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<DATE>19940726</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
<AUTHOR>CC</AUTHOR>
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Antigos combatentes amotinam-se em Moçambique
A fúria dos bravos
José Pinto de Sá, em Maputo
Combatentes do Governo e da Renamo a aguardar desmobilização têm protagonizado diversos motins nos centros de acantonamento de norte a sul de Moçambique. Cansados de esperar, os veteranos da guerra cortaram estradas e ferrovias, pilharam lojas e desencadearam actos de violência que fizeram mortos e feridos entre a população civil.
«O Governo esqueceu-se de nós», queixou-se um porta-voz dos amotinados no centro de Cabide, em Sofala. «Só nos soube utilizar para defender os seus interesses e, agora, considera-nos lixo.»
Embora muitas vezes as causas da revolta se prendam também com atrasos no pagamento de subsídios, na maior parte dos casos as demoras na desmobilização é que estão na origem dos incidentes. Em princípio, os soldados deveriam permanecer o mínimo tempo possível nos centros de acantonamento antes de serem desmobilizados ou encaminhados para o novo exército, mas, na realidade, essa estada vai-se prolongando, e é frequente ficarem durante meses nos centros, cujas condições logísticas são muito precárias.
Os veteranos dormem no chão em tendas infestadas de piolhos e passam os intermináveis dias em jogos de cartas e futebol. As condições sanitárias são péssimas, a alimentação é insuficiente (28 gramas de carne ou peixe por dia) e o moral deteriora-se a olhos vistos perante a incerteza do futuro, à medida que as semanas correm, até que a violência eclode.
Apenas ontem ficou concluída a revolta dos soldados governamentais amotinados desde a manhã de sábado em Cabide, nos arredores da Cidade da Beira. Os militares mantiveram como reféns mais de uma centena de pessoas e apreenderam numerosas viaturas civis no decurso do motim, que se prolongou por três dias.
Último em data, este levantamento de Cabide segue-se a uma série de outros ocorridos um pouco por todo o país. Todo o processo de paz moçambicano foi marcado por actos de descontentamento dos antigos combatentes, cabendo aos mutilados de guerra as primeiras acções reivindicativas. Nas últimas semanas, porém, o fenómeno assumiu proporções inquietantes e é, actualmente, considerado como o barril de pólvora mais perigoso do processo.
Morte e feridos
No dia 14, 300 militares governamentais acantonados em Massinga, na província de Inhambane, amotinaram-se e cortaram durante 20 horas o trânsito na Estrada Nacional nº1, única via de ligação entre o Sul e o Norte do país, exigindo imediata desmobilização.
Quatro dias depois, outros soldados do Governo amotinaram-se também em Namialo, a 90 quilómetros de Nampula, com idêntica exigência. Foi bloqueada a estrada e a ferrovia, ficando interrompendo durante todo o dia o funcionamento do «corredor de Nacala». Depois, os amotinados tomaram de assalto o posto policial da vila, apoderando-se das armas, seguindo-se várias horas de tiroteio desordenado com a polícia, de que resultaram pelo menos três mortos e grande número de feridos.
Na quinta-feira, dia 21, um grupo de soldados governamentais abandonou o centro de acantonamento da Moamba, na província de Maputo, ocupou pontos estratégicos da vila, pilhou lojas, escorraçou as autoridades e fez reféns entre a população civil. Interrompendo temporariamente o tráfego ferroviário oriundo da África do Sul, os amotinados exigiam igualmente a desmobilização imediata.
No dia seguinte, a cólera dos antigos combatentes estendeu-se a Boane, o maior quartel da região sul, a 30 quilómetros de Maputo. Ali, militares do Governo aguardando desmobilização sublevaram-se e cortaram a estrada que liga a capital à fronteira da Swazilândia, com apoio de recrutas do novo exército que ali recebem treino.
Embora a maioria dos motins registados nas últimas semanas tenha ocorrido em centros de acantonamento das forças governamentais, também os antigos combatentes da Renamo parecem ter atingido o limite da sua paciência. No dia 7, ex-guerrilheiros acantonados em Quinga, na província de Nampula, mantiveram como refém durante algumas horas um piloto de helicóptero da Onumoz, exigindo ser imediatamente desmobilizados. Dias depois, um motim de grande amplitude ocorreu no centro de acantonamento da Renamo em Dombe, na província central de Manica, tendo sido feitas centenas de reféns entre a população civil e cortada também a Estrada Nacional nº1, que passa a 40 quilómetros do local.
O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, deslocou-se a Dombe para se inteirar da situação e responsabilizou o Governo e as Nações Unidas pelo sucedido. Em sua opinião, o Executivo não criou as condições necessárias à acomodação dos soldados nos centros, enquanto a Onumoz e o Ministério das Finanças «são lentos no processamento das listas [dos soldados a desmobilizar] e no pagamento aos desmobilizados».
Brigadas técnicas
Face à gravidade da situação, a Comissão de Supervisão e Controlo, órgão máximo do processo de paz moçambicano, decidiu na quarta-feira o envio de brigadas técnicas aos centros de acantonamento espalhados pelo país. Estas brigadas integrarão elementos do Governo, da Renamo, da Onumoz e das Forças Armadas de Defesa de Moçambique, o exército apartidário em vias de formação. Nos centros, as brigadas irão desenvolver «um programa de esclarecimento sobre a possibilidade e as vantagens que os actuais acantonados poderão ter quando forem para a vida civil ou quando forem para o novo exército», segundo informou o negociador-chefe do Governo, Armando Guebuza.
Dados fornecidos pela Onumoz indicam que a Renamo desmobilizou até ao momento 95 por cento dos seus efectivos, enquanto o exército governamental desmobilizou apenas 49 por cento dos seus. E o Conselho de Segurança da ONU já instou o Governo e a Renamo a concluírem, sem mais delongas, a desmobilização das suas forças armadas até 15 de Agosto impreterivelmente, de modo a que as eleições possam, de facto, realizar-se em Outubro, conforme previsto. «Não é possível atrasar ainda mais a desmobilização», enfatiza uma declaração deste organismo adoptada há uma semana em Nova Iorque.
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