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<DOCNO>PUBLICO-19940213-067</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940213-067</DOCID>
<DATE>19940213</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
<AUTHOR>ACST</AUTHOR>
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Jovens sequestradas e violentadas em Albufeira
PJ desmantela rede de prostituição de menores
Idálio Revez
Jovens em busca de "um lugar ao sol" foram para o Algarve e caíram mas malhas da prostituição. A organização funcionava com raparigas menores que, para se "domesticarem", eram sequestradas e submetidas a maus-tratos. O negócio funcionou durante dois anos, até que a PJ de Faro desmantelou a rede, há oito meses. Agora, no seguimento das investigações, descobriram-se novos crimes: roubo e falsificação de documentos.
A «casa das gatinhas» , um casebre situado no interior concelho de Albufeira, funcionou durante cerca de dois anos como «laboratório» de uma rede de prostituição de raparigas menores. A Polícia Judiciária de Faro libertou há oito meses as jovens sequestradas e prendeu os responsáveis pelo negócio. As investigações só agora foram dadas por concluídas porque a organização tinha ramificações até Espanha.
Os "patrões" são um casal, com cerca de trinta anos, naturais do Barreiro, e dois irmãos mais novos, que funcionavam como seguranças. Sequestro, rapto de menores, roubos, falsificação de documentos e uso de armas proibidas são os crimes indiciados no processo que se encontra em poder do Ministério Público para deduzir a acusação.
Depois de libertadas, sete das raparigas sequestradas contaram os maus tratos de que foram vítimas e a forma como foram enganadas: "Fechadas em casa, sem nunca sair, não sabíamos se estávamos no Algarve ou em Lisboa".
As jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos, recrutadas nos concelhos do Barreiro, Alhos Vedros e Torres Novas e em pensões algarvias, eram aliciadas com a promessa de contrato para um bom emprego na indústria hoteleira algarvia. Chegadas a Albufeira, em vez dos «pubs» finos onde, supostamente, iriam trabalhar, eram metidas num quarto com grades nas janelas e portas trancadas, num casebre de três divisões, baptizado de "casa das gatinhas", no sítio das Fontaínhas, concelho de Albufeira.
Perante este cenário, a primeira reacção era a tentativa de fuga, mas em vão. O esquema estava bem montado e não dava hipóteses a arrependimentos. As raparigas , antes de ter contacto com os clientes, eram sujeitas a uma «domesticação». Durante quatro dias, segundo contaram, ficavam nuas, amarradas a uma cama e submetidas a espancamentos, num quarto sem electricidade, nem água da rede, apenas um balde para fazerem as necessidades.
Depois desse período de «adaptação» ao ambiente, era-lhes atribuído um "nome artístico" e eram transferidas para uma vivenda, a "Casa Estrela", situada a cerca de dois quilómetros. Aí, no requinte de uma vivenda com piscina, bar, snooker e outros jogos de salão, recebiam uma clientela endinheirada, predominantemente empresários ligados à construção civil.
O acesso à moradia faz-se por um caminho de terra batida -- apesar de ser utilizado por bons automóveis - indicado pelas setas pintadas a branco nos muros de pedra que limitam a via. Os vizinhos, nas redondezas, apenas referenciam o local como uma «espécie de boîte», embora no exterior a residência em nada seja diferente das moradias dos aldeamentos turísticos da região.
Uma noite por 40 contos
Para que o sistema funcionasse em perfeição -- com "caras novas" de vez enquanto --, os promotores da actividade mantinham contactos regulares com pensões algarvias, que os informavam das "novidades" . As raparigas que vinham de outras regiões à procura de emprego tornavam-se, assim, presa fácil para entrar na rede de prostituição.
