<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19941103-139</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19941103-139</DOCID>
<DATE>19941103</DATE>
<TEXT>
Abdicação de Eduardo VIII, em 1936
«Um dos maiores amores da história»
NO INVERNO de 1930 ou 31 (as versões não coincidem), os Simpson, um casal de americanos, Ernest e Wallis, foram finalmente apresentados ao príncipe Eduardo, herdeiro do trono de Inglaterra. Para fazer conversa, o príncipe perguntou a Wallis se, no gélido Inverno britânico, ela não sentia falta do calor da América. «I am sorry, sir, but you have disappointed me», respondeu a americana. «Em que sentido?», devolveu o futuro rei. E Wallis explicou que sempre que uma americana chegava à Grã-Bretanha lhe faziam essa pergunta. «Esperava algo mais original do príncipe de Gales.» Eduardo não esqueceu nem a conversa nem a americana informal, quase descarada. Cinco ou seis anos depois, Eduardo VIII abdicou do trono para se casar com ela.
Foi o único soberano britânico a abdicar voluntariamente do trono, ainda por cima por causa de uma mulher que não podia ter mais defeitos para a sociedade britânica dos anos 30: Wallis nascera mais de um ano antes do casamento dos pais, não era baptizada, casara-se e divorciara-se duas vezes e os dois ex-maridos estavam vivos. Foi um dos maiores escândalos da família real britânica neste século. Até aparecerem Carlos e Diana, numa história ao contrário, de desamor.
O namoro durou anos. No Verão de 1934 já era público, na alta sociedade, que Wallis era a amante do príncipe. Foi nesse Verão, como Wallis disse depois, que os dois passaram «a fronteira indefinível entre a amizade e o amor». A americana, ainda casada, passou a acompanhar o príncipe em quase todos os compromissos oficiais e até foi convidada para o casamento do duque de Kent. A inquietação na corte começou a crescer. Os reis Jorge e Maria chegaram a riscar o nome da americana da lista de convidados que o príncipe lhes entregara para um baile no Palácio de Buckingham. Eduardo ficou furioso, levou Wallis ao baile e apresentou-a aos pais.
Antes de morrer, a 20 de Janeiro de 1936, o seu pai, rei Jorge V, disse ao arcebispo de Canterbury: «Depois de eu me ir, o rapaz vai arruinar-se em 12 meses.» Se arruinar-se era deixar de ser rei, Jorge V acertou quase em cheio. Falhou só em dois meses.
Eduardo tinha 42 anos e até aí fizera e dissera mais ou menos o que lhe apetecera. Vivia desde 1930 no Fort Belvedere, uma mansão perto de Sunningdale que era o seu refúgio, frequentado por amigos e namoradas que, em muitos casos, não tinham qualquer ligação à aristocracia tradicional, e alimentava uma admiração por Adolf Hitler que, depois da II Guerra, lhe foi apontada acusadoramente.
Em Junho de 1935, numa marcha da Legião Britânica, o príncipe disse que os britânicos deviam «estender a sua mão à amizade dos alemães»; mais tarde disse ao embaixador alemão que o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico «não compreendia completamente as posições e atitudes da Alemanha»; mandou, a 20 de Abril de 1936, uma carta a Hitler a desejar-lhe um bom aniversário e um «futuro feliz» e, em 37, já depois de abdicar, conheceu o «Führer» pessoalmente, numa visita à Alemanha. Uma amizade que não o impediu de, mal a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha nazi, regressar a casa e se «oferecer para defender o país».
De qualquer modo, antes de ser rei, o príncipe adorava festas, jardinagem (era considerado um especialista em rosas) e estava numa «constante, quase adolescente, rebelião contra a pesada atmosfera da corte de seu pai», disse-se depois. Reagiu, portanto, muito mal à morte do pai, «mais do que a rainha ou os três irmãos», e adiou durante dez meses a mudança para o Palácio de Buckingham. Tudo isto se soube muitos anos depois, porque na altura a vida privada dos reis era isso mesmo, privada.
