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<DOCNO>PUBLICO-19940602-009</DOCNO>
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<DATE>19940602</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
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Crítica de música
Alexandre Delgado
Um outro planeta
Com a integral dos quartetos da 2ª Escola de Viena, a programação de Lisboa 94 trouxe-nos a possibilidade raríssima de auscultar todo um universo musical que é bastante mais conhecido pelos livros e pelo seu papel na evolução da música do que pela sua audição regular nas salas de concerto.
Enquanto os quartetos de Beethoven, Bartók ou Chostakovitch (cujas integrais já foram comentadas neste jornal) são o retrato fiel de cada um desses compositores, no caso de Arnold Schoenberg, Alban Berg e Anton Webern é no conjunto da produção para cordas que encontramos algo equivalente. O crepúsculo do sistema tonal («Noite Transfigurada»), o entrever do universo desconhecido da atonalidade (2º quarteto de Schoenberg), a exploração desse universo (Cinco Peças e Seis Bagatelas de Webern, quarteto opus 3 de Berg), o espraiar do novo sistema dodecafónico (Suite Lírica de Berg, quarteto opus 28 de Webern, 3º quarteto de Schoenberg), o reatar nostálgico de elos com o passado (Trio de Cordas e 4º quarteto de Schoenberg), são fases do percurso fascinante que o Quarteto Arditti nos deu a ouvir.
Dos três compositores, só Webern não transigiu da ruptura radical, criando uma sintaxe em que todos os parâmetros da música (e não apenas a altura do som) são reinventados de acordo com o novo sistema. Tal recusa de compromissos (ao invés do romantismo de Berg ou do neoclassicismo de Schoenberg, que os tornam mais «digeríveis») fez dele o cavalo-de-batalha da geração do pós-guerra, levando alguns a esquecer que o cerne da mudança está no fim do sistema tonal, tal como este funcionou durante três séculos. Nesse sentido, Schoenberg, «pai» da 2ª Escola de Viena, é o verdadeiro «pai» da música do século XX -- e pouco importa que o sistema por ele inventado se viesse a revelar uma utopia.
Referindo-se aos compositores desta integral, comentou um instrumentista: «São os tais que nos deram cabo da vida.» Um desabafo com humor mas que traduz um fosso bem real: para a maioria dos músicos e do público de concertos, este é um programa que funciona (oito décadas depois) como «música contemporânea», com tudo o que a designação tem de «impenetrável». Que isso suceda com tais clássicos do século XX, e que tal recusa dos ouvidos gerais (incluindo os de alguém tão lúcido como António Barreto) em apreciar tudo o que vá além de Stravinski perdure na última década do século deve-se sobretudo aos organizadores de concertos. Se em todos os programas, desde há muitas décadas, se ouvisse pelo menos uma obra não tradicional, a situação seria hoje diferente. E provavelmente o Auditório da Caixa Geral de Depósitos não estaria tão desfalcado de gentes como esteve durante estes quatro dias memoráveis (28 a 31 de Maio).
Miraculoso, o Quarteto Arditti. Seria difícil imaginar o panorama da criação contemporânea para cordas se este grupo não existisse (o que chega a ser preocupante: um sacerdote não basta para levar uma religião ao planeta, por muito eloquente que ele seja).
Cada concerto foi uma experiência pasmosa de perfeição técnica e de «élan» expressivo. Para lá da exactidão microscópica da leitura e da imbatível coesão rítmica, subjugaram-nos a variedade e beleza de coloridos («Noite Transfigurada», com a colaboração de Thomas Kalenska e de Valentim Erben), o domínio tanto da grande linha (1º quarteto de Schoenberg) como da concentração mais elíptica (Seis Bagatelas de Webern), a máxima clareza da polifonia (nunca a Suite Lírica ou o opus 3 de Berg soaram com tal luminosidade). No 2º quarteto de Schoenberg, que contou com a voz idealmente expressionista do soprano Rosemary Hardy, a visão de «outro planeta» teve a vibração de um momento único da história da música, fechando este ciclo com chave de ouro.
Talvez fosse ainda mais interessante que esta integral tivesse sido executada numa sequência minimamente cronológica (a ordem dos programas optou pela variedade e não pela lógica). Saúde-se contudo a inclusão do 2º quarteto de Alexander Zemlinsky, compositor injustamente ignorado que é equivalente perfeito da arte nova em música (com toda a carga precursora que esta teve em relação ao modernismo).
Foi de lamentar que os textos explicativos e informações essenciais, como as datas de composição, estivessem confinados ao luxuoso programa geral das integrais de música de câmara. Este não é apenas caro -- é pesado e não cabe nos bolsos; quase ninguém na sala o tinha. Bem basta o facto de a publicidade destes concertos ser quase inexistente: elitismo tem limites.
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