<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19940513-135</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940513-135</DOCID>
<DATE>19940513</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>MSL</AUTHOR>
<TEXT>
Embaixador do Xá e bailarino da imperatriz
Margarida Santos Lopes
Ele foi o bailarino favorito da imperatriz Farah. Dançava frequentemente nos palácios do «Rei dos Reis». O próprio Reza Pahlavi o nomeou, em 1955, primeiro «embaixador cultural» da Pérsia para a Europa e Médio Oriente. É talvez por isso que Onik Sahakian tem um pressentimento: «Que vai haver outra revolução dentro de pouco tempo» e que «nos próximos dez anos, o Irão voltará a ter um xá». É mais do que um pressentimento: «Tenho cem por cento de certeza!», declara.
Onik é um admirador muito especial do xá Reza, o monarca que o «ayatollah» Khomeini derrubou em 1979, transformando o império dos Pahlavi na primeira (e até agora única) República islâmica do Mundo.
Pintor, «designer» e bailarino, nascido em Teerão há 58 anos, Onik é também um milionário (ou será que é multimilionário?) que hoje divide o seu tempo entre Lisboa e Nova Iorque. Cristão arménio e monárquico por convicção, a sua história é como um conto de fadas e príncipes. Já era rico antes de ser famoso. A sua família fugiu da ex-URSS há muitos anos para salvar a fortuna pessoal.
Qual menino prodígio, Onik descobre a sua vocação artística aos três anos, orientado por um tio. Aos sete tem aulas de dança e música. Mais tarde, obtém uma bolsa para um curso de pintura de miniaturas persas no Instituto de Belas Artes de Teerão. Em 1953, foi para a então União Soviética, para aperfeiçoar os seus estudos de arte e bailado. De regresso ao Irão, trabalhou durante dois anos no Ministério da Cultura. Em 1956, viajou para os Estados Unidos, com planos para estudar Ciências Políticas, mas só assistiu às aulas durante um ano. Preferiu inscrever-se na Chouniard Art School, em Los Angeles, Califórnia, onde vem a terminar o seu mestrado, em 1964.
Deixou-se influenciar pelos clássicos franceses, pela escola italiana, pelo impressionismo francês, mas o mestre que marcou a sua vida para sempre foi um pintor catalão: Salvador Dalí. «Conheci-o em Nova Iorque em 1958.» E a amizade entre os dois durou 19 anos.
Onik assume-se como um dos discípulos favoritos de Dalí e não regateia elogios ao seu ídolo, mas também não poupa críticas: «Dalí era muito interesseiro. Fazia tudo por dinheiro. Se eu não fosse rico, ele não havia de querer saber de mim. Adorava que eu lhe desse presentes.»
Aos que o acusam de ser um imitador de Dalí, de copiar os seus quadros, Onik insiste na distinção dos dois estilos: «Ele era um surrealista artístico e eu sou um surrealista romântico. As obras de Dalí são muito agressivas e até ofensivas. É verdade que fui muito inspirado por ele, que os meus quadros lembram Dalí, mas eu sou mais positivo. Gosto muito do azul. Dá tranquilidade de espírito. Posso pintar o abstracto, mas não me diz muito.»
A obra de Onik é diversificada e inclui joalharia, cenografia, guarda-roupa para «ballet», escultura e pintura. Em 1976 foi nomeado consultor de arte do Centro Cultural de Niavaran, de Teerão, patrocinado pela imperatriz Farah, e trabalhou ao lado de Haidée Changizian, primeira bailarina do Irão naquela época.
É com orgulho indisfarçado que ele mostra os cartazes de Onik bailarino, vestido e adornado com as suas próprias criações. Depois exibe, ainda mais ufano, os recortes do «Los Angeles Times» e da «New Yorker» elogiando a agilidade e beleza da sua dança.
A última vez que Onik voltou ao Irão foi em 1977, dois anos antes da chegada de Khomeini. Voltou mais uma vez para dançar com o patrocínio de «sua alteza a Imperatriz». De toda a família real, é esta «verdadeira senhora» quem ele mais venera. O Xá também era uma «pessoa maravilhosa», que «não fazia mal a uma mosca».
Reza Pahlavi «tinha uma ambição, fazer do Irão um país muito rico, porque sabia que as receitas do petróleo se esgotariam dentro de 20 ou 30 anos. Ele queria fazer do Irão o Japão do Médio Oriente, mas infelizmente governos como o da América e da França não queriam que o Irão se tornasse tão poderoso e independente.
Onik tem uma curiosa teoria para explicar como começaram os problemas do Xá. «Os ingleses foram os primeiros a explorar o nosso petróleo e nós não recebíamos nada. Depois de 60 anos de prospecção, quando o Xá subiu ao trono, [os ingleses] pediram-lhe para renovar o contrato, a três dólares o barril, mas ele não aceitou. Queria que o comprassem a preços do mercado, que era entre 33 e 32 dólares o barril naquela altura. Foi a partir desse momento que a BBC começou a fazer publicidade a Khomeini. Nós não sabíamos quem era este Khomeini.»
