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<DOCNO>PUBLICO-19940618-070</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940618-070</DOCID>
<DATE>19940618</DATE>
<CATEGORY>Cien_Tecn_Educ</CATEGORY>
<AUTHOR>AEMQ</AUTHOR>
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Olivetti versus IBM
«Notebooks»: as escolhas do coração
António Eduardo Marques
Você dificilmente precisa de um «notebook». Mas de certeza que quer ter um. É evidente que existe pouca relação entre as duas coisas mas isso é irrelevante. Computadores testou duas máquinas, muito parecidas do ponto de vista técnico mas completamente diferentes do ponto de vista emocional (sim, os computadores também se avaliam com o coração). Saiba qual é a indicada para si.
Ninguém compra um «notebook» em vez de outro por causa do tamanho do disco, da velocidade do processador ou da legibilidade do ecrã. Ou talvez haja quem o faça, mas este artigo não se destina a essas pessoas. O PÚBLICO não possui um laboratório que permita realizar uma avaliação objectiva de computadores e programas -- e os leitores também não. A forma como se analisa «hardware» e «software» é, tanto quanto possível, idêntica à que um utilizador normal fará. Ou seja, pôr os produtos a trabalhar, ligar os computadores e mudar configurações, correr os programas e tentar produzir trabalho, analisar as relações preço/características de forma a determinar se ficam aquém ou além do que os fabricantes reivindicam. E sempre que se fala em pormenor de produtos em que não se mexeu directamente, há o cuidado de o deixar claro.
Os computadores que aqui surgem frente a frente são «notebooks» de duas das maiores empresas informáticas do mundo -- a IBM, que é a maior, e a Olivetti, que domina parte substancial do mercado europeu -- com um conjunto de características que permite realizar uma comparação directa. Contudo, decidiu-se levar a subjectividade do teste um pouco mais longe que o habitual, partindo de uma premissa básica: ambas são excelentes máquinas, com preços que se equivalem e que darão grande satisfação aos seus proprietários por muitos anos. Para ir mais além, é necessário recorrer a uma abordagem diferente. Ou seja, determinar para que tipo de utilizador se adequa mais cada uma das máquinas e que tipo de pessoas elas podem impressionar de forma mais eficaz.
Um «notebook» para quê?
Entendamo-nos: você não precisa de um «notebook» para nada. A sério. A menos que queira impressionar alguém do sexo oposto -- ou do mesmo (o PÚBLICO é politicamente correcto e não podia ser mais indiferente às preferências sexuais dos seus leitores) -- com um computador absolutamente giríssimo, que todos invejam. Aah! Você quer mesmo impressionar alguém... Está bem, escusam de escrever cartas insultuosas para este suplemento: há mesmo quem necessite de um computador portátil por razões reais e objectivas.
Mas, caramba, estarão nessa categoria todos os milhares de pessoas que anualmente alimentam as estatísticas do sector e tornam este segmento no mais competitivo da indústria informática? Não responda. Deixe-nos partir do princípio de que não, não senhor, que parte substancial destas compras é por pura voluptuosidade, compras de impulso (caras, é verdade, mas afinal para que servem os cartões de crédito?) realizadas depois de alguns segundos (poucos, evidentemente) frente a uma montra.
Alguém na IBM e na Olivetti deve saber que isto é verdade. Nem que seja só um bocadinho. E também na Apple, na AST, na Compaq ou na Toshiba, tudo marcas que produzem excelentes máquinas portáteis. Diz-me que «notebook» tens, dir-te-ei quem és...
Preto contra cinzento
A IBM e a Olivetti têm duas das melhores gamas de «notebooks» do mercado, respectivamente a Thinkpad e a Philos. Computadores conviveu durante duas semanas com um IBM Thinkpad 360Cs e com um Olivetti Philos 45C, ambos com ecrã a cores, e andou com eles de um lado para o outro, mostrou-os à família, a amigos e conhecidos, a amigas e conhecidas, potenciais conquistas amorosas, patrões e subordinados.
A partir daqui, a tarefa tornou-se apenas numa questão de traçar o perfil psicológico de cada máquina, o tipo de apelo que exercem sobre os compradores potenciais e quem poderão mais facilmente impressionar. Partimos também de um princípio básico -- discutível, é certo -- que é o de que ninguém vai gastar cerca de 750 contos numa máquina de três quilos e formato A4 sem uma razão decente. E utilizá-la só para trabalhar não é uma delas.
