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<DOCNO>PUBLICO-19940218-109</DOCNO>
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<DATE>19940218</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
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A morte da nação timorense
António Martins Mourão, em Londres
Uma equipa de jornalistas australianos e britânicos entrou ilegalmente em Timor-Leste e filmou, entre Setembro e Outubro do ano passado, testemunhos facultados pela resistência timorense. O resultado foi o documentário «A Morte de Uma Nação», a revelação de imagens inéditas e um novo alerta internacional. Ao contrário do que diz a propaganda indonésia, Konys Santana está, afinal, vivo e lidera a guerrilha pós-Xanana. Ao contrário das informações veiculadas por Jacarta, o segundo massacre de Díli foi realidade. Mesmo assim, o Governo indonésio nega tudo.
Empenhado em alertar a opinião pública internacional para o genocídio de duzentos mil timorenses, «A Morte de Uma Nação» começa por lembrar os factores que levaram à intervenção indonésia em Timor-Leste, explica a cumplicidade das potências com interesses na região e expõe os métodos de exterminação indonésios utilizados de forma sistemática desde 1975. Depois das imagens de morte, recolhidas por Max Stahl em 1991, este documentário vai mais longe e apresenta depoimentos sobre o que aconteceu antes e depois do massacre.
Mais informativo para o mundo do que para Portugal, o filme esclarece algumas dúvidas. Horas depois do primeiro ataque à manifestação pacífica timorense, o exército indonésio voltou ao local para assassinar à baioneta e à pedrada centenas de vítimas entretanto caídas no cemitério de Santa Cruz. Quem fugiu foi perseguido. De acordo com testemunhas, o segundo massacre de Díli continuou nas ruas e até nos hospitais, para onde alguns dos feridos foram transportados.
«Injectaram ácido sulfúrico em feridos» imobilizados, um procedimento imediatamente abandonado devido à gritaria de dor dos moribundos, revela uma testemunha não identificada. Cá fora, «muitas das vítimas, algumas ainda com vida, foram alinhadas e esmagadas pelas rodas de camiões», acrescenta outra testemunha. Nos dois dias que se seguiram à chacina, o número total de mortes chegou a quatrocentos.
A tortura à frente de familiares, populações metralhadas, violações e desaparecimentos justificam que não exista «um timorense que não tenha perdido vários familiares» nesta guerra. «Do meu clã estamos vivos quinhentos. Éramos cerca de cinco mil», revela um refugiado timorense no estrangeiro. Outros depoimentos explicam o ciclo, que começa com o desenraizamento das populações, a sua fixação em terras inóspitas e a consequente morte por falta de alimentos. A contracepção obrigatória de mulheres jovens «é uma prática maciça e constante», afirmam médicos independentes.
John Pilger e David Munro, co-autores de pelo menos doze documentários premiados internacionalmente, prepararam as filmagens durante cerca de dois anos. «Planeámos entrar em Timor-Leste com três equipas e em alturas diferentes», disse Pilger ao PÚBLICO. Ele e Munro seriam os primeiros. Max Stahl, o segundo e Ben (pseudónimo) seria o terceiro. «Se algum de nós fosse detectado, haveria sempre a esperança de que qualquer um dos outros conseguisse escapar com material filmado», explicou ao PÚBLICO John Pilger.
O equipamento utilizado incluiu uma minicâmara de vídeo por pessoa, escondida em sacos com fundos falsos. Tendo partido da Austrália, a primeira equipa fez escala em Kupang, em Timor-Oeste, onde alugaram um jipe. Abandonada a primeira ideia de passar a fronteira disfarçados de padres, os jornalistas decidiram vestir a pele de operadores turísticos de uma empresa fictícia, à procura de novos circuitos. Atravessaram a fronteira sem serem detectados num domingo de manhã; o material acompanhava-os escondido debaixo dos bancos.
