<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19940119-136</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940119-136</DOCID>
<DATE>19940119</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<TEXT>
Os deserdados de 1948
Texto e Fotografias: Ingeborg Lippmann
Sentem-se traídos, esquecidos, enganados em relação a um futuro pelo qual muitos deram a vida nos últimos 45 anos. A maior parte dos palestinianos refugiados no Líbano desde 1948, na sequência da criação do Estado de Israel, não são contemplados no acordo para a autodeterminação limitada da Faixa de Gaza e de Jericó. O seu caso não virá sequer à discussão antes de 1996. Uma repórter norte-americana esteve recentemente entre eles, nos campos de Ein El-Hilweh, Chatila e Rashidieh, e sentiu a sua revolta. Reportagem.
O acordo de paz OLP-Israel lançou na confusão os cerca de 220 mil refugiados palestinianos retidos em míseros campos no Líbano. A 13 de Setembro, antes mesmo da assinatura do acordo em Washington, exaltadas manifestações eclodiram na maior parte deles. Nos subúrbios, ao sul de Beirute, violentos confrontos entre o Exército libanês e membros do movimento fundamentalista Hezbollah, pró-iraniano e apoiado pela Síria, resultaram na morte de nove militantes islâmicos.
Os refugiados estão indignados, sentem-se traídos, esquecidos, enganados em relação a um futuro pelo qual muita da sua gente deu a vida nos últimos 45 anos. A maior parte dos palestinianos radicados no Líbano fugiram para aí em 1948, na sequência da criação do Estado de Israel. A maioria provinha de regiões da Palestina actualmente integradas no Estado de Israel. Eles e os seus descendentes não são contemplados no acordo para a autodeterminação limitada da Faixa de Gaza e de Jericó. A questão dos refugiados de 1948 não virá sequer à discussão antes de 1996.
Em flagrante contraste com a pobreza que afecta os refugiados deixados ao abandono em campos superlotados acham-se aqueles que conseguiram salvar parte dos seus bens ao fugirem da Palestina, em 1948. Suficientemente abastados para arrendarem casa fora dos campos de refugiados palestinianos registados, muitos são os que, dos cerca de 130 mil palestinianos integrados na sociedade libanesa, pertencem hoje à classe rica. Aqueles que pretendiam exercer actividades profissionais como a medicina, a advocacia, a arquitectura ou a engenharia tiveram primeiro de adquirir cidadania libanesa. Muitos foram os palestinianos que se tornaram libaneses, especialmente de entre os seguidores da fé cristã. Para estes, a assinatura do acordo de paz Arafat-Rabin não é tão avassaladora como para os refugiados que vivem na mais deplorável das misérias.
Poucos são os palestinianos abastados que optarão por trocar uma vida próspera e estável por um futuro incerto no já superpovoado e apodrecido «território de autodeterminação limitada», onde teriam de começar do nada. A preocupação deste grupo vai para o grau de determinação do Governo libanês em livrar o país de todos os palestinianos que nele se encontram.
De um milhão de palestinianos, cerca de três quartos, integrando sobretudo pequenos proprietários agrícolas, trabalhadores rurais e assalariados, perderam as suas propriedades, casas e modo de vida durante e na sequência da guerra israelo-árabe de 1948. Os palestinianos fugiram, ou viram-se forçados a partir do território que viria a constituir o Estado de Israel, com destino aos países árabes vizinhos, com destaque para a Jordânia, o Líbano, a Síria, a Margem Ocidental, a Faixa de Gaza e o Egipto. A guerra de 1967 resultou na ocupação israelita da Margem Ocidental, de Gaza e dos Montes Golã, o que provocou a deslocação de 500 mil outros palestinianos. Actualmente, devido sobretudo ao crescimento demográfico, o número de refugiados palestinianos registados pela Agência das Nações Unidas de Auxílio e Assistência aos Refugiados Palestinianos no Médio Oriente, UNWRA, é de quase 2,8 milhões.
Mais de metade dos 350 mil palestinianos refugiados no Líbano vive em 12 campos de refugiados. Não lhes é permitido procurarem emprego fora da área do campo, excepto na construção ou como trabalhadores a dias, sem autorizações especiais. O único documento que a maioria dos palestinianos possui é o cartão de registo da UNWRA que os identifica como refugiados palestinianos. Tanto libaneses como palestinianos têm sido vítimas de um sofrimento deplorável provocado por quinze anos de guerra civil e pelas invasões israelitas de 1978 e 1982. Do seu conjunto, 200 mil foram mortos, milhares de outros mutilados, dezenas de milhares perderam a casa ou foram remetidos para a pobreza, continuando a viver em condições infra-humanas. Embora a situação geral no Líbano tenha melhorado no ano transacto, as repercussões do conflito persistem.
