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<DOCNO>PUBLICO-19941125-075</DOCNO>
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<DATE>19941125</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
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A inaugurar no sábado pelo primeiro-ministro
Velho mosteiro de Beja transformado em pousada
A nova Pousada do Convento de São Francisco, em Beja, é inaugurada amanhã pelo primeiro-ministro, Cavaco Silva. Os trabalhos de recuperação envolveram um investimento de 1,5 milhões de contos da Enatur-Empresa Nacional de Turismo, que transformaram o antigo Convento medieval numa pousada com 35 quartos, áreas destinadas a eventos sociais e culturais, jardim com piscina e esplanada e dois «courts» de ténis.
Na véspera da inauguração oficial (a entrada em funcionamento está prevista para o início do ano), intensificaram-se os trabalhos de acabamentos, decoração e ajardinamento, para se apresentar a Cavaco Silva a melhor unidade hoteleira da Enatur.
Emerge assim renovado o primeiro Convento construído no Sul de Portugal, em 1268, o mais rico exemplar da Ordem Franciscana no país. As obras iniciaram-se em Julho de 1992 com os trabalhos de consolidação da estrutura mais arruinada, devido às várias mutilações que o edifício sofreu após ter sido secularizado em 1852. Adaptado a quartel, ali se instalou durante 150 anos o Regimento de Infantaria II.
Durante a presença dos militares, o velho mosteiro foi paulatinamente devassado e subvertido nos seus elementos patrimoniais mais significativos. Uma outra lógica, menos contemplativa e mais prática, transformou a Capela dos Túmulos -- mandada erguer por D. Dinis em cumprimento de um promessa -- em palheiro, destruiu a Capela dos Ossos, idêntica à de Évora, pintou frescos, arrancou azulejos... Todo o templo sofreu graves destruições, que lhe retiraram a monumentalidade e beleza, acentuadas com o seu abandono pelo Exército em meados dos anos 50.
Uma recuperação exemplar
Foram poucas as demolições feitas durante as obras de restauro, tendo a de maior vulto sido a de uma placa em betão armado colocada pelos militares para dividirem em dois pisos o interior da Igreja do Convento, considerada a maior de Beja. Há apenas uma nova construção, a zona destinada aos serviços de apoio à Pousada, erguida de raiz para não subtrair espaço à estrutura conventual.
Durante os trabalhos, os imprevistos e as surpresas ditaram o andamento das obras, como foi o caso da descoberta de vestígios da primitiva estrutura gótica do mosteiro, escondidos entre as grossas paredes de cal, pedra e tijolo maciço construídas nos séculos XVI e XVII juntamente com a galeria quadrangular que ladeia o claustro. O restauro foi enquadrando a estrutura gótica na leitura arquitectónica contemporânea, deixando visíveis, sem dissonâncias, pormenores que harmonizam as novas propostas com o passado do edifício. Interessava sobretudo sublinhar os diferentes períodos da história do mosteiro, consideram os projectistas.
A riqueza dos testemunhos manifestou-se durante trabalhos no subsolo, que conduziram à descoberta da necrópole romana de Beja. Espera-se que o espólio recuperado nas escavações possa ficar patente em exposição permanente na pousada. O arquitecto Maia Rebelo, autor do projecto para a nova pousada, acentuou: «Era sem dúvida mais barato construir de raiz, mas esta» -- acrescentou -- «não é a filosofia da Enatur, interessada em preservar o nosso património, permitindo a sua fruição pela comunidade».
Depois dos franciscanos, os turistas
A traça medieval do Convento de São Francisco comunica ao conjunto o rigor monástico, arquitectura de linhas puras, equilibradas, despidas de quaisquer adornos ou elementos decorativos.
A nova pousada aproveita toda a estrutura utilizada pelos franciscanos. Os quartos ocupam as antigas celas do Convento -- apenas as casas de banho e uma decoração mais exigente e confortável fazem a diferença. A sala de refeições utiliza o refeitório dos frades, um espaço amplo sob uma magnifica abóbada manuelina. A sala de estar, com bar e música ambiente, situa-se na Sala do Capítulo, ao lado da Capela dos Túmulos, belíssimo templo gótico que se mantém como espaço de recolhimento e de visita.
Para exposições, banquetes, reuniões e outros eventos sociais e culturais, a Enatur destinou a Igreja do Convento, pela sua dimensão e valor arquitectónico. Nos espaços envolventes está instalada uma «quinta» oitocentista com piscina, campos de ténis e abundante vegetação. O jardim, claustro e entrada principal são projectos do arquitecto Ribeiro Teles.
O secretário Estado do Turismo, Alexandre Relvas, considera que a obra constitui «uma valorização para Beja, porque vai permitir a recuperação de uma importante peça de património e dotou a cidade com uma unidade hoteleira de grande qualidade». Carlos Dias
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