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<DOCNO>PUBLICO-19941221-050</DOCNO>
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<DATE>19941221</DATE>
<CATEGORY>Mundo</CATEGORY>
<AUTHOR>JAF</AUTHOR>
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«Iniciativa pessoal» de Carter na Bósnia começa a dar resultados
Cessar-fogo prometido para sexta-feira
Pedro Caldeira Rodrigues
Três sinais positivos na Bósnia. Em Sarajevo e Pale, Jimmy Carter garantia um cessar-fogo dentro de dois dias entre sérvios e muçulmanos. Mais longe, em Paris, o chefe do governo bósnio admitia a hipótese de «ligações especiais» entre os sérvios bósnios e a Sérvia. Em Zagreb, anunciava-se para hoje a reabertura da auto-estrada que liga a capital croata a Belgrado, encerrada desde 1991.
O antigo Presidente norte-americano Jimmy Carter, na sua iniciativa de mediação na Bósnia-Herzegovina, anunciou ao princípio da tarde de ontem ter obtido do líder sérvio bósnio, Radovan Karadzic, um cessar-fogo para o conjunto da república a partir da próxima sexta-feira, dia 23 de Dezembro.
Carter, que se encontrou durante três horas no bastião de Pale com Karadzic e o comandante do seu exército, general Ratko Mladic, afirmou que o cessar-fogo será controlado por capacetes azuis da ONU e abrangerá o enclave de Bihac, no norte, sujeito a um intenso assalto sérvio. Na presença dos dois dirigentes, Carter afirmou aos jornalistas que «o mais importante progresso consistiu no acordo dos dirigentes sérvios bósnios para um cessar-fogo na Bósnia que entrará em vigor dia 23».
Antes de regressar a Pale, situado a apenas 16 km de Sarajevo, o antigo chefe da Casa Branca conversou durante duas horas na capital bósnia com o Presidente Alija Izetbegovic, e acabou por obter a garantia de um cessar-fogo que se deverá prolongar por quatro meses.
No entanto, os responsáveis bósnios continuam a duvidar da perícia de Carter em lidar com a complexa situação de num país em guerra há 32 meses. Ao ser questionado pelos jornalistas sobre se o novo mediador possuía um conhecimento profundo do conflito, o vice-presidente Ejup Ganic foi transparente: «Francamente, penso que não».
Na sua segunda deslocação a Pale desde que chegou à capital da Bósnia-Herzegovina -- na segunda-feira, estivera reunido durante nove horas com os líderes sérvios bósnios--, Carter conseguiu um novo avanço, ao ultrapassar a insistência sérvia em não assinar um cessar-fogo até à celebração de um «pacto» com a liderança muçulmana. Uma exigência que acabou por ser ultrapassada e permitiu a Carter, sempre acompanhado por sua mulher Rosalynn, partir em direcção a Belgrado para se reunir com o Presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic.
Muçulmanos aceitam «ligações» entre sérvios
A «descompressão» da situação no terreno também parece ter produzido os seus frutos além-fronteiras. O primeiro-ministro bósnio, Haris Silajdzic, admitiu ontem pela primeira vez a possibilidade de os sérvios bósnios estabelecerem «ligações especiais» com a Sérvia, após um encontro que manteve em Paris com o ministro francês dos Estrangeiros, Alain Juppé. «Estamos prontos a encarar uma autonomia significativa para os sérvios bósnios», admitiu Silajdzic, que também mencionou a possibilidade de «ligações especiais» com a Sérvia.
Esta perspectiva de «acordos institucionais» foi proposta no início de Dezembro pelo Grupo de Contacto internacional sobre a Bósnia (EUA, Rússia, Alemanha, França e Grã-Bretanha) e tem por principal objectivo conceder aos sérvios bósnios um tratamento análogo ao concedido à federação croato-muçulmana, autorizada a confederar-se com a Croácia.
Juppé considerou que o plano de paz do Grupo de Contacto permanece uma «referência» essencial e recordou que o princípio da existência da Bósnia-Herzegovina nas suas fronteiras reconhecidas internacionalmente «não é negociável». Recorde-se que o plano prevê a concessão de 51 por cento do território à federação croato-muçulmana, e 49 por cento para os sérvios bósnios.
A nova posição de Sarajevo assumida por Silajdzic tem uma importância fundamental, porque constitui uma hipótese sistematicamente recusada até ao presente pela liderança muçulmana. «É o máximo que uma Nação civilizada pode oferecer», considerou o chefe do governo bósnio, que se apressou a esclarecer: «Em relação à questão institucional, e logo que [os sérvios] aceitem o plano de paz, estamos preparados para discutir e encarar a possibilidade de uma autonomia significativa nos domínios cultural, religioso e em outros aspectos, bem como ligações especiais entre os sérvios bósnios e a Sérvia».
Ao pronunciar-se sobre a evolução negocial na Bósnia, o MNE russo manifestou ontem o seu apoio «de princípio» aos esforços destinados a encontrar uma solução pacífica, mas também considerou que o plano de paz internacional deverá permanecer a base de qualquer negociação. A liderança sérvia da Bósnia promoveu em Agosto passado um referendo onde foi rejeitada a divisão territorial proposta pelo Grupo de Contacto, mas os progressos negociais poderão alterar a sua intransigência, sobretudo após o sucesso da contra-ofensiva militar no enclave de Bihac.
Em dia de boas notícias, o enviado especial da ONU para a ex-Jugoslávia, anunciava na capital croata a abertura para hoje da vital auto-estrada entre Zagreb e Belgrado, encerrada desde o início da guerra entre a Sérvia e a Croácia em 1991. Todo o trajecto, sobretudo o troço de 40 km que percorre o território da Krajina na posse dos sérvios, será controlado por polícias da ONU e observadores da União Europeia. O restante percurso vai contar com patrulhas regulares da Forpronu.
A concluir um dia de intensos contactos sobre a situação nos Balcãs, os chefes militares da NATO dos países com capacetes azuis na Bósnia decidiram em Haia «aumentar os recursos» para as suas tropas, mas excluíram o reforço dos contingentes colocados na região.
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