A perturbante realidade que representa o facto de o presidente da OLP, Yasser Arafat -- o homem a quem Israel outrora chamava «inimigo público número um» --, apertar a mão a Itzhak Rabin, primeiro-ministro israelita, teve o efeito de uma bomba tanto entre palestinianos como entre israelitas. Arafat: «o único árabe bom»? Ou: «Um traidor que vendeu a nossa terra e que deixou de representar o povo palestiniano»?
Os palestinianos radicais opõem-se ao plano por este estabelecer apenas a autodeterminação limitada na Faixa de Gaza e em Jericó, e não o Estado independente que constituiu, durante décadas, o objectivo primordial dos palestinianos. Dizem eles que Arafat traiu o seu povo, ao avançar com o plano secretamente negociado com os israelitas, sem primeiro procurar obter a aprovação do órgão legislativo da OLP. Para os homens da linha dura, Arafat deixou de ser o representante do povo palestiniano. Ao que afirmam, tentarão depô-lo e boicotar todas as instituições palestinianos estabelecidas ao abrigo dos acordos, incluindo as eleições programadas.
Segundo as dez facções dissidentes da OLP, a maioria dos refugiados palestinianos no Líbano é contrária ao acordo. Por seu turno, a Fatah, o maior movimento no seio da OLP e principal sustentáculo do poder de Arafat, defende que a maior parte dos refugiados apoia o acordo Arafat-Rabin. Há quem diga, ainda, que os refugiados de campos situados em zonas sob controlo sírio temem expressar a sua opinião. As famílias dividem-se, há o medo da retaliação, teme-se o eclodir de conflitos entre facções palestinianas rivais.
A conversa travada em campos opostos revelou-nos uma falta de unanimidade de pontos de vista no seio de todos eles. Do lado da oposição, excepções havia que eram a favor do acordo, enquanto do lado pró-Arafat existiam inúmeros opositores confessos ao controverso pacto.
A sul da cidade portuária de Sídon, 36.451 palestinianos aglomeram-se em três quilómetros quadrados de terra nos arredores, em Ein El-Hilweh, o mais populoso dos 12 campos registados do Líbano. (Os campos nunca viram alargados os seus limites desde que, em 1949, foram instalados em terrenos, quer adquiridos quer alugados pela UNRWA a cidadãos libaneses.) À entrada de Ein El-Hilweh há um posto de controlo do Exército libanês, autorizado a verificar a identidade de todo aquele que entre ou saia do campo e a recusar-lhe a entrada ou a saída. Dizem os palestinianos que não sabem se o Exército está ali para os proteger ou para lhes controlar os movimentos.
No interior do campo, homens armados da Fatah. À esquerda, a escassos 30 metros da entrada, fica o gabinete da Fatah. Munir Makdah, comandante dos cerca de seis mil homens da Fatah, foi demitido do cargo por Yasser Arafat quando se opôs abertamente ao acordo de paz. Foi substituído pelo seu adjunto, Khaled Shayeb. Desde então, Makdah foi alvo de um atentado, tendo subsequentemente constituído a sua própria milícia para defesa pessoal.
De guarda ao edifício da Fatah, um homem já de idade enverga um velho casaco camuflado e empunha uma Kalashnikov. Quase fronteiro às instalações da Fatah, o quartel- general da FPLP, a Frente Popular para a Libertação da Palestina, de George Habash, uma das dez facções radicais da OLP que se opõem ao acordo de autodeterminação limitada. Aí, não há guarda, e o portão está fechado.
O campo é cinzento e triste como todos os outros. Um aglomerado compacto de construções de um ou dois andares em cimento e tijolo que se comprimem ao longo de estreitas e sinuosas vielas. Os sinais da guerra estão por toda a parte. Na rua principal, umas quantas mesas esfoladas e cadeiras velhas dispersas por uma placa de cimento ligeiramente sobreelevada compõem o café local, onde os homens se juntam para conversar, jogar cartas, beber, forte, o café preto por pequenos copos, ou o chá escaldante, aromatizado com um ramo de hortelã, mas onde, sobretudo, se conversa, e toda a conversa se centra, nos dias que correm, no acordo de paz.
