<DOC>
<DOCNO>PUBLICO-19941207-063</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19941207-063</DOCID>
<DATE>19941207</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>JAF</AUTHOR>
<TEXT>
Conflito bósnio motivou divisões insanáveis
Nem nas palavras há acordo
A conferência da CSCE terminou ontem em Budapeste sob o signo da divisão. Devido à oposição de russos e bósnios, a cimeira foi incapaz de aprovar uma simples declaração sobre o cessar-fogo em Bihac. Dominada pela situação na Bósnia, ficaram uma vez mais expressas as profundas divergências da comunidade internacional sobre as soluções para terminar com a guerra balcânica.
Falhanço total sobre a Bósnia, o principal tema em discussão na Nona Cimeira da Conferência de Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), esta a principal conclusão a extrair do encontro que reuniu durante dois dias em Budapeste os 53 países com assento na organização, incluindo os Estados Unidos e a Rússia.
Apesar de ter sido aprovada por unanimidade uma vaga declaração geral (ver texto ao lado), a cimeira terminar de forma frustrante devido às insanáveis divergências sobre a guerra na Bósnia, com recriminações mútuas entre vários Estados sobre as eventuais responsabilidades pelo prolongamento do conflito e com a Rússia a impor o seu veto à resolução final.
O resultado foi que a cimeira, destinada a discutir a segurança na Europa, terminou sem que fosse adoptado um comunicado oficial sobre o pior conflito no continente europeu desde a II Guerra Mundial. «Somos forçados a concluir que a comunidade internacional capitulou face aos agressores e aceitou a partilha do meu país... O povo da Bósnia-Herzegovina foi traído», invectivou o embaixador bósnio na CSCE, Mahir Hadjiametovic.
Os representantes bósnios, entre os quais se incluía o Presidente Alija Izetbegovic, pretendiam a aprovação de uma declaração muito dura sobre a guerra e que condenasse os sérvios bósnios pelo seu ataque ao enclave de Bihac. Mas a Rússia, que já tinha manifestado em privado o seu desacordo sobre o conteúdo do texto, decidiu utilizar publicamente seu veto quando os responsáveis bósnios o apresentaram na sessão de encerramento.
Declarações de responsáveis europeus durante as conferências de imprensa finais contribuíram para confundir ainda mais a situação. O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Alain Juppé -- à semelhança do que tinha afirmado na véspera o chefe do governo britânico, John Major -- considerou que o tempo se estava a esgotar para impor uma paz negociada na Bósnia, e alvitrou a hipótese de uma retirada unilateral dos capacetes azuis da ONU estacionados na república. «A Forpronu está a atingir os seus limites...», avisou. «Caso não de verifique um progresso diplomático nas próximas semanas», prosseguiu Juppé, «e se o Congresso americano iniciar de novo as discussões sobre o levantamento do embargo [ao armamento] e ataques aéreos, vamos necessitar de estar preparados para uma possível retirada unilateral».
Tentando a confusão generalizada, o chanceler alemão Helmut Kohl optou por tentar impressionar os seus colegas com um discurso «emocional», incitando-os a pelo que menos concordassem com um apelo para o cessar-fogo em Bihac. «A apenas 300 km de distância daqui, milhares de pessoas estão a morrer de fome. Quando regressar a casa, não quero ter de responder às perguntas das pessoas, que vão questionar-me sobre o que foi decidido em relação a Bihac», afirmou.
Russos e bósnios vetam
Apesar das declarações de Kohl, a conferência foi incapaz de adoptar um simples apelo para o cessar-fogo em Bihac, que necessitava de ser aprovado por unanimidade, conforme está estipulado para todas as decisões da CSCE. Os russos opuseram-se a uma primeira declaração, que condenava os «agressores [sérvios]», enquanto o representante bósnio rejeitou um segundo projecto, que apenas se referia aos «beligerantes».
O chefe da diplomacia russa, Andrei Kozirev, acusou as restantes quatro potências que integram o Grupo de Contacto internacional para a questão balcânica (Estados Unidos, Alemanha, França e Grã-Bretanha) de serem insensíveis aos seus apelos sobre a continuação do levantamento das sanções impostas pela ONU à Sérvia e ao Montenegro. Após conversações com o seu homólogo britânico, Douglas Hurd, o ministro russo afirmou que o apoio de Belgrado ao processo de paz e a sua ruptura com os líderes sérvios da Bósnia deveria implicar «alguns cortes substanciais nas sanções».
A nova federação jugoslava (Sérvia e Montenegro) é o único país europeu que continua suspenso e impedido de participar nas sessões da CSCE. No entanto, os cinco países do Grupo de Contacto continuavam ontem a concentrar as suas esperanças no Presidente sérvio, Slobodan Milosevic, para que este convença os líderes sérvios bósnios a aceitarem o plano de paz internacional.
Em declarações à televisão russa «Ostankino», o Presidente Boris Ieltsin voltou a criticar o que qualificou de «domínio americano na cena política mundial», e acusou os EUA de terem tentado dirigir a cimeira da CSCE.
«O destino do mundo não pode ser decidido numa única capital», disse o chefe de Estado russo, antes de considerar que o Presidente Bill Clinton tinha a esperança de transformar a cimeira num «`show' americano». «Era o que ele [Clinton] pretendia, mas não o conseguiu nem saiu vitorioso», concluiu.
Islâmicos agitam-se
O impasse sobre a resolução da guerra na Bósnia e a ameaça de retirada dos capacetes azuis ocidentais está entretanto a provocar uma grande agitação no mundo islâmico.
Reunidos ontem em Genebra, os Estados-membros da Organização da Conferência Islâmica (OCI) exigiram a manutenção dos soldados ocidentais da Forpronu na Bósnia e prometeram enviar tropas para substituir as que decidirem retirar-se do terreno.
Após uma reunião sobre a situação na Bósnia e em Bihac com o Presidente bósnio Izetbegovic -- que se deslocou expressamente à cidade suíça para participar na reunião e solicitar mais ajuda e protagonismo aos «países irmãos» -- os sete ministros dos Estrangeiros da OCI responsáveis do «grupo de contacto islâmico» responsável pelo dossier bósnio (Arábia Saudita, Egipto, Irão, Malásia, Paquistão, Senegal e Turquia) reclamaram ainda uma reunião com os seus homólogos do Grupo de Contacto internacional.
Os dirigentes islâmicos opõe-se a qualquer inflexão do plano de paz que venha a permitir uma confederação entre os sérvios bósnios e a Sérvia, ao mesmo tempo que apelavam a ataques aéreos da NATO contra as tropas sérvias se prosseguir o cerco a Bihac.
A proposta mais radical surgiu do chefe da diplomacia iraniana, Alia Akbar Velayati, ao sugerir a formação de um corpo de voluntários islâmicos para ajudar o governo de Sarajevo a defender-se «quando for necessário».
Uma proposta que curiosamente coincidiu com declarações do primeiro-ministro israelita, Yitzhak Rabin ao diário de Jerusalém «Maaravi», sobre a entrega pelo Irão aos combatentes muçulmanos da Bósnia de armas israelitas vendidas pelo Estado hebreu a Teerão ainda durante o regime do Xá. Rabin não precisou a natureza e a quantidade de armas fabricadas no seu país que terão sido enviadas para a Bósnia.
</TEXT>
</DOC>