Para evitar a sua localização por parte das autoridades indonésias, embrenharam-se nas montanhas. Perderam-se. Horas depois aperceberam-se que tinham voltado a Timor-Oeste. Na segunda tentativa, à noite, conseguiram convencer uma patrulha do exército das suas intenções de trazer turismo para Timor-Leste. «O meu coração deixou de bater», admitiu Munro.
Passada a fronteira, não pararam durante duas semanas e mantiveram-se sempre à frente dos indonésios. Temendo represálias, as populações não se aproximaram. Mesmo assim, tiveram a colaboração de vários timorenses que os levaram até à resistência. Nenhum dos quatro jornalistas foi detectado. Algum material foi passado para o exterior por membros da resistência. A maior parte, no entanto, passou a fronteira amarrado às pernas dos jornalistas.
«Morte de Uma Nação» revela à opinião pública mundial o apoio dado à Indonésia por países como os Estados Unidos, a Austrália ou a Grã-Bretanha, tidos como co-responsáveis na invasão. Sublinhando o envolvimento britânico na venda de armas à Indonésia, o filme fala no fornecimento de aviões Hawk, entre outro material bélico, e na sua assumida utilização em Timor-Leste. Apresenta ainda os nomes de vinte e cinco empresas britânicas vendedoras de material de guerra ao regime de Suharto. «A Grã-Bretanha é um dos primeiros países a compreender a nossa situação», refere Nugroho Wisnumurt, embaixador indonésio nas Nações Unidas.
Esta cumplicidade é antiga. Nas vésperas da invasão, John Archibald Ford, embaixador britânico em Jacarta, avisava o seu Governo sobre as intenções de Suharto. «É do interesse britânico que a Indonésia absorva o território [Timor-Leste] com a maior brevidade possível. Quando chegar o momento da decisão, deveremos baixar as nossas cabeças», lê-se na mensagem, datada de 1975.
O Governo australiano, um dos primeiros países apoiantes da ideia de invasão e actual comprador de petróleo timorense, era, na mesma data, informado pelo seu embaixador em Jacarta, Richard Woolcott. «Mesmo sabendo que é mentira, a posição formal do Governo indonésio é de que não haverá invasão.» Aconselhando o seu Governo a não questionar esta mentira, Woolcott acrescentava: «Deveremos actuar de forma a minimizar o impacto desta iniciativa na Austrália e será conveniente mostrar compreensão, em privado, pelos indonésios e o seu problema.»
O embaixador americano era mais sucinto na mensagem a Henry Kissinger: «Espero que os indonésios sejam rápidos, eficazes e que não usem o nosso material.» Philip Liechty, oficial da CIA, é mais claro: «Demos aos indonésios a maior parte do armamento necessário; helicópteros, apoio logístico e até comida. Tudo o que necessitavam para fazer esta guerra.»
A Fretilin não está a ganhar a batalha, mas «está longe de ser dominada pelos quatros batalhões indonésios que se encontram no seu encalce», disse Pilger ao PÚBLICO. A evidência da força dos guerrilheiros está no seu número, cerca de mil homens, e no facto de os repórteres os terem «filmado debaixo do nariz dos indonésios». A Fretilin, entregue a si própria, «combate com armas capturadas aos indonésios», acrescentou Pilger.
«A Morte de Uma Nação» não menciona Xanana Gusmão nem revela o dia-a-dia da resistência. Konys Santana falou com um membro da equipa, mas não foi filmado. Satisfeito com a prova da existência da guerrilha, o filme aproveita sobretudo os depoimentos de timorenses quer no exílio, quer em Timor-Leste, e mostra a dimensão da opressão indonésia e os locais onde ela é exercida.
«A Morte de Uma Nação» será exibido no canal 3 da televisão britânica no próximo dia 22 de Fevereiro. Além das exibições em salas de cinema americanas, os autores vão apresentar o filme em Genebra, durante os trabalhos da Comissão dos Direitos Humanos. «Não tenho grandes expectativas e sei que este tipo de filmes não é suficiente para modificar a posição do Governo indonésio. Espero apenas ter consciencializado algumas pessoas para o problema», disse Pilger ao PÚBLICO.
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