«Foram precisos dez anos para incutir Khomeini na mente das pessoas. É preciso também compreender porque é que Khomeini odiava o Xá. Porque o pai de Khomeini foi morto pelo pai do Xá. Foi uma vingança e não só um problema religioso.»
Se o Xá era tão boa pessoa, como diz Onik, o que é que correu mal? «O problema é que no tempo do Xá havia muita ganância. As pessoas ricas eram mesmo muito ricas e as pobres estavam cada vez mais pobres. Havia, é claro, liberdade de viajar, de fazer o que se queria, mas a Savak, a polícia secreta, também criava muitos problemas ao Xá. Por exemplo, alguns generais da Savak tomavam a lei nas suas próprias mãos. E assim, se algo estava errado, todo diziam «é culpa do Xá!». «Eu sei que havia agentes da Savak que iam às lojas levavam o que queriam, para eles e para as suas mulheres, e não pagavam nada. Isto era insuportável. Mas o Xá não sabia o que se passava, não tinha ideia nenhuma.»
Se Onik tudo desculpa ao Xá, garante também que não concordava com tudo o que se passava no reinado de Reza. «A vida era fantástica no tempo do Xá. As mulheres tinham imensa liberdade. Mas não podemos negligenciar a religião, que é uma das coisas mais importantes da vida. No tempo do Xá, as pessoas esqueceram-se da religião, não se comportavam como muçulmanas. Europeízaram-se demasiado depressa. Era pura fachada. Isso prejudicou muito o Xá.» Onik não faz mais do que repetir, por outras palavras, uma anedota que os iranianos contam: o erro do xá foi querer passar da era do burro para a do avião a jacto, sem passar primeiro pela bicicleta.
Onik não esconde as saudades. «Tínhamos a companhia de bailado, a orquestra sinfónica, teatros, tantas e tantas coisas.» Khomeini acabou com tudo isso. «Lembro-me que costumavam oferecer bilhetes para assistir aos espectáculos, porque as pessoas eram demasiado ignorantes. A família real queria forçar as pessoas a serem cultas, à maneira europeia.»
Eshan Naraghi, sociólogo iraniano e confidente do Xá, culpou o imperador por, durante muitos anos, ter ouvido apenas as pessoas que dissimulavam a realidade. Estava tão obcecado pela América que se esqueceu das suas próprias raízes. Onik concorda: «Isso era tão óbvio. Era bom modernizar o país, mas o Xá não devia ter esquecido as suas origens, nem o Islão.»
O grande erro do Xá, na opinião de Onik, «foi deixar de pagar os salários aos `mullahs'.» «Ele não devia ter feito isso. Os seus problemas aumentaram. O Xá era uma pessoa amável, não era mau. Não gostava de magoar as pessoas. Queria vê-las felizes, que fossem ricas e prósperas. Mas queria fazer isso muito rapidamente. Estava cercado de pessoas muito poderosas, que o invejavam e lhe queriam fazer mal. Não deixavam que o Xá tomasse conhecimento das coisas más. Chegavam a confiscar ao povo terras que o Xá tinha oferecido. E faziam tudo em nome do Xá.»
«O Xá lia os jornais, não era parvo, mas acreditava cegamente nas pessoas que o rodeavam. Estava rodeado de colaboradores estúpidos. Por exemplo, se o Xá fosse visitar uma aldeia dois dias antes arranjavam os jardins e limpavam as ruas e quando o Xá chegava ninguém reconhecia a aldeia. Era uma espécie de sabotagem.»
«Agora, infelizmente, é demasiado tarde. O Governo islâmico actual talvez tenha feito algo de bom, mas a ganância está a aumentar. Não se pode comprar nada, os preços aumentaram muito. As pessoas estão proibidas de se queixar. É o desastre!»
«Agora estão a pôr bombas. Vai haver uma mudança, juro! Vai haver outra revolução dentro de pouco tempo. A vida está muito difícil. É mais complicado agora do que no tempo do Xá, tenho a certeza.»
«Tenho um pressentimento de que o Irão terá um novo xá nos próximos dez anos. O Xá poderia ser como a Rainha de Inglaterra. Isso atrairia muitas pessoas, dinheiro e prosperidade. No Irão nada resultará se o país não se tornar uma monarquia islâmica. Os `mullahs' poderiam continuar lá. Mas se houvesse um rei as pessoas sentir-se-iam mais seguras.»
Apesar de desejar tanto o regresso de um xá [Reza Pahlavi morreu no exílio em 1981, mas há um príncipe herdeiro], de quem o pintor e ex-bailarino realmente tem saudades é da imperatriz Farah. Para ela, Onik dançava duas vezes por ano nos palácios. Também gostava da anterior mulher do soberano, Soraya. Mas Farah «não tem comparação». A família real, a viver actualmente nos Estados Unidos, gosta dos quadros de Onik, mas não compra. Prefere recebê-los de presente.
Ele tem também outro admirador. Inesperado. O actual embaixador do Irão em Lisboa, nem mais nem menos do que o representante dos «mullahs». Foi ver uma exposição do pintor, para espanto deste, mas também nada comprou. Talvez estivesse à espera de um presente, mas mais provavelmente de convencer Onik a regressar ao Irão, que tão necessitado está dos dólares dos expatriados.
</TEXT>
</DOC>