Então, e aquele impensável aperto de mão? «Tenho vergonha», diz um dos homens. «Não consigo aceitá-lo. Nós queremos a paz baseada na justiça, e onde está a justiça?»
«Eu chorei ao ver o Arafat apertar a mão a Rabin», acrescenta um amigo. «O Arafat não tem terras na Palestina, mas eu perdi tudo. O que é que recebo? Antes de 48, nós não agredíamos ou matávamos judeus como os judeus matavam os palestinianos. Chegaram os judeus vindos de fora e criaram problemas entre palestinianos e judeus.»
«Foram os persistentes problemas no seio da OLP que levaram Arafat ao acordo», diz outra voz. «Nós não concordamos com o plano de paz; somos contra ele. Os ingleses e os judeus mataram palestinianos para criarem Israel; o plano de paz não é solução. Nós sabemos como são os judeus, só estão lá há 45 anos, mas a América, que tem o braço comprido, e a pressão de muitos países árabes e europeus fizeram com que Arafat aceitasse o acordo de paz.»
«Se os judeus podem ficar com a Palestina, porque lá estiveram estabelecidos há dois mil anos, então os índios americanos deviam ficar com os Estados Unidos por inteiro! Este acordo não é o que ambicionamos; nós queremos a nossa terra por inteiro -- a Palestina!», acrescenta outro.
Hassan Ali Eissa está sentado à porta de casa de um amigo, passando entre os dedos as suas contas gastas, e enverga um fato de safari à inglesa. Durante o protectorado britânico da Palestina, no início de 1948, era ainda um elemento da Polícia palestiniana. Em Junho de 1948, a família fugiu juntamente com toda a população da aldeia de Hittin, quando subitamente o povoado começou a ser alvo de bombardeamentos da artilharia israelita, sem que ninguém lhes dissesse porquê. Partiram sem levar chaves, documentos ou os seus bens, apenas com a roupa que vestiam.
Hassan deixou para trás uma casa e sete «dunums» [medida iraquiana que equivale a cerca de 0,25 hectares] de olival. A gente da aldeia dirigiu-se a pé para Tiro, no Sul do Líbano, onde lhes disseram que continuassem até à Síria. Foram de comboio até Hama. O Governo sírio separou os refugiados e pôs cada família numa aldeia diferente. O «mukhtar» sírio (o prefeito da aldeia) pediu à população que fosse hospitaleira para com os refugiados, mas a comida que os palestinianos recebiam era constituída pelos restos das frugais refeições dos aldeões. Os refugiados sentiam-se humilhados e eram demasiado orgulhosos para aceitarem esmolas.
Hassan mudou-se com a família e muitos outros para Mieh-Mieh, um campo de refugiados nas imediações de Sídon, instalado pelo CICV (Comité Internacional da Cruz Vermelha) e mais tarde transferido para a tutela da UNWRA. Aí ficou até 1952, altura em que se mudou para Ein el-Hilweh.
Durante dez anos, só existiam tendas em Ein el-Hilweh, fornecidas pela UNWRA. A Agência das Nações Unidas dava-lhes também comida, roupas e cobertores, instalou escolas e prestava assistência médica. Poucos eram os deslocados que conseguiam encontrar trabalhos de ocasião fora do perímetro do campo, recebendo por dia 1 libra e 25 piastras libanesas (o equivalente a cerca de 130 escudos nesse tempo).
Ao abrigo de um acordo assinado em 1969 com um Governo libanês dividido e quase impotente, a OLP passou a dirigir os campos em termos de facto, pondo fim às restrições impostas pelos serviços de segurança libaneses, e passou a prestar, em conjugação com a UNWRA, auxílio financeiro aos mais carenciados, desenvolvendo acções de assistência social e reforçando o sentido de identidade nacional e cultural dos refugiados.
«Para além da Fatah, criaram-se no seio da OLP diversas facções, cada uma delas controlada e financiada por uma nação árabe diferente -- Síria, Iraque, Jordânia, Líbia, Egipto. Os Estados árabes resolviam os seus problemas ao envolverem as respectivas facções na sua solução, muitas vezes dentro dos campos de refugiados, aumentando o nosso sofrimento. Era bom para os países árabes, mau para nós», diz Hassan.
