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<DOCNO>FSP950721-016</DOCNO>
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<DATE>950721</DATE>
<CATEGORY>BRASIL</CATEGORY>
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O governo uniu o agradável ao agradável. Dá mais uma ferroada no Banco do Brasil, cujo prejuízo neste ano já se encaminha para os R$ 2 bilhões, e concede mais um favorecimento a empresários que, além de paulistas, são grandes contribuintes financeiros de políticos, com preferência por certas figuras do PSDB. Embora, como contribuintes de impostos, muitos deles sejam frequentadores das listas de sonegação e de dívidas bancárias em aberto.
São US$ 150 milhões a US$ 200 milhões destinados a usineiros de álcool e concedidos por um percurso interessante. O dinheiro, teoricamente, sai da Petrobrás, sob a alegação de pagamento antecipado de álcool a ser entregue em futuro não-determinado. Note-se que a gasolina da Petrobrás já inclui, no preço, um subsídio ao álcool. Mas, na verdade, o dinheiro sairá do Banco do Brasil, que deverá buscá-lo em empréstimo externo, para a Petrobrás.
É claro que o BB não terá a remuneração que obteria usando este endividamento em empréstimos normais. O lucro ficará com os usineiros, seja por dirigir o adiantamento para a safra, seja aplicando-o na ciranda financeira, tão do seu gosto.
O adiantamento sem ônus não é discriminatório, naturalmente. Vão recebê-lo os usineiros do Nordeste como os do Sudeste (leia-se paulistas). Mas, por acaso, os do Nordeste representam apenas 10% do álcool. E o adiantamento só lhes chegará depois que os do Sudeste (leia-se paulistas) o tenham recebido.

O guerreiro
O governador Mário Covas está mesmo zangado (parto do princípio, muito duvidoso, de que em algum dia esteve de bom humor). Não digere o tratamento privilegiado que o governo fluminense concedeu, em relação ao ICMS, para atrair a nova fábrica da Volks. Considera que este ato deflagrou uma ``guerra fiscal", com Estados fazendo concessões prejudiciais a outros. É verdade, há ``guerra fiscal". Sempre houve. Mas, sendo os novos governos de São Paulo e Rio do PSDB, seria de esperar que não houvesse, pelo menos entre os dois, aquela ou qualquer guerra. Se há, convém saber que belicismo egoísta a iniciou e a fez prosperar.
O jornalista George Vidor produziu a resposta, que sintetizo:
1- ``Antes mesmo de completar o primeiro mês de mandato", Covas reduziu de 12% para 7% o ICMS de bens de informática (o Rio, que cobrava 18%, há anos luta para se tornar pólo de informática, assim se evidenciando a finalidade do ato de Covas). Só em abril Marcello Alencar igualou o imposto fluminense ao de Covas.
2- Em maio, Covas prorrogou por três anos a isenção de ICMS, que Fleury fixara em seis meses, para os fabricantes paulistas de pneus de ônibus e caminhões. A concorrente deles, cujos produtos ficariam mais caros pela permanência do imposto, está no Rio.
Os Estados precisam de mais ensinamentos do governador Covas. Mesmo que ele, zangado, se ponha como vítima, para não fugir à regra dos que iniciam guerras.

Os inteligentes
Se pretende mesmo, como está noticiado, reeditar a medida provisória de desindexação dos salários com a cláusula, repelida pelo Supremo Tribunal Federal, que determina negociação salarial por empresa, o governo poderia fazer ao menos uma concessão à burrice.
A cláusula refere-se a dissídio coletivo com negociação por empresa. Se é dissídio coletivo, é de toda a categoria profissional, e não por empresa. A inteligência governamental precisa escolher no cara ou coroa. Ou consultar um dicionário a cada palavra e expressão da sua literatura autoritária.
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