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<DOCNO>PUBLICO-19941020-138</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19941020-138</DOCID>
<DATE>19941020</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>JH</AUTHOR>
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Os candidatos à Ponta Vermelha
Doze políticos aspiram a ocupar o Palácio da Ponta Vermelha, a residência oficial dos chefes de Estado moçambicanos, em Maputo.
Domingos Arouca
O decano dos políticos moçambicanos nasceu há 66 anos em Inhambane e trabalhou como escriturário e enfermeiro para pagar os estudos, acabando por se licenciar em Direito na Universidade Clássica de Lisboa. Acusado de dirigir a rede clandestina da Frelimo no sul do país, foi preso pela PIDE em 1965, condenado e encarcerado durante oito anos. Oposto à orientação marxista assumida pela Frelimo depois da Independência, exilou-se em Portugal, onde fundou a Frente Unida de Moçambique (Fumo). Democrata-cristão confesso, Domingos Arouca defende a criação de uma comunidade de estados de língua portuguesa.
Vasco Campira
Nascido no dia de Natal de 1933, em Marromeu (Sofala), Vasco Campira estudou desenho e pintura na Rodésia, Congo Belga e Portugal. Em 1964 viajou clandestinamente para a Tanzânia e juntou-se à Frelimo, que o mandou estudar na União Soviética. Discordando da política marxista, Campira regressou a Moçambique em 1974, iniciando contactos com as autoridades portuguesas. Preso por altura da Independência, foi encarcerado na cadeia da Machava, onde permaneceu durante cinco anos sem culpa formada. Em 1990 fundou o Partido da Convenção Nacional (PCN), que abandonou pouco depois para criar o Partido da Convergência Democrática (Pacode).
Joaquim Chissano
Fundador e guerrilheiro destacado da Frelimo, nasceu em Lalehice, na província de Gaza, em 1939, e estudou em Portugal e França antes de se dedicar por inteiro à luta nacionalista. Depois da Independência ocupou durante 11 anos a pasta dos Negócios Estrangeiros nos sucessivos governos de Samora Machel, vindo a substitui-lo na Presidência da República em finais de 1986. Sob a sua direcção a Frelimo abandonou a orientação marxista-leninista e optou pelo multipartidarismo. Autorizou as conversações com a Renamo que culminaram com a assinatura dos acordos de Roma, conducentes ao actual processo eleitoral.
Afonso Dhlakama
O líder da Renamo nasceu a 1 de Janeiro de 1953, filho primogénito do régulo de Mangunde, em Sofala. Aderiu à Frelimo em 1972 e combateu na guerrilha até à Independência. Depois de cursar contabilidade, foi nomeado responsável pela Intendência Militar na sua província natal. No ano seguinte, discordando da orientação tomada pela Frelimo, desertou e juntou-se à recém-formada Resistência Nacional, dirigida por André Matsangaíssa. Após a morte em combate de Matsangaíssa assumiu a liderança e prosseguiu a luta durante 15 anos. Supervisou as negociações com a Frelimo e assinou os acordos de paz em Outubro de 1992.
Máximo Dias
Nasceu há 57 anos em Morrumbala (Zambézia) e exerceu várias profissões para custear os estudos, acabando por se licenciar em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Em fins de 1973 fundou o Grupo Unido de Moçambique (Gumo), com o fim de pressionar o Governo português a negociar com a Frelimo. Depois da Independência exilou-se em Portugal, onde fundou o Movimento Nacionalista Moçambicano (Monamo), inicialmente destinado a ser uma frente legal da resistência. Incompatibilizado com a Renamo, optou por concorrer à Presidência proposto pelo Monamo, desenvolvendo aquilo a que chama de «candidatura didáctica».
Carlos Jeque
Tem 41 anos e nasceu em Marracuene, na província de Maputo. Estudou contabilidade antes de partir para Portugal, onde se licenciou em Direito pela Universidade Autónoma de Lisboa. Exerceu funções de destaque em diversas empresas portuguesas e moçambicanas, aderindo à Frente Unida de Moçambique (Fumo), em 1992. Abandonou o partido dois anos mais tarde, quando já exercia funções de vice-presidente. Pouco depois anunciou a sua intenção de concorrer às eleições presidenciais como candidato independente, com o apoio da Frente de Acção Patriótica, uma formação política de implantação maioritariamente estudantil.