Eis o seu comentário acerca do acordo OLP-Israel: «Antes de Arafat e Rabin se encontrarem, ninguém podia acreditar num acordo de paz. Isso era como que um sonho! A guerra destrói, a paz é que é boa. Reconstruir tudo, sentirmo-nos seguros. A verdadeira paz é conceder direitos ao povo, o direito ao povo palestiniano de voltar para o seu país, a Palestina. O princípio de Gaza e Jericó é bom. Se o aperto de mão significar o princípio de uma solução para o nosso problema, não me envergonho. Se não houver uma evolução para a gente de 48 dentro de dois ou três anos, a OLP e Rabin serão substituídos por outros movimentos. Recomeçarão os combates. Jericó e a Faixa de Gaza não têm tamanho suficiente para todos os refugiados palestinianos, pelo que algo terá de acontecer. A sensação que tenho é que eles nos deixarão voltar para a nossa terra. Odeio a minha vida. Sem país, sem passaporte, sem terra, um objecto durante 45 anos. Se dentro de três anos não houver solução, estou disposto a voltar a combater como puder.»
Apoiado em muletas, Riad Hamed, de 33 anos, está encostado à parede de uma casa a ver crianças brincar numa viela poeirenta. Quando tinha nove anos, Riad juntou-se às fileiras de guerrilheiros da FDLP, a Frente Democrática para a Libertação da Palestina, de Nayef Hawatmeh, de inspiração marxista. Em 1977, com 17 anos de idade, foi atingido na coluna por estilhaços de um projéctil de fragmentação Howitzer de 175mm, israelita, disparado de Marajayoun (um enclave cristão libanês controlado pelos israelitas), tendo por alvo uma posição da FDLP em Arnoun. Passou três meses no hospital Barbir, em plena Beirute, ficando então até 1979 no hospital de campanha de Bourj el-Barajneh, nos subúrbios a sul da cidade. De 1977 a Janeiro de 1993, recebeu dinheiro da OLP, e a partir daí, nada mais. «A FDLP não quer aceitar dinheiro de Arafat», diz ele. «Por isso dizem-me que tenho de esperar que lhes chegue o próximo pagamento, vindo não se sabe de quem!»
Os seus quatro irmãos, todos eles combateram -- por diferentes facções da OLP -- nas «guerras de campo» em Beirute, em 1985 e de novo em 1988, que opuseram a milícia xiita libanesa Amal, apoiada pelos sírios, aos palestinianos. Um deles, Ihmad, foi morto aos 16 anos, num confronto interfacções em Ein el-Hilweh, em 1989.
Riad não tem muito que dizer sobre o acordo de paz. «É bom, mas as dez facções radicais só concordarão [com o acordo] quando Israel devolver por completo os Montes Golã à Síria. Só farão a paz quando toda a Palestina for devolvida aos palestinianos!»
O irmão de Riad, Majed, tem diferente opinião. «O único árabe que presta é Arafat, os outros não prestam!» Majed considera também que o primeiro-ministro libanês, Rafik Hariri, fez o melhor que tinha a fazer, ao tentar forçar uma solução para os palestinianos, quando disse «o Líbano é para os libaneses, a Palestina para os palestinianos».
O pai, Hamed Ibrahim, é cem por cento a favor de Arafat. «Eu estou com o Arafat; usámos a nossa força a lutar pela conquista dos nossos direitos, a destruir o nosso povo, a perder os nossos jovens, não conseguimos nada -- porque somos fracos, não temos poder suficiente. Agora iniciámos um processo de paz que é preferível à guerra, liderado por Abu Ammar [nome de guerra de Arafat], que é bom homem. Resultado, receberemos qualquer coisa em vez de coisa nenhuma. Se Abu Ammar está a negociar a Faixa de Gaza e Jericó, quem sou eu para lhe dizer que não o faça? Eu não sou nada, ele é tudo! Os outros dez [as facções dissidentes] também não são nada, o Arafat é tudo. Nenhum dos dirigentes árabes se manteve ao lado de Arafat, porque todos eles trabalham para Israel. Eu vivo no Líbano há 45 anos, tenho o Líbano no corpo; mas sou palestiniano e nunca mudarei a minha nacionalidade!»
«Eu só quero ir para casa», diz Hilani, mulher de Hamed, que fugiu da aldeia de Hittin. «Ia a pé para a minha terra; não me importa se ainda tenho casa, estou disposta a viver a céu aberto, desde que seja na Palestina!»