O rei não ficou muito tempo em Buckingham. A 24 de Maio de 1936 decidiu tornar público que queria casar com Wallis Simpson. Nada melhor do que um jantar. Organizou a festa e convidou o primeiro-ministro, Stanley Baldwin, e Ernest Simpson, com quem Wallis ainda era casada. Tudo se precipitava, embora, quando a 12 de Maio de 1937 a edição do «Daily Mirror» de Nova Iorque publicou a manchete «Rei vai casar com Wally», a maioria dos ingleses ainda não imaginasse o que se passava.
O Governo estabelecera um «acordo de cavalheiros» com a imprensa, que se manteve em silêncio, e decidiu não interferir. Mas no fim do ano, o rei informou o primeiro-ministro de que estava interessado num casamento morganático (segundo o qual a mulher do rei não se tornaria rainha e os seus filhos não seriam herdeiros). A 2 de Dezembro de 1936, Baldwin respondeu que isso «implicaria fazer passar uma nova lei no Parlamento e o Parlamento nunca a faria passar». No dia seguinte, a palavra «abdicação» apareceu pela primeira vez nos jornais britânicos.
Winston Churchill, que na altura não estava no poder mas foi, entre as figuras notáveis de Inglaterra, o único aliado de Eduardo VIII, defendendo que ele deveria continuar rei com ou sem Wallis, já dissera: «O amor do rei pela senhora Simpson é um dos maiores amores da história. Não confundam: ele não consegue viver sem ela.»
No dia 10 o rei anunciou a abdicação e a 11 o texto foi aprovado na Câmara dos Comuns. «Eu, Eduardo VIII da Grã-Bretanha, Irlanda e dos Domínios Britânicos além-mar, rei, imperador da Índia, declaro a minha irrevogável determinação em renunciar ao trono para mim e para os meus descendentes.» Nesse dia, falou à radio, num discurso emocionado. «Finalmente, posso dizer algumas palavras minhas», começou. «Quero que compreendam que ao tomar esta decisão não me esqueci do país ou do império que, como príncipe de Gales e rei, servi durante 25 anos. Mas têm que acreditar quando vos digo que percebi que é impossível assumir o peso das responsabilidades e desempenhar as funções de rei como gostaria sem a ajuda e o apoio da mulher que amo.»
Nessa mesma noite, Eduardo, de novo príncipe e a partir de agora duque de Windsor, partiu para o continente, onde esperou, na Áustria, que Wallis pudesse voltar a casar. Wallis obtivera o divórcio de Ernest Simpson em Outubro de 1936 com base na acusação de que ele cometera adultério. Poderia voltar a casar no Verão de 37. A 3 de Junho, um reverendo desconhecido e rebelde (Jardine, de Darlington) casou, contra a opinião da Igreja, Eduardo e Wallis, no Château de Candé, em França.
Horas antes, o casal recebeu uma novidade: à nova duquesa de Windsor não seria concedido o estatuto de «sua alteza real». As 16 pessoas que assistiram ao casamento ficaram chocadas. Durante anos falou-se do «mais flagrante acto de discriminação de toda a história» da dinastia de Windsor (desde 1917). Discriminação só parcialmente resolvido 31 anos depois, em 1967, quando os duques foram pela primeira vez convidados para uma cerimónia pública da família, de homenagem à rainha Maria, mãe de Eduardo. Durante a cerimónia, Wallis Simpson recusou fazer a tradicional cortesia à rainha-mãe, dizendo que «ela impediu as pessoas de me fazerem a cortesia». Eduardo, duque de Windsor, morreu cinco anos depois, em Paris, com um cancro na garganta. Tinha 77 anos. Wallis regressou à Inglaterra para enterrar o marido.
Bárbara Reis
</TEXT>
</DOC>