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<DOCNO>PUBLICO-19941221-004</DOCNO>
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<DATE>19941221</DATE>
<CATEGORY>Cultura</CATEGORY>
<AUTHOR>FD</AUTHOR>
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A morte de Fernanda de Castro
Ela via as pessoas por dentro
Fernando Dacosta
Da igreja onde, há 72 anos, se casou com António Ferro, saiu esta manhã para o cemitério do Alto de São João o corpo de Fernanda de Castro, ontem falecida em Lisboa . Inúmeras personalidades da vida política -- entre as quais o Presidente da República e membros do Governo -- literária, artística e cultural passaram pela sua câmara ardente. A morte ocorreu quando a escritora, de 94 anos, tentava recuperar de um acidente cardio-vascular ocorrido em Setembro.
Nascida em Campo de Ourique no princípio do século, Fernanda de Castro cedo se tornou, pela sua forte personalidade, talento literário, intervenção humanista, convívio arrebatado, uma das grandes mulheres do nosso tempo.
Redacções de jornais, salas de embaixadas, camarins de teatros, gabinetes de leitura, bastidores de política, campos de assistência, movimentos de solidariedade foram cenários em que se moveu, em que interferiu com à vontade, com fascínio crescentes.
Pirandello, Gabriela Mistral, Materlinck, François Mauriac, Fernando Pessoa, Almada, Leitão de Barros, Gomes Ferreira, Bernardo Marques, Natália Correia, Ary dos Santos, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade foram seus amigos pessoais.
Aquilino Ribeiro dizia que ela «não tinha igual no lirismo contemporâneo». E Teixeira de Pascoaes afirmava que os seus poemas continham «o que há de eterno na poesia».
Salazar e Pessoa temiam-na. O primeiro nunca lhe cedia o seu lugar no carro para, em caso de atentado, não ser atingida. O segundo maternalizou-a.
« A irmã dele afirmava que ele gostava muito de mim», revelou-nos recentemente. «Mas eu não sei, nunca me disse nada, era muito tímido. Falava comigo com um ar excessivamente cerimonioso apesar de ser mais velho do que eu. Nunca me fez, porém, qualquer confissão. Dizia que eu era muito castiça. Pessoa era um neurasténico, dava-se com poucas pessoas, poucos o conheciam. Nós percebemos no entanto que se tratava de um homem de invulgar talento.»
Bodas de diamante
Fernanda de Castro foi das primeiras mulheres a tirar, entre nós, carta de condução automóvel e a primeira a ganhar um prémio da Academia Nacional das Ciências.
Este era o ano das suas bodas de diamante como escritora. A comemoração não foi tornada pública. O livro com que se estreou, em 1919, é um pequeno e esgotado volume de poesia intitulado «Ante-manhã».
Poesia, romance, teatro, ensaio, memórias, narrativas para crianças e jovens, traduções, conferências, foram géneros que desenvolveu até poucas semanas antes de morrer. Deixa alguns inéditos, como a peça de teatro «Os Cães não Mordem» e o romance, completado este Verão, «Tudo é Princípio», um fresco muito curioso sobre a vida lisboeta dos anos 30 a sair em breve na «Ática».
«Cidade de Flores» (1924), «Jardim» (1928), «Exílio» (1952), «Asas no Espaço» (1955), «Ilha da Grande Solidão» (1962), «África Raiz» (1966). «Urgente» (1989), foram os seus principais livros de poesia -- e pelos quais recebeu em 1969 o Prémio Nacional de Poesia; ««Veneno do Sol» (1928 -- transmitido em episódios pela RTP há dois anos), «Maria da Luz» (1945, prémio Ricardo Malheiros), «Sorte» (1948), «Raiz Funda» (1956), «Fontebela» (1973), os seus mais destacados romances; «Náufragos» (1920), «Espada de Cristal» (1961), «A Pedra do Lago» (1943), as suas peças representadas.
Escreveu para crianças e jovens. Traduziu. Redigiu cartas abertas e memórias (dois volumes em 1986). Lançou iniciativas sociais (como os parques infantis a que se dedicou durante 40 anos), divulgou temas científicos, étnicos, gastronómicos, folclóricos. Preparava-se, disse-nos há semanas, para começar uma nova peça de teatro.
Fatias de pudim
Retida no leito há mais de uma década por deficiências circulatórias nos membros inferiores, e sofrendo de glaucoma em ambas as vistas, Fernanda de Castro nunca parou de escrever. Nem de conviver.
Rodeada de amigos (que fixavam os textos por ela ditados), de flores («se um dia entrarem cá em casa e não virem uma flor, tenham pena de mim»), de projectos («só vou morrer aos 120 anos, disseram-me os espíritos», exclamava) transformou a sala-quarto em que ancorara -- janela sobre o Bairro Alto, à esquerda, televisores ao centro, telefone à direita -- num centro de vida, de criatividade incomum.
