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<DOCNO>PUBLICO-19940905-029</DOCNO>
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<DATE>19940905</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>AGF</AUTHOR>
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Missas de domingo em Belfast
A mão vermelha contra os papistas
Da nossa enviada
Ana Gomes Ferreira, em Belfast
Na sua própria igreja, o reverendo radical protestante Ian Paisley faz o que quer. Apelos à paz, nem pensar. O processo de paz é, aliás, «uma traição». Do lado católico, uma ideia-forte: «Não tenham medo».
Quando o chefe do clã O'Neill morreu, deixou dois filhos separados pela religião. Só um poderia herdar o reino do Ulster e a disputa foi marcada para o Lough Neith, o grande lago da Irlanda do Norte. O filho católico, melhor nadador e mais atlético, ganhou rapidamente a dianteira. O outro, desesperado, sacou da espada e decepou a mão, arremessando-a para a margem. Venceu. A mão vermelha do Ulster é o símbolo dos protestantes.
A religião marcou de facto o início do conflito entre as duas comunidades. Não é por acaso que, na Igreja Livre Presbiterana, se é obrigado a enfrentar, logo à entrada, os bustos dos mártires protestantes mortos às mãos dos católicos. O seu número é incontável, alinhados nos corredores que cercam a sala de culto da igreja fundada pelo reverendo Ian Paisley. Um homem para quem religião e política não têm separação possível.
Manhã de domingo. É a primeira missa que reúne toda a comunidade fiel a Paisley depois de o Exército Republicano Irlandês (católico) ter anunciado o cessar-fogo e, por isso, o reverendo não quis deixar o sermão entregue a mais ninguém.
Paisley não está contente com os seus fiéis. Não conseguiu encher nem um terço da igreja construída como se fosse um cinema, com plateia e balcão. Por isso, a meio do sermão, decide explicar que, "neste momento de crise" não se quis afastar dos fiéis -- cancelou uma viagem ao Canadá -- e exige que os fiéis encham a sala.
As missas de "crise" de Ian Paisley, o dirigente do Partido Democrático Unionista (DUP, radical), dificilmente se podem chamar assim. São autênticos comícios e ninguém estranharia se a assistência disparasse num aplauso interminável. Mas esses são substituídos por por sonoros aleluia.
Paisley começou logo por trair o apelo feito pelos líderes religiosos -- no Ulster são anglicanos, metodistas, presbiterianos e católicos -- que pediram que as missas de ontem fossem dedicadas à paz. Afinal, ele fundou a sua própria igreja porque gosta de fazer o que quer.
Do alto do púlpito de madeira clara sobre uma espécie de palco alto que o faz ascender quase até ao balcão, começa por avisar os jornalistas: se se levantarem serão expulsos, e há cópias do seu "discurso" para distribuir. De facto, há. Custam quatro libras.
O processo de paz é "uma traição e uma frustração", lança o reverendo. "A nossa herança, as nossas crenças, a nossa liberdade estão a ser destruídas".
Os fiéis agitam-se nos cadeirais, com os seus fatos brilhantes, os homens, e vestidos de seda e elegantes chapéus de renda as mulheres.
"Oh Deus, este é o dia do mal". A oração como caminho da salvação parece não dizer nada a Paisley. Mesmo assim, quer que o seu Deus protestante olhe para este bocado da ilha da Irlanda.
Livro de Ester. É agora que tudo vai começar. Há um rei que entrou em depravação, há uma rainha maltratada. Há um oportunista e um homem de princípios que não está disposto a obedecer ao rei depravado. "Percebem? Vejo que estas personagens são as mesmas que desfilam pelo palco da Irlanda do Norte".
Não é difícil adivinhar. Os protestantes são o homem rebelde que enfrenta o rei e protege a rainha maltratada, o Ulster. O oportunista é Gerry Adams o líder católico do Sinn Fein ou, na definição de Paisley, "o assassino do IRA", o rei é o primeiro-ministro John Major.
"Podemos confiar neste primeiro-ministro que fala com assassinos do IRA?. "Há uma conspiração para destruir este povo". Paisley, que dirige o segundo partido unionista e é o político mais popular da província, diz que irá enfrentar Major na terça-feira e promete não fazer como os seus colegas políticos unionistas (uma bicada em James Molyneaux, que pediu aos protestantes para confiarem em Londres). "Não vou lá para dar apoio ao Governo. Há uma traição, estão a dizer que não há espaço nesta ilha para nós".
A Paisley ninguém engana: "Dizem que vamos ficar cheios de dinheiro. Virá dinheiro da América, virá dinheiro da Europa. É mentira". Paisley, que é deputado europeu, diz que a Europa está falida.
A assistência parece ter sido apanhada por um choque eléctrico colectivo.
"Todos sabemos o que vai acontecer quando cairmos nas mãos da República".
Os protestantes temem tornar-se uma minoria na Irlanda católica. Mas, mais do que isso temem perder os privilégios sociais que, desde há séculos, foram de facto tomando aos protestantes.
"Aleluia". Paisley manda que todos apertem as mãos. Apesar do tom de voz subir cada vez mais, não faz um gesto, permanece imóvel. "As vozes da traição soam cada vez mais alto, lembrem-se de Ester onde se diz que se tivermos que morrer, morreremos".
Paisley falou durante uma hora e meia. E aproveita para exigir que se compre o jornal da paróquia, que se anda a vender mal.
Na rua, a senhora de vestido cor-de-rosa está em êxtase. "O doutor Paisley nunca nos enganou. Estamos prontas a segui-lo. Mais vale morrer de pé do que viver de joelhos", e afasta-se em direcção ao Mercedes que a espera nesta zona oriental da cidade, uma das mais ricas e mista, católica e protestante. A outra é o centro, mas não conta porque não vive lá ninguém.
Entretanto, entre os católicos
Ester contra Isaías. Este foi o profeta escolhido pelo padre que celebrou a missa da manhã na catedral de São Pedro, no bairro católico de Falls. E as primeiras palavras são "não tenham medo".
Aqui, ao contrário da igreja de Paisley, quase não entra luz no interior desta catedral de um gótico de imitação. Nem há senhoras de chapéu e homens de fato completo e relógio de corrente entre os papistas, como lhes chamam os protestantes.
E, se bem que nem o padre nem o monsenhor Toner, o segundo na hierarquia católica em Belfast, tenham os dotes retóricos de Paisley, os seus sermões também têm efeito.
O padre cujo discurso é mais forte do que o do seu superior, lembra os mortos de 25 anos de conflito. E o homem encostado à porta que assiste à missa de joelhos, como cumprindo uma penitência, chora.
Enquanto Paisley "fugiu" por uma porta traseira em direcção a um carro de luxo, monsenhor Toner circula no exterior da catedral de jornal debaixo do braço. É timidamente cumprimentado, mas, afinal, é ainda a sua segunda semana na paróquia.
Toner sabe que nos últimos 25 anos nenhuma das duas comunidades lutou por dogmas religiosos. "Luta-se contra a discriminação de uma população que, após a chegada dos protestantes, começou a perder os seus direitos mais básicos. Não há igualdade na oportunidades de trabalho, há problemas graves de habitação que são mais notórios entre os católicos. Mas, sobretudo, lutam por ter influência política", explica o monsenhor.
É a vez de Toner conduzir a missa. E entra na catedral cujo gigantismo destoa do quarteirão de casas sujas onde está situada. Nas paredes de um desses blocos de apartamentos, onde vive a "minoria étnica" católica, como lhes chamou Paisley, há um letreiro avisando: "Cuidado, infestado de baratas".
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