<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19940617-008</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940617-008</DOCID>
<DATE>19940617</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>IB</AUTHOR>
<TEXT>
Construção de pousada apressa escavações em Alcácer do Sal
Correr contra o tempo
Isabel Braga
Escavações em curso no Castelo de Alcácer do Sal confirmam desconfianças antigas, de que se trata de um lugar riquíssimo em património arqueológico, que recua até à Idade do Ferro. O local nunca foi estudado a sério. Mas a possibilidade de novas descobertas pode estar comprometida. Por falta de tempo.
A construção de uma pousada da Enatur dentro do Castelo de Alcácer do Sal poderá dar emprego a algumas dezenas dos muitos desempregados do concelho. Mas existe um perigo associado a este projecto: a destruição do sítio onde se sobrepõem vestígios arqueológicos que remontam à Idade do Ferro e que só há pouco começaram a ser estudados.
Dois arqueólogos -- João Carlos Faria, da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, e Cavaleiro Paixão, do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAR) -- lideram uma pequena equipa que, desde Novembro, faz escavações no local. «O problema é conseguir adiar o início da obra da pousada, que já esteve marcado para Maio passado», afirma João Carlos Faria.
IPPAR chumba projecto
A 4 de Maio, a Associação Profissional de Arqueólogos (APA) escreveu ao secretário de Estado da Cultura, Santana Lopes, uma carta alertando para «as graves consequências» da intervenção projectada para o Castelo de Alcácer e sublinhando a necessidade de «proceder a uma vasta operação arqueológica de molde a garantir o seu estudo e a fornecer aos projectistas as informações indispensáveis a uma correcta intervenção de recuperação».
Estas reivindicações foram, para já, satisfeitas: a Enatur e o IPPAR decidiram, terça-feira, adiar por três ou quatro meses o projecto de construção da pousada e duplicar os escassos meios concedidos à equipa, de modo a apressar as escavação e a permitir tomar, em relação ao projecto, uma decisão mais fundamentada.
Uma vez que os trabalhos arqueológicos mal começaram no castelo, é difícil saber qual o projecto de arquitectura adequado à extensão e importância das ruínas. O IPPAR já «chumbou» um primeiro projecto porque implicava muitas construções novas que teriam, certamente, implicações ao nível do subsolo.
«Os trabalhos já feitos indicam que há coisas muito importantes naquele local. Há vestígios da Idade do Ferro, da época romana e estruturas muçulmanas de dimensões maiores que as de Mértola, que é considerada o grande centro de arqueologia muçulmana. O problema é que Alcácer do Sal nunca foi estudado a sério e, agora, está a ser estudado à pressa», afirma António Carlos Silva, o arqueólogo do IPPAR que coordena as escavações em Alcácer.
A importância histórica do Castelo de Alcácer do Sal é reconhecida por todos. Mas foram motivos comerciais -- construir uma pousada com fundos comunitários -- que deram origem à primeira investigação sistemática sobre as ruínas. A construção de pousadas -- nos conventos da Flor da Rosa, das Chagas, em Vila Viçosa, e do Alvito, por exemplo -- está, aliás, na origem de todas as outras operações de recuperação do património em curso a Sul do Tejo, com excepção do projecto de valorização de Sagres.
Da Idade do Ferro ao século XX
Dentro do Castelo de Alcácer foram já descobertos vários materiais da Idade do Ferro, datados do século XIII antes de Cristo. Alcácer do Sal foi, no tempo dos romanos, uma localidade importante -- Salácia Imperatoria --, que cunhava moeda e era um activo centro de comércio. Os arqueólogos encontraram, entre os vestígios dessa época (séculos III e IV), objectos de cerâmica em «terra sigillata», peças que ostentam o selo dos oleiros que as fizeram.
Depois dos romanos chegaram os muçulmanos -- a alcáçova estava separada da medina por uma grande muralha cujos vestígios são bem visíveis -- e, a estes, em 1217, quando D. Afonso II conquistou Alcácer aos mouros, sucedeu durante três séculos a Ordem de Santiago, que ali teve a sua primeira sede. No século XVI, D. Ruy de Salema, um fidalgo benemérito, fundou, dentro do castelo, no mesmo lugar onde existiu a alcáçova muçulmana, o Convento de Aracoeli, de freiras de clausura da Ordem das Clarissas.
A ocupação ininterrupta do castelo explica a enorme quantidade de sepulturas que a equipa de arqueólogos pôs já a descoberto: nuns escassos dez metros quadrados de terra chegaram a encontrar quinze e mais esqueletos, de diferentes épocas históricas, enterrados a vários níveis, o último dos quais separado da superfície por escassos centímetros de terra.
Nessas sepulturas, foram encontradas dezenas de moedas, tiaras de bronze, rosários e outros objectos religiosos. Um esqueleto calçava sapatos de pelica ostentando ainda o nome de um fabricante de Paris. Especialistas do Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra estudam as sepulturas mas ainda não chegaram a grandes conclusões sobre os seus ocupantes, a não ser que há pessoas de várias idades, entre os 20 e os 80 anos.
Nas ruínas da igreja, do século XVII, podem ver-se as grades atrás das quais as freiras clarissas assistiam à missa. A igreja era forrada a azulejos, de que só restam meia dúzia de exemplares, no alto de uma parede. Os restantes decoram desde os anos 30 a Igreja Matriz da Batalha, por ordem da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, o mesmo organismo que, nos anos 70, consolidou com betão as muralhas do Castelo de Alcácer -- a única e infeliz operação de restauro de que o monumento foi alvo até hoje --, sepultando para sempre pedaços da muralha muçulmana em taipa.
Enquanto o processo de construção da pousada da Enatur não avança, talvez alguém se lembre de uma solução menos rentável, mas mais adequada à importância histórica do local: transformá-lo no centro de um projecto piloto de arqueologia, numa unidade museológica susceptível de ir mudando à medida que avançasse a investigação no local.
Entretanto, as cegonhas tomaram conta dos esqueletos do Castelo de Alcácer. São muitas e capazes de dar um banho de excrementos a quem parar junto das paredes no alto das quais têm os seus ninhos. Mas combinam melhor com a paisagem do que os turistas.
</TEXT>
</DOC>