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<DOCNO>PUBLICO-19941231-085</DOCNO>
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<DATE>19941231</DATE>
<CATEGORY>Local</CATEGORY>
<AUTHOR>APV</AUTHOR>
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A Boa União de Alfama
«A solidariedade sempre foi importante aqui dentro. A Beneficência e as Caixas de Resistência são disso exemplo. E olhe que eu sei, estive no início de ambas», diz Manuel Nogueira, 85 anos, nascido com a República, a viver em Alfama, ao lado da Boa União, desde os quatro anos de idade. «Sou sócio da colectividade há 63 anos, mas ainda me lembro bem de tudo. Eu não tive tempo para ser criança. Aos dez anos estava a aprender aquele que foi o meu ofício de toda a vida. Fui oficial sapateiro aos 16 e, mais tarde, contramestre, depois modelista, e finalmente patrão, com dez por cento da sapataria Ónix, na Rua Garrett. Isto passou-se entre 1938 e 1966. Depois, até 1981, estive na fábrica de malas, e hoje já não estou em lado nenhum: descanso, leio muito, passeio e viajo aquilo que posso. Eu e a minha velha já fomos a uma data de países».
Manuel Nogueira é, sem dúvida, uma personagem singular, tal a vitalidade que possui e a convicção que emprega no discurso. A sua memória é prodigiosa e as falhas, os colapsos, como ele costuma dizer, ainda são poucos. Casou pela primeira vez aos 19 anos e um ano depois, quando foi para a tropa, já era viúvo: a tuberculose tinha levado a sua primeira companheira. Depois de ter saído da tropa, aos 23 anos, tornou a casar e, volvidos sete meses, a sua segunda esposa morre de ataque cardíaco. Jurou que não mais casaria. Recentemente, foi obrigado a quebrar o juramento porque, como nos explicou, ia ser sujeito a uma operação complicada e «o senhorio já estava a fazer contas de cabeça e a preparar-se para me arrebatar a casa. Comigo vivo não o faria, mas morrendo eu, a minha companheira ficaria desprotegida. E então casámo-nos».
Com 20 anos, o Nogueira era dirigente do Sindicato dos Sapateiros, sindicato que, em estratégia combinada com os congéneres dos alfaiates, chapeleiros, camiseiros e luveiros, se recusaram a entregar os seus órgãos de defesa de classe à gestão corporativa que vinha sendo imposta desde 1933 pelo governo de Salazar. Os dirigentes operários rebeldes formaram então o Sindicato Unitário da Indústria do Vestuário. O presidente foi um activo sapateiro de Baleizão que dava pelo nome de Francisco Miguel, Chico para os amigos. Paralelamente, o Nogueira e mais quatro desenvolvem, a partir de 34, no seio da Boa União, a Frata Unigo de Alfama, um grupo de ensino do esperanto e outro para criação da biblioteca. «De nós cinco, só o Sérgio Pereira dos Santos, o Carapau, é que tinha a quarta classe. Mas todos sabíamos ler e escrever! Cada um de nós arranjou mais cinco rapazes e cada um pagava, além da quota da colectividade, mais vinte centavos por semana. Os livros custavam um escudo, mais tarde vinte cinco tostões, e houve sócios que ofereceram algumas obras. Chegámos a ser setenta, os amigos da biblioteca».
Um ano depois, Manuel Nogueira é preso e a biblioteca encerrada. Reabrirá após 15 dias, tendo um sócio da colectividade e morador do bairro, o engenheiro Azevedo Coutinho, intercedido nesse sentido junto das esferas do poder. Como condição para a reabertura exige-se o fim do ensino «dessa língua artificial e utópica». O esperanto é então substituído pela explicação das primeiras letras a adultos. A biblioteca cresce (actualmente tem cerca de quatro mil volumes) com o apoio dos sócios, da Gulbenkian e de um antigo embaixador do Brasil, Negrão de Lima, sócio da SBU, que ofereceu dois mil volumes. E assim se adquiriram todos os romances clássicos da literatura nacional, brasileira e de outros países, de várias gerações.
As Caixas de Resistência
O Núcleo de Beneficência funcionava também com fundos próprios. Formou-se em 1937, a quota era semanal, era de dois tostões e meio. Não chegava. Naquele tempo, vestir uma criança custava duzentos e oitenta escudos, havia que procurar outras receitas e fizeram-se então espectáculos e excursões. Houve vários grupos excursionistas na Boa União. Manuel Nogueira foi um dos fundadores do núcleo: «Não vestíamos as crianças à Governo Civil, com um bibe e umas alpargatas, eram bem vestidos, como se fossem nossos filhos. Ainda me comovo quando me lembro de os ver a olhar para os sapatitos de verniz e do cuidado que tinham ao calçá-los. Isso passava-se sempre por esta altura das festas, entre o Natal e o aniversário da colectividade. À noite dávamos-lhes jantar, às vezes as mães ficavam a olhar, assim, com um ar de quem também jantava, e nós dizíamos-lhes para se sentarem ao pé do seu filho». O núcleo vestiu 25 crianças em 37 e 50 em cada um dos anos que se seguiram até 1960. Pelas comemorações do centenário foram vestidos 100 miúdos, tantos como os anos da Boa União. Depois, a secção extingui-se.
