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<DOCNO>PUBLICO-19941223-017</DOCNO>
<DOCID>PUBLICO-19941223-017</DOCID>
<DATE>19941223</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
<AUTHOR>LF</AUTHOR>
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Jacinto João, um dos históricos do V. Setúbal
«Fazem falta jogadores daqueles»
É um caso sério de popularidade. Jacinto João ou simplesmente «JJ», angolano, toda a gente o conhece e lhe fala lá para as bandas do Bonfim. Com 50 anos, perdeu há muito a compleição física de um jogador. Passa o dia no clube e é com mágoa que vê a equipa no lugar em que está.
Jacinto João, seu nome completo escolhido pela mãe, já que o pai faltou ao seu baptizado, chegou a Setúbal no distante ano de 1964 e por lá ficou durante 15 anos, excepção feita à época 1974-75 quando jogou na Portuguesa dos Desportos, abandonando aos 37 anos. Antes, em Angola, passara pelo Benfica de Luanda e pelo Futebol Clube de Luanda (filial do FC Porto). Actualmente, está muito ligado ao futebol jovem, embora agora esteja incumbido de treinar os guarda-redes dos seniores.
Observador, «JJ» (assegura que foi o falecido jornalista Vítor Santos, de «A Bola», quem o passou a tratar assim) considera que o último lugar do Vitória de Setúbal se deve a um «grande erro»: «Não solucionou o problema dos dois avançados. Saíram o Yekini e o Chiquinho Conde, que não foram compensados.» E diz ainda que é «gravíssima a mudança de treinadores», que atribui «à mentalidade dos dirigentes, pois, se a equipa perde, sai o treinador». «No meu tempo, o técnico mantinha-se», defende. Como todos os contactados pelo PÚBLICO, acredita que o Vitória «pode superar esta fase»: «Jogamos bem, mas os jogadores estão sobre brasas. Deviam jogar de cabeça fria, mas se ouvem um grito da bancada procuram logo desfazer-se da bola e passar as responsabilidades para outro. Mas ponha aí que nós não descemos. Sou optimista nisso, a equipa é boa e habilidosa.»
Para ele, o futuro são os jovens e espera regressar depressa à formação. «Gosto disso e é o meu lugar. E agora o clube decidiu investir nas camadas jovens para ver se dentro de três ou quatro anos volta a ser o Vitória dos bons velhos tempos», observa. Com um brilho nos olhos, salienta que «isso é possível, desde que a espinha dorsal venha das escolas». «É a única forma de não passarmos por estas crises.»
Vida feita no futebol, é um saudosista do tempo em que jogava. «Fernando Vaz e o Pedroto fizeram aqui um excelente trabalho. E por aqui passaram homens como Zé Maria, Conceição, Cardoso, Herculano, Tomé, Octávio e outros. Era difícil não participarmos numa competição europeia. Dificilmente seremos esquecidos.» Diz que «fazem falta jogadores daqueles» à equipa.
Recordações? «Muitas. Olhe, lembro-me da grande final da Taça de Portugal em 67. Foi memorável, não haverá outra igual. Vencemos por 3-2 a Académica -- grande equipa -- já no segundo prolongamento, pois o jogo acabava quando alguém marcava. Era a `morte súbita'», recorda. E golos? «Era extremo esquerdo, marquei muitos mas fabricava mais para os outros. Nessa final apontei o golo da vitória. Fui pela esquerda, passei dois adversários, fui para o meio e rematei junto ao poste», descreve, lamentando-se por não o terem deixado dar «o salto».
Comparando o futebol, diz que o daquela altura era de «maior qualidade e os atletas eram mais habilidosos». «Depois houve uma transformação e hoje parece que se joga com medo. Nós jogávamos com prazer. Falta isso agora», diz sem complacência este antigo internacional português (13 vezes). «Nessa altura, os estágios da selecção eram tantos que não fui mais porque não quis. Estava saturado e pedia para vir embora», ri-se. Hoje, diz ter «muita fome de bola»: «É um bichinho, mas custa-me muito e por isso vejo poucos jogos do Vitória. Sofre-se um pouco.» Mas não desiste e diz que só sai do Vitória para regressar ao seu país quando houver paz. E vai sonhando com uma vitória para a equipa «arrancar».
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