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<DATE>19940720</DATE>
<CATEGORY>Cien_Tecn_Educ</CATEGORY>
<AUTHOR>AF</AUTHOR>
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A Lua por 20 segundos
Ana Fernandes
Ninguém percebeu que a Armstrong e Aldrin só restavam 20 segundos de combustível para aterrarem na Lua. Era isso que significava a contagem decrescente marcada pelo centro de controlo terrestre em Houston que o mundo inteiro ouviu em ruído de fundo. O Mar da Tranquilidade visível da Apolo 11 era a imagem inversa do nome: um monte de crateras e rochas. A NASA não tinha contado a história toda.
Algum tempo antes de Neil Armstrong ter pronunciado todas aquelas famosas frases que se associam aos relatos sobre o primeiro homem na Lua, o astronauta deve ter pensado noutras, igualmente populares, só que ditas em vernáculo. É que, por 20 segundos, toda a missão esteve em risco. Erros de cálculo enviaram o pequeno módulo lunar para um terreno cheio de rochas e crateras que obrigaram Armstrong a dar voltas e voltas até encontrar um poiso mais suave. A descoberta do local ideal para alunar foi feita pouco antes de se acabar o combustível disponível para a realização de um dos sonhos mais antigos do homem.
Há um quarto de século, precisamente a 20 de Julho de 1969, com um quinto da população mundial a olhar para eles, os excitados ocupantes do módulo Eagle, já a escassos cem metros de distância do tão sonhado satélite, olharam com espanto para o solo lunar. Onde é que estava o terreno plano e sem obstáculos de que a agência espacial norte-americana NASA lhes tinha falado? Por baixo deles, despontavam rochas, a prometer um toque no solo perigosamente atribulado, conta-se num artigo intitulado «Houston! You never mentioned the boulders», publicado agora na revista «New Scientist».
À vista de milhares de telespectadores, o módulo começou desesperadamente à procura de um sítio seguro para alunar. Só no centro de controlo terrestre de Houston se terão realmente apercebido da seriedade da questão. O módulo estava a seis quilómetros do local previsto nos milhares de estudos que rodearam o lançamento da cápsula Apolo 11.
«Foi angustiante. O público não se apercebeu da situação apesar de se ouvir a contagem decrescente dos segundos de combustível que sobravam», disse ao PÚBLICO Pat Norris, autor do artigo publicado na «New Scientist», um irlandês de 51 anos que na altura chefiava uma equipa que desenvolvia para a NASA «software» destinado a guiar as missões da Apolo.
«Só se ouvia uma voz ao fundo a dizer aos astronautas: 60 segundos, 40 segundos... Alunaram quando já só faltavam 20 segundos e, nas nossas previsões, eles deveriam ter ficado com dois minutos de combustível», continuou o irlandês. Se a contagem tivesse chegado a zero, Houston teria dito aos astronautas para voltarem para trás.
Finalmente, apesar de longe do alvo, o módulo conseguiu aterrar no imenso Mar da Tranquilidade. E Armstrong conseguiu pronunciar a primeira das suas famosas frases: «Houston, aqui base Tranquilidade. A Eagle alunou». Do outro lado, um suspiro de alívio: «Roger. Tranquilidade, recebemo-vos em Terra. Aqui muitos estiveram à beira de uma síncope. Respira-se outra vez. Muito obrigado.»
A explicação para o sucedido veio semanas depois. «A razão principal do erro de navegação foi o nosso fraco conhecimento sobre a forma como a gravidade da Lua se altera ao longo da sua superfície», afirma Pat Norris. Mas os cientistas, baseados nos dados obtidos nas viagens preparatórias feitas entre 1968 e 1969, já se tinham apercebido de que as cápsulas Apolo se atrasavam alguns segundos nas órbitas que descreviam em volta da Lua, devido às irregularidades do campo gravitacional lunar.
Dia e noite, os técnicos da NASA -- Pat Norris incluído -- tentaram encontrar soluções para manter a Apolo no seu curso. «Mas evidentemente não foi o suficiente e mesmo agora, 25 anos depois, os engenheiros aeroespaciais ainda não dominam completamente a tecnologia para evitar problemas semelhantes às futuras missões à Lua ou a outros planetas», afirma o técnico irlandês.