Quarenta e cinco anos de luta pela sobrevivência, a maioria dos quais em condições infra-humanas, deixaram marcas na mente e no corpo de qualquer palestiniano. A história da sua vida é, para todos eles, um rol de desgraça humana à superfície da terra.
Um homem já velho, envergando um imaculado «galabyah» branco e o tradicional «keffyeh» na cabeça, entra, um pouco aéreo, em casa de Hamed. Surge outra rodada de café. Hassan Abdel Rahim tem 70 anos. Os olhos, ramelosos, inchados. As veias azuis sobressaem-lhe das mãos. Fugiu, com a mulher, da aldeia de Nimrin, na região de Tabaria, na Palestina, sob bombardeamento da artilharia judaica, em Maio de 1948. A propriedade de Abdel Rahim tinha 500 «dunums». Tal como a maioria dos palestinianos, fugiram com o que tinham no corpo. Primeiro para Bent Jbail, depois para o campo de Ein el-Hilweh.
Abdel Rahim tinha cinco filhos e tem ainda cinco filhas. Em 1982, durante a segunda invasão israelita, perdeu um filho que fugia dos israelitas e foi apanhado pela milícia das Forças Cristãs Libanesas em Souk el Gharb. «Forças Libanesas» é o nome dado à milícia cristã que combateu na guerra civil libanesa em nome da comunidade cristã. Desde 1982 que Abdel Rahim tenta encontrar o filho desaparecido. Contactou a Cruz Vermelha Internacional, a Cruz Vermelha e o Governo libaneses.
Rahim sabe que, quando as Forças Libanesas abandonaram a região de Souk El Gharb, entregaram os seus prisioneiros à SLA, a milícia afecta a Israel. O Governo libanês contactou a SLA mas não obteve resposta. «O Governo libanês já esqueceu tudo», diz. «É só mais uma pessoa raptada, desaparecida!» A mulher do filho desaparecido, Yisra, os seus dois filhos, Omar e Hamsi, e as duas filhas, Nasrin e Mona, vivem agora com Abdel Rahim e a mulher, Manwa, no seu parco alojamento.
Um pouco depois, já na sua sala de estar, acompanhados de mais café, Abdel Rahim fala da sua última esperança: três anos antes de os palestinianos serem obrigados a deixar a Palestina, os ingleses fizeram um registo cadastral de todas as propriedades e respectivos proprietários, cadastros que houve mais tarde quem dissesse terem sido passados para microfilme. Abdel Rahim crê ser possível reaver uma cópia do seu registo de propriedade, contactando o Governo britânico, por forma a poder reclamar as suas terras quando voltar para a Palestina. Diz que lhe contaram que todas as casas da aldeia foram destruídas, «ninguém plantou ou construiu o que quer que fosse em Nimrin, a aldeia tornou-se uma posição do exército israelita».
É azedo o seu discurso em relação aos países árabes. «Os árabes deixaram que os judeus nos bombardeassem, os palestinianos fugiram e os árabes deixaram os judeus tomarem a Palestina! Fomos enganados pelos nossos irmãos árabes!»
Quanto ao acordo de paz: «Há seis meses atrás pensava que não tinha nada, não tinha um sítio meu onde viver, não tinha país, não tinha governo para me proteger, era incapaz de deixar o perímetro do campo, perdi um filho, amigos e muitos membros da minha família. O sítio a que, em Ein el-Hilweh, chamo casa foi destruído três vezes, duas pelos israelitas e a terceira pelas Forças Libanesas e depois pela milícia Amal. Agora, depois de Arafat e Rabin terem entrado em acordo, pelo menos há esperança!»
«O Arafat não é estúpido ao ponto de tentar ficar só com Jericó e com a Faixa de Gaza», acrescenta a sua filha Aida. «Sabe que acabará por conseguir mais do que isso! No campo, a maioria das pessoas confia em Arafat.»
A caminho da saída, turbas de crianças, que seguiram sempre a visitante estrangeira, gritam em triunfante e alegre agitação: «Filistine, Filistine!» (Palestina, Palestina.)
Pouco antes de chegarmos à saída do campo, encontramo-nos com três militantes do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) a meio da casa dos vinte anos. Os seus sentimentos em relação ao acordo de paz são claros e expressos em poucas palavras. «Não deporemos as armas ou deixaremos de combater até podermos voltar para An Nassrh [local da Palestina de onde os seus pais fugiram]. Arafat senta-se com o inimigo, é nosso inimigo! Israel fica com tudo e os palestinianos sem nada!»
