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<DOCNO>PUBLICO-19940911-072</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19940911-072</DOCID>
<DATE>19940911</DATE>
<CATEGORY>Diversos</CATEGORY>
<AUTHOR>LP</AUTHOR>
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O que é feito da revolução chilena? Memórias do retorno
Raúl Iturra*
1. O país dos retornados
Faz 21 anos hoje, declarava-se o estado de guerra entre chilenos. Chilenos a aderir à ordem de 163 anos de independência contra chilenos adeptos de dois anos de projecto socialista. Projecto socialista preparado durante 30 anos pelo então Presidente da República, assassinado nesse dia. Projecto socialista cantado pelo poeta. Allende e Neruda, camaradas de luta, desapareciam fisicamente em Setembro, o mesmo mês da independência como colónia espanhola em 1810, e com eles desaparecia também o projecto de redistribuição de riqueza, de abertura de empregos, de colectivismo.
A réplica do que foi 1906 na Europa Oriental: um prenúncio do que viria ser a Europa de hoje. Dois muros ficam historicamente resguardados: o de Berlim, que já nada divide mas ajuda a lembrar; e o de Santiago, o Muro aos Desaparecidos, que lembra os que não estão, vivos e mortos.
Faz hoje 21 anos, o golpe de Estado punha fim à disputa entre colectivistas e individualistas, entre os que queriam que a terra fosse do trabalhador, soubesse ou não trabalhá-la, e os que queriam que os trabalhadores trabalhassem para eles e sem lucro. Um golpe que guilhotinou as cabeças mais radicais, através do medo, do exílio e da morte. A história produzira uma nova conjuntura e a diáspora chegou. O país cindiu-se em dois grupos: o grupo que lidou e batalhou contra os atacantes internos até restituir a democracia 17 anos depois; e o grupo dos que partiram por morte, por exílio ou por desespero da pobreza que a concentração da riqueza nas mãos de poucos sempre gera. Dos que partiram, muitos voltaram.
A democracia, ganha pela luta calada e o debate, foi recuperando nacionais com filhos suecos, ingleses, canadianos, americanos, africanos e outros. Muitos deles voltavam com as mãos cheias a depositar o dinheiro feito no exílio como operários, domésticos, funcionários, tradutores, servos. A democracia, esse grupo que lá ficou 17 anos a lutar pela vida constitucional e pela justiça individual e social, organizou com valentia as estruturas e os processos de acolhimento e de investimento. Os retornados podiam rentabilizar a vida dura praticada fora do paraíso nacional, tornando-se empresários individuais; e passar de nacionais de um país longínquo lembrado com nostalgia em celebrações simbólicas, laicas ou religiosas a empenhados trabalhadores por conta própria que faziam a riqueza da nação.
Nenhum dos grupos queria falar do trauma vivido entre 1971 e 1973, quando às acaloradas disputas familiares condimentadas com o cheiro da falta de dentífrico embargado se sucedeu o silêncio das bombas, das prisões, das mortes, do desterro. «A tumba foi dos livres e o asilo foi da opressão», ao contrário das palavras do hino nacional, com mais de cem anos.
Há hoje dois Chiles: o daqueles que viveram a perseguição política; e o daqueles que acabaram por aderir a si próprios e ao seu dinheiro no retorno ao incompreensível.
2. O silêncio dos factos
Aterrei em Pudahuel depois de 21 anos de ali ter sido conduzido para sair à força. O poder que me pôs fora convidava-me a falar da minha pesquisa e livros feitos em Inglaterra, Espanha, França e, finalmente, nesta minha terra, Portugal. Dois ramos de cravos vermelhos iam comigo: para Allende e para Neruda, como símbolos desta terra. Depois de os depositar nesses túmulos solitários, ao sol do Inverno de Agosto que adoçava os seis graus negativos, senti que tinha aterrado.
A minha conferência no Salão de Honra da Universidade de Santiago foi introduzida por um discurso curricular onde figurava a minha origem portuguesa -- nacionalidade dada pelos chilenos a um chileno que chileno não sabia falar depois de 26 anos fora da pátria e para quem os dois anos de intervalo no Chile durante Allende estavam muito longe para poder falar castelhano mestiço do século XVII.
Nas conferências e nos cursos que proferi durante duas semanas de visita, os meus factos e teoria eram novos para os presentes, mas logo aprendi que ser exilado era ser retornado como tantos outros, que Allende era um símbolo comum do qual não se falava e que o próximo defunto e antigo ditador afirmava que nunca teria dado o golpe que deu. A população das ruas, os seminários académicos, as conversas domésticas e de amigos, o agir quotidiano mostravam um povo extremamente ocupado em construir a continuidade, em observar no dia-a-dia o futuro construído na base da economia. Um povo que, a trabalhar das sete da manhã até tarde na noite, esquece com o frenético agir o trauma do choque da ilusão do socialismo.
Não ouvi ninguém falar da época de transição entre uma democracia que sonhou o colectivismo e uma democracia que constrói o individualismo autónomo como John Hales o sonhou no século XV, na Inglaterra. Um país em transacção é um país ocupado em recuperar a memória de há 400 anos, restaurando monumentos; e ocupado em construir o presente que cimenta o futuro avaliando os contratos em dólares.
O tigre da América Latina, como é chamado, transita do século XVI para o XXI com a pressa de ser rico: 60 por cento de bem-estar, 40 por cento de fome no meio do pleno emprego. A mãe de quem há 21 anos me tinha despedido em Pudahel para uma breve ausência e que me tinha visitado na Inglaterra era, no novo aeroporto do mesmo nome, uma elegante e refinada senhora de 83 anos; o pai que quisera que eu fosse embora dormia sob uma pedra no campo de pasto inglês em frente do mar; o irmão adolescente era o engenheiro que sabia mandar; os sobrinhos pequenos eram adultos com filhos. O país que conhecia não vi, o país que vi não conheci.
Como todo o retornado, embora visitante, que acompanha a história de outros povos, como a de Portugal, não sabia que a transacção é o objectivo dos grupos sociais que continuam a sua história e que os intelectuais gostam de chamar transição. Allende, no seu esplêndido túmulo simples, é o símbolo da conjuntura que levou o país a ser grande e comprido, o símbolo do qual não se fala porque a transacção ajuda a adiar o luto e deter a memória.
Voltei a este outro Chile, Portugal, sereno e sem fantasmas na mente. Um povo que me fez crescer e contextualizar a história da revolução socialista. Como é desejável para todo o retornado, mesmo visitante. O tempo passa, os ciclos não se repetem: avançam. E nós, com eles. Da revolução recalcada ao investimento substitutivo da luta.
* antropólogo social, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa
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