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<DOCNO>PUBLICO-19940512-109</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940512-109</DOCID>
<DATE>19940512</DATE>
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Caso do «violador da lanterna» é julgado hoje em Fafe
Tem hoje início, no Tribunal de Fafe, uma série de seis julgamentos de um homem de 51 anos que a Polícia Judiciária julga ser o «violador da lanterna». Uma figura representada a traços tenebrosos que, durante quase dois anos, terá atacado casais de namorados em locais recônditos de vários concelhos do Minho, munido de capacete, caçadeira e de uma potente lanterna com que cegava as vítimas.
Enquanto se mantinham nesses lares em miniatura, que são os automóveis, os namorados ainda conseguiam escapar sem danos de maior, mas quando saíam da concha protectora, o pior acontecia. Assim foi na noite de 17 de Janeiro de 1993. Segundo a acusação do Ministério Público, Henrique S. M., o homem que se supõe ser o «violador da lanterna», terá atacado um casal que namoriscava no interior de um Citroën AX, na freguesia de Várzea Cova, concelho de Fafe.
Eram cerca de duas horas da madrugada quando o vulto, com um capacete integral na cabeça, ofuscou os dois com uma lanterna de luz muito forte. Fez-se silêncio. O intruso não falava, não dizia o que queria nem respondia às perguntas dos jovens. O rapaz, impetuoso, decidiu sair. Mal abriu a porta, foi alvejado por disparos de uma caçadeira, cujos chumbos também atingiram a namorada. Ele foi hospitalizado durante 50 dias e a rapariga ficou de cama quatro meses. Pedem agora uma indemnização superior a 4500 contos.
Este caso, que começará amanhã a ser julgado, é porventura o mais grave -- por prefigurar uma tentativa de homicídio -- dos cerca de 14 processos em que Henrique S. M. é acusado de roubo, dano e atentado ao pudor com violência e violação nos concelhos de Fafe, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho, Celorico de Basto e Cabeceiras de Basto. A alegada série de crimes deste avô de 51 anos virá já da altura em que ele era emigrante em França, de onde foi expulso há cerca de 13 anos, após cumprir uma condenação por violação. Até agora, o arguido foi já condenado a uma pena de seis anos de prisão por roubo e, num outro processo, a uma pena de multa.
O caso, que o advogado de defesa não hesitou em classificar de «muito difícil», é também complicado para a acusação, já que só parecem existir provas circunstanciais. A PJ nunca obteve uma identificação positiva do violador e foi através da matrícula do seu carro -- que utilizaria nas investidas de que é acusado -- que a polícia logrou localizá-lo. Na sua residência, em Felgueiras, as autoridades encontraram diversos objectos que poderá ter roubado às vítimas.
O furto seria só uma das motivações que moviam o «violador da lanterna» na sua série de crimes. Da violação ao atentado ao pudor, tudo parecia depender da sua disposição ou do pânico que inspirava aos namorados. A unir os diversos casos, uma linha de violência e os adereços que a serviam: capacete integral, camuflado de caçador, caçadeira de 13 milímetros, de canos sobrepostos, pistola, «spray» paralisante e uma lanterna, para os ataques à noite.
Como no dia 5 de Agosto de 1990, quando, no lugar de Lagoa, freguesia de Várzea Cova, terá abordado os ocupantes de um Renault 5. O homem da lanterna disparou contra o pneu do automóvel mesmo antes de falar. Exigiu depois que o casal de namorados saísse do carro. Eles não acederam. O homem quis que se identificassem e pediu o dinheiro que possuíam: 600 escudos um, 300 escudos o outro.
Sempre empunhando a caçadeira, mandou a rapariga despir-se. Ela recusou, mas ele enfiou a mão no interior do veículo e atingiu-lhe os olhos com um «spray» irritante. Ordenou-lhe que ela levantasse o vestido. Ela, por medo, acedeu; e ele, devassando o corpo com o olhar, ter-se-á masturbado e ejaculado contra a porta do automóvel.
O calendário avança, implacável, e os casos que irão ser julgados em Fafe acumulam-se. Em 15 de Agosto de 1992 , pelas 18h30, na freguesia do Monte, o atacante teria conseguido que um casal saísse do carro, obrigando-o a despir-se. Dos bolsos das calças de ambos retirou alguns valores, à rapariga roubou o «soutien» e duas pulseiras e ao carro foi buscar uma cassete dos Bee Gees. O rapaz, primeiro, e a rapariga, depois, conseguiram escapar, completamente nus, aproveitando distracções momentâneas do agressor.
Em 27 de Março de 1993, pelas 23h45, em Silvares, lugar da freguesia de São Martinho, terá abordado um casal fazendo-se passar por agente da ordem. Pediu-lhes os documentos de identificação e, mal eles abriram a janela, apontou a caçadeira à cabeça do condutor. Exigiu-lhes dinheiro e os objectos de ouro. Depois, teria dito que ia conferenciar com comparsas; mas, antes de se afastar, disparou com uma pistola contra um dos pneus do automóvel. Voltou para pedir à rapariga que despisse as calças. Ela recusou e ele, surpreendentemente, foi-se embora.
Os testemunhos do sadismo do «violador da lanterna» são inúmeros. Noutra comarca, irá ser julgado mais um caso arrepiante: o réu terá tentado obrigar um rapaz, perante a ameaça de uma arma, a penetrar a namorada. Como o rapaz não conseguia, ele mesmo a violou, em cima do «capot» do automóvel e com redobrada fúria quando descobriu que a rapariga era virgem. David Pontes
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