E, aqui, é essencial apontar o que distingue as máquinas uma da outra. O Thinkpad tem alguns pontos a seu favor. Para começar, é IBM. E há pessoas que ainda pensam que um computador, para o ser, tem de ser IBM. Depois, a IBM é americana e, no imaginário latino, o que é americano é bom de certeza, e isso é uma vantagem. Finalmente, o Thinkpad é preto com uma pinta vermelha no meio das teclas (serve para mexer na setinha que aparece no ecrã, mas isso não vem agora ao caso). E, para muita gente, um computador para ser bom, tem de ser todo preto, mesmo que tenha uma pinta vermelha entre as teclas. Para compor o quadro, pode sempre comprar a mala (preta, claro) que a IBM concebeu de propósito para andar com o Thinkpad de um lado para o outro.
Perante isto, como se defende o Philos? Nada mal. Primeiro que tudo, é Olivetti, e isso é uma vantagem para os que se deixam intimidar com computadores. Até porque -- segunda vantagem -- a Olivetti é italiana e os italianos têm fama de fazerem uma coisas com um «design» simpático e fácil de utilizar. Depois, o Philos é cinzento, um cinzento bonito entre o azulado e o esverdeado, o que é bom para os que se deixam intimidar com o preto, além de que o cinza vai bem com tudo. Não tem uma pinta vermelha em lado nenhum porque, para fazer mexer a seta que aparece no ecrã (e que não vem agora a propósito de nada), tem uma «trackball» -- uma espécie de rato ao contrário, com a bola para cima -- que se ejecta, literalmente, de um dos lados da caixa premindo um botão. Impressiona muito. Quase tanto como a pequena e discreta pasta de couro castanho que a Olivetti tem para envolver o Philos e que você deverá também comprar.
Blusão de couro e cor-de-rosa
Dito isto, está-se mais perto de encontrar os utilizadores adequados para a personalidade de cada uma das máquinas. Como, a nível técnico (ver caixa), é difícil encontrar algo que dê a vantagem a qualquer uma delas, há que ficar no lado puramente sentimental.
Ora, neste capítulo, as máquinas não só apelam a utilizadores diferentes como impressionam pessoas diferentes. Não há dúvidas sobre o efeito devastador que tem exibir (e, em último caso, mas só em último caso, ligar) um Thinkpad numa reunião. Pode ser uma qualquer, mas tem de ter um carácter minimamente formal (mas não tanto que os mais impressionados não possam manifestar, a meia voz, o seu espanto e inveja). De preferência, deve incluir superiores hierárquicos. Quem sabe, pode mesmo ser o factor decisivo para dar um empurrãozinho àquela promoção tão longamente aguardada.
Também resulta em reuniões familiares ou de amigos, mas cuidado. Testes informais demonstram claramente que o Thinkpad não atrai muitos membros do sexo feminino. Em último caso, e se precisar mesmo, evite gabar questões meramente técnicas da máquina e tenha sempre à mão umas flores digitalizadas para servir de «papel de parede» no Windows. Se tudo o resto falhar, é sempre uma ideia a utilizar como último recurso.
Do ponto de vista puramente familiar, já deve ser evidente para si que o Thinkpad pode e deve ser utilizado para impressionar noivos, futuros sogros e cunhados, e retirado da vista de noivas, futuras sogras e cunhadas. Para estes casos, temos o Philos. Apesar do que se possa pensar, pode ser utilizado sem perigo nas mesmas reuniões que o Thinkpad, mas com uma ressalva muito importante: certifique-se de que nenhum dos presentes tem um IBM. Nesse caso, e se o descobrir tarde de mais, evite retirar o seu Olivetti do estojo. Limite-se a não se deixar impressionar pelo «notebook» do(a) seu (sua) colega.
Pelo contrário, pode e deve levá-lo para o local de trabalho. Aí tem a possibilidade de apenas o mostrar de forma selectiva, a quem achar que tem o perfil mais indicado. Depois de se formar uma pequena multidão em volta da máquina para lhe mexer, mesmo que alguém queira desdenhar (ou exibir o seu IBM), já não tem hipótese.
Como já deve ter descoberto, o efeito do Olivetti nas reuniões de família e de amigos é idêntico ao do IBM, mas tende a resultar melhor com membros do sexo feminino. Afinal, o Thinkpad é, sem dúvida, mais «macho»; o Philos é absolutamente mais «sexy».
Um último conselho, para reforçar esta ideia. No Windows, é possível mudar o esquema de cores das janelas e dos ícones de acordo com as preferências do utilizador. Mas há alguns já pré-definidos. Um deles chama-se «Black Leather Jacket» e utiliza predominantemente o negro, o cinza escuro e o roxo forte; outro dá pelo nome de «Valentine» e utiliza rosas suaves e violetas desmaiados.
Já adivinhou -- use o «Black Leather Jacket» no Thinkpad, o «Valentine» no Olivetti. E boa sorte.
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