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<DOCNO>PUBLICO-19940321-011</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940321-011</DOCID>
<DATE>19940321</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Crítica de Música
Vanda de Sá
Terminou este fim-de-semana a segunda jornada do ciclo de integrais de Lisboa 94. Depois dos quartetos de Beethoven, foram os Quintetos de Mozart que ocuparam durante três dias consecutivos (17,18 e 19 de Março) o Grande Auditório da Caixa Geral de Depósitos. E uma vez mais se tratou de uma proposta à partida aliciante -- a que o público até correspondeu de forma empenhada -- já que se proporcionava a audição de obras relativamente esquecidas de um dos maiores génios da nossa história da música. A «empresa» esteve a cargo do Quarteto Kodaly e dos seus três convidados: Gyorgy Konrád (viola), Tamás Zempleni (trompa) e Béla Kovacs (clarinete).
Mas algo parece ensombrar as Integrais de Música de Câmara desta Capital da Cultura, pois o que nos tem sido oferecido até à data em termos de qualidade interpretativa não tem ultrapassado um nível mediano, muito abaixo das expectativas criadas por uma programação aparentemente cuidada. Dos quintetos de Mozart, aqueles escritos unicamente para cordas (dois violinos, duas violas e violoncelo) foram precisamente os mais mal representados. Nestas obras a existência de duas partes de viola pressupõe uma presença mais afirmada deste instrumento no conjunto, principalmente no que se refere à primeira viola. Mas esta certeza tão óbvia não parece ter preocupado os Kodaly, ou mais concretamente, Gábor Fias que teve a seu cargo a parte de primeira viola. Com efeito, na maioria das suas intervenções solísticas o intérprete ofereceu-nos como que um apanhado dos defeitos historicamente apontados ao instrumento: uma sonoridade excessivamente nasalada, mesmo fanhosa na região aguda, e uma total despreocupação em termos de homogeneidade tímbrica entre os extremos de tessitura grave e aguda. Aspectos que foram ainda agravados por uma falta de agilidade que apenas seria aceitável num contrabaixo. Mas se estas foram algumas das raizes que comprometeram a audição de obras como os quintetos K.516 e K.593, a verdade é que o quarteto Kodaly não deu grandes provas em termos de trabalho de conjunto, fossem elas ao nível da justeza de afinação ou da exploração das potencialidades expressivas da música. Deve no entanto ressalvar-se o trabalho dos dois violinistas, Attila Falvay e Tamás Szabo, em particular em obras como o Quinteto K.516, K.614 e K.581, no qual estabeleceram um diálogo animado com o clarinetista Béla Kovacs.
Mas se a prestação do Quarteto Kodaly não poderá ser recordada como um dos grandes momentos musicais de Lisboa 94, poucos serão os que não ficaram impressionados com a excepcional sonoridade da trompa de Tamás Zempleni no Quinteto para trompa em mi bemol maior K.407. O seu timbre aveludado, encorpado e ao mesmo tempo etéreo, aliado a um extraordinário domínio em termos dinâmicos e a uma expressividade propriamente clássica, transformou a audição do quinteto K.407 no único grande momento da totalidade do ciclo apresentado.
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