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<DATE>19940330</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
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Rei zulu não conversa até que a «cólera» amaine
Cimeira adiada na África do Sul
Fernando Sousa
O rei zulu quer enterrar os seus mortos antes de continuar a falar. A conversa, marcada para hoje, entre os quatro líderes de quem depende uma saída pacífica para a crise sul-africana foi adiada por uma semana. Gente cinzenta terá conspirado para provocar o massacre que matou segunda-feira mais de cinco dezenas de pessoas.
A cimeira entre o Presidente sul-africano, o rei zulu e os líderes das duas principais organizações negras, marcada para hoje e amanhã, foi adiada uma semana devido aos sangrentos acontecimentos ocorridos segunda-feira em Joanesburgo.
O adiamento, anunciado por um porta-voz presidencial, que não marcou qualquer data para o encontro, foi sugerido pelo soberano zulu Goodwill Zwelithini, que hoje deveria encontrar-se com Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional Africano (ANC), Mangosuthu Buthelezi, dirigente do Partido da Liberdade Inkhata (IFP, zulu) e Frederik De Klerk, a quem pediu que esperem até que a «cólera» amaine e os mortos sejam enterrados.
A cimeira, sem precedentes, foi marcada sábado, na sequência das conversações entre De Klerk e Buthelezi. Este concordou com um encontro alargado e com a participação do rei, mas o massacre de segunda-feira conferiu-lhe carácter de urgência.
A agenda inclui a discussão da realização das eleições nos territórios zulus, e a espiral de violência que ali causa dezenas de mortos todas as semanas. É provável no entanto que o Governo venha a decretar antes o estado de emergência no Natal-Kwazulu se aprovar a resolução que o Conselho Executivo de Transição (TEC) ontem apresentou nesse sentido. O TEC é um organismo dotado de um direito de supervisão da actividade do executivo.
Apesar de alguns tiros terem sido disparados, ontem, de uma carrinha em movimento, contra a sede do ANC, jornalistas testemunharam o regresso de Joanesburgo ao seu habitual ritmo de vida. Os charcos de sangue da violência da véspera foram lavados das duas a três dezenas de ruas por onde passou a morte, do jardim e da escadaria da Biblioteca, das ruas onde se situa a sede do ANC e da Comissão Eleitoral Independente, que prepara as eleições de Abril.
Segundo um novo balanço das autoridades, citado pela Reuter, a marcha dos zulus pelo seu rei e contra as eleições de 26 a 28 de Abril, que não querem, saldou-se pelo menos em 33 mortos e 156 feridos, no centro da cidade, e 18 mortos e 17 feridos no Soweto, cidade negra dos arredores da metrópole. Fontes da agência France Presse apontam para 31 mortos e 300 feridos na cidade.
Acusações de conspiração
O dia acabou ontem sem uma explicação sobre o que se passou. Sabe-se que a madrugada de segunda-feira começou logo com vítimas, que de repente alguém começou a disparar, que os corpos foram caindo e que o pânico e a confusão se instalaram, com todos a dispararem contra todos pistolas, caçadeiras, armas automáticas.
O Inkhata garante que foram atiradores do ANC que começaram a disparar dos telhados. O ANC acusa o Inkhata de ter querido invadir a sua sede, e a polícia de não ter proibido a marcha. «O nosso pessoal de segurança comportou-se com impecável contenção e paciência face à extrema provocação, disparando apenas quando vidas estavam ameaçadas», disse o presidente nacional do ANC, Thabo Mbeki, citado pela Lusa. As autoridades continuavam ontem sem saber nada.
Para saber alguma coisa, esperava-se uma operação de busca à sede do ANC, em frente da qual morreram nove pessoas. As autoridades anunciaram a acção e cercaram o edifício, mas a operação foi cancelada no último minuto. Embora sem as investigações terminadas, o poder sul-africano (Partido Nacional) apontou o dedo aos dirigentes zulus. Frederik De Klerk acusou os «organizadores» da manifestação, e o ministro da Lei e da Ordem, Hernus Kriel, nomeou mesmo o Inkhata. Este respondeu que apoiou a marcha mas que não a organizou, e, em declarações aos jornalistas, acusou mesmo o ANC de ter «planeado o massacre».
No rescaldo do drama, a ideia de uma conspiração contra o processo de democratização política sul-africana preencheu o espaço entre as mútuas recriminações. No meio destas aparece um nome, o de Themba Khoza, citado por Mbeki, numa informação da Lusa, como o organizador da manifestação. O texto recorda que Khoza foi identificado por funcionários da Comissão Permanente da Violência Pública, presidida pelo juíz Richard Goldstone, como o principal contacto de alguns generais da polícia sul-africana.
A existência de uma «terceira força» foi implicitamente admitida há uma semana pela comissão de Goldstone. O «Washington Post» retomou ontem a tese, sublinhando estreitos contactos entre uma dezena de oficiais da polícia e membros do Inkhata, nomeadamente Buthelezi, que é também o ministro da polícia do Kwazulu. A descoberta embaraçou De Klerk que vinha desmentido a ideia, esgrimida pelo ANC. Os generais foram suspensos das suas funções, mas Buthelezi não afastou Khoza.
Os zulus, enfeudados no último dos bantustões negros ainda de pé, o Kwazulu, rejeitam a Constituição que deverá vigorar, a partir das eleições, durante cinco anos, onde a soberania de Goodwill Zwelithini não é reconhecida em lado nenhum. Adiantando-se à entrada em vigor do diploma, o rei decretou há mais de uma semana a «soberania» dos territórios zulus tradicionais, e desde então os mortos aumentaram no Natal-Kwazulu: 157 em 12 dias. Mais de dez mil pessoas morreram na região nos últimos dez anos.
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