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<DOCNO>PUBLICO-19941231-147</DOCNO>
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<DATE>19941231</DATE>
<CATEGORY>Desporto</CATEGORY>
<AUTHOR>LF</AUTHOR>
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Um falhanço a longo prazo
De nada serve dizer que o «Mundial»-94 foi agradável. Foi, é verdade, mas deixou um sabor amargo e falhou os objectivos mais importantes. Sim, o Brasil levou o «tetra» que procurava há 24 anos, mas fê-lo com a equipa mais calculista de sempre. A prova começou com óptimos jogos, mas foi-se perdendo o espectáculo à medida que aumentava a responsabilidade. Viu-se que o melhor jogador do mundo era incapaz de deixar o «doping», e o «Mundial» serviu para «matar» Diego Maradona. Confirmaram-se as surpresas anunciadas, mas pela negativa. E, acima de tudo, o futebol tem nos EUA a mesma popularidade que tinha antes. Ou seja, nenhuma.
Durante muito tempo temeu-se que a escolha política da FIFA fosse uma derrota imediata. Mas o medo que a indiferença dos norte-americanos a um desporto ao qual não estavam habituados pudesse resultar no vazio das bancadas radicava no desconhecimento do que são os Estados Unidos. Primeiro: os norte-americanos são, em grande parte, imigrantes hispânicos, italianos, gregos ou irlandeses e, mesmo sem contar com os genuínos adeptos dos «rodeos» existentes no Midwest, as minorias étnicas eram mais que suficientes para encher todos os estádios. Segundo: o norte-americano gosta de tudo o que está associado ao sucesso e, desde que lhe garantam que está perante os melhores jogadores do mundo, faz tudo para os ver ao vivo.
Por isso, os estádios estiveram sempre cheios e a FIFA até admite que tão depressa não voltará a ter um «Mundial» com tanta gente nas bancadas. Pelo menos no que diz respeito ao campeonato de 1998, em França, esse decréscimo está já assumido. O sucesso comercial foi avassalador e a coragem da escolha foi recompensada com lucros impressionantes, mas o segundo princípio serviu também para matar à nascença o futebol nos Estados Unidos. Assim que os protagonistas deixaram de ser Stoichkov, Baggio, Brolin ou Romário e passaram a ser insípidos aprendizes, também o futebol deixou de ser atraente e se transformou em actividade marginal. A Major League Soccer, o campeonato profissional que se antevia para os EUA e cujo arranque estava marcado para 1995, já foi adiada por um ano. Pelo menos. Razão: falta de equipas e de patrocinadores.
Ainda que a longo prazo, foi este o maior falhanço do «Mundial». Mas até já era previsível para quem acompanhou a prova nos Estados Unidos e viu os jornais de maior circulação e as maiores redes de TV menosprezarem o acontecimento. Também em Junho se jogavam as finais da Stanley Cup (hóquei no gelo) e da NBA (basquetebol). Face a tão importantes eventos, quem é que ia ligar a uma variante de futebol que se jogava com os pés? Ninguém estatisticamente importante, claro, pelo que o «Mundial» ocupava redes secundárias de TV e páginas escondidas nos jornais. Quem queria ver os jogos tinha muitas vezes que esperar por diferidos emitidos já na madrugada. O que até se percebe quando os americanos aplaudiram a interrupção na transmissão de um dos jogos da final da NBA só porque, numa auto-estrada de Los Angeles, a polícia começara a perseguição a um Ford Bronco. O ocupante era OJ Simpson e o caso tinha os EUA em suspenso.
A tudo isso resistiu o futebol e o «Mundial» terminou com um vencedor já esperado: o Brasil. Desde que, em 1970, Pelé e companheiros levaram o tricampeonato que o Brasil procurava o «tetra». Falharam jogadores como Rivelino, Zico, Jairzinho, Leão, Sócrates, Falcão e Cerezzo, treinadores como Santana e Coutinho e equipas tão sedutoras como a de 1982, onde tiveram sucesso trabalhadores como Dunga e Mauro Silva e um técnico que, no dizer dos brasileiros «é burro».
Contra uma herança de «Mundiais» perdidos e a ouvir insultos do início ao fim da prova, Parreira levou a sua equipa à vitória. Durante todo o Campeonato do Mundo não arriscou um milímetro, manteve o mesmo sistema táctico do princípio ao fim e recusou atender os pedidos de jornalistas e adeptos para incluir o adolescente-prodígio Ronaldo na equipa. Mesmo assim, ganhou. Sem muito brilho, é verdade, na primeira final decidida no desempate por penaltis, mas com todo o mérito.
O Brasil, jogando com a segurança, o labor e o poder físico tipicamente europeus, baseando o seu jogo na posse e troca de bola e nalguns números mágicos dos seus atacantes, conseguiu intrometer-se num «Mundial» onde a Europa mandou e a África desiludiu. Sete entre oito quarto-finalistas foram europeus, com a Itália (segunda classificada) a deixar a ideia de ser uma equipa cansada e onde Baggio era a única fonte de inspiração, a Suécia (terceira) a constituir-se como agradável surpresa e a confirmar as qualidades do treinador Svensson e a Bulgária (quarta) a assumir-se como selecção mais anárquica da prova, capaz do melhor e do pior. Quem desiludiu foram os africanos, que viram interrompida a progressão que tinham começado há 12 anos. Os Camarões foram atraiçoados por lutas internas, a equipa de Marrocos não dava para mais e foi a Nigéria quem salvou o continente, ao cair nos oitavos-de-final aos pés da Itália, com muito azar à mistura.
É ainda um «Mundial» que fica para a história por ter efectuado o primeiro jogo em recinto coberto, um Suíça-EUA em Detroit. «O calor, a humidade e o cheiro são insuportáveis. Parecia que estávamos a jogar numa banca de cachorros quentes», queixou-se no fim Roy Hodgson, o responsável pela equipa suíça. E a prova americana fica para a história por causa do assassinato de Andrés Escobar, o defesa colombiano que pagou com a morte um autogolo contra os norte-americanos e a eliminação prematura de uma equipa que toda a gente apontava como revelação obrigatória. Acima de tudo, o Campeonato do Mundo dos EUA fica para a história por ter acabado com a carreira de Diego Armando Maradona. A imagem da celebração do golo contra a Grécia e a esperança no renascer do melhor jogador do mundo foram deitados abaixo por mais uma análise «antidoping» positiva. Maldita efedrina.
António Tadeia
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