No regresso a Beirute, um desvio até Jibsheet, uma aldeia na região de Iqlim al Toufaah, e viveiro do fundamentalismo islâmico. O xeque está ausente, pelo que só é possível uma breve conversa com os guerrilheiros do Hezbollah. E se Israel devolver todo o território libanês? «Se eles retirarem da nossa terra, isso não significa que deixem de ser nossos inimigos, eles [os israelitas] são nossos eternos inimigos! Mesmo que eles retirem, enquanto Jerusalém continuar nas mãos dos judeus não há paz!» E se a Síria impedir o Hezbollah de combater? «Ainda que a Síria nos diga para deixarmos de combater e concorde com o plano de paz, nós continuaremos a lutar, mesmo que em conflito com a Síria. Esse problema será resolvido pelo nosso grande chefe, o xeque Hassan Nasrallah [sucessor do líder do Hezbollah Abbas Musawi, assassinado com a mulher e o filho perto de Jibsheet por tropas israelitas em helicópteros de combate].
O que acharam do aperto de mão Arafat-Rabin? «Arafat vendeu a sua terra -- o rei Hussein é tão mau como Arafat!» Quem é o melhor árabe? «Hafez el Assad [o Presidente sírio]. Assad não vai acatar, não quer meias medidas; tem a nossa confiança porque pretende uma solução global. Todos os militantes do Hezbollah são verdadeiros combatentes contra Israel, combatem os judeus que ocupam terra árabe. Existem actualmente dois grupos palestinianos, OLP-Fatah-Arafat, e os outros! Nós somos contra Arafat, continuamos a combater!»
Desde 13 de Setembro e da assinatura do acordo de paz, verificaram-se cerca de 50 ataques perpetrados pelo Hezbollah e por grupos palestinianos radicais contra a chamada «zona de segurança israelita», ao sul. Os israelitas têm geralmente retaliado, atacando com caças-bombardeiros, helicópteros de combate e artilharia a área libanesa situada ao norte da zona de segurança.
Diz-se que os palestinianos concentrados no mísero campo de Chatila, em Beirute, se opuseram firmemente ao acordo de paz. Em 1988, o campo foi destruído em 97 por cento. Quando a UNWRA entrou em Chatila, em Junho de 1988, encontrou 27 sobreviventes, tendo sido iniciada a reconstrução em 1989.
De cara macilenta e pálida, Mahmoud Khalil Khais, de 70 anos, fugiu de Acre com a mulher, Subhia, de 70 anos também, e a maior parte da respectiva população em Maio de 1948, altura em que ouviram falar do massacre de Deir Yassin, a aldeia onde 250 palestinianos, sobretudo mulheres e crianças, foram mortos pelos bandoleiros do Irgun de Menachem Begin. Os refugiados foram directamente para Chatila.
Mahmoud vive num quarto escuro, húmido e frio, cuja porta dá para uma ruela suja e alagada. Há nele uma mesa diminuta e uma cama com estrutura de metal e uma colecção de cobertores puídos. A mulher está doente e fica em casa de parentes, fora do campo. Mahmoud vive de sanduíches. Tem água, mas não dispõe de apetrechos de cozinha ou electricidade (a única electricidade que há em Chatila é a energia comprada, por aqueles que a podem pagar, aos donos de geradores gigantes à razão de 35 dólares por mês, o equivalente a 60,5 mil libras libanesas). Mahmoud trabalha como porteiro num prédio próximo de Chatila, ganhando actualmente cerca de 200 mil libras libanesas (cerca de 20.50000). As autoridades libanesas estão dispostas a instalar electricidade, mas também contadores, de modo a poderem cobrá-la.
Durante os últimos 45 anos, Mahmoud e a mulher só deixaram Chatila nos períodos de confrontos, refugiando-se habitualmente na Cité Sportive, antigo estádio reduzido a escombros durante guerras sucessivas e a invasão israelita de 1982. Na altura do massacre de Sabra-Chatila, estavam na Cité Sportive. «Sentíamo-nos mais seguros na Cité Sportive, embora na realidade nenhum sítio fosse seguro, excepto, talvez, um abrigo subterrâneo.» Até os últimos vestígios do estádio terem sido finalmente arrasados no Verão de 1993, as ruínas eram ainda habitadas por centenas de desalojados, incluindo palestinianos.