Apesar deste «pequeno» problema, desvanecido no meio do júbilo que se sentiu nos Estados Unidos e por todo o mundo, Armstrong conseguiu finalmente dizer a frase que tinha treinado para o momento: «É um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade.»
Para quem, como Pat Norris, participou na titânica iniciativa, ficou a excitação, a «maravilhosa experiência, aquela que temos apenas uma vez na vida», disse o programador ao PÚBLICO, lamentando a certeza de que nunca mais voltará a participar no envio do homem à Lua.
A corrida para a Lua
O desafio lançado pelo Presidente John Kennedy, a 25 de Maio de 1961, tinha sido cumprido. Finalmente, na corrida espacial, os norte-americanos tinham feito esquecer as sucessivas humilhações mediáticas impostas pelos soviéticos. A primeira tinha sido infringida a 4 de Outubro de 1957, com a colocação em órbita do primeiro satélite, seguida da entrada do primeiro homem em órbita -- Yuri Gagarin --, a 12 de Abril de 1961.
De pouco valia, na lógica da Guerra Fria, Alan Shepard ter seguido o russo Gagarin um mês depois. Os americanos, ainda por cima, tinham falhado a entrada em órbita. Estava mesmo decidido: o Presidente queria que os americanos espetassem a bandeira das estrelas e das riscas no solo lunar antes do final da década.
A NASA não parava de estudar hipóteses atrás de hipóteses para cumprir o desejo de Kennedy. Uns defendiam que se enviassem dois foguetões, um para ir até à Lua e outro para ficar em órbita terrestre e garantir o reabastecimento do primeiro na viagem até à Lua. Mas outros consideravam melhor que se enviasse uma nave com duas partes capazes de se separarem já em órbita lunar. A uma caberia orbitar a Lua, enquanto à outra a descida até à superfície. Foi esta a teoria que vingou.
A 23 de Março de 1965, o foguetão Titan II lançou a primeira de dez missões Gemini, com dois tripulantes a bordo, para testar as diversas hipóteses. Enquanto isso, um técnico alemão herdado pelos norte-americanos após a Segunda Guerra Mundial, Wernher von Braun, concentrava-se na concepção do monstruoso Saturno V: o foguetão, com três andares, 110 metros de altura, 3200 toneladas de peso, que enviaria os três astronautas para a Lua.
As missões Apolo tiveram um triste início em Janeiro de 1967. A primeira cápsula incendiou-se antes da descolagem, matando os seus três tripulantes. O programa espacial foi reelaborado e a Apolo 7, em Outubro de 1968, levou três homens até à órbita terrestre. Os soviéticos intrometeram-se novamente e em 17 de Setembro de 1968 a sonda soviética automática Zond 5 deu a primeira volta completa à Lua.
Em Dezembro do mesmo ano, a Apolo 8 cumpria o mesmo destino, mas os americanos fizeram a circum-navegação lunar com três homens a bordo. Seguiram-se mais duas missões Apolo até que, a 16 de Julho de 1969, com as câmaras de televisão e os microfones ligados em directo, Neil Armstrong, com 38 anos, Edwin Aldrin, com 39, e Michael Collins, com 38, subiram até à plataforma onde se erguia o gigante Saturno V. Às 3 horas 56 minutos e 20 segundos (hora de Lisboa) de 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong resgatava, com um passo, a Lua para a humanidade.
E, depois da famosa frase, seguiram para Houston as suas sensações, aquelas que mais nenhum homem alguma vez teve: «A superfície é como um pó fino. Posso levantá-lo facilmente com o pé. Adere em camadas finas à sola e aos lados das minhas botas como cinza. Só me afundo uma pequena fracção de polegada, talvez um oitavo de polegada (uma polegada tem 2,54 centímetros). Mas posso ver as pegadas das minhas botas sobre as finas partículas arenosas.»
Aldrin desceu 19 minutos depois de Armstrong. Collins iria permanecer a cem quilómetros do satélite, em órbita. Os dois astronautas recolheram 24 quilos de pedras e fotografaram o mais que puderam durante 21 horas, 36 minutos e 21 segundos. A Eagle saiu da Lua e voltou a acoplar-se ao módulo Columbia. A 22 de Julho, a missão regressou à Terra, caindo de pára-quedas no Pacífico.
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