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<DOCNO>PUBLICO-19941017-044</DOCNO>
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<DATE>19941017</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>JAF</AUTHOR>
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Maioria clara pelo «sim»
Finlândia escolheu adesão à União Europeia
Após sete décadas de rigorosa neutralidade, a Finlândia votou claramente a sua entrada na UE, optando pela ancoragem no ocidente europeu como forma de compensar os riscos de segurança vindos da vizinha Rússia. Os governos pró-europeus da Suécia e Noruega esperam que este resultado ajude os seus renitentes eleitorados a fazer igual escolha nos referendos de Novembro.
Mais de 57 por cento dos quatro milhões de eleitores da Finlândia pronunciaram-se ontem a favor da adesão do país à União Europeia. Quando o resultado deste referendo consultivo for ratificado pelo parlamento -- e parece adquirido que existirá a maioria de dois terços necessária para isso -- a adesão, a partir de 1 de Janeiro de 1995, ficará definitivamente assente. Em relação à votação parlamentar, antes do final de Dezembro, os principais partidos comprometeram-se a respeitar o resultado da consulta de ontem.
A pergunta inscrita nos boletins de voto era «A Finlândia deve aderir à União Europeia segundo os termos do acordo concluído com a UE?» e 57,4 por cento dos votantes disseram que «sim» -- número divulgado ao princípio da noite e respeitante a cerca de quatro quintos dos votos mas que já não sofreria alteração sensível. Havia 42,6 por cento de votos contra.
Numa primeira reacção, o primeiro-ministro centrista e pró-adesão, Esko Aho, afirmou que a vitória do «sim» parecia um dado adquirido. Horas antes, ao votar, o Presidente Martti Ahtisaari, um social-democrata e europeísta convicto, falara de «um dia importante para a Finlândia».
Os termos da adesão finlandesa estão definidos desde a Primavera passada, dois anos depois de Helsínquia ter apresentado formalmente em Bruxelas a sua candidatura.
A Áustria votou em Junho num referendo a adesão à UE, com 66 por cento a favor, e a Finlândia torna-se assim o segundo país, de quatro candidatos, a poder juntar-se aos Doze a partir de Janeiro.
Os que se seguem
Os governos pró-europeus da Noruega e da Suécia esperam que o «sim» finlandês provoque um efeito de dominó nos seus países. A Suécia, onde as sondagens mostram um equilíbrio muito grande entre os defensores e os adversários da adesão, vota no dia 13 de Novembro.
Na Noruega, o referendo realiza-se no dia 28 de Novembro e é neste país que os estudos de opinião mostram uma maior relutância face à adesão, com o «não» em maioria (ver Suplemento Economia). Todavia, uma sondagem publicada no sábado pelo diário «Aftenposten» mostrava, pela primeira vez, que uma maioria clara de noruegueses está disposta a apoiar a adesão à UE no caso de a Finlândia e de a Suécia decidirem nesse sentido.
Os finlandeses praticaram durante 70 anos uma política diplomática delicada para manterem a independência face a Moscovo. E uma série de declarações ameaçadoras de círculos nacionalistas russos terá contribuído para os empurrar ainda mais para a União Europeia.
Ainda esta semana um assessor do ex-vice-Presidente russo Alexandre Rutskoi afirmou a um jornal finlandês que este, se fosse poder, voltaria a tornar a Finlândia parte da Rússia. A imprensa dá regularmente destaque a comentários semelhantes do líder ultra-nacionalista russo Vladimir Jirinovski. O país pertencia ao império czarista antes de se tornar independente em 1917.
Com a adesão, a sua fronteira de 1.270 quilómetros com a Rússia -- que vai sensivelmente do grande complexo naval de Murmansk até São Petersburgo -- tornar-se-á o limite nordeste da UE.
A segurança do país face à Rússia foi precisamente um dos temas da campanha, a par do destino do sector agrícola e das medidas especiais de apoio que ele deverá receber após a adesão. O dossier mais difícil nos dois anos de discussões com a UE foi o das garantias exigidas por Helsínquia para assegurar a sobrevivência da agricultura nos climas árctico e sub-árctico; ficou definido que o país receberá apoio financeiro de Bruxelas.
Um dos argumentos dos defensores do «não» foi o de que o país teria de abandonar a linha de neutralidade que pisou durante sete décadas, e se tornaria desse modo o primeiro alvo de um eventual confronto Leste-Oeste. Mas o governo de Esko Aho replicou que o país não se sente ameaçado e que, além disso, manterá a linha de não-alinhamento militar dentro da UE (evitando previsivelmente a adesão a UEO), uma salvaguarda que de resto impôs nas negociações com Bruxelas.
Os partidários do «kyllae» (sim, em finlandês) esgrimiram a ideia de que a adesão ajudará a economia, que emerge lentamente de uma recessão, e reduzirá o desemprego, que atinge uma taxa recorde. O período de recessão começou em 1991, quando o mercado soviético, onde a Finlândia tradicionalmente colocava muitos dos seus produtos, entrou em colapso, e quando os mercados ocidentais começaram a pagar menos pelos produtos florestais finlandeses.
Os partidários do «sim» argumentam ainda que ficará deste modo provado que a Finlândia pertence sem dúvida à Europa Ocidental.
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