<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19940801-091</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940801-091</DOCID>
<DATE>19940801</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>MSL</AUTHOR>
<TEXT>
Comemorar em nome da verdade
Pedro Caldeira Rodrigues
Os polacos comemoram hoje o 50 º aniversário do início da grande insurreição de Varsóvia de Agosto de 1944, que se prolongou durante 63 dias antes de ser impiedosamente esmagada pela tropas de Hitler. Na presença de importantes responsáveis políticos mundiais, onde se incluem o Presidente germânico e um enviado de Boris Ieltsin, estas comemorações poderão também servir de pretexto para repor uma verdade histórica, ocultada durante décadas, sobre a posição de Estaline durante a rebelião. Após os historiadores polacos começarem a divulgar as cínicas manobras diplomáticas promovidas pelo senhor do Kremlin, como o comprova o texto publicado nestas páginas, estas comemorações poderão surgir como a grande oportunidade para sarar com alemães e russos as feridas ainda abertas do passado recente.
Os polacos começaram a prestar ontem homenagem às 200 mil vítimas da insurreição de Varsóvia de 1994 contra a ocupação nazi, durante o início das comemorações do 50º aniversário de uma das mais sangrentas batalhas da Segunda Guerra Mundial.
Bandeiras polacas brancas e vermelhas foram colocadas em diversas ruas da capital e foram rezadas diversas missas antes das cerimónias do dia de hoje, onde vão estar presentes o Presidente germânico, Roman Herzog, o vice-Presidente dos Estados Unidos, Al Gore, o primeiro-ministro britânico, John Major, e um conselheiro (adjunto) presidencial russo.
A presença de alemães e russos irritou diversos veteranos, devido à brutalidade utilizada pelos nazis durante e insurreição e à recusa de Moscovo em ajudar os sublevados. O Presidente germânico e o seu homólogo polaco, Lech Walesa, apressaram-se a afirmar que chegou a hora da reconciliação. «Nós, os alemães e os polacos, devemos encontrar as formas de pôr ordem nas nossas relações. De outra forma, ficará aberta uma ferida que dividirá a Europa e atravessa o seu centro», disse o chefe de Estado germânico durante uma entrevista à televisão polaca transmitida na noite de sábado.
Os polacos encaram esta insurreição de 63 dias como uma das suas mais heróicas batalhas, apesar de ter falhado nos seus objectivos de garantir o controlo de Varsóvia antes da chegada do exército soviético e impedir que o país fosse abrangido pela esfera de influência de Moscovo.
Repor a verdade histórica
Mas estas comemorações vão também assumir um significado muito particular, pois trata-se igualmente de lembrar, aproveitando a presença de alguns dos mais importantes líderes mundiais, uma verdade histórica ocultada durante quase meio século e relacionada com a posição de Estaline durante o levantamento. A presença de um alto responsável russo e a possibilidade de o enviado de Boris Ieltsin efectuar um gesto comparável ao do reconhecimento do crime de Katyn por Mikhail Gorbatchov -- o assassínio de milhares de oficiais polacos ordenado pelo ditador soviético em 1941 -- poderão tornar as cerimónias de Varsóvia num momento político e diplomático de grande significado.
A luta dos resistentes que sobreviveram ao massacre de 200 mil polacos -- a Alemanha negociou uma capitulação e concordou em conceder-lhes o estatuto de prisioneiros de guerra -- , símbolos da vontade na luta pela independência do seu país, sempre foi deformada pela propaganda oficial, que considerou a decisão de desencadear a insurreição, tomada pelo governo exilado em Londres, como um «erro criminoso».
A emergência da oposição nos anos 70 e 80 favoreceu a divulgação da verdade sobre a insurreição de Varsóvia e diversos historiadores começaram a revelar as cínicas manobras diplomáticas de Estaline com o chefe do governo polaco no exílio, Stanislaw Mikolaczyk, que se deslocou a Moscovo nos primeiros dias de Julho. Estaline prometeu-lhe então ajudar os revoltosos de Varsóvia caso aceitasse modificar as fronteiras da Polónia em benefício da União Soviética e formar um governo de coligação com os comunistas.
O responsável político polaco recusou e as tropas russas apenas se começaram a movimentar lentamente no início de Setembro de 1944, o que contribuiu para fornecer uma nova esperança aos resistentes e prolongar a sua agonia por mais algumas semanas. Efectuado após o ataque surpresa dos soviéticos contra o leste da Polónia em Setembro de 1939, na sequência do pacto de não agressão germano-soviético, ordenado por Hitler e Estaline, o comportamento de Moscovo em Agosto de 1944 eliminou praticamente todas as hipóteses de reconciliação entre polacos e russos. Mas agora, passados 50 anos, os polacos parecem dispostos a permitir que estas velhas feridas cicatrizem.
Cerca de 300 veteranos, muitos deles exibindo insígnias vermelhas e brancas pertencentes ao Exército do Interior (AK) que conduziu a revolta, participaram há dois dias numa missa ao ar livre junto no Cemitério dos Insurrectos de Varsóvia, situado no distrito de Wola. No sábado, centenas de veteranos da insurreição prestaram a sua última homenagem ao general Tadeusz Bor-Komorowski, que liderou o levantamento. O general morreu no exílio em Inglaterra mas os seus restos mortais foram trasladados na quinta-feira para a Polónia e cremados num cemitério militar.
Alguns veteranos e grupos de extrema-direita estão a boicotar as cerimónias devido aos convites enviados a Herzog e ao Presidente russo, que optou por se fazer representar por um seu adjunto, Sergei Filatov. Mas Walesa insistiu em manter os convites.
«Nunca esqueceremos o heroísmo do levantamento de Varsóvia. Nunca esqueceremos a crueldade que os polacos sofreram de mãos estrangeiras», disse na sexta-feira Walesa durante um discurso pronunciado perante um grupo de veteranos insurrectos. «Mas não podemos viver apenas por vingança e ódio. Necessitamos de reconciliação e cooperação amigável», afirmou.
Os responsáveis políticos estrangeiros, onde se incluem representantes dos Aliados ocidentais que participaram no envio de ajuda por via aérea aos revoltosos, e que depois foram proibidos por Estaline de aterrar para além das linhas da frente russas, vão depositar coroas de flores em homenagem às vítimas do levantamento e participar nas principais cerimónias previstas para o dia de hoje.
</TEXT>
</DOC>