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<DOCNO>PUBLICO-19940409-002</DOCNO>
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<DATE>19940409</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>HCS</AUTHOR>
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Forum/94 lança debate a nível nacional e deixa no ar questões sem resposta
Avaliar a formação contínua
Hália Costa Santos
Muitas interrogações e alguma polémica caracterizaram o Forum/94, uma iniciativa que termina hoje no Porto e que lançou o debate a nível nacional sobre a formação contínua dos professores. Alguns dos intervenientes aproveitaram a oportunidade para criticar a ligação directa entre os fundos comunitários e as acções de formação.
Que formação contínua de professores foi feita nos últimos meses? A formação dos professores deve ser dissociada da formação dos alunos? O sistema de formação contínua surgiu por uma necessidade real ou para aproveitar os fundos da comunidade europeia? A formação deve ter prioridades absolutas?
Estas e muitas outras questões relativas ao primeiro ano de experiência da formação contínua de professores estão a ser levantadas por mais de 200 professores num Forum que termina hoje, no Porto, e que está a debater a «Formação Contínua de Professores no Ensino Não Superior».
Pela primeira vez a nível nacional, e numa organização dos directores de 13 centros de associações de escolas, surgiu a oportunidade de debater e avaliar o que tem sido feito no âmbito da formação contínua de professores. O responsável pela organização, Silva Pinto, explica que o objectivo era «dar o pontapé de saída» nesta discussão.
Uma das intervenções mais polémicas pertenceu a Rocha Trindade, reitor da Universidade Aberta. Sem qualquer tipo de rodeios e sublinhando que não tinha a intenção de agredir ninguém, este professor apresentou aquilo que considera ser uma «crítica honesta» ao processo da formação contínua.
Para ele, a formação contínua de professores tem apenas três objectivos e nenhum deles é o de enriquecer ou assumir protagonismos. Antes de mais, esta formação deve servir para «melhorar a qualidade de aprendizagem dos alunos». Só depois se deve pensar em promover a qualificação dos professores e, por último, na necessidade de dotar as escolas de meios para se renovarem.
Dando o exemplo de um trabalho que desenvolveu durante um ano com cem professores de Física, Rocha Trindade provou que a utilidade de uma formação contínua não tem necessariamente que estar relacionada com financiamentos, nem com creditações, nem com acreditações. Indo mais longe, o reitor da Universidade Aberta defendeu que «o mecanismo da formação contínua está para ficar e não pode estar dependente dos créditos do Ministério da Educação nem das benesses da Comunidade».
O balanço dos números
Passado um ano e meio sobre a concretização da primeira fase de formação contínua de professores, um dos balanços possíveis é o dos números. Concretamente, foram aprovados projectos na ordem dos 16 milhões de contos, mas a realização ficará por menos quatro milhões, facto que se deve ao corte de verbas do programa comunitário que financia estas acções, o Prodep. Quanto a professores, participaram 67 mil nas acções de formação.
Valdemar Castro Almeida, sub-gestor do Foco e Forgest no Norte (os programas que englobam a maioria do esforço de formação) entende que, «em termos quantitativos, o balanço da formação contínua de professores é extremamente positivo». No que diz respeito ao aspecto qualitativo, diz que ainda é prematuro avançar qualquer tipo de avaliação até porque «só será possível verificar o impacto desta formação na aprendizagem dos alunos a médio ou a longo prazo».
Uma outra conclusão que se retira através dos números é a que diz respeito às entidades promotoras das acções de formação contínua de professores. Durante o primeiro ano, a maioria das acções foram desenvolvidas por centros de formação de associações de escolas. As instituições de ensino superior foram responsáveis por 21 por cento das acções, mas os responsáveis pelo programa acreditam que esta percentagem deverá subir no próximo ano.
Entre o «uso» e a «troca»
O primeiro orador do Forum/94, Rui Canário, deixou algumas pistas para a avaliação do primeiro ano de formação contínua. Entre elas, frisou a necessidade de se saber o que é tem sido privilegiado nas acções de formação: se o «valor de uso» ou se o «valor de troca». Ou seja, se o que tem interessado os formandos é o diploma (e respectiva progressão na carreira) ou a aprendizagem.
Defendendo uma formação contínua centrada na escola, Rui Canário criticou ainda as sucessivas reformas que não têm sido mais do que «estratégias verticais que pretendem telecomandar as escolas sem ter em conta os contextos sociais em que elas se enquadram».
Por seu turno, Bártolo Paiva Campos, presidente do Conselho Coordenador da Formação Contínua de Professores, deixou aos participantes no fórum «duas notas críticas para reflexão». Primeiro, o sistema de formação contínua «surgiu por exigência do Estatuto da Carreira Docente quando devia ter sido articulado com a reforma e com a crise das escolas». Segundo, fica a ideia que só surgiu «porque havia dinheiro para gastar».
As conclusões deste Forum/94 sobre a formação contínua de professores serão apresentadas hoje, terceiro e último dos trabalhos. Para além dos resultados das intervenções dos convidados serão também apresentadas as conclusões dos diferentes grupos de trabalhos, onde se discutiram temas como a «Concepção e modelos de formação contínua» ou a «Organização das estruturas da formação contínua e sistemas de financiamento».
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