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<DOCNO>PUBLICO-19941117-136</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19941117-136</DOCID>
<DATE>19941117</DATE>
<CATEGORY>Sociedade</CATEGORY>
<AUTHOR>BS</AUTHOR>
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Ensaio internacional da aplicação trans-dérmica da nicotina
Método para deixar de fumar com resultados animadores
Hoje é Dia Internacional do Não-Fumador. Mais uma vez, muitos do que fumam vão voltar a pensar que um dia destes vão ter de parar. Bem sucedida nessa árdua tarefa parece poder ser a aplicação alternativa da nicotina, através de um adesivo colocado sobre a pele. Porto e Lisboa participam num estudo internacional para confirmar a eficácia do método e os resultados são, até ver, animadores.
Desde Maio que 200 fumadores portugueses estão a participar, no Porto e em Lisboa, num ensaio internacional que tem por objectivo avaliar a eficácia da utilização da nicotina --aplicada num adesivo colocado sobre a pele -- no abandono do hábito tabágico. Até ver, não se têm portado mal. Ao fim dos primeiros seis meses, quase metade dos inscritos continua a resistir ao cigarro, percentagem que deixa satisfeitos os pneumologistas coordenadores deste estudo, que termina em Junho de 1996.
As conclusões definitivas só nessa altura poderão ser retiradas, depois de se analisarem, em conjunto, os resultados obtidos nos 29 centros médicos dos vários países europeus envolvidos na iniciativa, designada por CEASE (Collaborative European Anti-Smoking Evaluation). Em Portugal, o trabalho está a ser acompanhado pelo Serviço de Pneumologia da Faculdade de Medicina do Porto e pelo Serviço de Readaptação Funcional Respiratória do Hospital Pulido Valente, em Lisboa.
Em ambas as cidades, o número de fumadores dispostos a participar no ensaio do método da aplicação da nicotina trans-dérmica, para minorar a ansiedade de quem deixa de fumar, excedeu largamente o limite acordado, que era de 100 indivíduos em cada um dos serviços. A característica que tinham em comum era o facto de fumarem muito e estarem dispostos a tentar parar. Ao contrário do que aconteceu em Lisboa, onde a divisão foi mais equilibrada, no Porto o número de homens (78) foi claramente superior ao das mulheres (22)
Diariamente, os participantes aplicavam o adesivo quando se levantavam e retiravam-no quando se deitavam. Muitos fizeram-no durante seis meses, como estava previsto; outros desistiram e deixaram de dar notícias. Alguns dos adesivos continham uma dose de nicotina maior, outros tinham uma mais insignificante e outros pura e simplesmente não tinham nicotina nenhuma. Como se trata de um estudo «duplamente cego», tanto os médicos como as pessoas em tratamento desconhecem, até ao final do trabalho, onde estava o princípio activo e onde é que não havia nada além do adesivo.
Em Lisboa, onde o trabalho está a ser coordenado pela pneumologista Camila Canteiro, metade dos inscritos continua a ser controlada. Segundo a médica, foi durante a época das férias que se detectaram as maiores dificuldades e que as recaídas foram mais frequentes. Além disso, não foram poucas as vezes em que foram pedidos conselhos e ajuda, em momentos de grande tentação.
No Porto, todos os participantes ficaram com os números de telefone directos da faculdade e do «bip» do médico, para terem quem contactar quando a vontade de pegar num cigarro fosse terrível. Nessas alturas, recorda José Alves, «acalmávamo-los e dizíamos-lhes para não fumarem». Além do contacto entre o médico e a pessoa em tratamento, o pneumologista salienta como foi importante os participantes saberem que faziam parte de um grupo, em relação ao qual se sentiam obrigados a esforçarem-se para serem bem sucedidos. José Alves não se cansa, aliás, de frisar como a vontade do fumador em deixar de fumar é mais determinante que a administração da nicotina por vias não inalatórias.
Com a passagem dos primeiros seis meses, chegou ao fim o período de aplicação alternativa da nicotina. Até ver, 40 dos 100 envolvidos no estudo no Porto continuam sem fumar e entrarão numa nova fase do ensaio, ao longo da qual serão inquiridos acerca, por exemplo, dos sintomas que acompanharam a cessação do vício.
Dez não conseguiram resistir -- não foram além de uma diminuição dos hábitos tabágicos, ou tiveram recaídas depois de terem parado de fumar --, mas continuam a colaborar e a aparecer no serviço de Pneumologia da Faculdade de Medicina, onde José Alves, professor da Faculdade, coordena o estudo. Os 50 que ficaram pelo caminho vão ser contactados quando se completar um ano sobre o início do trabalho e serão inquiridos sobre as razões da sua desistência.
Segundo números da Organização Mundial de Saúde, morrem, por ano, entre dois milhões e meio a três milhões de pessoas com patologia ligada ao tabagismo. E as projecções indicam que, no ano 2000, 30 por cento das mortes ocorridas entre os 35 e os 69 anos terão causas relacionadas com o tabaco.
Bárbara Simões
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