Em paralelo, tinham um esquema montado de roubo e falsificação de documentos [o maior número de vítimas foi detectado na zona do Barreiro] que lhes permitia arranjar uma identificação falsa para as raparigas, em caso de serem procuradas pelas autoridades. De resto, o "boss" exibia, mesmo, um cartão forjado, de agente da Policia Judiciária para melhor impor o respeito na casa.
Em cada um dos seis quartos, onde as raparigas recebiam os «amigos», estava instalado um sistema de vigilância que, através de sinais luminosos, transmitia ao segurança a mensagem que lhe permitia fazer o ponto da situação a qualquer momento e intervir, caso fosse necessário.
Quanto aos pagamentos, o preço de cada serviço sexual variava entre os três e cinco contos, conforme se tratasse de cliente habitual ou não. Para os que "embalavam no amor" e desejavam ficar toda a noite, a taxa subia para os 20 contos e podia chegar aos 40. Durante cerca de dois anos o sistema funcionou, até que os agentes da PJ, uma noite, há cerca de oito meses, de surpresa, entraram pela janela, de arma em punho, libertaram as raparigas e prenderam os presumíveis responsáveis pela rede de prostituição.
Durante a busca à casa, nos quartos, não encontraram apenas os indispensáveis preservativos, mas também pomadas para hematomas e medicamentos para doenças venéreas e situações de após aborto. Uma das jovens confessou que tinha ficado grávida e teve de abortar. No momento da busca estavam em actividade cinco raparigas, que depois de cumpridas as devidas formalidades e os interrogatórios para que a investigação pudesse prosseguir foram postas em liberdade.
Depois de saírem do cativeiro queixaram-se dos espancamentos e outras violências a que, alegadamente, tinham sido submetidas para se prostituírem . Ao que disseram nos interrogatórios, das centenas de contos que ganhavam por mês, o que lhes ficava para elas não era quase nada. Tinham direito à comida, dormida, algum vestuário e pouco mais. A título de exemplo, referiram que, por cada preservativo que gastavam, era-lhes debitado 20000 na conta-corrente e ainda lhes faziam buscas para lhes tirarem as gorjetas que os clientes davam.
À primeira vez era de borla
A vida para estas jovens só tinha uma saída: tentarem a fuga. Neste aspecto, há pelo dois casos a registar.
Uma jovem que, com a colaboração de dois clientes conseguiu esse objectivo. Enquanto um estava a pagar o «serviço», o outro cobriu-a com um sobretudo e meteu-a no carro. Os «patrões», insatisfeitos com a perda, até a Espanha a foram procurar.
Um outro caso passou-se com uma rapariga de 22 anos que trabalhava num bar em Armação de Pêra. No dia 16 de Abril do ano passado, a meio da tarde, quando passeava numa das ruas daquela vila foi raptada e transportada para a «Casa das Gatinhas». Mas nesse mesmo dia conseguiu fugir, apesar de nua, tendo apanhado boleia num camião de transporte de terras.
Enquanto as jovens se queixam de que foram vitimas de maus tratos, exploração e roubo, o «patrão» da rede adquiriu um luxuoso automóvel e uma moto de alta cilindrada. Da vivenda que funcionava como casa de passe e como sua residência, pagava uma renda mensal de 200 contos, mas passado pouco mais de um ano já se tinha proposto a comprá-la por 20 mil contos.
A clientela parecia não faltar: eram distribuídos cartões aos amigos, com a recomendação de que, à primeira vez o "serviço" era de borla. No verso estava o mapa indicando como chegar ao local. Assim, no passa palavra, apesar de escondida no meio do mato a casa tornou-se lugar de referência e de visita assídua para alguns senhores.
No decurso da investigação que desenvolveu ao longo de mais de um ano a Polícia Judiciária encontrou documentação que indicia a existência de uma rede de prostituição com ramificações em Espanha, para onde algumas das raparigas portuguesas foram trabalhar. Os detidos também tem outros processos a decorrer por crimes idênticos noutros pontos do país, nomeadamente no Barreiro e no Alentejo.
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