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<DOCNO>PUBLICO-19940913-064</DOCNO>
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<DATE>19940913</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>FS</AUTHOR>
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Monomotor despenha-se no relvado da residência oficial do Presidente dos Estados Unidos
Susto na Casa Branca
Era um pequeno monomotor. Entrou no espaço aéreo restrito que rodeia a Casa Branca e despenhou-se no relvado circundante, matando o piloto. Bill Clinton e a família, por acaso, não estavam lá na altura. O piloto morreu e os serviços secretos não sabem ainda se estão a lidar com um acidente bizarro ou com um ataque estilo «kamikaze».
Um pequeno avião monomotor despenhou-se ontem ao princípio da madrugada no relvado Sul da Casa Branca mas o Presidente Clinton não se encontrava no edifício na altura, disse um porta-voz oficial da Administração americana.
A polícia informou que o piloto do aparelho, que penetrou numa zona de voo restrito em redor da residência e escritório do Presidente, morreu. As autoridades disseram não ser ainda claro se se tratou de um ataque deliberado ou de um acidente.
Os Clinton estavam a dormir em Blair House, a residência oficial de hóspedes, do outro lado da Pennsylvania Avenue, devido a remodelações em curso na Casa Branca, disse o porta-voz.
A queda do avião ocorreu cerca das 02h00 locais (08h00 em Lisboa). «Tratava-se de um pequeno monomotor», disse o secretário adjunto para a imprensa, Arthur Jones. «Despenhou-se no solo e rolou, no relvado Sul, até junto do edifício».
«Parte dos destroços partiram os vidros de uma janela, e foi tudo o que aconteceu quanto a prejuízos» na própria Casa Branca, explicou Jones.
Cães foram trazidos para cheirar os destroços, mas fontes oficiais disseram que não foram encontrados explosivos no avião, que ficou imobilizado mesmo junto ao canto esquerdo do pórtico e pilares que dá para o Rose Garden, cenário de muitas cerimónias oficiais.
Os aposentos pessoais do Presidente ficam nos terceiro e último pisos do edifício, com os andares mais baixos ocupados por salas de cerimónias e escritórios.
A família Clinton deveria ter-se mudado de regresso à Casa Branca no domingo, mas a mudança foi adiada por um dia, dado que as remodelações nos sistemas de aquecimento e ar condicionado não estavam ainda prontas.
A polícia no local disse que o Cessna, vermelho e branco, tinha feito a aproximação com o motor desligado.
Uma testemunha disse ter visto o pequeno aparelho voar para Leste, sobre o Mall, um grande parque que vai até ao rio Potomac. A testemunha, Adolphus Roberts, que estava no Mall, disse que o avião virou depois para a esquerda, dirigindo-se directamente para a Casa Branca, com as luzes acesas em ambas as asas, mas sem o motor ligado.
«Guinou para a esquerda e apontou para a Casa Branca. Quando virou, começou a baixar. Desapareceu de súbito entre duas árvores. Foi descendo suavemente, até se despenhar», disse. Depois, segundo a testemunha, ouviu-se «um grande boom» mas nenhum som de disparo de armas, à medida que o aparelho guinava para o pórtico Sul da Casa Branca.
A televisão local WUSA, citando fontes não especificadas, disse que o piloto tinha descolado de um aeroporto das imediações, em Maryland, cerca da meia-noite local, duas horas antes da queda. Segundo a estação, o aparelho não foi detectado pelo radar do National Airport, do outro lado do rio Potomac.
Piloto identificado?
Trata-se do segundo incidente do género. Em Fevereiro de 1974, um soldado roubou um helicóptero militar de Fort Meade, Maryland, despenhando-se no relvado Sul. Richard Nixon, que era o Presidente na altura, estava a passar o fim de semana fora.
Depois disso, os serviços secretos colocaram guardas no telhado da Casa Branca, presumivelmente equipados com mísseis anti-aéreos Stinger.
Se o avião que ontem se despenhou nos relvados da Casa Branca tinha os motores desligados, isso dificultou decerto a detecção e reacção por parte dos vigias. No incidente de ontem não há notícia de terem sido feitos disparos.
Jones disse que o chefe de pessoal da Casa Branca, Leon Panetta, informou Clinton do incidente menos de uma hora depois dele ter ocorrido.
O porta-voz dos serviços secretos, Curtis Eldridge, disse não poder dar pormenores sobre o incidente, afirmando que o departamento responsável pela protecção do Presidente estava «ainda numa investigação preliminar».
Interrogado sobre se tinha sido um acto premeditado ou um acidente, disse: «Até este momento, não encontrámos qualquer informação que possa determinar se foi uma coisa ou outra».
Além dos serviços secretos, a polícia metropolitana de Washington, o FBI, a agência federal de Aviação e a agência de Segurança Nacional nos Transportes estão envolvidos na investigação, disse Eldridge.
Um funcionário da Casa Branca disse ter sido informado pelos serviços secretos que demoraria pelo menos meio dia até os destroços serem retirados do relvado.
O aparelho derramou uma grande quantidade de combustível no solo e o local estava ontem fortemente iluminado com holofotes, enquanto agentes dos serviços secretos iam examinando os destroços.
O corpo do homem que pilotava o avião ficou preso nos escombros durante mais de duas horas. Um investigador disse que o piloto, não identificado, foi decapitado pelo embate.
Fontes ligadas à investigação disseram à agência Reuter que o piloto, numa primeira identificação, não oficial, seria um homem que morava no vizinho estado do Maryland, havendo ainda informações não confirmadas de que sofreria de perturbações mentais e de que teria roubado o avião num clube aéreo da região.
Segundo um certificado médico encontrado nos escombros, o homem seria Frank Eugene Corder, mas os serviços secretos dizem ser ainda prematuro avançar qualquer identificação.
Um irmão de Frank, John Corder, de Abardeen, Maryland, disse ter sido interrogado por agentes dos serviços secretos acerca dele, mas não podia confirmar o seu envolvimento no incidente. Acrescentou que Frank, 39 anos, de Perryville, Maryland, teve licença de piloto durante dez anos e trabalhava agora como camionista. Segundo outras fontes, o homem sofreria de perturbações mentais.
A Pennsylvania Avenue, fronteira à Casa Branca, foi selada ao trânsito de veículos e peões.
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