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<DOCNO>PUBLICO-19950125-138</DOCNO>
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<DATE>19950125</DATE>
<CATEGORY>Nacional</CATEGORY>
<AUTHOR>RVZ</AUTHOR>
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Perfil sim, nomes para depois
Áurea Sampaio
As distritais já definiram o perfil do seu candidato. Querem uma figura experimentada na política e na governação. Que seja fiel ao programa do partido. Reuniram-se durante cinco horas e todos falaram. Mas ninguém avançou nomes. Uns dizem que está tudo feito à medida de Nogueira. Outros garantem que não. Durão Barroso espreita. E os liberais aparentam desnorte.
Fernando Nogueira ou Durão Barroso? São os dois nomes mais falados mas o primeiro encaixa bem mais à vontade no perfil de candidato à liderança desenhado ontem na reunião das distritais. Preto no branco, estas estruturas intermédias do PSD dispõem-se a apoiar alguém que à «experiência política e governativa alie uma fidelidade indiscutível ao programa» do partido. É a sucessão de Cavaco Silva já em marcha, apesar de haver quem recuse encarar a realidade, como o líder da distrital de Braga, que ainda ontem se afirmava convencido ser «ainda possível ir buscar o professor».
Ninguém o tomou a sério e trataram, isso sim, de enfrentar uma situação que, 48 horas antes, ninguém acreditava pudesse vir a materializar-se. E começaram pelo princípio, isto é, por avaliar o seu próprio estado de alma. Na sala, estavam 18 líderes distritais, mais representantes das regiões autónomas e da JSD, que foram mais ou menos respondendo à questão subjacente desde o início: saber se era possível encontrar um líder capaz de ganhar as eleições. A maioria esmagadora foi dizendo que sim, até porque «Guterres é desqualificado» e «é possível fazer-lhe frente».
Fernando Alberto Ribeiro da Silva, da distrital de Braga, queria logo nomes em cima da mesa, mas todos recusaram. A razão desta recusa vem explícita no comunicado lido mais tarde por Luís Filipe Menezes. «O novo líder do PSD deve resultar de uma atitude pessoal assumida de vontade de liderança e deve demonstrar clareza de objectivos, coragem política e o sentido do risco que são uma característica fundamental da história e cultura do PPD-PSD.»
Por isso, ninguém falou em nomes. Para uns (poucos), porque «é fundamental garantir que não haja um candidato imposto pelo aparelho»; para os nogueiristas -- o único grupo verdadeiramente organizado do partido --, porque não têm (ainda?) um candidato. O ministro da Defesa está renitente em aceitar entrar na corrida e ninguém garante, de ciência certa, que o possam vir a convencer.
Por isso, a reunião das distritais decorreu de forma especialmente cautelosa. Foi como que um apalpar de terreno para ver se já há alguém a encabeçar explicitamente o processo. De resto, sobressaiu a preocupação de evitar lideranças nesta fase, pelo que foi logo ali estabelecida uma regra. Não há porta-vozes fixos, em cada reunião é nomeado um. O gesto foi entendido como um cortar de asas a Ribeiro da Silva, que, à chegada, tinha prometido aos jornalistas «falar no fim». Menezes foi o primeiro a assumir o posto, sob proposta de Cardoso Ferreira, da distrital de Setúbal.
Mas os participantes na reunião chegaram a outros consensos, bem mais importantes. Decidiram manter um contacto permanente com os órgãos locais, por considerarem a circulação de informação uma condição essencial ao sucesso desta operação, enquanto concluíram dever ser prudentes quanto ao «timing» da escolha de um candidato. Isto é, ficou a convicção de que, sendo necessário encontrar rapidamente um líder, não é obrigatório que essa escolha se faça já amanhã. Ou seja, não pode ser feita sob a pressão de um clima emocional muito forte, mas também deve permitir a margem de tempo bastante para que o candidato se instale no terreno a tempo do congresso.
Consensos
O que mais preocupou os participantes na reunião foi fazer passar a ideia de que não querem impor ninguém, que o candidato tem de surgir por um acto de vontade própria. As distritais teriam, assim, um papel sobretudo «pedagógico» junto das bases, contribuindo apenas para fazer passar «discretamente» as candidaturas mais credíveis. Tanta candura foi ao ponto de prometerem «não colocar qualquer tipo de imposições, designadamente em termos de equipa» ao nome que vier a reunir o maior conjunto de apoios partidários.
Depois de terem concluído as questões internas, as distritais do PSD assentaram sobre o que deviam dizer para fora. E a mensagem foi dirigida directamente à opinião pública para, em jeito de denúncia, alertarem contra o que qualificaram de «tentativa de subverter o normal funcionamento das instituições» por parte das oposições. Os dirigentes sociais-democratas referiam-se ao pedido de dissolução da Assembleia da República, que surgiu praticamente de todos os quadrantes políticos depois de Cavaco Silva ter desvendado o tabu. Numa evidente tentativa de inibir o Presidente, o comunicado afirma que «uma mudança de líder não põe em causa a base maioritária que suporta parlamentarmente um Governo e um primeiro-ministro que tem o apoio incondicional do partido, nem põe em causa o normal funcionamento das instituições».
Expostos os argumentos de natureza jurídico-constitucional, seguem-se os de natureza política, reveladores do drama que o PSD está disposto a fazer caso a dissolução se concretize. Tal objectivo, dizem, «demonstra o apetite desenfreado de poder» e é «sinal do receio de que a retoma da economia e um tempo suficientemente alargado para a afirmação de uma nova liderança do PSD o conduza a um novo sucesso eleitoral». É lançar a ideia de que a oposição se agarra a subterfúgios para tentar ganhar terreno na batalha eleitoral.
Ausência de certezas
Como irá tudo isto acabar? A prudência não aconselha grandes certezas nesta matéria, mas, tanto quanto é possível afirmar, ninguém espera qualquer tipo de luta entre estas duas figuras. Se Nogueira avançar, o ministro dos Negócios Estrangeiros não lhe fará oposição. É até bem possível que Durão Barroso venha a conceder-lhe o seu apoio. Tempo é coisa que não lhe falta e é natural que prefira que outrem se disponha a arriscar nestes tempos conturbados... e sobretudo incertos. Senhor de legítimas ambições políticas, o titular das Necessidades sabe, por outro lado, que não lhe convém hostilizar o mais poderoso e organizado grupo do partido, onde pode, mais tarde, granjear os apoios junto de um aparelho cuja simpatia nunca fez questão de cultivar.
Por outro lado, a juntar ao facto de Barroso não ser militante de primeira hora do PSD -- factor de peso nestas alturas --, há que recordar o seu crescente afastamento dos liberais nos últimos anos. Ora isto conferiu-lhe um relativo isolamento interno que ele muito habilmente foi tentando compensar com uma aproximação, não aos nogueiristas enquanto grupo, mas a Fernando Nogueira enquanto «número dois» do poder. No futuro, a solidão de Barroso pode vir a revelar-se um trunfo precioso... mal talvez não seja este o momento.
Para o ministro dos Negócios Estrangeiros, os problemas só começam verdadeiramente se Nogueira resistir à vaga de fundo que aí vem. E, disso ninguém tenha dúvidas, o ministro da Defesa vai ser assediado com todos os argumentos.
Enquanto isso, os liberais vão lançando um nome para aqui, outro para ali, sem norte ou rumo definido. Falam de Miguel Cadilhe, de Cardoso e Cunha... Há quem veja nisto o desejo de ganhar tempo e margem de manobra para o congresso. Não se vislumbra como.
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