«Sempre que posso organizo tertúlias, embora me custe passar da cama para a cadeira de rodas. Os bombeiros vêm cá ajudar-me mas há tempos um deixou-me cair e fiquei com um ombro desmanchado», contou-nos. «Tirando esses aspectos, estou de perfeita saúde, o coração, o estômago, a tensão, está tudo, tudo óptimo. Continuo a receber os amigos, vem muita gente. A Natália Correia também vinha e era animadíssima, punha um vestido que me ofereceu a Império Argentina e cantava ´A Maldita cocaína´. Cantava lindamente. O José Carlos Ary dos Santos, esse, veio todas as noites durante anos. Depois zangou-se comigo. Mas voltou».
Num teatro de câmara, ao fundo, com capacidade para 90 pessoas, foram estreadas obras de Pirandello, de D'Annunzio, de Cocteau. Nele revelou-se Maria do Céu Guerra.
Gerações, correntes, modas, escolas, ousadias, cruzaram-se ali. Ali se misturaram ciências, artes, religiões, ocultismos com músicas e gargalhadas, fatias de pudim e chávenas de tília. A casa, na Rua dos Caetanos («soviete dos Caetanos» como lhe chamavam), é um monumento da memória lisboeta. Entre outros, viveram nela Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Bernardo Marques, José Gomes Ferreira, António Ferro.
Forças negativas
«Sou uma espécie de dinossauro», repetia-nos . «Os amigos da juventude já morreram, isso é angustiante, o que vale é que consigo criar amigos novos, consigo renová-los. Dispor de uma família grande ajuda, tenho 28 sobrinhos, cinco netos e oito bisnetos. Todos têm, uns mais do que os outros, sensibilidade para as coisas da arte e da cultura. Felizmente nenhum está na política, nenhum gosta de política. Aliás o meu marido, o único que se envolveu nela, fê-lo por causa da arte, da literatura, do jornalismo, se não fosse isso nunca lhe passaria pela cabeça meter-se na política».
A política -- o seu comprometimento, como mulher de António Ferro, com o salazarismo -- reflectiu-se-lhe, no entanto, na vida e na obra.
Conheceu-o na redacção do «Diário de Lisboa», onde ambos colaboravam, e casou-se com ele por procuração («o Gago Coutinho foi uma das testemunhas») na igreja de Santa Isabel.
«O meu marido», pormenorizava-nos, «era um falso tímido. Era o mais imaginativo, o mais avançado de nós, o que mais se divertia entre nós. Foi escolhido para editar o `Orfeu' porque era menor e não podia ser preso pelos calotes da revista. Foram tantas as dívidas que só saíram dois números. A partir da Segunda Guerra quis deixar tudo e ir para um sítio calmo. Na Suíça as coisas correram bem. Em Roma vivíamos perto do Coliseu mas não nos sentíamos bem, havia muitas forças negativas no local, muitos espíritos adversos. Adoecemos. O médico disse ao meu marido que o seu coração não ia aguentar. Não aguentou. Morreu de um pós operatório à vesícula no Hospital de S. José, em Lisboa, aos 61 anos de idade. Tínhamos apenas o necessário para o enterro. Durante uns dois ou três anos vivi do dinheiro que nos dava uma lojeca de ferragens que o meu sogro possuía, cerca de 1.500 escudos por mês. Nessa altura não havia pensões nem reformas, não havia nada de nada. O meu marido trabalhou 17 anos para o Estado, cinco no corpo diplomático, e não tivemos qualquer compensação, embora Salazar me tenha mandado perguntar se precisava de alguma coisa».
Mãe de António Quadros, falecido há um ano, e de Fernando de Castro, Fernanda de Castro era avó da escritora Rita Ferro (que há dois dias lançou um novo livro) e de António Ferro, actual director do IADE.
Esperança na morte
A morte não era para si o fim. «Pelo contrário, é a maior esperança da vida», sublinhava-nos sorrindo. «É a esperança na vida eterna. Se existe a sua dúvida existe a sua esperança, não é?. Eu sou uma pessoa muito espiritualista, talvez pela influência indiana que existe na minha família. Um ramo da minha família, que é de origem espanhola, daí o apelido Quadros, veio para Portugal e outro foi para a Índia. Tive um bisavô budista. A parte esotérica tem muita importância para mim, acredito em forças superiores, aliás acontecem-me com frequência coisas incríveis, a nível de intuições, de percepções. Sinto-me como que acima do tempo. Pessoalmente nunca penso sequer nos anos que tenho. Ter 20 anos ou 90 é o mesmo. Se não fossem as misérias físicas sentia-me igual. É como se vivesse fora da realidade. Tenho a impressão de que vejo as pessoas por dentro!».
[De Fernanda de Castro estão disponíveis as seguintes obras: «Cartas Para Além do Tempo» (ed. Europress); «Espada de Cristal» (ed. Sociedade Portuguesa de Autores); «Maria da Lua» (ed. Verbo); «70 Anos de Poesia» (ed. Fundação António de Almeida); e «Urgente» (ed. Guimarães)].
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