Mahmoud é evasivo no que diz respeito ao acordo de paz. «É o destino do povo palestiniano; seja qual for a decisão tomada, temos de o aceitar.» Tem ainda irmãos em Acre e ao menos teria um sítio onde viver. «Iria imediatamente viver de novo para o meu país!»
Ao dobrar da esquina vive Abul Abed, nascido em Chatila em 1968. Abul Abed e a mulher, Gorgina, têm dois filhos e uma filha. Há cinco dias, em Sabra, ali ao lado, as Forças Interinas de Segurança Libanesas apreenderam-lhe o carrinho de verduras. Disseram-lhe que iam construir um passeio no sítio onde costumava vender os seus produtos. Está agora sem fonte de rendimento e vai tentar arranjar emprego na construção, fora da área do campo, para sustentar a família. Há vários meses que a OLP não procede aos pagamentos habituais. «Porque está falida e há muitas lutas internas», diz Abul Abed, que frequentou durante dois anos a escola da UNWRA em Chatila, até ser expulso por se ter alistado como guerrilheiro na Fatah. Participou na guerra contra a milícia xiita libanesa Amal em 1985 e de novo em 1988, tendo perdido um olho e um dedo. Gorgina foi atingida nos braços por estilhaços de disparos de franco-tiradores, quando tentava chegar a uma fonte nos limites do campo.
Os seus alojamentos em Chatila foram destruídos cinco vezes, ficando actualmente o casal numa casa cujo dono está ausente. Quando ele voltar, terão de procurar outro abrigo.
«Há outros que são contra Arafat», diz Abdul Abed, sentado em almofadas colocadas no chão, depois de toda a gente estar servida de chá e «sater manoufe» (pão arábico quente e espalmado, barrado com azeite e tomilho). «Mas ao menos ele deu início a qualquer coisa. Talvez a próxima geração, ou a seguinte, regresse à Palestina; nós não, não a minha geração. Oficialmente, três quartos da população de Chatila são contra o acordo. As dez facções dissidentes estão todas aqui representadas. Um quarto da população é a favor de Arafat. Mas no fundo todos estão com Arafat; escondem os seus sentimentos temendo retaliações!»
Abul Abed tentou obter um visto de trabalho para a Arábia Saudita. «Nem sequer me davam um visto para fazer o `Haj'!» A peregrinação anual a Meca. «Os meus amigos sírios e libaneses receberam o visto, mas um palestiniano só terá a concessão de um visto se não for filiado em nenhum movimento político! Quando as embaixadas ocidentais emitirem vistos a palestinianos, há-de ver muitos deles a dormirem diante dessas embaixadas, para saírem dos países árabes. Que país árabe é que se manteve ao nosso lado? Nenhum!»
Uma mãe de nove filhos vem visitá-los. Não diz o nome, expressando entretanto o seu desdém. «Há 45 anos que combatemos, e veja o que conseguimos, Gaza e Jericó. Arafat pode sentar-se em paz na Palestina. E nós? Havemos de vendê-lo como ele nos vendeu. Do acordo não nos toca nada, pelo menos nos anos mais próximos!»
Nas sombrias instalações da FPLP de Chatila há um enorme «poster» de George Habash. Diversas fotografias de guerrilheiros, homens e mulheres, que morreram pela causa decoram as paredes. «Para nós, não existe acordo de paz, mas tão-só conversações de capitulação», diz o porta-voz, Abu Mustafa. «Queremos a terra em troca da paz. Dissemos o que pensávamos quando Madrid teve início -- a autodeterminação limitada não produzirá nada! O que representam Gaza e Jericó? Para os israelitas, abrem uma porta económica para o Médio Oriente. Israel fica com tudo, os palestinianos com nada. Não existe país chamado Gaza ou Jericó, apenas haverá um território com autodeterminação limitada -- dirigido por Arafat, por intermédio de Israel, em cooperação com os Estados Unidos! Não temos alternativa senão combater.
Arafat já não representa o povo palestiniano, nem mesmo entre os refugiados de 1967. Há novos colonatos em construção nos territórios ocupados, há confrontos entre colonos judeus e palestinianos. Para onde é que vão os palestinianos? A FPLP e a FDLP constituem já um movimento e continuaremos a luta armada juntamente com as outras oito facções. A maior parte dos libaneses e dos palestinianos é contra o acordo, 35 por cento a favor e 65 por cento contra. Não precisamos de esperar que os países árabes nos dêem armas, resta-nos muito armamento com que combater. Existe um mercado livre onde qualquer pessoa pode comprar armas. Dinheiro temo-lo nós!»