Padimbe Kamati
O velho makonde, de longas barbas brancas, nasceu em Mueda (Cabo Delgado) e desde cedo se iniciou na luta nacionalista, fundando em 1959 o Partido do Progresso do Povo Moçambicano (PPPM). Em 1962, depois de ver o pai e um irmão mortos pelas autoridades coloniais durante uma manifestação, exilou-se na Tanzânia, onde prosseguiu estudos secundários. Em seguida completou o bacharelato na Universidade Hailé Selassié, na Etiópia, antes de se doutorar em Ciências Sociais pela Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Após os acordos de paz, abandonou os seus negócios em Lisboa para regressar à vida política em Moçambique.
Mário Machel
Sobrinho de Samora Machel, nasceu em Chokwé, na província de Gaza, e ali iniciou os estudos secundários, que viria a concluir em Lourenço Marques (Maputo), apesar das perseguições que a PIDE lhe moveu devido ao parentesco com o líder guerrilheiro. Em 1974 começou a leccionar, iniciando no mesmo ano a sua actividade política na Frelimo. Quatro anos depois foi enviado pelo partido para a Tanzânia, onde cursou Diplomacia. A sua candidatura independente à Ponta Vermelha encontrou forte oposição da parte da viúva do Presidente Machel, que o acusou de utilização abusiva do nome da família para auto-promoção.
Casimiro Nhamitambo
O «candidato da juventude», nascido há 36 anos na Mutarara, em Tete, acompanhou os pais para o exílio com sete anos apenas. Na Tanzânia, após os estudos básicos, foi obrigado a alistar-se nas forças guerrilheiras da Frelimo, prosseguindo posteriormente treinos militares especializados na Roménia e na União Soviética. Desmobilizado alguns anos depois, concluiu o ensino secundário e ingressou, em 1983, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Em 1990 participou na fundação do Partido Liberal de Moçambique (Palmo), que abandonou no ano seguinte para criar o Partido Social-Liberal e Democrático (Sol).
Carlos Reis
Acérrimo defensor do federalismo, nasceu em Milange, na Zambézia, há 54 anos. Em 1966 foi preso pela PIDE acusado de ideias nacionalistas e condenado a sete anos de trabalhos forçados. Uma vez libertado exilou-se no Malawi, onde se juntou à Frelimo. Quatro anos depois da Independência voltou a ser preso, desta feita pela Segurança moçambicana, sob suspeita de simpatias pela Renamo. De novo procurou refúgio no Malawi, de onde partiu para Portugal, ali permanecendo durante 10 anos. Em 1987 fundou a União Nacional Moçambicana (Unamo) com o líder separatista zambeziano Gimo Phiri, que abandonaria posteriormente o partido.
Wehia Ripua
Presidente e fundador do Partido Democrático de Moçambique (Pademo), Ripua nasceu em Marrupa, no Niassa, em 1947. Aos quatro anos foi viver para a Tanzânia, onde completou o ensino básico. Fundador da Frelimo em 1962, recebeu treino militar na URSS e integrou o primeiro grupo de guerrilheiros infiltrado em Moçambique. Nos anos seguintes, exerceu importantes cargos, incluindo o comissariado provincial da guerrilha em Cabo Delgado. Em 1972 partiu para a Roménia, onde concluíu estudos de Direito, regressando cinco anos depois a Moçambique para trabalhar nos ministérios da Justiça e dos Negócios Estrangeiros.
Ya-Qub Sibindy
Conterrâneo e parente de Afonso Dhlakama, iniciou a vida política aos 16 anos, integrando a guerrilha da Frelimo em 1972. Depois da Independência permaneceu ligado às Forças Armadas, chefiando o departamento de contabilidade do Ministério da Defesa, com patente equivalente a capitão. Abandonou o exército depois de um irmão ter sido fuzilado por divergências políticas e dedicou-se à agro-pecuária até 1986, data em que se converteu ao islamismo. No ano passado fundou o Partido Independente de Moçambique (Pimo), que apoia a sua «candidatura moral» à Presidência da República.
José Pinto de Sá
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