânia, sob as ordens do marechal Kaniev. A ofensiva começou a 12 de janeiro.
Nossas tropas, visando a região industrial da Silésia, enfrentaram grande resistência dos nazistas, que se reforçaram com homens e divisões de tanques deslocados de outras frentes. Nossa ofensiva foi brecada a 21 de janeiro.
Diante desse quadro, o marechal Kaniev tomou uma decisão que não estava em nosso plano: ordenou que os tanques sob o comando do general Ribalko fossem para o sul, com a tarefa de entrar na retaguarda das tropas hitleristas que defendiam a Silésia e ajudar a cercá-las. Em 22 de janeiro, quando as tropas começaram a seguir as novas orientações, a situação começou a melhorar novamente.

Desvio
Foi então que o general Kurotchkin, comandante do 60º Exército, definiu a tarefa de seus soldados. Em vez de priorizar a conquista das minas de carvão da Silésia, decidiu-se encaminhar rumo às cidades de Neiberun e Auschwitz. A divisão que eu comandava, a 107ª, devia ajudar na operação, derrotando a resistência inimiga em conjunto com os soldados da 148ª Divisão.
Sem entrar nos detalhes da operação, posso dizer que ela foi concretizada com sucesso e no prazo previsto. Devemos destacar o papel de nossos homens da 100ª Divisão, que, com coragem e heroísmo e em condições muito difíceis, chegaram primeiro para libertar alguns pontos de Auschwitz.
Vale ressaltar algumas dificuldades que eles enfrentaram. Os rios estavam congelados, cobertos apenas por uma fina camada de gelo. Não podiam passar tanques nem sistemas de artilharia, o que os obrigava a construir pontes.
As tropas soviéticas, preocupadas em não provocar baixas entre os prisioneiros do campo, limitaram o uso de armas antitanques. Durante nosso ataque a Auschwitz, não provocamos nenhuma morte entre os prisioneiros.
A 100ª Divisão sofreu mais perdas justamente no ataque a Birkenau, uma das principais partes do complexo de Auschwitz. Durante toda a madrugada de 27 de janeiro, os soldados da 100ª Divisão não interromperam os combates. Por volta do meio-dia conseguimos a vitória.
Uma parte da divisão não parou com essa conquista e continuou perseguindo o inimigo, que fugiu para oeste. Em Auschwitz, trouxemos logo centros de ajuda médica para os sobreviventes da barbárie.
Em pinceladas rápidas, foi assim que o 60º Exército acabou com um terror que os nazistas sustentaram durante 1.670 dias para matar milhões de pessoas.
Alvo sem importância
Fica para a história a importância da operação Vístula-Oder. Mas há um aspecto que deve ser analisado. Estudando os arquivos e documentos relacionados a essa ofensiva, fica-se com a impressão de que para os líderes soviéticos de então a libertação de Auschwitz não tinha nenhum significado. Nem era mencionada, entre os objetivos do 60º Exército, a ação contra a "fábrica da morte".
Em suas memórias, o marechal Kaniev relata que em novembro de 1944, durante uma exposição sobre suas tropas e tarefas a Josef Stálin, então dirigente máximo da URSS, e aos comandantes militares, Stálin mostrou interesse pela conquista da região industrial da Silésia. O marechal não menciona se Auschwitz foi discutido.
Outro fato: na propaganda ideológica dirigida aos soldados do 60º Exército enfatizava-se somente o aspecto de livrar a Polônia da ocupação nazista, sem uma palavra sobre a necessidade de libertar os prisioneiros de Auschwitz.
Como explicar tal comportamento? Podemos supor que o marechal Kaniev não tinha informações suficientes sobre a matança em Auschwitz e que a cidade onde ficava o campo de extermínio não tinha grande interesse estratégico.
Mas por que, então, um comandante do quilate de Kaniev não tinha informações suficientes sobre a matança, por que pouco se sabia sobre isso na URSS, embora os dirigentes tivessem os dados sobre os campos de concentração?
Por exemplo, a 23 de agosto de 1944, a NKVD (antecessora do KGB) da Ucrânia enviou a Moscou informações sobre Auschwitz, recebidas da resistência antinazista. Mas uma fonte crucial de informações foi a libertação, a 3 de julho de 1944, do campo de concentração de Majdanek.
Então, como explicar que os participantes da operação Vístula-Oder não tinham dados sobre os horrores de Auschwitz? A liderança soviética também recebia informações de seus aliados ocidentais sobre o extermínio da população judaica nos campos nazistas.
Anti-semitismo
Mas conhecemos a relação de Stálin com os judeus, sempre marcada pelo antagonismo, pelo anti-semitismo. Tal comportamento não mudou depois da guerra, quando Stálin já sabia que nas Forças Armadas da URSS houve mais de 500 mil combatentes judeus, naquela época 16% da população judaica soviética. Entre aqueles combatentes, 200 mil perderam suas vidas em batalhas.
Podemos supor que, se os comandantes do 60º Exército soubessem o que se passava em Auschwitz, teriam então mudado sua estratégia e talvez libertado o campo de extermínio antes.
Mas isso são suposições. Importa ressaltar que os soldados soviéticos ainda salvaram 10 mil prisioneiros em Auschwitz.
Quero, por fim, propor que 27 de janeiro seja declarado Dia Internacional de Homenagem às Vítimas dos Campos de Concentração Fascistas e em homenagem aos combatentes que deram suas vidas para pôr fim a eles.

O tenente-general VASSILI PETRENKO comandou um dos grupos militares soviéticos que participaram da libertação de Auschwitz.
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