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<DATE>19941222</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
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Ivan Lendl deixa a competição
O abandono do mal-amado
Esta semana, de repente, Ivan Lendl pôs fim a sua carreira de profissional de ténis. Alegando problemas nas costas, o norte-americano, nascido em Ostrava, na Checoslováquia, há 34 anos, decidiu tomar a decisão difícil de abandonar definitivamente a modalidade. «É uma má notícia para mim, que nunca previ abandonar nestas condições. O ténis, de que eu gosto muito, vai-me fazer falta», lamentou Lendl, afastado dos «courts» desde a segunda ronda do Open dos Estados Unidos.
Foram 17 anos de uma carreira repleta de títulos (94, número apenas superado por Jimmy Connors, com 104 vitórias) -- que lhe renderam mais de 20,5 milhões de dólares -- e onde os seus duelos com Bjorn Borg, John McEnroe, Connors ou Mats Wilander fizeram história.
O seu estilo dentro do «court» nunca granjeou muitos admiradores. A grande agressividade demonstrada em competição ou nas conferências de imprensa valeram-lhe a alcunha de «Ivan, o terrível». Para muitos, Lendl é recordado com um jogador que batia a bola como uma máquina e tinha o hábito de arrancar as pestanas entre os pontos.
O seu primeiro título aconteceu em 1977, ainda júnior, quando venceu o Orange Bowl, ao derrotar na final Yannick Noah. Atingiu o primeiro lugar do «ranking» mundial em Fevereiro de 1983, lugar que ocupou durante 270 semanas (157 consecutivas, entre 1985 e 1987), recorde no circuito masculino. Atingiu as finais de Roland Garros (1981, derrotado por Borg) e do Open dos Estados Unidos (1982, batido por Connors) mas os grandes títulos continuavam adiados. Mudou-se para os Estados Unidos em 1984, ano em que conseguiu o seu primeiro grande triunfo, em Roland Garros, numa final memorável frente a John McEnroe. Repetiu essa proeza em Paris mais duas vezes (1986 e 1987), na Austrália (1989 e 1990) e nos Estados Unidos (1985, 1986 e 1987), além de cinco títulos no Masters (1981, 1982, 1985, 1986 e 1987). Mas faltou-lhe o título que mais ambicionava: Wimbledon. Contratou um treinador famoso pelas suas vitórias na relva londrina, Tony Roche, e em 1990 chegou mesmo a desistir de participar em Roland Garros, para se deslocar à Austrália onde treinou arduamente durante dois meses. O melhor que conseguiu foi chegar à final em duas ocasiões: em 1986, batido pela revelação Boris Becker, e em 1987, frente a um super Pat Cash.
Foi o primeiro tenista a investir seriamente no treino físico, adoptando um regime alimentar específico para as exigências do ténis de alta competição. Ficou célebre o convite feito, em 1988, ao jovem Pete Sampras, então com 17 anos, para, durante uma semana, ir treinar com Lendl, que preparava o Masters. Este encontro com o número um mundial marcou Sampras, que sentiu na pele, pela primeira vez, o que é preciso sofrer para chegar ao topo.
Participou no Estoril Open, em 1983, ano em que conquistou o seu último torneio, em Tóquio, com 33 anos e sete meses (recorde de veterania). Mas essa vitória não o impediu de abandonar o «top» 10, onde figurou durante 10 anos.
Lendl planeia agora dedicar mais tempo à sua família (casado e quatro filhos, dois dos quais gémeos), à sua outra paixão que é o golfe e às suas ocupações profissionais: a sua firma de «management», Spectrum Sports, e a equipa de hóquei no gelo Whalers de Hartford, onde é membro do comité director. Mas assegura que continuará envolvido no ténis, embora sem saber como.
Pedro Keul
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