Outro dos projectos em que o Nogueira se envolveu desde o seu início, em 1936, foram as Caixas de Resistência, que chegaram a ser três, funcionando autonomamente dentro do clube, e uma delas, os Vinte Resistentes, ainda existe. As Caixas de Resistência são uma espécie de mealheiro comum com uma relação muito próxima com o mutualismo do século passado. Por razões que se prendem com o Código Comercial, ainda hoje, o número de elementos que constituem esses grupos não pode exceder os vinte. É uma forma de garantir a segurança perante a adversidade e «uma maneira de podermos comprar um fatinho, que também é cultura», explica o primeiro sócio dos vinte.
A impressão com que se fica quando se fala com este homem, que foi director da colectividade em 34 e, depois, de 39 a 41, é a do seu protagonismo na riquíssima vida cultural da SBU entre as décadas de 30 e de 60. Ele desmente: «Houve aqui tipos muito mais dedicados que eu, o Chico Carapau (o mais velho dos irmãos de Sérgio Pereira dos Santos, do grupo fundador da biblioteca), que começava a trabalhar às oito, e às seis já estava a pé para deitar o lixo do clube na camioneta». Os Carapaus, uma família com longas raízes em Alfama, vizinhos da Boa União, sempre tiveram um representante na direcção do clube desde os anos vinte. O actual presidente da sociedade é o Manecas Carapau.
À fundação do Grupo de Teatro encontra-se ligado Augusto Tomás Viegas, um «chauffeur» particular, amante da arte de Talma, e que entre 1942 e 1955 ocupou vários cargos nos corpos gerentes da sociedade. Tomás Viegas havia sido o encenador do grupo de teatro Solidariedade Operária, ligado à CGT anarquista. Fundado em 1926, o grupo de teatro da Boa União teve a sua época áurea entre 39 e 48. Representaram peças retiradas do reportório do Teatro Nacional D. Maria, e de autores como Ramada Curto e Júlio Damas. Causou grande furor a representação da peça «Alfama», de António Botto, cujos ensaios decorreram durante três meses.
São várias as histórias que o Manuel Nogueira nos conta dos tempos do teatro. Outra: «A Beatriz Costa era danada! Uma vez, em 38 ou 39, o elenco do Teatro Avenida, onde estavam o Vasco Santana e ela, entre outros, veio apresentar uma revista aqui, ao palco da Boa União. Depois fez-se uma festa, com comes e bebes e, no final, houve baile. A Beatriz pegou no Vasco e rodopiou com ele na pista que nós tínhamos improvisado sobre os corredores da laranjinha. Os estrados começaram a dar de si e eles, divertidos, insistiam. A certa altura, o salto de um dos sapatos dela calcou um nó da madeira, afundando-o e deixando o salto preso no buraco. Eu ofereci-me para ajudar, ela descalçou o sapato. Consegui retirá-lo com algum esforço para não danificar o material, e verifiquei que era da oficina onde eu trabalhava. Por instinto, voltei-o ao contrário, e vi que na sola estava marcado o meu número (nas oficinas de sapateiros havia o hábito de cada operário assinalar com o seu número o sapato que fazia, eu era o dois), e disse à Beatriz Costa: olhe, fui eu que fiz este sapato. O que eu fui dizer! Criou-se logo ali a barafunda e ela obrigou-me a sentar na mesa dos artistas e a comer e beber com eles».
O princípio da União
Em 1870, Alfama, era habitada por uma população laboriosa com grande predominância das profissões ligadas ao mar, como os fragateiros e os alcostanos (de Alcochete). Havia também uma forte presença do meio rural oriundo do interior e de profissões operárias não qualificadas
Num quintal onde se jogava à laranjinha, ao chinquilho e à bola havia uma figueira de um lado e um poço do outro. Era aí que um comerciante do bairro guardava um barco em que ele e outros, aos domingos, iam pescar. Da parte da tarde juntavam-se-lhes mais alguns dos bem instalados do bairro e comiam o peixe apanhado no Tejo. Tornou-se um hábito e, no primeiro de Janeiro de 1870, nasceu a Sociedade Boa União, uma colectividade da elite de um bairro popular. O grupo fundador não ultrapassaria os 50 (havia um contínuo, não sócio, que lhes lavava os copos e os servia à mesa), e os estatutos excluíam por completo a possibilidade de admissão de mulheres. Somente em 1962 elas poderiam entrar para a sociedade com o estatuto de sócios-auxiliares.
No início dos anos 20, o filho de um encadernador é admitido como sócio. Estava aberto o precedente que permitia a entrada de jovens operários para a colectividade. Em 1933 o quintal foi coberto com telha-marselha e construiu-se um palco. Em 1939, um grupo de sócios empresta 30 contos aos corpos gerentes para a realização de obras na colectividade. Três anos depois, estava construído um salão para representações teatrais, fados e outras festividades. A obra custara, no seu conjunto, 70 contos. Mais tarde, entre 1952 e 54, realizaram-se então obras de fundo.