E quanto ao Líbano e ao combate contra Israel do interior das suas fronteiras? «A OLP nunca arranjou uma `licença' de combate. Nós podemos usar as frentes síria, egípcia e jordana -- os libaneses que corram connosco se quiserem. Nós temos de continuar a combater!»
No campo de Rashidieh, próximo de Tiro, no Sul do Líbano, deparamos, ao dobrar de uma curva na estrada de terra, passada a posição do Exército libanês que controla a entrada única, com guerrilheiros armados no posto da Fatah. O perímetro e a própria delegação da Fatah são guardados por guerrilheiros fortemente armados.
Abu Ziad Sultan Abul Aienein, o porta-voz da Fatah para a região sul, convida a visitante para o seu gabinete, apinhado de altas patentes da Fatah. Na parede por detrás da sua secretária, uma grande bandeira palestiniana e um «poster» que retrata Yasser Arafat com o seu «número dois», Abu Jihad, assassinado em Tunes por um comando israelita. Abu Sultan diz que, de norte a sul, 75 por cento dos refugiados palestinianos estão com o acordo, mas que, devido à presença das tropas sírias, não podem expressar livremente a sua opinião. Os dez grupos dissidentes não passam de «dez pessoas», os mais numerosos são os grupos islâmicos, o Hamas, a Resistência Islâmica e a Jihad. De momento não podem fazer nada. Quando a Síria e o Líbano tiverem assinado o acordo, os que o rejeitam suspenderão toda a sua actividade. A solução militar foi ultrapassada pela solução política. «Nós somos a favor dos acordos. Arafat foi o primeiro a pegar nessa arma e é o único que pode alcançar a paz! Há-de conseguir mais do que a Faixa de Gaza e Jericó, o acordo contempla mais do que isso! Dentro de, no mínimo, dois anos, três no máximo, haverá uma solução para os refugiados de 1948.
«Dentro de nove meses haverá eleições realizadas sob controlo da autoridade nacional palestiniana e dar-se-á a retirada dos israelitas do território da Palestina. Passados dois anos, teremos de enfrentar quatro problemas: 1) A completa retirada israelita de Jericó, da Faixa de Gaza e da Margem Ocidental; 2) O destino dos colonatos israelitas; 3) Jerusalém é uma cidade árabe e palestiniana -- árabe e palestiniana permanecerá; 4) Os refugiados e o seu direito de regressarem à Palestina. A solução destes quatro problemas deveria conduzir a um Estado palestiniano e sem esses quatro pontos satisfeitos não haverá paz. Os palestinianos têm de ter um Estado independente. Concordamos com as Resoluções 242 e 338 da ONU; Israel deveria agir em conformidade com as mesmas.»
Porque é que nos últimos meses a OLP não tem feito quaisquer pagamentos aos refugiados?
«Nós estamos sitiados pelas nações árabes. Esta pressão tem por objectivo fazer-nos concordar com o acordo. Outra razão é a posição assumida pela OLP durante a guerra do Golfo. A nossa situação é muito difícil; os árabes são responsáveis por nós, deviam desempenhar nisto o seu papel e pôr-se ao lado do direito e da justiça mas as relações têm sido instáveis. Não esperamos que os Estados Unidos nos dêem dinheiro, nem que tomem partido contra a nossa causa -- porque há 45 anos eles insistiram que nada sabiam dessa justiça e tomaram partido pela injustiça. Precisamos de uma intervenção europeia para pôr termo à tirania e aos males infligidos ao povo palestiniano. Não esperamos auxílio da América. A nossa esperança é a Europa! Os árabes com capacidade financeira são mais influenciados pelos EUA do que por nós devido à guerra do Golfo. Esses árabes estão em dívida para com os EUA, mas a maioria dos países do Golfo há-de pagar qualquer coisa, não directamente à OLP mas ao Banco Internacional. Ele são árabes, mas não querem ajudar! Seja como for, dentro de dois meses, Abu Ammar terá resolvido os nossos problemas financeiros, o dinheiro não é o nosso problema mais grave!»
No dia 1 de Janeiro de 1994, os refugiados palestinianos receberam da OLP os retroactivos relativos aos meses de Junho, Julho e Agosto de 1993. Os pagamentos respeitantes a Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro serão regularizados no dia 1 de Fevereiro, após o que tudo voltará ao normal.
[Tradução de João Luiz Gomes]
</TEXT>
</DOC>