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<DOCNO>PUBLICO-19940712-125</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940712-125</DOCID>
<DATE>19940712</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>LMAI</AUTHOR>
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De «Tropicália II» a «Solo Duo»
O espectáculo de Caetano Veloso e Gilberto Gil no Coliseu dos Recreios será uma homenagem solitária do duo baiano ao divino maravilhoso pavilhão tropicalista que os inspirou, há 27 anos, num dos raros e preciosos momentos de parceria explícita de um dos maiores duos de compositores da história do Brasil.
O espectáculo chama-se «Solo Duo». Foi ensaiado durante uma semana no Rio de Janeiro e levado para os Estados Unidos, onde estreou há um mês. Chega a Lisboa na sequência de um roteiro europeu que já incluiu França, Itália e Espanha. Os brasileiros que o viram em São Francisco e Nova Iorque «a-do-ra-ram».
A ambiguidade do título diz tudo. Carlinhos Brown, Celso Fonseca, Marcelo Costa e os outros músicos que acompanharam o duo nos últimos espectáculos ficaram no Brasil. A «tournée» não é, portanto, uma transposição literal do disco «Tropicália II», como foram os «shows» do Rio, São Paulo e Salvador da Baía, em Setembro e Outubro do ano passado. Os dois músicos viajam sozinhos. E quem os quiser ver poderá constatar que Caetano e Gil continuam a viajar musicalmente, numa proximidade muito frequente e natural, mas em estradas paralelas.
Sem demarcações cronológicas, o espectáculo abarca toda a carreira dos jovens baianos cinquentões. «Bahia com h», «Haiti», «Esotérico», «O estrangeiro», Qualquer coisa», «Desde que o samba é samba», «Flora», «Aquele abraço», «Sampa», «Toda menina baiana», «Palco» compõem o elenco de 25 composições, que a afinidade musical do duo reuniu num espectáculo de quase duas horas. Será, de facto, mais uma celebração de três décadas de amizade, como foi o «Tropicália II», embora o «Solo Duo» esteja também a sorver mais uma gota da torcida e retorcida toalha tropicalista dos anos 60.
Naquela época, quem não correu atrás do trio eléctrico tropicalista perdeu o comboio da história musical do Brasil. «Tropicália II», disse Gil no lançamento do disco, foi a «reafirmação plácida de um movimento que ficou como emblema». Passado o choque tropicalista daquele tenebroso fim de década de repressão militar, os dois continuaram em paralelo, numa afinação absoluta. Agora, o emblema reúne-os novamente. Mas, tal como o disco do ano passado, o espectáculo da presente digressão apenas relembra a velha garra tropicalista. «Duo» ou «II», acima de qualquer homenagem, é a amizade dos dois que está a ser celebrada.
João Bosco Jardim, no Rio de Janeiro
16 de Julho, Coliseu dos Recreios, Lisboa
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