A laranjinha desaparece em definitivo, absorvido que foi o terreno do jogo pela nova traça do prédio, onde se acrescentaram dois andares, a sala de convívio e um sótão para arrecadação, onde hoje funcionam os serviços administrativos e a direcção. Na sala de convívio, ampla, ao meio, a vitrina dos troféus: noites de fado (o 1º Prémio do Concurso de Fadistas de Alfama, organizado pela RTP a 28 de Junho de 1959), e as taças relativas à Marcha de Alfama, que a Boa União organizou desde o primeiro dia, em 1934. A marcha de Alfama ganhou os prémios de honra das marchas de Lisboa em 1934, 35, 40, 47, 50, 52, 55, 58 e 63.
Na sala de convívio está também instalado um bar e várias mesas de jogo, com e sem pano, um «snoocker» e um bilhar. Ao fundo pode ver-se uma lápide na parede que evoca o nome de Diamantino Tojal, construtor civil e sócio da Boa União que, nesses anos, foi o responsável pelas obras. Este homem tinha uma quota do Hotel Ritz, que construíra, e foi no último andar do hotel que se suicidou, em 1958.
Em 1993, a Câmara aprova um plano de recuperação do edifício. Em Abril, têm início as obras que terminam em Janeiro deste ano. Calcula-se que tenham custado cerca de 30 mil contos e o projecto, bem pensado e executado com rigor, é do arquitecto Paulo Silva, do Gabinete de Recuperação de Alfama.
À actual direcção pertencem dois filhos do bairro, o Carlos Cruz, tesoureiro, 57 anos de idade, 34 de Braz & Braz, de onde, este ano, recebeu guia de marcha para o desemprego, e o Zé Louro, empregado bancário e vice-presidente da SBU. O Louro expõe-nos as suas preocupações: «O tecido social de Alfama está a mudar. Há dez, quinze anos atrás, os despachantes atiraram-se às casas devolutas. As rendas subiram em flecha. Há casos de escritórios com contratos de arrendamento para habitação. Depois há o plano de recuperação do bairro. Essa recuperação processa-se de uma forma muito lenta e as pessoas são deslocadas para Chelas, para as casas da Câmara na Quinta dos Ourives. Alguns teimam em voltar passados anos. Outros adquirem novos hábitos, estabelecem novas relações e já não voltam ao bairro onde nasceram. Por outro lado, muitos dos quatro mil estivadores que foram reformados regressaram às terras de origem. Muitos dos da minha geração (estou com 40 anos), saíram daqui aos 20 anos quando casaram. As casas eram pequenas e os agregados familiares grandes. A malta comprou andar na margem sul, no Cacém, em Linda-a-Velha, sei lá. Não somos muitos, os que permanecemos no bairro, eu fiquei e daqui já não saio». Em muitos casos, estes jovens casais de que fala o Louro travaram conhecimento nos bailes da colectividade. Há fotografias de casamentos celebrados nas instalações da Boa União. Mas os tempos dos bailes dos anos 20 e 30, e aqueles da década de 60, em que actuava um grupo da casa, célebre na Alfama de 1969, e que dava pelo nome de Five Stones, estão definitivamente ultrapassados.
O mesmo não se passa com o fado, hábito antigo no bairro e na colectividade. Trata-se de noites muitos especiais, que terminam normalmente à hora a que os pássaros despertam, e nas quais dezenas de fadistas, profissionais das casas de fado de Alfama e de outros bairros, cantam mano a mano com amadores locais. A assistência é composta por grupos familiares e por amigos e amantes da matéria. Todos os fados são belos, alguns são arrasadores e podem acabar em lágrimas.
No dia 1 de Janeiro, amanhã, a Boa União perfaz 125 anos de vida. Assistiu, a partir da casa onde nasceu, a mais de um século de vida do meio que a envolve, e com o qual se confunde. O convidado de honra para a sessão solene das 17h00 é, este ano, Baptista Bastos, jornalista, habitante do bairro há longos anos, que também viu muita coisa. Depois terá lugar um beberete que dará início aos tradicionais festejos, que se prolongarão por todo o mês. Na cerimónia solene serão entregues 17 emblemas de prata e cinco de ouro, respectivamente de 25 e 50 anos de sócio.
Amanhã, Alfama vai acordar alvoroçada com os tiros dos morteiros. Não é difícil imaginar sorrisos e lágrimas de velhos e novos do bairro. Por eles e pelos que hão-de vir, serão içadas bandeiras na sede da Boa União, a mais velha colectividade desse bairro milenar de Alfama, princípio de Lisboa.
Ficha de identificação
Nome: Sociedade Boa União
Data da fundação: 1 de Janeiro de 1870
Símbolo: Escudo envolvido em louros, duas mãos que se apertam
Cores: Vermelho e azul (no início o azul fazia-se substituir pelo branco e o dourado)
Morada: Beco das Cruzes, nº 9, e Beco da Formosa, nº 19 e 19 A, 1100 Lisboa
Telefone: 8865734
Nº de sócios: 636
Quota: 100 escudos/Jóia: não há
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